CPI Telefonica- RELATÓRIO FINAL
RELATÓRIO FINAL DA COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO PARA
APURAR A REAL SITUAÇÃO EM QUE SE ENCONTRA A PRESTAÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO DE
TELEFONIA FIXA NO ESTADO DE SÃO PAULO, ORA PRATICADO, SOB CONCESSÃO, PELA EMPRESA
DENOMINADA TELEFÔNICA, ASSIM COMO O CUMPRIMENTO DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS
OBJETO DA REFERIDA CONCESSÃO.
APROVADO COMO RELATÓRIO FINAL, O VOTO EM SEPARADO DA
DEPUTADA EDNA MACEDO.
Em 31 de março de 1999, a Assembléia Legislativa de São
Paulo aprovou a constituição da "CPI DA TELEFÔNICA", como passou a
ser chamada, visando dar cumprimento aos objetivos determinados no requerimento
de autoria do nobre Deputado Campos Machado.
A Comissão Parlamentar de Inquérito foi constituída pelos deputados Edson Aparecido,
a quem coube a presidência dos trabalhos, Jilmar Tatto, a quem coube a
relatoria, Maria do Carmo Piunti, Antonio Salin Curiati, Edson Ferrarini, Eli
Correa Filho, Lobbe Neto, Luiz Gonzaga Vieira e por mim Edna Macedo, que
honrosamente assumi a vice-presidência dos trabalhos.
No decorrer de suas atividades, a CPI contou, ainda, com a presença dos
ilustres Deputados Vanderlei Macris, presidente desta Casa, Paulo Teixeira,
Arnaldo Jardim, Eloi Pieta, Cícero de Freitas, Claury Alves da Silva, Jamil Murad
e Pedro Tobias.
A CPI iniciou os trabalhos no dia 8 de abril de 1999 e seguiram-se várias
sessões, onde foram colhidos depoimentos de personalidades afins com as
atividades das telecomunicações. Ao processado foram juntados documentos
trazidos pelos depoentes e os requisitados através de requerimentos formulados
pelos nobres deputados membros desta CPI.
No dia 7 de Agosto de 1999 o nobre relator Jilmar Tatto, após compulsar os 47
volumes produzidos de documentos e depoimentos na CPI, apresentou substancioso
relatório final, dissecando, ao seu ver, as causas que deram azo a queda na
qualidade dos serviços prestados, sob concessão, pela Telefonica no Estado de
São Paulo.
O relatório, de vulto, aborda pormenorizadamente desde os critérios adotados no
modelo de privatização das "TELES", até o impacto causado pelas
demissões de funcionários, após a privatização. O bem lançado parecer, termina
fazendo recomendações para aprimoramento dos sistemas de controle da sociedade
nos serviços concessionados pelo Estado.
Cumpre destacar, desde logo, que não cabe nenhum reparo ao parecer do nobre
relator Jilmar Tatto quanto recomendações contidas no relatório, às paginas 147
e seguintes, e no projeto de lei que anexou, respeitantes a criar uma agência
fiscalizadora estadual; instituir um fundo estadual de desenvolvimento
tecnológico; fortalecer a ANATEL; criar um Conselho de Representantes; realizar
audiências públicas para pedir esclarecimentos sobre preços de tarifas e
serviços; solicitar que a ANATEL promova auditoria acerca dos serviços
prestados pela Telefonica; requerer que as Empresas concessionárias, no caso a
Telefonica, preste contas a cada seis meses, dos seus serviços, à Assembléia
Legislativa.
Todavia, se as recomendações do nobre relator Jilmar Tatto, não merecem nenhum
reparo, a não ser as já empreendidas quanto a prorrogação dos trabalhos da CPI,
não se pode dizer o mesmo quanto as premissas e fundamentos que se prestaram a
sustentar as conclusões do indigitado parecer.
O relatório escapa, por vezes, do "animus narrandi" para enveredar
caminhos de cunho político-ideológico, emitindo juízos de valores sobre pessoas
e condutas que se por um lado não expressam necessariamente a verdade, à luz
dos elementos colhidos na CPI, por outro em nada aproveitam as conclusões dos
trabalhos de modo edificante.
Desse modo, elaborei voto, para submeter aos Nobres Deputados desta Comissão,
aproveitando o exaustivo trabalho do nobre Deputado e relator Jilmar Tatto,
apenas dele extraindo os itens 2.1., 2.2., 2.2.1., 2.2.2., 2.2.3.,2.2.4.,
constante do título II; itens 3.1., 3.2. e de 3.5. a 3.5.5.3, constante do
título III; 4.1, 4.2, constante do título IV; 4.3.8 e 4.3.9., que julgo não
pertinentes ao objeto determinado dos trabalhos CPI. Mantive, contudo, a
introdução, que versa sobre a instituição da CPI e a queda na qualidade dos
serviços; a narrativa, com seus comentários, dos depoimentos na CPI; os itens
que versam sobre a Telesp estatal, o legislador, o CPqD, a Anatel, toda
discussão das metas e o cenário mundial. Conforme já salientado, mantenho, na
integra, as recomendações e o projeto de lei anexo ao parecer do Deputado,
relator da CPI, Jilmar Tatto. (Segue-se o relatório com 60 (sessenta) páginas e
Projeto de Lei).
INTRODUÇÃO
Em 31 de Março de 1999, a Assembléia Legislativa do Estado de S. Paulo, aprovou
constituição de CPI da TelefÔnica por requerimento do Deputado Campos Machado,
conforme Regulamento interno, tendo por objetivo apurar a real situação em que
se encontra a prestação do serviço Público de telefonia fixa no estado de São
Paulo ora praticado, sob concessão, pela empresa denominada Telefônica, assim
como o cumprimento das cláusulas contratuais objeto da referida concessão.
A CPI iniciou seus trabalhos no dia 08 de Abril de 1999. A partir desta data e
nas sessões seguintes decidiu convidar para aqui vir dar testemunho, 10
personalidades ligadas às atividades de telecomunicações, cujas intervenções
muito nos poderia ajudar a entender os problemas atualmente enfrentados pelos
serviços de telecomunicações no Estado de São Paulo. Além disso, requereu à
empresa Telesp Participações S.A., à Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) e a outras entidades, quando cabível, um grande conjunto de dados e
informações que nos permitiu constituir um acervo considerável de documentos,
agora à disposição desta Assembléia Legislativa.
Queda de qualidade nos serviços
Nem bem era passado um mês da transferência do controle da Telesp das mãos da
União para a empresa Telefônica, a partir de agosto de 1998, e a população do
Estado e da Cidade de São Paulo começou a sentir os efeitos de uma acentuada
degradação na qualidade dos serviços.
Em 06 de janeiro de 1998, o jornal Estado de S. Paulo noticiou:
"Telfonica entrega 12 mil telefones mudos"
Também na Folha de S. Paulo, de 08 de janeiro, publicou-se:
"Telefonica usa gravação por prazo irregular"
Pressionada pelas reportagens, a Direção da Telesp Participações S.A., holding
que agora controla a Telesp e a CTBC, manifestou-se em 08 de janeiro:
"A telefonica afirma que a expansão da rede obrigou a muitas trocas de
números de telefones"
"Quando atingimos o patamar de 150 mil linhas, agora em janeiro, as
empreiteiras deixaram de encontrar mão-de-obra, o que acabou criando
dificuldades...As medidas mostram que, neste final de janeiro já estaremos nos
aproximando do controle dasituação"
Mas logo, também a Fundação Procom sentia-se pressionada a vir a público:
"uma ação de não cumprimento de um serviço é praticamente líquida e
certa...Quando assumiu a empresa, a Telefonica assumiu também todos os
compromissos e ônus" (Maria Inês Fornazaro - Procon (Gazeta Mercantil, 07
janeiro de 1999)
A população paulista vinha se defrontando com uma acentuada e inesperada queda
na qualidade dos seus serviços de telecomunicações, o que ficava evidente não
só pelo caos da telefonia, mas também pelos inúmeros protestos e reclamações
verificados nos meios de comunicação naquele período.
Depoimentos à CPI
Sendo objetivo da Comissão Parlamentar de Inquérito investigar as causas da
degradação do serviço telefônico em São Paulo, tão logo o controle da Telesp
foi transferido da União para uma empresa privada estrangeira, vejamos como
vários depoentes convidados buscaram esclarecer-nos sobre o problema.
Os órgãos de defesa do consumidor
Os depoimentos prestado pelas Sras. Maria InêsFornazzaro, diretora-executiva da
Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor do Estado de São Paulo - Procon/SP,
e Flávia Lefevre Guimarães, Coordenadora do Departamento Jurídico do Instituto
Brasileiro de Defesa do Consumidor - Idec, permitiram a esta CPI obter um
quadro muito claro do grau de insatisfação dos usuários com os serviços
prestados pela Telefônica, bem como dos tipos de problemas mais comuns. Ficou
evidente que, diante da falta de conhecimento da Anatel, foi ao Procon e ao
Idec que se dirigiram, num primeiro momento, milhares de paulistanos
prejudicados por defeitos ou cortes em suas linhas, atrasos de PEX, erros nas
contas etc.
Procon
Nos meses de janeiro a abril do corrente ano, foram recebidas pelo Procon 5.192
reclamações contra a Telefônica, sendo que durante todo o ano de 1998 as
reclamações totalizaram 4.221, das quais 1.399 apenas no mês de dezembro.
Diante da gravidade da situação, a Fundação Procon/SP logrou celebrar, em 30 de
março último, um Termo de Compromisso de Ajustamento com a Telefônica, com o
objetivo de eliminar os planos de expansão vencidos, definir prazos para o
atendimento às solicitações de reparos e mudanças de endereço, e garantir o
ressarcimento de contas erradas, emitidas em detrimento ao consumidor. No caso
de solicitações de reparo, o termo de compromisso assegurava que o atendimento
devia ser feito em até cinco dias. Observe-se que, quando estatal, a Telesp
fixava este prazo em três dias, lembrou a Sra. Maria Inês Fornazaro. Ou seja, o
novo controlador privado comprometeu-se com prazos mais extensos e menos
favoráveis aos seus usuários do que aqueles antes assumidos pelo operador
estatal. Entretanto, a Telefônica concordou, neste mesmo Termo de Compromisso,
em retornar aos prazos de três dias, a partir de 1º de junho próximo. No caso
de não cumprimento das condições estabelecidas, de acordo com o Código de
Defesa do Consumidor, a Telefônica arcará com multa diária de R$ 100 mil.
O Termo de Compromisso também determinou a formação de um grupo de trabalho que
reuniu-se três vezes até 23 de abril de 1999. Em sua última reunião, nesta
data, foi constatado que a Telefônica vinha cumprindo até então as condições do
Termo, nos prazos determinados. Na ocasião, a Fundação Procon alertou a empresa
para problemas relativos ao atendimento dos Postos de Trabalho da Telefônica.
A Diretora do Procon admitiu que o período pós-privatização coincidiu, de fato,
com a ocorrência de um grande número de PEXs vencendo. Entretanto, tal não
eximiria a operadora da obrigação de entregar as linhas. Não fazê-lo
"configurou uma falta grave diante do Código de Defesa do
Consumidor", assegurou a Sra. Fornazzano. Foi preciso a intervenção do
Procon para resolver um grande número de casos relativos aos PEXs. A empresa,
em audiências no Procon, passou a fixar prazos para a instalação das linhas,
fato que não ocorria quando o consumidor dirigia suas reclamações diretamente a
ela. Aliás, segundo avaliação da Diretora do Procon, é extremamente precário o
funcionamento das centrais de atendimento ao usuário da Telefônica. Os
consumidores também reclamaram, no Procon, que
"para ser atendido hoje, em uma loja da empresa, é preciso chegar às
quatro horas da manhã, é preciso passar horas na fila, e que portanto a fila do
Procon é muito mais eficiente e ágil do que a própria fila da empresa".
Outro problema referia-se aos inúmeros usuários que necessitavam das suas
linhas telefônicas para trabalhar, prestar serviços, ou seja, que dependiam do
telefone para obter alguma forma de receita. Para atenuar os reais prejuízos ou
lucros cessantes constatados nessas situações, as quais afetam em larga medida,
pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos e demais profissionais, os bônus
oferecidos pela Telefônica são claramente insuficientes e o Procon tem orientado
a empresa a tratá-los caso a caso, com cada usuário.
Outra reclamação comum, ouvida pelo Procon, refere-se à prática da empresa de
levar a linha telefônica apenas até um poste próximo à residência do usuário.
Daí para dentro de casa, a iniciativa e responsabilidade são inteiramente da
conta da pessoa interessada. Vários consumidores relataram casos de pagamento
de "propinas/gorjetas" para os funcionários das empresas
terceirizadas fazerem o resto do serviço; em geral, os mesmos que levaram a
linha até o poste. A Sra. Maria Inês Fornazzaro afirmou que o Procon
"trata dessa questão diretamente com a empresa Telefônica, porque a
empresa, pelo Código de Defesa do Consumidor, é responsável pelos seus
prepostos, deles deve dar conta e por eles deve ser responsável".
A Sra. Maria Inês Fornazzaro deixou claro que a Anatel agiu, no mínimo, de modo
muito lento e pouco cuidadoso diante de toda essa situação. Foi o Procon que
procurou a Anatel e, em momento algum foi procurado pela agência federal.
"Não houve respaldo expressivo da Anatel", disse a Diretora do
Procon. A Agência apenas informou que estava fazendo um auditoria na empresa
naquela ocasião, sem nenhum outro contato.
Por fim, segundo a Sra. Fornazzaro, não se pode
"dizer que a Telefônica tinha resolvido satisfatoriamente, até esta data,
todos os problemas, pois os mesmos ainda não haviam acabado. Reclamações ainda
estavam chegando ao Procon".
Idec
Assim como a Diretora do Procon, também a Coordenadora do Departamento Jurídico
do Idec, Flávia Lefevre Guimarães, reclamou da passividade da Anatel diante do
crescendo de problemas e da sua pouca disposição para trabalhar em conjunto com
as entidades ligadas à defesa do consumidor. Ela acrescentou que:
"A Anatel foi criada e ela não completou a sua atribuição. A concessão já
foi feita e ainda não existem os mecanismos de controle desses serviços".
Segundo Flávia Lefevre Guimarães, no Idec foram registradas cerca de 300
reclamações desde de janeiro de 1999, sendo que o órgão é limitado e não tem a
capacidade de intervenção do Procon. A maioria das reclamações foram relativas
a mudança de prefixo com o telefone ficando mudo. Muitos queixaram-se também da
falta de atenção da Telefônica quando era informada dos problemas e chamada a
resolver a situação.
Os sindicalistas
A CPI ouviu os dirigentes das duas centrais sindicais que representam os
trabalhadores do setor de telecomunicações, a maciça maioria deles já empregada
nas empresas, quando ainda eram estatais. A Federação Nacional dos
Trabalhadores em Telecomunicações, presidida pelo Sr. Almir Munhoz, coordena
exatamente o Sindicato dos trabalhadores da Telesp, e mais dois ou três em
outros estados brasileiros. Já a Federação Interestadual dos Trabalhadores em
Telecomunicações - Fittel, presidida pelo Sr. Luis Antonio Souza e Silva,
coordena 17 sindicatos, dentre os quais o sindicato dos trabalhadores da CRT
(empresa também controlada pela Telefônica), da Telepar, da Telebrasília, e os
sindicatos de todas as empresas sob o controle da Telemar.
Ambos os dirigentes sindicais, em seus depoimentos à CPI, convergiram para um
mesmo ponto: um dos principais motivos da brutal queda na qualidade dos
serviços pode ser atribuído a um também brutal corte de 17%, nosefetivos
empregados pela Telesp. Além da instabilidade interna que uma tal política de
pessoal gerou afetando, obviamente, as condições psicológicas e mentais de
trabalho de cada um dos que ficaram, aquele corte acarretou uma perda
importante da memória organizacional, pois se abateu sobre centenas e centenas
dos mais experientes e qualificados trabalhadores.
Fenatel
O Sr. Almir Munhoz explicou que, para o cumprimento, por parte da Telefônica,
das metas impostas pela Anatel, seria preciso investir maciçamente e contar com
pessoal qualificado. Mas, ao invés disso, a empresa preferiu dispensar 3 mil
trabalhadores durante os meses de novembro e dezembro, através de um suposto
Plano de Demissão Voluntária. Comentou o presidente da Fenatel:
"Está certo que, realmente, esse pessoal saiu por demissão voluntária, por
vontade própria. Mas são três mil funcionários a menos do quadro efetivo.
Acarretou o que? [...] aumentou a demanda e a cobrança do próprio usuário, com
toda razão, [pois] o seu serviço tem que ser atendido. [Isto] está fazendo com
que os funcionários tenham sobrecarga de trabalho".
O Sr. Almir Munhoz revelou um outro grave problema, de natureza operacional,
que começou a clarear, para esta CPI, uma das causas imediatas, mais diretas,
da queda generalizada na qualidade dos serviços prestados pela Telesp, depois
que foi desnacionalizada: a ocupação, no limite, da capacidade instalada de
centrais e cabos, como forma de atender às metas impostas pela Anatel,
poupando-se os espanhóis de investir em uma real expansão da rede. Antes, era
prática da Telesp, reservar de 10 a 20% da sua capacidade para atender a casos
emergenciais, a consertos linhas etc. Explicou o Sr. Munhoz:
"Se havia um poste que poderia atender 20 assinantes, 18 eram atendidos e
dois pares ficavam como reserva técnica. [...] Chegou-nos esta informação de
que a Telefônica, para instalar os telefones rapidamente, pois estava devendo
até planos de expansão anteriores, acabou usando esta reserva técnica [que
servia para] atendimento da remoção de defeitos: um telefone que poderia ser
atendido rapidamente hoje, já não [conta] lá com um par vago. [Por isso]
realmente tem uma demora maior".
Para o dirigente sindical esses problemas (especialmente os relativos à
dispensa de mão de obra experiente), podem ter sua origem última no próprio
modelo que presidiu o processo de privatização do antigo Sistema Telebrás,
definido através da Lei Geral de Telecomunicações. Isto porque
"a lei geral de telecomunicações não protege a empresa nacional...como não
protegeu o emprego, como não protegeu o quadro de pessoal".
Fittel
Para o Coordenador-Geral da Fittel, Sr. Luiz Antônio Souza e Silva, a origem
dos atuais problemas enfrentados pelos paulistanos em relação à Telesp pode ser
localizada na implementação do modelo de privatização, ou seja na execução da
Lei Geral de Telecomunicações e na atuação da Anatel.
"Temos que estabelecer, em primeiro lugar, que existe responsabilidade
muito grande, não só no processo de privatização, mas pós-processo de
privatização, porque foi uma matéria extremamente debatida no País inteiro,
pelo grau de polêmica, pelos valores envolvidos na privatização, na compra;
pelos valores envolvidos com relação a equipamentos, que são uma parte
importante. Se estabeleceu um novo projeto, que se consagrou com a Lei Geral de
Telecomunicações. Essa Lei Geral teve algumas questões importantes a serem
ressaltadas, que talvez entendamos melhor o que está acontecendo hoje".
O Coordenador da Fittel sublinhou que, neste novo ambiente regulatório, a
Anatel, enquanto agência reguladora e fiscalizadora, assume uma responsabilidade
muito grande que deve, porém, ser repartida com o restante da sociedade.
Autoridades estaduais e municipais, bem como órgãos legislativos, deveriam se
envolver mais nas atividades de fiscalizar as empresas, buscando conhecer,
influir e acompanhar os seus planos e decisões:
"A Anatel tem um trabalho muito grande [para fazer] e acho que seu
desdobramento vai ser este: um desdobramento estadual emunicipal para que se
possa fiscalizar. As empresas teriam que ser obrigadas a vir aqui e apresentar
seu plano anual de expansão, dizer o que vão fazer, suas metas de qualidade.
Isto não pode ser segredo, tem que ser apresentado. A Anatel pode ter esta
característica [de cobrar essas informações], mas precisamos atuar: o Poder
Legislativo tem que ter seu representante, porque [...] são assuntos
extremamente relevantes para a população e para todo mundo. Acho que a Anatel
pode ter esta característica, para que o setor sindical, os deputados,
vereadores, a sociedade civil organizada, de fato, possam atuar para que tenhamos
serviços de telecomunicações com maior qualidade".
Em seus comentários sobre o "pós-privatização", o Sr. Souza e Santos
expressou especial preocupação em relação ao futuro do parque industrial e
tecnológico nacional. Segundo ele, o desenvolvimento do Brasil neste setor
encontra-se ameaçado, na medida em que os novos controladores estrangeiros
prefiram privilegiar fornecedores de seus países, em detrimento de produtos ou
equipamentos desenvolvidos com tecnologia brasileira. Citou um caso concreto
que se passou no Rio Grande do Sul, onde a Telefônica controla a CRT. Lá, os
espanhóis quiseram substituir os telefones públicos a cartão indutivo (uma
tecnologia genuinamente brasileira) por aparelhos importados, tecnologicamente
mais atrasados, que ainda usam moeda:
"A Telefônica não tem essa tecnologia [de telefone a cartão indutivo], o
seu fornecedor não tem. A tecnologia que [ela] tem é a de telefone público de
moeda. Eles queriam trocar toda a planta de telefone público do Rio Grande do
Sul, porque o seu fornecedor estava impondo a troca para vender o telefone de
moeda. O Governo teve que intervir e fez com que mantivesse o telefone indutivo
que, por sinal, é uma tecnologia nacional desenvolvida aqui no País, e muito
mais barata, que agora inclusive está sendo exportada".
Lembrou o Sr. Souza e Silva que, com base na Lei Geral de Telecomunicações, o
governo deveria fazer aprovar duas novas leis: uma, criando o Fundo de
Universalização; e outra, instituindo um Fundo para o Desenvolvimento
Tecnológico. Nenhuma das duas leis foi, até hoje, aprovada no Congresso. Daí
que
"o CPqT [Centro de Pesquisa da Telebrás] acabou virando uma fundação
privada e não tem recursos para os próximos dois anos. A partir disso,
poderemos não ter mais desenvolvimento tecnológico no País, na área de
telecomunicações. Isso é grave do ponto de vista científico, técnico, e grave
também por conta da indústria nacional de telecomunicações, que pode [vir a]
ser simplesmente um entreposto da indústria de telecomunicações
internacional".
Por fim, mas não por último, o Sr. Souza e Silva relacionou a queda na
qualidade dos serviços de telecomunicações oferecidos em São Paulo, ao processo
de corte de mão-de-obra, vivido pela Telesp e outras empresas recém
privatizadas.
"Essas empresas, ao comprar, querem efetivamente ter lucro o mais rápido
possível. Esse processo de plano de demissão incentivada, que aconteceu de
Norte a Sul deste País, foi para economizar. E uma das causas, não toda, mas
uma das causas dos problemas de qualidade dos serviços de telecomunicações é a
falta de mão-de-obra [...] Quando você demite uma quantidade de trabalhadores
com grau de experiência e especialização, a qualidade do serviço tende a cair,
porque para um trabalhador ter capacidade plena em seu serviço, demora algum
tempo de treinamento e de prática nesse serviço".
Acompanhado às demissões estaria avançando um processo de terceirizar os
serviços e tonar precário as relações de emprego, cujas conseqüências seriam
ainda mais "nefastas" para a qualidade da rede. As empresas prestadoras
de serviços de manutenção, registram, na carteira de seus empregados, salários
muito baixos, mas pagam-lhes comissões extras a título de produção. Essa
produção é medida em unidade de instalação ou em retirada de defeitos. Daí
decorre o que o sindicalista denunciou como "indústria do defeito":
"Tiro um defeito e coloco dois, para que este trabalhador de alguma forma
possa ter a sua remuneração mais ou menos".
Professor Marcio Wohlers
O depoimento do Professor Marcio Wohlers, da Faculdade de Economia da
Universidade Estadual de Campinas - FEA-Unicamp, ofereceu a esta CPI uma das
mais abrangentes visões dos fatores que condicionaram o processo de
privatização e desnacionalização da Telesp, daí derivando muitas conseqüências
tanto econômicas quanto sociais que acabam por se refletir, positiva ou
negativamente, no dia a dia dos cidadãos e das empresas. O Prof. Wohlers nos
explicou a lógica - nem sempre muito clara e quase sempre obnubilada por
discursos ideológicos ou interessados - que preside o funcionamento dos vários
agentes e atores neste mundo das telecomunicações. O depoente muito contribuiu
para esclarecer à CPI sobre a real natureza dos problemas atualmente
enfrentados pela população paulistana em relação a Telefônica.
Dando-nos uma autêntica e necessária aula, o Prof. Wohlers explicou que
"Para analisar o problema do desempenho de uma concessionária, seja de
telecomunicações, seja de qualquer outro serviço público, é necessário que
tenhamos em mente que dentro de um sistema de concessões há quatro agentes
fundamentais envolvidos, e que existem relações hierárquicas entre eles [...] O
cidadão usuário elege um governo [...] esse governo, por sua vez, pode ele
mesmo oferecer o serviço público, fiscalizar o serviço público, operar e
regular. Ou então ele pode, o Governo, o sistema legislativo, criar uma agência
regulatória [...] um depende do outro, hierarquicamente. E, por sua vez, essa
agência regulatória, através de um contrato de concessão, fiscaliza a
concessionária de acordo com ele e todas as demais regras regulatórias. Temos,
então, uma cadeia que vai desde o cidadão, governo, órgão regulatório e empresa
concessionária".
E prossegue:
"Acontece que, em economia, nessa cadeia há duas questões fundamentais: de
um lado quem tem mais informações sobre o sistema é a empresa concessionária,
ela detém a informação máxima. Ela sabe os custos, ela toma as decisões
empresariais, e há uma perda de informação à medida que saímos da empresa
concessionária. O órgão regulatório não tem condições de saber tudo o que a
empresa faz; por sua vez o governo e o legislativo não têm condições de saber
tudo o que o órgão regulatório faz, e o cidadão também não tem condições de
saber tudo o que o governo trata".
E deixa absolutamente claro:
"A empresa sabe muito e o cidadão sabe pouco".
Por isto, analisar e explicar o que aconteceu à Telesp, depois de adquirida
pela Telefónica, acaba limitado ao que nos informa a imprensa ou ao que se pode
extrair das pessoas ligadas, de alguma forma, à área. "Qual a argumentação
da concessionária que aparece nos jornais?", perguntou-se o Prof. Wohlers.
Segundo ele, a explicação da Telefónica pode ser
interpretada pelo
"que os economistas chamam de 'trade-off', ou seja, uma escolha entre
qualidade e quantidade. Diz a empresa: saltamos para um novo patamar de ofertas
- verdade - que inevitavelmente conduziria a uma transitória queda da
qualidade..."
Assim,
"A saturação da rede antiga exigiria obras de vulto, cirurgias, corte de
rede muito fortes, que levariam a problemas, qualquer que fosse a operadora que
tivesse ganho a privatização, argumenta a própria Telefónica. Estes são os
argumentos da operadora".
Mas, para o Prof. Wohlers quem está "no ramo" pode perceber outros
aspectos:
"Para quem está no ramo, principalmente os engenheiros, seja os clientes
das empreiteiras, seja as empreiteiras prestadoras de serviços, o grau de
serviço em uma obra de telecomunicações ou em uma rede de telecomunicações ou
em serviços de telecomunicações dependem de duas coisas: recursos humanos e
recursos materiais".
Quanto a recursos humanos, devem
"ser analisados entre dois prismas: primeiro, o aspecto quantitativo dos
recursos humanos, ou seja: o número de pessoas alocadas às tarefas estão em
volume adequado? E o aspecto qualitativo: as pessoas alocadas possuem
capacitação adequada?"
Com base no noticiário da imprensa e "nas afirmações de técnicos
especializados", o Prof. Wohlers supõe que
"três fatores ocorreram: redução do quadro de funcionários, terceirização
indiscriminada e renegociação, com arrocho, com as empresas de engenharia,
levando a fortes problemas na gestão de recursos humanos".
Quanto a recursos materiais, de novo, é preciso analisá-los sob o prisma
quantitativo e qualitativo:
"As mesmas perguntas devem ser feitas: o volume de recursos materiais
disponibilizados está dimensionado corretamente para o serviço? Os recursos
materiais empregados têm a confiabilidade requerida e possibilitam um
gerenciamento eficaz das obras? Esses recursos materiais permitem ações
preventivas, feitas no lugar de ações corretivas onde apareceram
problemas?"
Citando palavras do Presidente da Anatel, Sr. Renato Guerreiro, em entrevista
ao jornal "O Estado de São Paulo", 2 de maio de 1999, página B-11,
que informa sobre uma diligência fita pela Anatel na Telefónica, o Prof.
Wohlers fez-nos três avaliações sobre esse quesito "qualidade dos
materiais".
"A primeira avaliação: a estratégia da Telefónica foi de alto risco, para
acelerar o trabalho.
"Segunda: revelou-se equivocada, sob o ponto de vista empresarial e de
engenharia, embora tenha antecipado receita, ou seja: ligações. Um patamar novo
de ligações que produzem mais receitas.
"Terceira avaliação do Dr. Renato Guerreiro: poderia ter sido feita uma
rede alternativa, embora seja uma hipótese mais cara".
Daí que o Professor Wohlers também não tem dúvidas:
"conversando com os técnicos, [percebe-se que] era possível minimizar
sensivelmente a queda dos serviços e, no mínimo, ter maior consideração com o
usuário, ou seja: o usuário deveria ser informado antes e não depois - um mês
ou dois - da perda de qualidade dos serviços".
É aqui que entra a responsabilidade do Governo, ou da Anatel - o segundo
elemento da cadeia de regulação de uma concessão pública. O Prof. Wohlers -
destacando a sua condição de quem participou, como membro-conselheiro, do
Conselho Consultivo da Anatel e, entre outras atividades, pôde analisar o Plano
Geral de Outorgas e o Plano de Universalização - chegou
"à conclusão de que a Lei Geral de Telecomunicações e a própria Anatel têm
um pecado original de uma centralização federal excessiva".
Sugeriu:
"Temos que analisar outras experiências de países continentais que têm
bastante experiência em agências reguladoras, como o sistema americano, que tem
uma constituição diferente. Não podemos, é lógico, imitar o que fazem os Estado
Unidos, mas é uma experiência onde existem órgãos públicos estaduais
reguladores que têm impacto local".
Além disso,
"no sistema americano de regulação está embutido, no órgão regulador, um
sistema judiciário. Ele dispõe de órgãos togados, e ele é última instância, não
há como recorrer ao Supremo, não há como recorrer a outros órgãos. O órgão
regulador tem poder de fato e de direito. A nossa Anatel parece com a FCC
americana, mas ela não é, porque é uma autarquia ministerial e tem os poderes
de uma autarquia ministerial. Ela tem regras de independência, mandato fixo,
mas ela é uma autarquia".
Daí que, o regime regulatório brasileiro ainda deve
"evoluir, seja no sentido de descentralizar, seja fazendo uma profunda
reformulação para que a Anatel possa ter mais poder judiciário. Enquanto isto
não for feito, tem que ser realizadas audiências públicas estaduais. A Anatel
já perdeu algumas oportunidades de [realizar] algumas audiências públicas - que
ela faz em Brasília para os setores interessados - mas [que] poderia vir e
chegar mais próximo à população. É insuficiente esse escritório regional que
ela tem em São Paulo; ela pode e deve descentralizar mesmo essas regras do
jogo, e fazer audiências públicas estaduais".
O outroelo da cadeia regulatória é o cidadão usuário:
"Hoje o cidadão está mais consciente, menos ingênuo quanto às falsas
promessas da privatização. Vemos que mais importante que a privatização é a
concorrência, vide a concorrência na telefonia celular. Pode ser que essa
concorrência chegue à telefonia fixa, mas enfim, o usuário tem que se
transformar num cidadão enquanto tal, e existem maneiras de se auxiliar esse
processo político do consumidor, seja através de conselhos de usuários [...],
seja por uma sociedade civil mais organizada, seja por um legislativo estadual
e municipal mais ativos".
Na parte final da sua intervenção e, depois, durante os debates com os Srs. e
Sras. Deputados, o Prof. Wohlers fez críticas ao modelo geral de privatização
adotado pelo Brasil, quando então se percebe que, dificilmente, poder-se-á
desvincular os problemas atualmente enfrentados pela população paulista em
relação à Telesp desnacionalizada, do processo todo que conduziu à privatização
e desnacionalização do próprio Sistema Brasileiro de Telecomunicações.
"A visão geral que tenho de todo este processo é que o Governo Brasileiro
não quis usar a privatização para criar uma multinacional brasileira, tal qual
a Petrobrás. A criação de uma multinacional [nas telecomunicações] foi opção da
Espanha, Portugal e Inglaterra que usaram a privatização para criarem as suas
multinacionais. Nós usamos a privatização para que as multinacionais deles aqui
viessem. Portanto, as regras têm que ser aqui cumpridas".
Prosseguiu:
"O Governo pretendeu fatiar o Sistema, dividir a ex-Telebrás em 12 [novas
companhias]. Isto é inédito no mundo. Na privatização mexicana assim não foi
feito. Venderam a Telmex integral: tem pontos fortes e tem pontos fracos. A
Argentina foi a única que dividiu em duas [companhias], porque o sistema estava
muito dividido. Os Estados Unidos dividiram por sete porque [o monopólio que lá
existia antes] era gigante, tinha mais de um milhão de funcionários. Na
Inglaterra, os liberais queriam que a British Telecom fosse dividida em
pequenas companhias, e qual foi o argumento da British Telecom e seus gerentes?
Hoje, uma companhia, para ser competitiva internacionalmente, comprar bem
tecnologia, desenvolver tecnologias - este é um serviço muito intensivo [em
tecnologia] - precisa ser do tamanho de uma 'Baby Bell' americana, que por sua
vez já estão se fundindo".
Para o Prof. Wohlers, o Brasil adotou esse modelo de privatização "inédito
no mundo", porque o maior objetivo era que
"as empresas tivessem lucro. [...] Por que outros países não fazem sistema
de leilão? Será que o sistema de leilão é muito bom mesmo? O leilão foi
apontado para trazer um benefício para o País, porque daí o País não iria
desvalorizar a moeda, daí os cofres públicos seriam beneficiados com a venda,
seja das licenças da banda B, seja das ações remanescentes em posse do Governo
Federal. Mas no sistema de leilão, por outro lado, uma empresa paga 5 bilhões
de dólares, uma empresa paga ágio grande, mesmo sabendo que o preço mínimo foi
sub-avaliado pelo Governo, [e isto] induz um comportamento a essa empresa de
curtoprazismo. As próprias regras do jogo induzem um comportamento de
curtoprazismo, de reativar e conseguir os seus lucros".
Depois de informar a esta CPI que as ações da Telefónica e da Portugal Telecom
caíram nas bolsas internacionais, nos dias seguintes aos da realização dos
leilões, prosseguiu o Prof. Wohlers:
"A recuperação da rentabilidade em 98, em que foram cinco meses de
privatizada e sete meses de estatal, [...] configuram que a rentabilidade está
muito boa, mas que [isso] só pode ser feito em detrimento do usuário. Se isto é
crime, não sou advogado para dizer se é crime ou não. Conheço o capítulo 15,
cláusula 15.1., e existe um processo muito grande de graduações, de sanções,
até, em última instância um comportamento que seja considerado crime e sujeito
a cassação. Mas isso tem que ser interpretado juridicamente, mesmo porque
demora muito tempo. É necessário que analisemos as cláusulas 15.1 e também a
cláusula 25.1 do contrato de concessão, e se verifique qual é a palavra mais
adequada: se é crime, se é má gestão. A Anatel classifica de má gestão e está
multando de acordo".
Haveria alternativas? O Prof. Wohlers pensa que sim.
"A Telefónica fez o que o Brasil deveria ter feito. Há 10, 15 anos, ela
era uma operadora de um monopólio público. O sistema seria aberto à
concorrência e ela aproveitou-se de seus laços culturais com a América
espanhola e se expandiu [para poder enfrentar] a concorrência européia, com a
França e a Alemanha, [e com] as americanas que estão chegando".
Se tivesse pensado como os espanhóis, os alemães e os franceses, seria
"o Brasil que deveria ter comprado a Portugal Telecom e feito uma aliança
estratégica com ela [a Telefónica]. Mas o Brasil abriu mão disso".
Ao se expandir pela América Latina, prosseguiu o Prof. Wohlers, a Telefónica
assumiu o controle de sistemas sucateados, que se encontravam em péssimo estado
de conservação e operação. Na Argentina, esperava-se 20 segundos, ou mais, para
obter o tom de discar, e de três a quatro horas para se completar uma ligação
interurbana. O grupo espanhol, portanto, não tem nenhuma experiência
internacional - nem tecnológica, nem empresarial - na administração de sistemas
de boa qualidade, de redes que já funcionam conforme padrões minimamente
aceitáveis:
"A Telefónica, por enquanto, ainda não tem indicação no mercado
internacional, porque está pegando redes muito ruins, começando do zero. Era
impossível piorar a rede do Peru. Era impossível piorar a rede da Argentina.
Agora, no Brasil, não. Estamos aprendendo que tínhamos uma rede boa, podia não
estar funcionando bem, porque os investimentos eram politicamente contidos.
Aqui, a Telefónica está tendo o seu principal desafio [...] A Telefónica está
aprendendo que o Brasil tem tecnologia nacional, tem universidades, é diferente
do resto dos pequenos países da América Latina, e há que ter um reequilíbrio
entre métodos de gestão e de tecnologias espanholas com brasileiras".
Considerando tudo o que se passou, nos leilões e depois dele, para o Prof.
Wohlers
"é evidente que o modelo de privatização fracassou. Houve problemas, o
Governo não conseguiu vender a Telemar, teve que semi-estatizar, porque 25% foi
de capital do BNDES. O modelo de três regiões fixas, que foi discutido
arduamente durante dois anos com a consultoria internacional e dentro do
'staff' do Ministério, mostrou que o Governo só conseguiu vender duas áreas. Na
última, ele teve que remontar um consórcio, negociar com outros consórcios que
causaram a queda do ministro. A pressa é inimiga da perfeição. Só se conseguiu
remendar um modelo de privatização, porque o BNDES entrou com 25%".
Para evitar esses e outros equívocos, diz o Prof. Wohlers que
"o ideal era ter criado uma Brasil Telecom, e aberto a concorrência com a
Brasil Telecom que podia ter e tinha métodos de gestão. A própria Telefónica
poderia ser um parceiro estratégico da Brasil Telecom, não haveria problema
algum. O problema é que oBrasil quis maximizar receitas. Para maximizar
receitas, ele vendeu um bloco fechado de controle mínimo acionário. O Brasil
não pôde, como em outros [países], manter uma diretoria, manter uma
interferência. Ao privatizar a Telecom Italia, 3% das ações estão nas mãos do
governo. Como as ações estão bastante dispersas, isto lhe dá uma cadeira no
conselho de administração. Vinte por cento da Telefónica Internacional ainda é
estatal. O próprio governo ajuda a controlar. Na Portugal Telecom idem. Ou
seja, várias privatizações mantém um mínimo de lotes na mão do Governo, para
que possam ser tomadas decisões estratégicas".
Acrescentou, ainda,
"o modelo de privatização foi muito apressado. Essa idéia de montar um
órgão regulador, que ainda não tem muita experiência, foi muito apressada
também. Vi o órgão regulador da Itália: ele foi construído muito lentamente,
mas com outros tipos de regras. Aqui, pegamos todo o bloco do Ministério das
Comunicações, mas a Telebrás, e montamos rapidamente uma Anatel. Então, existe
um aprendizado institucional [pelo qual] o País não passou. Estamos passando
agora, com prejuízos para os usuários".
Infelizmente, acha o Prof. Wohlers, tudo isso "são águas passadas".
Agora, cabe "diagnosticar a situação e achar as soluções para minorar os
problemas". E, dito isto, o professor da Unicamp lançou-nos um apelo para
discutirmos bem mais do que apenas os problemas criados pela qualidade dos
serviços - afinal, uma obrigação da empresa concessionária -, buscando examinar
e formular, junto com a sociedade, um verdadeiro projeto estratégico para as
telecomunicações brasileiras.
"Acho que é um absurdo que os senhores estejam discutindo um problema de
qualidade, que é uma obrigação, e não tenham discutido os problemas de longo
prazo. Qual é a estratégia de telecomunicações do Brasil? Qual é o nosso
caminho para a sociedade da informação? Qual vai ser o papel da tecnologia e da
engenharia nacional? Os senhores deveriam estar discutindo isso e, não,
qualidade. A qualidade é uma obrigação mínima contratual. Respeito a CPI, acho
que é muito positiva, mas [acho] que os senhores deveriam se engajar num
processo junto com a Anatel, junto com órgãos do setor [para] pensarem uma
política de longo prazo para as telecomunicações, o que o próprio Ministério
não vem fazendo".
Os executivos da Telefónica
O presidente da holding Telesp Participações, Sr. Fernando Xavier Ferreira, e o
presidente da Telefónica, Sr. Manuel Garcia Garcia, apontaram três causas
principais para a degradação dos serviços. A primeira e, ao que parece, mais
importante dessas causas residiria na obrigação, assumida pela empresa, de
atender, num prazo extremamente curto de seis meses, à exigência de instalar
cerca de 1 milhão de novas linhas telefônicas em todo o Estado, exigência esta
assumida pela antiga operadora estatal, através do programa de Plano de
Expansão (PEX).
Argumentaram que a Telesp estatal não havia realizado os investimentos em
infra-estrutura necessários para atender àquele compromisso, face a contenções
em seus investimentos determinadas pelo governo, em fins de 1997. Mas
reconheceram que a Telefónica, sendo uma empresa privada, estaria obrigada a
investir o necessário, para cumprir o PEX. Declarou o Sr. Fernando Xavier:
"A Telefónica, quando assumiu a direção da empresa, sendo uma empresa
privada, e não havendo mais desculpas de contenção de investimento de qualquer
coisa, foi imediatamente cobrada no cumprimento do plano de expansão [...] Quer
dizer, não foi uma estratégia errada. Impulsionada pela própria opinião pública
e exigida pela própria Anatel, à Telefónica foi dado [...], como desafio maior,
cumprir o mais rápido possível a instalação dos planos de expansão".
Entretanto, explica em seguida:
"A infra-estrutura da grande São Paulo estava esgotada de uma maneira que
era como se você tivesse que fazer uma reforma na casa onde as pessoas já
viviam e [eis] porque é que afetou também quem já tinha linha. Teve que haver
uma redistribuição destes centros telefônicos por espaço, reacomodando
inclusive quem já era usuário antigo."
Ou seja, tenta nos esclarecer o Sr. Fernando Xavier, não havendo
infra-estrutura disponível, a rede existente teve que ser redistribuída ou
reorganizada, de modo a acomodar quase 1 milhão de novas linhas, num período de
seis meses.
Além da própria complexidade determinada pela dimensão dos trabalhos a
executar, e como conseqüência dela, a Telefónica teria defrontado-se com sérios
problemas adicionais devido à modalidade de contratação de projetos e obras,
herdada da Telesp estatal. Essa modalidade é conhecida como turn key: a empresa
operadora do serviço contrata uma outra empresa para projetar e instalar toda a
infra-estrutura necessária à prestação daquele serviço, cabendo a esta empresa
contratada subcontratar outras empresas para executar as diversas fases do
projeto. Assim, a empresa contratada em regime de turn key obriga-se a entregar
à contratante todos os equipamentos e instalações já prontos para serem postos
em funcionamento. Segundo os dirigentes da Telefónica, esse modelo de
contratação de obras e serviços não funcionou em São Paulo, conforme o Sr.
Manuel Garcia Garcia deixou claro:
"[...] a modalidade de contratação 'turn key', adotada para a realização
destas obras, não se mostrou adequado para tal tarefa."
Um terceiro problema enfrentado pela empresa, conforme, recorrentemente,
alegaram os seus dirigentes, relacionava-se à qualidade da mão de obra
brasileira. É o que afirma o Sr. Fernando Xavier:
"As obras de expansão, são tradicionalmente feitas e sempre foram feitas
através de um processo de total contratação. Então, essa mão de obra é de
responsabilidade das empresas contratadas. Aí é que se verificou um problema de
insuficiência de mão-de-obra [...] Várias dessas empresas [apelaram] para essas
subcontratações e, muitas vezes, [colocaram] pessoas inclusive para começarem a
trabalhar, sem o devido treinamento e sem uma série de questões."
Os empresários
Foram ouvidos três empresários, dirigentes de associações de classe que
congregamempresas fornecedoras de serviços à Telefónica: Abercotel, Sinduscon e
Sindimesp. Também a Associação Brasileira da Indústria Eletro-eletrônica -
Abinee foi convidada a dar a sua contribuição mas, ao nos enviar um assessor,
no lugar de um alto-executivo, foi dispensada de participar.
Marcelo Abreu, da Abercotel
O Sr. Marcelo Abreu, presidente da Associação Brasileira das Empresas de
Serviços de Engenharia e de Telecomunicações (Abercotel), sugeriu que os
problemas na qualidade dos serviços prestados pela Telesp, se originaram de uma
"opção técnica" feita pelos seus novos controladores estrangeiros, de
buscar a maior ocupação possível da sua rede, como estratégia para,
rapidamente, instalar as novas linhas, previstas pelos PEXs a vencer ou já
vencidos. Ou seja, havendo, nas centrais de comutação e nos cabos de rede, uma
certa capacidade ociosa, assim mantida por razões de segurança ou para
atendimentos emergenciais, a Telefónica teria optado por utilizá-la como forma
de, rapidamente, atender às exigências por novas linhas sem, por outro lado,
vê-se obrigada à realização de investimentos maiores na ampliação mesma da
capacidade do sistema. Declarou o Sr. Marcelo Abreu:
"Ela fez uma opção técnica, segundo o que os técnicos do setor afirmam, de
dar uma ocupação maior para a rede existente. A rede do sistema Telebrás era
construída com uma certa reserva técnica, que foi fartamente ocupada [pela
Telefónica] para gerar ganhos de acesso rapidamente. Isso tudo gerou uma
saturação dessa rede, com graves problemas e repercussão na vida dos assinantes
que estavam ligados a essas redes".
Ao mesmo tempo, a Telefónica abandonou, por inteiro, as regras de normatização
e normas de aquisição praticadas pelas empresas subordinadas à Telebrás,
provocando assim uma acentuada queda na qualidade dos serviços prestados por
seus próprios fornecedores, com óbvias conseqüências na qualidade dos serviços
prestados por ela, à população paulista, antes habituada ao bom padrão da Telesp
pública e nacional. É interessante observar que, segundo o depoimento do Sr.
Marcelo Abreu, o Estado, enquanto comprador, através da Telebrás, parecia ter
grande preocupação não apenas com preços, mas também com a qualidade e,
inclusive, com o desenvolvimento tecnológico nacional. Disse o Sr. Marcelo
Abreu:
"O modelo de compra adotado pela Telebrás equilibrava,
até por força da Lei nº 8.666, elementos de natureza financeira, de avaliação
de preços, a elementos de qualificação dos fornecedores. Tínhamos então, dentro
da Lei nº 8.666, requisitos jurídicos, econômicos-financeiros e de capacitação
técnica. E a Telebrás, a esses requisitos agregava a adequação de seus
fornecedores ao padrão Normativo NBR ISO 9.000."
Insistiu o Sr. Marcelo Abreu:
"Outro aspecto que nos preocupa bastante é o de que, dentro do Sistema
Telebrás, tínhamos um arcabouço normativo de regulação da atividade da
engenharia de redes, da engenharia de telecomunicações, que era um
sistema-modelo, criado ao longo da existência do Sistema Telebrás, com um
debate amplo dos agentes produtivos, capaz de criar um conjunto de normas e
procedimentos técnicos que foram adotados durante a vida do Sistema, e que eram
absolutamente transparentes: todos os que atuavam no segmento de Engenharia de
Telecomunicações saviam exatamente como o cliente queria as coisas, qual era a
norma aplicável."
O controle de qualidade por parte das empresas do Sistema Telebrás parecia
descer a detalhes que os espanhóis, ao invés de se aproveitarem da elevada
experiência brasileira neste setor, preferiram tudo desdenhar, adotando novos
métodos que apenas serviram para revelar não terem eles nada a nos ensinar
quanto a normas e padrões de qualidade:
"A Telebrás auditava os fornecedores, indo a eles com um 'check list' de
requisitos de qualidade, auditando cada um deles. Os fornecedores, a cada
compra, precisavam comprovar sua condição legal e capacitação para fazer. Não
sua capacitação histórica, mas capacitação efetiva, sua capacitação
técnico-operativa - sua disponibilidade de recursos humanos e materiais para
fazer determinado empreendimento. Tudo isso lastimamos que tenha sido, de certa
forma, abandonado, esperando que venha a ser restaurado de alguma forma".
Daí, conclui o presidente da Abercotel:
"Hoje, ressentimo-nos da falta de critérios [...] Onde a falta denorma
temos o abuso".
Anote-se que após tão esclarecedor depoimento, o Sr. Marcelo Abreu foi afastado
da Presidência da Abercotel. O Nobre Deputado Luiz Gonzaga Vieira, em
intervenção feita durante os depoimentos dos dois executivos da Telefónica, fez
questão de deixar regitrado o seu protesto,
"porque acho que é um desrespeito para com esta CPI. Procurei a Abercotel
para tirar algumas dúvidas e fui informado de que, por pressão da Telefónica, o
seu presidente, após o depoimento que prestou aqui, foi 'afastado' por 30 dias
do cargo, justamente porque os antigos presidentes eram pressionados pela
Telefónica a se calarem. Até terminarem os trabalhos da CPI, ele não pode mais
falar em nome da Abercotel".
Eduardo Capobianco, do Sinduscon
O Sr. Eduardo Capobianco, vice-presidente do Sindicato das Indústrias da
Construção Civil (Sinduscon), declarou que, para se apresentar à CPI, decidiu
fazer uma investigação sobre possíveis indícios de estar a Telefónica
fraudando, ou ferindo, a legislação brasileira,especialmente no que se refere à
Lei das S.A. e à Lei Geral das Telecomunicações. Concluiu porém que, com base
nas informações obtidas junto aos associados do Sinduscon, a empresa espanhola
teve um comportamento, no geral, correto.
Para ele, então, o maior problema da companhia espanhola poderia ser definido
como de natureza "cultural". Ela teria se apresentado de modo
arrogante e preconceituoso ante a sociedade brasileira. Os dirigentes da
Telefónica parecem ter visualizado o Brasil como um país semelhante a outros
países latino-americanos, em termos de pouca evolução democrática e cidadã,
estando agora a sofrer as conseqüências de uma tal postura colonialista. O Sr.
Capobianco atribuiu à sociedade brasileira a tarefa, por assim, dizer, de
mostrar que "somos diferentes".
"Acho que a Telefónica errou muito ao chegar ao Brasil. Acho que veio com
uma posição arrogante, desconsiderou que nós temos uma sociedade democrática,
já bastante avançada. Parece-me que ela veio com um viés de outras comunidades
latino-americanas, onde isso não acontecia, e está tendo que enfrentar uma
realidade diferente. Cabe à nossa sociedade enquadrar a Telefónica, cabe à
nossa sociedade mostrar para os espanhóis que não somos assim, que somos
diferentes".
1.5.3. Edvaldo Sarmento, do Sindimesp
O Sr. Edvaldo Sarmento, presidente do Sindicato das Indústrias de Instalação,
Operação e Manutenção de Redes, Equipamentos e Sistemas de Telecomunicações do
Estado de S. Paulo (Sindimesp), foi outro, dentre os depoentes, que acusou o
próprio modelo de privatização como causa última dos atuais problemas, fazendo
duras críticas à Anatel e à Telefónica. Segundo ele, substituiu-se um monopólio
público por um monopólio privado, com todos os prejuízos daí decorrentes:
"Entendemos que esse monopólio que foi instalado, privado, esse sim é
selvagem, literalmente selvagem, e todos aqui declararam."
Diante dessa situação, acusou a Anatel de omissa, por não se fazer presente,
instante a instante, na fiscalização das decisões e atividades daTelefónica.
Criticou o órgão regulador por somente atuar a posteriori dos acontecimentos,
de forma punitiva e não preventiva, daí consentindo nos enormes prejuízos
sofridos por paulistanos e paulistas. Concluiu:
"A grande culpada desse processo todo é efetivamente a Anatel e a
Telefónica."
O Sr. Edvaldo Sarmento, recusando as suas justificativas quanto à qualidade da
mão-de-obra brasileira, acusou a Telefónica de desqualificar e desvalorizar o
mercado de trabalho brasileiro. Para o empresário, os baixos preços pagos pela
empresa estrangeira aos seus prestadores de serviços, obrigou-os a buscar
mão-de-obra mais barata, logo menos qualificada, já que os seus antigos
empregados, sobretudo os de nível técnico, mais qualificados e experientes, se
recusariam a trabalhar por salários aviltados.
"Na relação da mão-de-obra, queria lembrar à CPI que, antes da
privatização, a Telebrás tinha 94 mil funcionários. Hoje, numa aferição por
cima ainda a ser vista, existe empregado no sistema Telebrás partilhado,
vendido, em torno de 50 a 55 mil funcionários. A pergunta é: o que fazem 40 mil
funcionários técnicos e ex-especialistas no mercado? Então essa história de
falta de mão-de-obra é uma balela, literalmente uma balela. O que está se
verificando é que a Telefónica não descobriu ainda que nós já perdemos aquela
questão de escravismo. Não tem escravo. Se eu ganhava numa operadora de mil a
mil e duzentos reais como técnico, eu não vou trabalhar por duzentos e
cinqüenta reais para ela, porquanto eu não existo. O censo de mão-de-obra está
na Telefónica. Então se ela diz que não existe mão-de-obra, não existe
mão-de-obra e o Dr. Marcelo bem disse isso. Tem mão-de-obra, sim senhor".
O presidente do Sindimesp sequer poupou os seus pares, empresários, das
críticas. Para ele, parte dos problemas deve-se ao comportamento
"avassalado" do empresariado brasileiro que, acostumado a resolver os
seus problemas em conversas de gabinetes, em Brasília, pensou que os poderia
continuar resolvendo pelos mesmos métodos, apenas substituindo Brasília por uma
viagem mais longa até Madri:
"O empresariado brasileiro também é culpado pelo que está acontecendo.
Acho que falar da Telefónica, da Anatel, e não falar dos empresários
brasileiros estaria cometendo uma injustiça."
Telesp estatal
Para melhor esclarecer a CPI sobre os eventuais problemas pelos quais poderia
ter passado a Telesp estatal nacional e que teriam sido herdados pela
Telefónica de España, foi convidado o ex-presidente da empresa, atual Deputado
Federal Sampaio Dória.
Em um dos mais longos depoimentos aqui ouvidos, o Deputado foi bastante
esclarecedor e, praticamente, já antecipou várias das possíveis respostas aos
argumentos justificativos da Telefónica, assim permitindo avançar algumas das
prováveis conclusões desta CPI.
Didático, tentou definir o que seria a questão central em debate: se é possível
conciliar expansão acelerada da rede, com manutenção da qualidade dos serviços.
"Na minha avaliação, a questão central que está em discussão, em face da
experiência extremamente traumática destes últimos oitos meses, reside
basicamente em discutir, avaliar e saber se é compatível ou impraticável
conciliar uma expansão vigorosa da planta do sistema e a preservação da
qualidade dos seus serviços, enquanto se dá a expansão da rede. A partir da minha
experiência pessoal como Presidente da Telesp, a resposta é afirmativa".
O Deputado Sampáio Dória, porém, deixou muito claro que, se foi possível
conciliar expansão da rede com a manutenção da qualidade dos serviços, tal se
deveu à constante presença do Estado na orientação e fiscalização dos serviços,
presença que se manifestava desde as orientações a ele dadas - a ele e a outros
dirigentes do Sistema Telebrás - pelo Sr. Ministro das Comunicações à época, o
Sr. Sergio Motta, até à atuação dos Conselhos de Administração das empresas e
da própria Telebrás, enquanto holding maior de todo o Sistema. Declarou o
Deputado:
"O ministro Sergio Motta [...] teve a antevisão de que, se não
estabelecesse mecanismos preventivos da degradação da qualidade dos serviços, enquanto
se processasse a expansão prevista, essa degradação se daria de forma
generalizada e extremamente desgastante para o conceito e a credibilidade das
empresas do sistema Telebrás. Por isso, ele teve a prudência e a sabedoria de
estabelecer mecanismos de controle sobre todos nós, extremamente rigorosos, a
partir do próprio Ministério das Comunicações, a partir da cúpula diretiva da
Telebrás que, na ocasião, era presidida pelo atual presidente da holding
Telefônica do Brasil, Dr. Fernando Xavier. Esses mecanismos acabaram se
estendendo aos próprios conselhos de administração de cada subsidiária do
sistema Telebrás. Na verdade, o monitoramento que se deu de maneira
extremamente rigorosa - exemplar, eu diria - acabou prevenindo a degradação da
qualidade do sistema enquanto se processava a expansão."
Insistiu:
"[...] como lhes disse, uma preocupação obsessiva por parte do ministro,
do Ministério, da Telebrás e dos próprios Conselhos de Administraçãode cada
"téle". Esses conselhos se reuniam mensalmente, e uma parte
importante dos trabalhos desses conselhos era exatamente de exigir e cobrar da
diretoria de operação de cada 'tele' um relatório extremamente minucioso, que
desfrutava da credibilidade pelo fato de que era sistematicamente auditado pela
própria Telebrás e pelos órgãos de auditoria do Ministério das Comunicações.
Essa preocupação e a sistematização da preocupação desse monitoramento a
respeito de cada indicador é o que, na verdade, acabou estabelecendo para todos
nós dirigentes das 'teles' estaduais, muito mais do que um compromisso com o
ministro e o ministério, e um compromisso com a sociedade de que a expansão se
daria sem deterioração da qualidade do serviço. Como um sinal de respeito à
sociedade e como um sinal de que com um monitoramento diário desse trabalho
seria possível evitar danos maiores à qualidade dos serviços".
Mesmo que não tenha pretendido afirmá-lo, o Deputado Sampáio Dória acabou
reconhecendo que o modelo de privatizaçãoadotado pelo governo, provocou um
súbito desmonte de todo aquele eficiente e eficaz sistema de fiscalização e
controle - do Estado sobre o próprio Estado, frise-se -, sem que instrumentos
igualmente eficientes e eficazes tivessem sido remontados, para substituí-los.
Esses instrumentos deveriam ser operados pela agência reguladora, a Anatel, mas
esta ainda estava em "fase incipiente" de funcionamento:
"A criação e a estruturação da Agência Nacional de Telecomunicações passou
a constituir, na verdade, a única e a última esperança de controle e
fiscalização eficazes sobre a ação eventualmente abusiva, eventualmente
transgressora dos direitos e das prerrogativas dos usuários e dos cidadãos por
parte das concessionárias privadas de telefonia fixa ou celular em São Paulo e
nos demais estados."
Entretanto:
"A Anatel, na verdade, está numa fase incipiente da sua existência [...]
Alguma paciência vamos ter que ter, embora a sociedade não deva ser penalizada
por conta desse cronograma que, de qualquer maneira,confrontando com os
cronogramas dos processos de privatização que se deram em vários outros países,
inclusive do Primeiro Mundo, nesta última década, foi um processo extremamente
prudente, bem calculado, bem dimensionado e produziu frutos relativamente bons
até aqui e, seguramente, muito promissores para os próximos anos".
Para o Deputado, outro fator que teria provocado a queda de qualidade nos
serviços prestados pela Telesp agora estrangeira, seria a ausência de
concorrência. A licitação aberta pela Anatel para a concessão de serviços a uma
"empresa-espelho" não atraiu interessados, o que teria deixado a
Telefónica mais a vontade para desconsiderar os justos reclamos de seus
usuários, que sofreram as conseqüências da substituição de um monopólio público
submetido a uma fiscalização rigorosa, por um monopólio privado estrangeiro,
mal fiscalizado. Disse o Deputado Smapáio Dória:
"Um outro dado que precisa ser considerado e que também teve a sua
influência, foi o fato de não termos tido, na telefonia fixa, assegurada a
competição que nós tivemos desde logo, na telefonia móvel celular".
Segundo o Deputado, entretanto, tal se deu por uma "fatalidade".
Seja como for, ficou claro nas declarações do ex-presidente da Telesp que os
problemas residiam mais nas condições que passaram a vigorar após o processo de
privatização - fiscalização incipiente, ausência de concorrência -, do que em
falhas específicas da empresa estrangeira. Entretanto, esta não escapou de
algumas críticas. Segundo o Deputado Sampaio Dória, diante do tamanho do
desafio que tinha pela frente a curto prazo, a Telefónica deveria ter
postergado a reestruturação interna da Telesp para um momento posterior, mais
favorável. Ao reorganizar completamente os seus departamentos internos,
suprimindo divisões e hierarquias e demitindo cerca de 4 mil funcionários, os
espanhóis teriam criado um quadro interno de instabilidade, além de perda de
não desprezível memória técnica e gerencial, que muito contribuíram para a
queda da qualidade da empresa operadora paulista, pouquíssimos meses após a sua
privatização.
"O que, na minha opinião, constituiu [...] um erro de avaliação importante
que acabou se refletindo na perda de controle da Telefónica sobre a
deterioração do processo, foi o fato de ela ter promovido exatamente a partir
do terceiro mês da privatização, medidas de reestruturação interna da empresa
que afetaram fortemente, exatamente o setor operacional que era incumbido, até
então, de não apenas fazer a operação e a manutenção dos equipamentos, mas
também o relacionamento com o mercado, com o público e com os usuários, através
de regiões, através de distritos distribuídos ao longo do território do Estado,
no interior e na área metropolitana da capital. Isto foi desmontado, estas seis
regiões administrativas foram extintas e concentradas numa só. Os distritos
operacionais perderam o seu papel tradicional e histórico de manutenção e
operação desses equipamentos, houve uma substituição em escala que me pareceu
absolutamente imprudente das gerências de departamento, das gerências de
divisão e das próprias diretorias dentro da empresa, por técnicos e dirigentes
trazidos do exterior, e portanto não familiarizados com a realidade e as
propriedades da empresa, com a realidade do próprio mercado que eles passariam
a administrar a partir daquele momento [...] essas alterações deveriam ter sido
feitas num momento posterior e não exatamente em que a Telefónica era obrigada
a concentrar todas as energias da empresa".
Também a estratégia de utilizar o limite da capacidade instalada para expandir
a rede, fato já apontado por outros depoentes, foi criticado pelo Deputado,
mais uma vez ressaltando os limites impostos ao antigo monopólio público para
práticas semelhantes:
"Sabemos que a Telefónica está operando no limite, porque interessa
comercialmente à empresa utilizar seus acessos no limite dos limites. Nós,
talvez por sermos uma empresa pública mais suscetível a pressões que, no dia a
dia, nos levavam a ter de estabelecer alguns serviços, inclusive de telefonia
pública, atendimento a algum hospital, atendimento a alguma programa da
Secretaria de Educação do Estado ou da Secretaria da Saúde do Estado, [nós]
muitas vezes [tivemos] de fazê-lo, assim como outras 'teles' certamente o
fizeram. Aquela margem de segurança que observávamos [era] da ordem de 4 a 5
por cento (outras teles, um pouco menos, talvez por terem menos demanda do que
um estado tão dinâmico como o de São Paulo), embora nossa meta fosse chegar a
algo em torno de 3%, sem pôr em risco o atendimento a situação emergenciais.
Soube, por leitura de jornais, que a Telefónica reduziu essa margem de
segurança ao mínimo - ela estaria operando com algo acima de 99%."
O ex-presidente da Telesp, face a toda a sua argumentação, rechaçou, com
ênfase, qualquer possibilidade de a Telefónica estar enfrentando agora
problemas herdados da antiga empresa estatal:
"A herança que a Telesp estatal deixou à Telefónica, ao contrário de ter
sido uma herança penosa e uma herança difícil de ser administrada, foi isto sim
extremamente positiva".
O legislador
Na qualidade de Relator da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), o Deputado
Alberto Goldman pôde esclarecer esta CPI - ao explicar-nos, detalhadamente, o
conteúdo daquela Lei - a respeito de vários aspectos da legislação que estão
sendo infringidos pela Telefónica, enquanto empresa concessionária de um
serviço público; bem como quanto aos poderes de intervenção da Anatel e da
própria sociedade. Não se poderia exigir que o seu depoimento comentasse os
problemas específicos causados à telefonia paulista pela empresa espanhola. Na
verdade, o Deputado acabaria fornecendo elementos que nos permitem melhor
discutir as motivações do Governo ao fazer uma profunda reforma nas
telecomunicações brasileiras, adotando o modelo afinal adotado.
Defendendo esse modelo, o Deputado Goldman assim respondeu às críticas
formuladas pelo professor Marcio Wohlers:
"Quanto à questão do modelo, isto é uma questão histórica, vale para a
academia colocarmos isto aqui. Esta questão do modelo foi muito discutida na
comissão, intensamente discutida [...] Não vejo nenhuma razão para termos uma
empresa só no País. Qual era uma das razões colocadas naquele momento? Uma
grande empresa nacional vai poder ser a nossa multinacional. Ora, nós temos uma
densidade telefônica baixíssima hoje, que é 12, 13 ou 15 por 100 telefones,
queremos chegar em uma densidade telefônica cerca de três vezes esta, um volume
brutal de investimentos e não é bom nos preocuparmos agora se a nossa empresa
vai ter que ser multinacional, multinacional para disputar aonde, se não
conseguimos cumprir durante muito tempo as nossas necessidades? Mais adiante,
isto vai acontecer, isto está acontecendo no mundo todo, certamente muitas
delas vão se fundir aqui e ali, já está acontecendo isso. A alemã e a italiana
estão se fundindo".
Também pretendeu deixar-nos seguro quanto ao futuro da soberania e da segurança
nacionais - desde que se aceite a sua visão e compreensão do que sejam
soberania e segurança nacionais, neste mundo em que vivemos hoje, e diante dos
fatos que assistimos acontecer nas relações entre um punhado de grandes e
arrogantes potências e os demais países excluídos do restrito círculo do poder
mundial. Disse o Deputado Goldman:
"O que envolve questões de soberania nacional é o controle do sistema, não
a sua operação. A operação do sistema pode ser feita por ente privado, estatal,
nacional ou estrangeiro, isso não faz nenhuma diferença, o que precisa é ter o
controle do sistema [...] O problema é controlar o sistema, porque ele é
competência da União, assim como, por exemplo, entregar um serviço de água ou
esgoto para uma empresa privada fazer, ou entregar uma operação de uma usina
hidrelétrica, ou entregar um serviço fundamental para a comunidade, não uma
questão de soberania nacional. Mas [é] fundamental para a comunidade o
transporte coletivo, que é concessão também do setor público, onde se pode a
qualquer momento intervir, entrar, tirar".
Insistiu:
"Quanto à questão de soberania nacional [...] não é só uma questão
ideológica, mas de compreensão do que é soberania nacional e compreensão do
controle que o Estado mantém sobre setores que podem ser considerados
estratégicos ou não. Acho que no setor de telecomunicações há segmentos que
podem ser considerados estratégicos e a grande maioria não tem nada de
estratégico. Fazer rádio taxi não tem nada de estratégico. Pode ser importante,
mas não é estratégico. Mas é evidente que satélite é estratégico. Em todas as
operações do sistema onde é competência da União, todos os serviços públicos,
se não são estratégicos fundamentalmente, são de importância essencial. Citei o
transporte coletivo, que é estratégico. Nessa expressão estratégico cabe tudo o
que podemos imaginar. Em cada cabeça cabe uma definição de estratégico. É
estratégico, transporte coletivo? Bom, para o trabalhador que vai todos os dias
para o trabalho, é estratégico. Sem o transporte ele não chega a lugar algum,
não tem salário, produção, emprego e o país não anda. Estratégico, de fato, é
que o Estado não abra mão do seu controle sobre aquilo que é de sua competência
e seu patrimônio. Por exemplo, o Estado não abriu mão de manter o controle
sobre o espectro magnético [...] é ele quem concede e pode tirar
concessão".
E, dito tudo isso, o Deputado parece sentir-se bastante tranqüilo:
"Se amanhã, no setor de exploração de satélites, houver algum tipo de
problema de exploração que fira a soberania nacional, que não cumpra os
contratos existentes, o governo tem todos os elementos legais para intervir.
Esta é a diferença das nossas concepções de estratégico. O estratégico hoje
serve para tudo. Serviu durante muitos anos para a gente dizer que não podemos
privatizar nada, porque tudo é estratégico, como se na mão de uma empresa
estatal estivéssemos imunes a todos os interesses que vagueiam pela sociedade,
imaginar que aqueles que estão numa empresa estatal, pelo fato de ser uma
estatal são todos patriotas isentos e imunes a qualquer tipo de pressão e
interesse".
É bem verdade que o Deputado Goldman não nos deixou em dúvidas quanto aos
amplos poderes da Anatel em relação às empresas privadas que, agora, prestam
serviços de telecomunicações no Brasil:
"A Anatel tem a obrigação de estabelecer as condições de transferência
acionária de uma empresa para outra, os limites de participação de cada grupo
econômico, os limites de participação, portanto, do sistema de telecomunicações
exatamente para evitar a monopolização, a cartelização, enfim, todos os
processos que conhecemos no setor privado. Porque, na medida em que as empresas
entram, sabemos que o objetivo dela é o lucro e não poderia ser de outra forma.
Mas a Anatel tem o papel, como instrumento do Estado, da sociedade, de evitar
os abusos que possam ser cometidos".
Acrescenta, com ênfase, referindo aos contratos de concessão fixados pela
Anatel, nos termos da L.G.T.:
"Enfim, o contrato estabelece todas as normas [...] todos os índices e
obrigações qualitativos. Não há como tergiversar a respeito desta questão.
Neste ano, as metas também são bastante ousadas, mas que foram aceitas em
contrato.
"O nosso problema é ter a meta física cumprida, a meta qualitativa
cumprida. Isso tem que haver, não tem choro sobre isso."
Seja pelo que efetivamente consta na L.G.T. e nos contratos de concessão, seja
pelo aqui dito pelo Deputado Goldman, estamos diante de uma situação que não só
assegura direitos políticos e jurídicos ao Estado, através da sua Agência reguladora
(mas não apenas através dela), como também impõe deveres públicos à empresa
privada que em muito restringem a sua liberdade de ação privada - até mesmo a
de livremente negociar a compra ou venda das ações de controle.
Por outro lado, tanto o seu depoimento, quanto o do Deputado Sampaio Dória,
demonstraram, mesmo que isto não pretendessem, que todo esse poder regulador de
um Estado completamente afastado das atividades de operação, pode esbarrar na
força nada desprezível dos lobbies desses poderosos grupos estrangeiros que
acabam de se assenhorear das telecomunicações brasileiras. Numa questão talvez
menor, como a da criação de dois Fundos destinados ao desenvolvimento das
nossas telecomunicações, os Deputados Goldman e Sampaio Dória nos revelaram as
dificuldades que o Congresso - e o Governo - vêm enfrentando para fazer
tramitar os respectivos projetos de lei, previstos, aliás, na própria L.G.T.
Estes Fundos são o de Universalização (FUST) e o de Desenvolvimento Tecnológico
(FDT), e devem ser constituídos através da contribuição, para cada um, de 1% do
faturamento de cada empresa operadora - contribuição modesta, face o lucro que
extrairão das nossas telecomunicações e poderão remeter, por meios legais ou
não tão legais, para os seus países sedes. Mas a tramitação de ambos os
projetos está emperrada, por força da oposição das novas concessionárias
privadas:
"[...] mas há também uma pressão das empresas para que a lei não se
concretize, porque ela é uma cobrança de um percentual sobre o faturamento, sobre
o lucro, enfim,sobre alguma forma de receita das empresas; sobre o faturamento
possível ou sobre a receita operacional, sobre algum tipo de receita das
empresas.
"As empresas [...] estão pressionando, principalmente as celulares, por
exemplo. Pressionam muito contra, dizendo que elas não têm nada a ver com a
universalização, e que não vão ter resultado nenhum do desenvolvimento
tecnológico, porque têm seus próprios instrumentos de desenvolvimento
tecnológico. Não interessa. A Lei diz isso e as empresas, quando assinaram os
contratos, já tinham conhecimento da Lei e está dentro dos termos dos
contratos, só não diz qual o percentual, porque o percentual não tinha sido
estabelecido na Lei".
Se já é assim quando se trata de apenas abrir mão de um irrisório percentual da
receita em favor do desenvolvimento geral da sociedade brasileira, imagine-se o
que não poderá acontecer se algum Governo, em algum futuro mais próximo ou mais
distante, se vir forçado a tomar medidas, nas telecomunicações, que possam
afetar as poderosas forças econômicas, políticas e militares que se movem na
arena - cada vez mais assemelhada à dos antigos circos romanos - dos interesses
internacionais.
O CPqD
Com a finalidade de discutir os impactos da desnacionalização da Telebrás e
Telesp no desenvolvimento tecnológico brasileiro, foi convidado a falar a esta
CPI, o engenheiro Helio Marcos Machado Graciosa, ex-diretor de Desenvolvimento
da Telebrás e, hoje, presidente da Fundação CPqD, centro de pesquisa situado na
cidade paulista de Campinas, onde emprega mais de 800 cientistas, engenheiros e
outros técnicos de alta qualificação.
O CPqD foi criado em 1976, como um centro de pesquisa vinculado à Telebrás, no
contexto, segundo o engenheiro Graciosa, de um modelo de política industrial
baseado na "substituição de importações". A partir do início da
década de 90,
"houve uma mudança do modelo de desenvolvimento por um modelo de
integração competitiva no mercado internacional, ou seja, uma gradual abertura
das importações que até então eram proibidas, ou seja, aquela exposição gradual
das empresas brasileiras à competição internacional. Este fato refletiu-se
muito em cima do CPqD, porque ele nunca foi uma indústria e, então, todos os
produtos que desenvolvia, transferia para as indústrias. As empresas para as
quais ele transferia tecnologia passaram a concorrer com as empresas
estrangeiras, tendo como base de seu desenvolvimento suas matrizes no
exterior".
Desde então, o CPqD veio tornando-se "seletivo" nas suas opções de
investimento, priorizando aqueles que resultassem em produtos com real
"competitividade internacional". Em seguida, face a decisão
governamental de privatizar a Telebrás, foi necessário examinar o destino a ser
dado ao Centro. Sublinhou o Sr. Helio Graciosa ser o CPqD "a única instituição
a constar na Lei Geral de Telecomunicações" como sendo de obrigatória
"preservação". E, para assegurar tal disposição, resolveu-se
transformá-lo em fundação de direito privado.
Observemos, como deixou bem claro o engenheiro Graciosa, que este é um modelo
sem similar no mundo:
"O que acontece em outros países? Esses recursos [para financiamento à
pesquisa] são normalmente dinheiro do governo. Um centro de pesquisa como o
CPqD, ou pertence a um grupo grande de empresas (a Telebrás tinha um volume de
negócios que perfeitamente poderia suportar essas aplicações de longo prazo, e
era um volume grande); ou eles têm uma parte do seu orçamento vindo do governo,
mesmo sendo entidade privada.
Quer dizer, no processo de privatização, falei isso várias vezes, teve
consultores do Ministério e sempre lancei desafios para o pessoal. Queria que
eles achassem um centro de pesquisa autônomo - que é o caso do CPqD, ele ia
ficar autônomo, antes ele não era - que consiga sobreviver como centro de
pesquisa só indo ao mercado. Não se achou, eles não tinham achado. Dr. Rômulo,
que é o meu grande consultor e está ali atrás, procuramos, conversamos, vimos
na Internet, não existe, e nem em outras áreas, não é só em telecomunicações.
Por que? Porque isso é investimento de longo prazo e que não se faz só com
dinheiro do mercado".
Mesmo assim, decidiu o governo - como corolário lógico do fatiamento da
Telebrás - dissociar o CPqD das operadoras, e tentar assegurar-lhe futura
sustentação através de recursos provenientes de um Fundo para o Desenvolvimento
Tecnológico das Telecomunicações (FDTT), cuja criação foi prevista na Lei
Geral, mas ainda carecendo de outra lei específica.
Declarou o engenheiro Graciosa a esta CPI que o CPqD, agora, tem duas missões:
a primeira, de curto prazo, voltada para a sua sobrevivência em função da sua
competência para competir, com os seus produtos e serviços, no mercado; a
segunda, de longo prazo, voltada para o desenvolvimento de tecnologias
estratégicas. Ele acredita que o Centro poderá, sempre, ocupar algum espaço no
mercado. Porém, a sua função estratégica somente será cumprida se contar com
apoio de recursos públicos:
"Se não houver dinheiro do fundo [do FDTT] para o CPqD, ele não vai
conseguir exercer a sua função estratégica, com o dinheiro do mercado. Mas ele
não morre porque ele vai ficar com a sua faceta de mercado, dentro da
competência daquilo que estamos desenvolvendo lá.
[...]
Somos um centro de pesquisas independente, e a solução que vejo, se não houver
dinheiro do governo, o CPqD não exercerá a sua função estratégica".
Entretanto, também as condições para sobreviver no mercado não são para deixar
esta CPI muito otimista, como já nos apontava, aliás, a Nobre Deputada Maria do
Carmo Piunti:
"[...]poderíamos dizer que [o CPqD] tem condições de sobreviver por três
anos, e depois disso vai depender exclusivamente do mercado, ou praticamente do
mercado? [...] Preocupa-nos nessa comissão, porque nos pareceu que a
Telefónica, desde a sua implantação, tem dado preferência para empresas, pelo
menos na área de prestação de serviços, para empresas de grupos espanhóis, e o
senhor mesmo colocou isso, que é até óbvio que elas tragam empresas de grupos
espanhóis.
Pergunto, se a empresa é uma multinacional, é empresa de capital espanhol, qual
o interesse que ela tem de estar investindo em desenvolvimento no Brasil, para
que as empresas brasileiras passem a fabricar equipamentos se, na verdade, ela
poderá comprar de outros grupos, importar e talvez até ter um custo mais
barato, ou estar contribuindo com uma empresa de seu próprio país?".
De fato, o engenheiro Helio Graciosa reconheceu que as operadoras que aqui
chegaram na esteira da desnacionalização da Telebrás, tendem a trazer, dos seus
países de origem, as suas tecnologias e seus fornecedores. E acabou, para apoiar
a sua própria argumentação, fornecendo-nos um exemplo que, aparentemente,
reforça, isto sim, os argumentos daqueles que criticaram o modelo de
privatização, dentre estes, nesta CPI, o professor Marcio Wohlers:
"Porque é natural, você vem com uma empresa globalizada, que elas queiram
trazer os seus parceiros. Por exemplo: se o Brasil fizesse uma estratégia
diferente de comprar as empresas de fora, é óbvio que a tecnologia do TP
embutido [telefone público a cartão] iria ser a primeira opção para o Brasil
colocar numa Telefônica com um contrato no exterior, e vice-versa, quer dizer:
se uma empresa nova controladora vier de fora, ela já tem alguns parceiros que
ela quer trazer. Se não se toma medidas como as que estão na lei, obviamente
que haveria um risco maior, mas na minha opinião tem que se fazer valer o que
está na lei".
Resta saber se não teria sido muito melhor, "fazer uma estratégia
diferente" e, mesmo abrindo o nosso mercado a outros operadores, inclusive
do exterior (com os seus fornecedores), também levar a nossa Telebrás a
disputar esses outros mercados, nos termos do exemplo a seguir, fornecido pelo
próprio engenheiro Hélio Graciosa:
"Volta o exemplo, se a Telebrás comprasse a Teleuruguai, o telefone
público que estaria lá provavelmente seria o nosso telefone público, porque já
conhecem, sabem como funciona, qual o problema que dá e que não dá. Esse risco
também foi avaliado na lei. Olha, então temos que colocar aqui que temos de dar
preferência a equipamento nacional etc. e tal, então acho que isso é o jogo
certo".
A Anatel
Em seu depoimento à CPI, Renato Guerreiro, presidente da Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel), dissertou sobre todo o aparato legislativo criado
para a privatização do Sistema Telebrás, explicitando a questão do usuário.
Antes das questões específicas ocorridas em São Paulo, também fez considerações
sobre o modelo de privatização e universalização.
"Em 1997, finalmente aprovou-se a Lei Geral de Telecomunicações, que é
composta por quatro livros, sendo que o primeiro é muito pequeno em termos de
tamanho, mas é certamente o de maior densidade. Possui cerca de 12 artigos,
desenha toda a filosofia da reestruturação das telecomunicações no Brasil,
definindo claramente que a regulamentação de telecomunicações deve privilegiar
o usuário, atribuir ao Estado o papel regulamentador e fiscalizador das
telecomunicações e à iniciativa privada o provimento dos serviços. Essa mesma
lei criou um órgão regulador, que é a Anatel".
Prosseguiu:
"O modelo brasileiro de telecomunicações todo, sustenta-se em dois
pilares: a universalização dos serviços e o princípio da competição. A lei
geral é permeada de insinuações, ilações, recomendações em muitos casos, e
determinações em tantos outros de que os serviços devem ser universais. E todos
devem ser prestados em regime de competição, para permitir que o cidadão tenha
o direito constitucional de escolher o provedor que melhor atenda às suas
necessidades".
Esclareceu quanto ao conceito de universalização:
"A universalização não significa ter telefone residencial em todas as
residências. Não é isso, universalização significa ter o serviço disponível a
todos os cidadãos".
Daí que
"os telefones de serviço público terão que crescer no Brasil. Teremos, no
final de 1999, 713 mil, e esse número cresce de tal forma que, após 31 de
dezembro de 2003, vamos ter mais de sete telefones públicos por mil habitantes
no mundo [...] O nosso objetivo é termos a partir de 2001, 2003, sete e meio
telefones públicos por mil habitantes. E, mais, isso não significa concentrar
telefones públicos em aeroportos, rodoviárias, portos, shoppings, porque eles
têm obrigação de ter, em cada área da localidade atendida, uma densidade mínima
de três telefones por mil habitantes, o que é a densidade média dos países no
mundo".
As empresas interessadas na privatização do Sistema Telebrás conheciam bem
esses objetivos, transformados aliás em obrigações contratuais futuras daquelas
que vencessem os leilões de privatização. Os contratos estabelecem várias
determinações sobre metas de universalização, qualidade e recursos humanos.
Além disso, as empresas interessadas tiveram acesso às informações sobre a
situação financeira e operacional das operadoras do Sistema Telebrás.
"Quando as empresas foram privatizadas, o foram conscientes de que essas
obrigações existiam e de que teriam que ser resgatadas, cumpridas, sob pena das
mais variadas sanções, inclusive multas, e, eventualmente, por repetições
sucessivas de quaisquer faltas ou infrações contratuais, até a cassação do
contrato".
Entretanto, esclareceu o Sr. Renato Guerreiro, os contratos de concessão
estipulam metas apenas a partir de dezembro de 1999. Daí que a Anatel teve que
criar um documento para o período de transição, de julho de 1998 a dezembro de
1999. Este é o Protocolo de Compromisso, cujo objetivo é o acompanhamento
mensal de vários indicadores do Operador privado até dezembro de 1999.
Com base neste Protocolo, informou o Sr. Guerreiro,
"em novembro de 1998, no acompanhamento mensal que estávamos fazendo do
desempenho das empresas, percebemos que [a realização daquelas] previsões que
as empresas haviam oferecido em julho, [...] estava acima do que elas tinham
previsto. Observando-se já os dados de agosto, setembro e outubro, estava
havendo um desvio em cima daquilo que estava previsto. Determinamos às empresas
formalmente [que se preocupassem] com o crescimento dos Planos de Expansão
vencidos, e que tomassem providências para compensar os assinantes e resolver o
problema".
Apesar disso,
"o número se manteve preocupante em novembro. Então a Anatel decidiu, em
dezembro, convocar uma reunião gerencial com as empresas todas, solicitando que
elas levassem para a reunião gerencial uma ação específica com relação à
recuperação, o resgate, dos Planos de Expansão vencidos, com os assinantes. Essa
reunião se deu em janeiro de 1999, tendo por base os dados realizados até
dezembro. Nessa oportunidade foram apresentadas, pelas empresas, propostas
[para a] redução dos Planos de Expansão vencidos, [mantendo-se] o prazo final
que a Anatel havia acordado, nos Protocolos de Compromisso, de que, a partir de
maio, não haveria mais plano de expansão vencido. Haveria sim, em maio, os
planos de expansão que venciam em junho, eventualmente, ou venciam no próprio
mês de maio. E, em junho, os planos de expansão com vencimento em junho, mas
jamais planos de expansão com vencimentos nos meses anteriores".
É nesse contexto que vai emergir o problema da qualidade dos serviços prestados
pela Telefónica, em São Paulo.
"Independentemente da questão dos Plano de Expansão vencidos, havia uma
questão de qualidade que estava nascente na Telesp, muito importante, já no
final do ano. Então decidimos por esse ressarcimento da Telesp [multa em forma
de ressarcimento ao usuário] já em 12 de fevereiro. Determinamos também a abertura
de uma auditoria técnica na Telesp com duas finalidades: a primeira era
comprovar se tecnicamente era possível resgatar os Planos de Expansão vencidos,
na velocidade que a empresa havia se proposto, verificando se a empresa tinha
absoluto controle das áreas onde estavam os Planos; se tinha contrato com os
fornecedores de comutação para instalar centrais naqueles prazos; se tinha
contrato com empresas construtoras de rede para fazer a construção de rede
naquele prazo. O segundo mandato [dessa auditoria] foi verificar até que ponto
a modificação na rede de São Paulo estava afetando a qualidade dos serviços, o
que já eraevidente pelas informações obtidas no 'call center' de comunicações
da Anatel. Esses dois mandatos foram cumpridos por uma auditoria, que inauguramos
em seguida".
Com base nos dados levantados por sua auditoria, a Anatel concluiu que
"que a programação de resgate do compromisso dos Planos de Expansão
vencidos era factível. A empresa havia colocado na reunião em janeiro com a
Anatel, um planejamento absolutamente realizável e tenho a impressão que mais
do que a auditoria da Anatel, o que aconteceu com os Planos de Expansão
vencidos em São Paulo, demonstra que o planejamento apresentado por ela foi um
planejamento real".
Entretanto, a qualidade dos serviços efetivamente caiu e,
neste quesito, a Anatel identificou três infrações aos contratos e à
legislação.
"A primeira, foi a não comunicação do novo número. No caso da troca do
número do assinante ela tem que informar o assinante, com 90 dias de antecedência,
da troca do seu número".
A segunda foi a
"não interceptação do número anterior, quando o número é trocado, para que
quem ligue para o assinante que teve seu número trocado possa ser informado da
troca do número e fazer uma ligação correta. E devo dizer, essa ligação não é
paga. As ligações destinadas às máquinas interceptadoras não são pagas pelo
assinante que originou a chamada. O regulamento não permite cobrança de
chamadas que são encaminhadas com máquina interceptadora. Portanto, o assinante
que chamou não estaria pagando uma ligação que estaria sendo destinada a uma
máquina para informar o novo número, que foi uma outra infração cometida".
A terceira infração
"foi a interrupção indevida do serviço por uma ação objetiva da empresa. A
ação da empresa no corte da rede, na reengenharia da rede na cidade de São
Paulo ou em parte da cidade de São Paulo, fazia com que a empresa interrompesse
a prestação ou descontinuasse a prestação do serviço telefônico para
determinados assinantes, e descontinuar a prestação significa que vem instalar
e instala errado, instalar o número do telefone do cidadão num orelhão, tudo
isso significa interrupção indevida da prestação dos serviços".
Vários argumentos foram utilizados pela Telefónica para explicar e/ou justificar
suas falhas para com o usuário, dentre elas, a extrema expansão que realizou a
partir de sua gestão. Segundo o Sr. Renato Guerreiro, em trecho de seu
depoimento, tal argumentação não é cabível nem, em hipótese alguma, aceitável:
"Na nossa concepção, a expansão não necessariamente e em hipótese alguma
pode ser associada à degradação da qualidade. Essa é a posição que temos
colocado junto as empresas que eventualmente tentam colocar um argumento desse
para justificar uma degradação da qualidade".
Como declarou, numa das suas intervenções, o Nobre Deputado Arnaldo Jardim,
"estamos preocupados
"se a Telefónica veio aqui realmente para criar uma rede moderna,
concorrencial, que busca o aprimoramento, o desenvolvimento da produtividade,
diminua, afinal de contas, o custo da tarifa para que o usuário possa pagar
menos, ou se estamos assistindo a uma montagem de uma estrutura voraz pelo
lucro"
Infelizmente, se os depoimentos prestados a esta CPI, conforme apresentados no
capítulos anterior, já são de justificar tal preocupação, mais preocupados
ficamos, quando examinamos os números da Telefónica, extraídos de balanços e
relatórios. Neste capítulo, serão apresentados vários quantitativos que
reforçam a idéia de ter a Telesp sofrido, efetivamente, uma acentuada involução
em muitos dos seus mais importantes indicadores operacionais e financeiros,
depois que o seu comando passou às mãos do grupo espanhol.
O Plano de Metas (Paste)
O Programa de Recuperaçãoe Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do
Sistema Postal (Paste) - anunciado, em primeira versão, em 1995, e, em segunda
versão, em 1997 - tem servido para orientar as projeções sobre a evolução
futura das telecomunicações brasileiras, inclusive constituindo-se em
referência oficial para a elaboração dos Planos de Outorga e dos
contratos-padrões de concessão, a vigorarem depois da privatização.
Tabela 3.2. Receitas e margens do Grupo Telebrás (1994-97)
(em R$ 109)
1994 1995 1996 1997 Valor / Margem Valor / Margem Valor / Margem Valor / Margem
1. Rec. op. bruta 10.400 11.151 16.478 20.698 2. Deduções fiscais 2.339 2.533
3.991 4.892 3. Rec. op. líquida 8.060 100,0 8.618 100,0 12.487 100,0 15.806
100,0 4. Custos dos serviços 4.845 60,1 4.562 52,9 5.809 46,5 5. Desp.
operacionais -2.564 -2.031 -2.750 6. Lucro operacional 988 12,3 1.533 17,8
4.066 32,6 5.165 32,7 7. Lucro líquido 684 8,5 810 9,4 2.756 22,1 3.900 24,7 8.
Deprec./amortização 2.994 2.886 3.564 9. Geração caixa op. EBITDA (9 = 3-4-5+8)
3.645 45,2 4.911 57,0 7.492 60,0 10. Investimentos 3.337 4.660 6.843 7.000
Fonte: Wohlers1 O Paste parte do princípio de que a década de 1990 marca a
transição para a "sociedade da informação". Nesta, os processos de
produção, distribuição e consumo tornam-se cada vez mais dependentes de
comunicações eletrônicas, exigindo o estabelecimento de uma Infra-estrutura
Global de Informação - IGI que permitirá o acesso de todos aos esperados
benefícios econômicos, sociais e culturais da "sociedade da
informação", bem como fomentará vantagens competitivas e viabilizará a inserção
de qualquer país, em posição destacada, no contexto internacional. Daí, o Paste
constata a necessidade de se construir uma infra-estrutura nacional de
comunicações de grande capacidade e alta velocidade, capaz de transmitir
informações vinculadas à multimídia (voz, dados, textos, imagens e vídeo), e de
fomentar o desenvolvimento de um mercado de informações eletrônicas.
Com base nessas premissas, o Paste estabelece metas bastante ousadas, mas não
inviáveis, para a expansão das telecomunicações brasileiras, nos próximos cinco
anos. Prevê que o Brasil terá cerca de 40 milhões de linhas telefônicas fixas,
em 2.003 (contra as atuais 17 milhões); 1,5 milhão de telefones públicos; e 23
milhões de telefones celulares. Assim, nos próximos cinco anos, a taxa de
penetração da telefonia fixa atingiria 23 linhas por 100 habitantes; a de
telefonia celular, 13 linhas por 100; e todas as localidades brasileiras com
mais de 300 habitantes deveriam estar conectadas a infovias. Para alcançar
esses objetivos, além de outros relacionados à TV por assinatura, transmissão
de dados etc., o Paste calcula que o Brasil deverá investir cerca de R$ 11
bilhões por ano, nesses próximos cinco anos.
Cenários mundiais
Para entendermos melhor a política de telecomunicações será necessário conhecer,
nem que seja por alto, o cenário mundial das telecomunicações. Até os anos 80,
em todos os países centrais e em boa parte dos periféricos, as telecomunicações
eram controladas e operadas por monopólios públicos, semi-públicos ou estatais.
Em apenas um país importante - nos Estados Unidos - o monopólio era exercido
por uma empresa privada, a AT&T, embora mantida sob regime de rigorosa
regulamentação e fiscalização, por parte de um órgão federal de regulação
(Comissão Federal de Comunicações - FCC)1
Estados Unidos
O processo de derrocada desses monopólios é caracterizado por uma longa
história. Nos Estados Unidos pode ser datado de 1968 - há mais de 30 anos,
portanto - quando uma empresa emergente, a MCI, quis oferecer um serviço de
comunicações por microondas para um grupo clientes corporativos2 , e viu-se
impedida pela AT&T, respaldada na regulamentação vigente. Além da MCI,
grandes empresas de informática, como a IBM, e outros interesses empresariais
pressionavam para quebrar o monopólio da AT&T, então a maior empresa
privada dos Estados Unidos, com cerca de 1 milhão de empregados. Pressões e
contrapressões faziam-se sobre a FCC, o Departamento da Justiça, outros órgãos
do governo, a Justiça Federal e até o Congresso. Somente em 1982, um juiz
federal obteve um acordo, entre todas as partes interessadas, que levou à
perda, pela AT&T, do seu monopólio nas telecomunicações, ganhando, em
troca, liberdade para investir no exterior, avançar nas comunicações por
satélite e expandir-se na indústria de informática, segmentos estes que até
então lhe eram vedados pelas disposições regulatórias.
Entretanto, a evolução do modelo norte-americano não parou aí. Com base no
acordo judicial de 1982, em vigor a partir de janeiro de 1984, o País foi
dividido em sete regiões. As antigas operações da AT&T na telefonia urbana
foram agrupadas por região, sendo mantido o monopólio na oferta e operação do
serviço de telefonia fixa urbana, monopólio este a ser exercido por novas
empresas, desmembradas da AT&T, e desde então genericamente conhecidas por
Baby Bells. Ou seja, na rede básica substituiu-se um monopólio nacional por
sete monopólios regionais.
Os demais segmentos de telecomunicações - nos quais o que restou da AT&T
poderia seguir operando - foram abertos à concorrência, o que gerou o
aparecimento de muitas novas companhias oferecendo serviços de telefonia a
longa distância, instalação e operação de redes empresariais (corporativas),
outros serviços variados etc. Surgiu um grande conjunto de novos e inesperados
problemas que viriam a dar muito trabalho à FCC, à Justiça Federal e ao
Congresso: disputas entre as empresas, mal atendimento a serviços públicos e a
bairros ou regiões mais pobres, etc. No bojo desses problemas, o Congresso
norte-americano, após dois anos de discussão, acabou aprovando, em janeiro de
1996, uma nova Lei de Telecomunicações que admitiu, de vez, um alto grau de
liberdade para o mercado definir os rumos setor. Mesmo assim, ou por isto
mesmo, a Lei fortalece as possibilidades de intervenção das autoridades estaduais
e municipais em defesa dos interesses de serviços públicos como educação e
saúde (cada vez mais usuários de sistemas de telecomunicações, não só do
telefone), aspecto lembrado nesta CPI, pelo Professor Marcio Wohlers; impõe
fortes restrições ou controles à transmissão de conteúdos obscenos ou violentos
pelas redes de comunicações (o que continua a gerar muita polêmica); e ainda
mantém as maiores empresas, especialmente as Baby Bells e a AT&T, sujeitas
a restrições ou fiscalizações que visam coibir a formação de novos monopólios.
Curiosa mas nem um pouco surpreendentemente, após a Lei de 1996, sob a desculpa
de "criar músculos" para enfrentar a concorrência, as maiores
empresas norte-americanas do ramo das telecomunicações começaram a se associar
ou até se fundir. Das sete Baby Bells originais só restam quatro, sendo que a
AT&T está negociando associação com uma destas. Empresas de TV a cabo e de
telefonia estão se fundindo; empresas de telefonia celular se agrupam, sendo
que uma, até então relativamente pequena, a WordCom, adquiriu um controle da
MCI, especializada nas comunicações a longa distância e que lhe era cinco vezes
maior. Observe-se que, quando foram criadas, qualquer uma das Baby Bell já era
maior que a nossa entãoTelebrás. Com fusões, incorporações e, também, grandes
investimentos no exterior, a AT&T e suas já crescidas filhas tornaram-se
empresas globais mastodônicas que, hoje, se encontram entre as maiores
corporações capitalistas do planeta.
É fácil perceber-se como o processo de quebra do monopólio nos Estados Unidos
foi lento e extremamente discutido. Não foi um processo comandado e decretado,
de cima para baixo, pelo governo, mas negociado, com mediação do governo e da
Justiça, pelas várias forças econômicas e políticas interessadas. De 1968,
quando tudo começou, até 1982, quando a Justiça decidiu, passaram-se 14 anos. A
AT&T ganhou ainda mais dois anos para desmembrar-se nas suas Baby Bells e
ajustar-se, tecnologica e empresarialmente, ao novo ambiente concorrencial.
Depois, mais discussões técnico-econômicas, políticas e jurídicas, consumiram
outros 12 anos, até a votação da nova Lei de Telecomunicações. E o processo
continua...
Europa e Japão
A quebra do monopólio da AT&T viria a ter, necessariamente, um profundo
impacto econômico e político, no mundo capitalista avançado. Imediatamente, o
governo dos Estados Unidos, à frente do qual se encontrava Ronald Reagan,
passou a pressionar os seus grandes parceiros ocidentais para também abrirem os
seus mercados de telecomunicações, pois somente deste modo poderia se
concretizar a entrada da AT&T na arena internacional. Mas a excessão do
Reino Unido, então governado por Margareth Tatcher, os demais países reagiram
com prudência: não deixariam de liberalizar as suas telecomunicações, mas o fariam
passo a passo, testando e experimentando cada fase, de modo a garantir que a
introdução de um novo marco regulatório não conduzisse a retrocessos em
aspectos importantes, especialmente os sociais e tecnológicos.
Em todos esses países, a excessão do Japão, as telecomunicações eram operadas
por entidades de administração direta, ou departamentos públicos, conhecidas
geralmente como PTTs (Postal, Telephone and Telegraph). A primeira etapa das
reformas, realizadas entre 1984 e 1988, separou os correios dos serviços
próprios de telecomunicações e incorporou estes a empresas de capital 100%
estatal: as telecoms. A British Telecom foi, pouco depois, em 1986,
privatizada, mas o Estado britânico permaneceu mantendo em seu poder, até hoje,
um tipo especial de ação - denominada "ação de ouro", ou golden share
- que lhe dá direito para intervir e até vetar algumas decisões dos sócios
majoritários, que possam afetar interesses estratégicos do Reino Unido.
As demais Telecoms - France Telecom, Deutsche Telekom, Telefónica de España,
Telecom Italia etc. - iriam permanecer estatais por ainda uma década, mais ou
menos. Conforme um programa que envolvia inclusive acordos no âmbito da União
Européia, cada país veio abrindo os segmentos mais interessantes do mercado a
terceiros investidores, sem deles excluir, entretanto, a empresa estatal. A
concorrência começou na telefonia celular, na TV a cabo, nas comunicações por
satélite, nas redes corporativas, mas levaria um bom tempo para chegar à
telefonia fixa. Novas leis, estabelecendo marcos regulatórios e, inclusive, os
limites e obrigações das Telecoms, vieram sendo introduzidas. Um país como a
França, por exemplo, teve três leis de telecomunicações, entre 1988 e 1996,
cada uma representando um avanço em relação à anterior. A Alemanha teve duas:
1988 e 1996. Em momento algum, se buscou, em uma única lei, revogar todo o
passado e pretender decretar o futuro. Ao contrário: o passado veio sendo pouco
a pouco modificado pelas novas exigências da construção do futuro.
Além de consolidar as Telecoms como grandes operadores nacionais, embora
enfrentando concorrência interna e internacional, outro aspecto importante das
legislações desses países é o princípio do serviço mandatório. Os órgãos de
regulação, ao contratarem uma concessão, podem determinar ao concessionário -
uma empresa privada - que execute certos serviços de interesse social, ou
nacional, contribua para algum programa de desenvolvimento regional, atenda a
alguma demanda de outros serviços públicos. Foram instituídos fundos, formado
com taxas cobradas sobre as tarifas e preços, para financiar serviços
deficitários. E como, sobre a Telecom recai a maior parte dos serviços de
interesse público e social, são sempre tomados cuidados para que não venha a
sofrer concorrência predatória por parte de outros competidores privados.
De qualquer forma, seria previsível que as Telecoms sofressem fortes perdas de
receitas nos segmentos mais lucrativos do mercado. Para que isso não
inviabilizasse as suas obrigações sociais e nacionais, elas foram estimuladas e
apoiadas a investir no exterior, capturando em outros países rendas que lhes
permitissem suprir as suas perdas em seus mercados nacionais. British Telecom,
France Telecom, Deutsche Telekom, Telefónica de España, Telecom Italia, e ainda
as operadoras de países menores, como Holanda, Suécia, Suiça, Portugal etc.,
iriam começar a se tornar conhecidas mundo a fora. Na América Latina, os
franceses e os espanhóis viriam a ter presença dominante. Os países
ex-socialistas do Leste Europeu tornar-se-iam presas fáceis dos alemães da
Deutsche Telekom. As norte-americanas Baby Bells também se expandiriam por
essas regiões, sobretudo controlando sistemas de telefonia celular.
Somente na segunda metade dos anos 90, depois de fortalecidas nacional e
internacionalmente, iniciar-se-ia a desestatização das Telecoms. Em alguns
casos, como na Espanha, na Itália e em Portugal, o Estado ainda mantém e deve
seguir mantendo participações superiores a 10% no capital de controle, além de
reter ações douradas. Noutros casos, o Estado ainda possui mais de 51% do
capital votante das empresas, sendo que tanto na France Telecom quanto na
Deutsche Telekom, essa participação, até agora, mantém-se em 75%. Em todos os
casos, inclusive no da pioneira British Telecom, a forma adotada para a
alienação da participação estatal foi a da oferta pública pulverizada de lotes
de ações, nas Bolsas, tomando-se cuidado para que nenhum investidor viesse a
adquirir mais de 10 a 15 por cento do capital total. Pode-se afirmar que as
Telecoms vieram a se tornar empresas acionariamente públicas, nas quais os seus
respectivos Estados estão minoritariamente associados a milhões de pequenos
acionistas e a alguns grupos de investidores com grande poder de influência nas
decisões, mas nenhuma condição para decidir sozinhos - sendo, dentre estes, os
bancos e fundos de pensão, os mais importantes. O irônico de tudo isso é que,
devido aos PEXs, a nossa Telebrás e muitas das demais "teles"
ostentavam uma situação bastante similar: na holding, o Estado detinha apenas
19% do capital total, embora esse percentual correspondesse a pouco mais de 50%
do capital votante, estando o restante do capital pulverizado entre mais de 4
milhões de pequenos e anônimos acionistas, além de alguns grandes, com ou sem
direito a voto. Não teria sido muito difícil privatizá-la apenas democratizando
de modo efetivo o seu processo decisório...
Recomendações
Recomendações à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo
1. Criar uma agência fiscalizadora estadual
As telecomunicações constituem monopólio da União, muito pouco podendo as
unidades federativas intervir em sua regulamentação, salvo através dos seus
representantes no Congresso, ou de outros instrumentos próprios da Federação.
Entretanto, o Plano de Outorgas, aprovado, nos termos da L.G.T., pelo Decreto
Nº 2.534, de 3 de abril de 1998, do Presidente da República, criou condições
para que diversos atos da União ou das suas concessionárias acabassem vindo a
ter reflexos distintos em diferentes estados ou regiões do País. Naturalmente,
as populações alvo dessas diferenciações introduzidas num Sistema que, até
então, guardava alto grau de padronização e homogeneização, começarão a ter
diversificados motivos para agir ou reagir às conseqüências desses atos. Para
tanto, precisarão de melhores instrumentos, delas mais próximos política e
legalmente, para a defesa dos seus próprios interesses e para intervenção em
decisões que lhes possam afetar, positiva ou negativamente.
Um destes instrumentos pode ser uma Agência estadual de fiscalização dos
serviços públicos de telecomunicações. Caberia a esta agência:
a) Fiscalizar, no Estado, o cumprimento das metas, regras e normas fixadas para
a(s) concessionária(s) federal(is), em colaboração com a Anatel e outros órgãos
pertinentes;
b) Acionar administrativa ou judicialmente, nos limites da lei e das
competências federal e estadual, a(s) concessionária(s) federal(is) por atos
prejudiciais aos direitos dos usuários e consumidores, no Estado;
c) Pesquisar e estudar necessidades e demandas por serviços em regime público,
no Estado de São Paulo, a fim de pleiteá-los à(s) concessionária(s) federal(is)
ou à Anatel, ou promover, por outra forma, se possível, o seu atendimento no
âmbito do Estado.
d) zelar pelo desenvolvimento permanente, em território nacional de recursos
humanos qualificados na área de telecomunicação em colaboração com universidade
e ou centros de treinamento.
2. Instituir um Fundo Estadual de Desenvolvimento Tecnológico
São Paulo tem uma longa tradição, que remonta ao século passado, de promoção do
ensino, da ciência e da tecnologia. Em São Paulo se encontra o CPqD e boa parte
da indústria nacional e estrangeira de telecomunicações. Não existe, salvo
melhor juízo, qualquer impedimento à constituição de um fundo estadual para
fomentar atividades de P&D em telecomunicações, destinando-se o grosso dos
seus recursos ao CPqD.
Interessa a São Paulo a manutenção e o fortalecimento do CPqD. Na medida em que
lá se realizam pesquisas de ponta em telecomunicações, ele atrai para o nosso
Estado, como sempre atraiu, empresas ecologicamente "limpas"; forma
mão-de-obra de alta qualificação; fortalece a posição de São Paulo nessa
chamada nova "economia do conhecimento". Se, infelizmente, passou a
ser um projeto do conjunto do País, através das forças econômicas e políticas
de diversas origens que o conformam, esvaziar o CPqD, tal não precisa ser o
projeto de São Paulo. Até que outra conjuntura nacional se afirme, podemos ter
como meta o fortalecimento do CPqD, a retomada das suas brilhantes atividades de
pesquisa e desenvolvimento na ponta tecnológica, daí intervindo por todos os
meios ao alcance do Estado, para que não sucumba à volta ao passado que hoje
parece empurrar a sociedade brasileira.
Independentemente de qual venha a ser a participação final do
CPqD no Funttel, recursos para o desenvolvimento científico e tecnológico,
especialmente neste campo das telecomunicações, nunca são suficientes.
Considerando, por outro lado, que o mercado de serviços de telecomunicações de
São Paulo é o maior do país, logo extremamente atrativo; e que algumas
empresas, sobretudo a Telefónica, uma vez aqui instaladas, nele serão obrigadas
a permanecer por muitos anos; um recolhimento extra, estadual, para esse fundo,
não constituirá nenhum fator de "desestímulo" a atração de
investimentos, e ainda representará uma contribuição de São Paulo à realização
de um esforço de desenvolvimento tecnológico que, ao fim e ao cabo, servirá
para todo o Brasil. Evidentemente, ao sugerir a instituição de um tal fundo,
estamos admitindo que São Paulo precisará ter uma voz mais ativa nos rumos
futuros do CPqD.
3. Fortalecimento da Anatel
Será necessário dotar a Anatel de alguns novos instrumentos que a deixe menos
dependente das informações a ela repassadas pelas empresas operadoras, sobretudo
aquelas informações de interesse dos usuários ou da Nação. Neste sentido,
estamos propondo:
a) que a Anatel se dote de um serviço 0800, para receber pedidos e reclamações
dos assinantes quanto a defeitos, instalações, mudanças de endereço, erros de
cobranças e outros. As tecnologias atualmente disponíveis permitem
perfeitamente que o assinante, através do 0800, faça diretamente à Anatel a sua
reclamação ou pedido, sendo esta comunicação imediata e automaticamente, sem
qualquer intervenção humana, comunicada à operadora pertinente. Em sentido
contrário, a operadora, uma vez tenha atendido o assinante, terá o maior
interesse em "dar baixa" nos registros daquela reclamação ou pedido,
que se encontrem nas bases de dados da Anatel. Um tal sistema tornaria a Anatel
inteiramente independente de relatórios sobre qualidade de serviços a ela
fornecidos pelas operadoras, cujos dados podem estar "maquiados", e
ainda lhe forneceria, em tempo real, informações sobre a evolução desses
indicadores, possibilitando - quem sabe? - intervir mais pronta e
preventivamente nas situações problemáticas.
b) que as contas telefônicas passem a ter um "canhoto" contendo um
resumo da quantidade de ligações feitas (pulsos, minutos etc) e valores
cobrados, a ser enviado, pelo banco ou agência de cobrança, para a Anatel.
Desta forma, a Anatel passaria a dispor, diretamente, também sem depender de
relatórios das operadoras, de informações-chaves sobre volumes de tráfego
(local, interurbano e internacional) e receitas deles derivadas, podendo
entabular, com mais segurança e autonomia, negociações com as empresas
concessionárias, sobre atendimento de metas, tarifas, planos futuros etc. Muito
pouca gente sabe mas, nos tempos da Telebrás, o Estado brasileiro dispunha mês
a mês, de um detalhadíssimo levantamento do volume de tráfego, em todo o País.
Hoje, certamente, estas são informações estratégicas muito bem guardadas dentro
das empresas privatizadas. São porém essenciais para se fazer política de
telecomunicações ou, em outras palavras, para o correto exercício do monopólio
constitucional pela União, mesmo que através de empresas sob controle privado.
4. Conselho de Representantes
Tanto a Anatel como a agência estadual, que será criada, devem ter como
prioridade absoluta a defesa dos direitos do consumidor. Mas isso não basta, é
preciso que seja criado um Conselho, também com representantes da sociedade
civil, com competência para estabelecer multas às empresas de telefonia que
faltarem com seus compromissos em relação a qualidade da prestação de serviços.
Estas multas serão revertidas em favor do consumidor prejudicado. E mais: tendo
em vista que o consumidor tem recorrido às entidades de defesa do consumidor,
para reclamar seus direitos, estas também devem ser ressarcidas por conta de
eventuais transtornos causados pela prestação de serviços.
5. Audiências Públicas
Sempre que necessário, a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo deverá
convocar a Telefonica e demais empresas de telecomunicações para prestar
esclarecimentos em audiências públicas, sobre questões como tarifas e serviços.
6. Auditoria junto à Telefonica
Em razão dos muitos prejuízos causados pelos muitos problemas ainda não
explicados o suficiente, é necessário que a Anatel promova uma profunda
auditoria na empresa Telefonica, em relação a cumprimento de metas de
investimentos, nível e qualidade de mão-de-obra e qualidade dos serviços
prestados até o momento. Para que seja assegurada a lisura desta auditoria,
representantes de entidades da sociedade civil deverão participar do processo.
7. Prestação de Contas; Fiscalização e Controle.
Como empresas prestadoras de serviço público, as operadoras de telecomunicações
deverão, pelos menos a cada seis meses, encaminhar à Assembléia Legislativa,
relatório completo sobre suas atividades, envolvendo questões de ordem técnica,
administração de pessoal (sobretudo nível técnico) e planejamento estratégico.
Ao lado da necessária prestação de contas, é preciso fiscalização e controle
junto às empresas privadas que prestam serviços sob concessão da União. Do
Estado ou do Município. Para que esta prerrogativa seja assegurada aos
deputados estaduais, junto com este Relatório é apresentado à Casa, para
análise de mérito e legalidade, Projeto de Lei estabelecendo tais atribuições
aos parlamentares.
Este, então, é o parecer que junto com o projeto de lei, anexo, submeto à
apreciação dos meus nobres pares nesta Comissão.
São Paulo, 19 de Agosto de 1999
a) Edna Macedo
Comissão Parlamentar de Inquérito
COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO CONSTITUÍDA COM A FINALIDADE DE APURAR
A REAL SITUAÇÃO EM QUE SE ENCONTRA A PRESTAÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO DE TELEFONIA
FIXA NO ESTADO DE SÃO PAULO, ORA PRATICADO, SOB CONCESSÃO, PELA EMPRESA
DENOMINADA TELEFÔNICA, ASSIM COMO O CUMPRIMENTO DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS
OBJETO DA REFERIDA CONCESSÃO.
Aprovado o Voto em Separado.
Sala das Comissões, em 19/8/99.
a) Edson Aparecido - Presidente
Edna Macedo, Edson Ferrarini, Antonio Salim Curiati, Luiz Gonzaga Vieira,
Célia Leão, Eli Corrêa Filho, Jilmar Tatto (com o relatório), Edson Aparecido,
Lobbe Neto.
RELATÓRIO FINAL DA COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO CONSTITUÍDA NA ASSEMBLÉIA
LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO COM A FINALIDADE DE APURAR A REAL SITUAÇÃO
EM QUE SE ENCONTRA A PRESTAÇÃO DO SERVIÇO PÚBLICO DE TELEFONIA FIXA NO ESTADO
DE SÃO PAULO, ORA PRATICADO, SOB CONCESSÃO, PELA EMPRESA DENOMINADA TELEFÔNICA,
ASSIM COMO O CUMPRIMENTO DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS OBJETO DA REFERIDA
CONCESSÃO, CONVERTIDO EM VOTO EM SEPARADO.
Sumário
INTRODUÇÃO
I.I. Instituição da CPI
I.II. Queda de qualidade nos serviços
I - Depoimentos à CPI
1.1. Os órgãos de defesa do consumidor
1.1.1. Procon
1.1.2. Idec
1.2. Os sindicalistas
1.2.1. Fenatel
1.2.2. Fittel
1.3. Professor Marcio Wohlers
1.4. Os executivos da Telefónica
1.5. Os empresários
1.5.1. Marcelo Abreu, da Abercotel
1.5.2. Eduardo Capobianco, do Sinduscon
1.5.3. Edvaldo Sarmento, do Sindimesp
1.6. Telesp estatal
1.7. O legislador
1.8. O CPqD
1.9. A Anatel
II - A Telefónica no Brasil
2.1. A Telesp antes da privatização
2.2. Chega a Telefônica
2.2.1. As metas
2.2.2. Recursos e investimentos
2.2.3. Gestão empresarial
2.2.4. A atuação da Anatel
III - Da Telesp estatal nacional à Telefônica privada estrangeira
3.1. De volta ao passado
3.2. Investimentos: contenção e retomada
3.3. O Plano de Metas (Paste)
3.4. Cenários mundiais
3.4.1. Estados Unidos
3.4.2. Europa e Japão
3.5. Fatiamento e desnacionalização do Sistema brasileiro
3.5.1. As reformas legais
3.5.2. A Lei Geral
3.5.3. Divisão da Telebrás
3.5.4. Discussão do novo modelo
3.5.4.1. Dificuldades à universalização
3.5.5. Política industrial e tecnológica
3.5.5.1. A abertura
3.5.5.2. A cláusula 15.8
3.5.5.3. O CPqD tem futuro?
IV - Conclusões e recomendações
4.1. A principal conclusão
4.2. Telefonia ainda é um serviço público
4.3. Recomendações
4.3.1. Recomendações à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo
4.3.1.1. Criar uma agência fiscalizadora estadual
4.3.1.2. Instituir um Fundo Estadual de Desenvolvimento Tecnológico
4.3.3. Fortalecimento da Anatel
4.3.4. Conselho de Representantes
4.3.5. Audiências públicas
4.3.6. Auditoria junto à Telefônica
4.3.7. Prestação de contas, Fiscalização e controle
4.3.8. Análise sobre contratos e serviços
4.3.9.Cotinuidade dos trabalhos da CPI
INTRODUÇÃO
Em 31 de Março de 1999, a Assembléia Legislativa do Estado de S. Paulo, aprovou
a constituição de CPI da TelefÔnica por requerimento do Deputado Campos
Machado, conforme Regimento Interno desta Casa, tendo por objetivo apurar a
real situação em que se encontra a prestação do serviço Público de telefonia
fixa no Estado de São Paulo ora praticado, sob concessão, pela empresa
denominada Telefônica, assim como o cumprimento das cláusulas contratuais
objeto da referida concessão. Integram a referida Comissão os seguintes
membros: Edson Aparecido (PSDB) – Presidente, Jilmar Tatto (PT)- Relator, Maria
do Carmo Piunti (PSDB), Antônio Salim Curiati (PPB), Edson Ferrarini (PL), Eli
Correa Filho (PFL), Lobbe Neto (PMDB), Edna Macedo (PTB) e Luiz Gonzaga Vieira
(PDT).
A CPI iniciou seus trabalhos no dia 08 de Abril de 1999. A partir desta data e
nas sessões seguintes decidiu convocar para aqui vir dar testemunho, 10
personalidades ligadas às atividades de telecomunicações, cujos esclarecimentos
muito nos poderia ajudar a entender os problemas atualmente enfrentados pelos
serviços de telecomunicações no Estado de São Paulo. Além disso, requereu à
empresa Telesp Participações S.A., à Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) e a outras entidades, quando cabível, um grande conjunto de dados e
informações que nos permitiu constituir um acervo considerável de documentos,
agora à disposição desta Assembléia Legislativa.
O Relatório que ora se apresenta visa apresenta o resultado da investigação
desenvolvida, de forma a permitir à CPI definir os seus novos passos. Neste
sentido, este Relatório proporcionará aos Srs. Deputados uma visão de conjunto
daquilo que pareceu a este Relator ser essencial nos depoimentos ouvidos, bem
como apresentará a nossa compreensão, à luz dos dados e informações até aqui
obtidos, dos fatos que acarretaram a instalação desta CPI.
I.I. Queda de qualidade nos serviços
Já nos primeiros meses da transferência do controle da Telesp das mãos da União
para a empresa espanhola Telefônica, a partir de agosto de 1998, e a população
do Estado e da Cidade de São Paulo começou a sentir os efeitos de uma acentuada
degradação na qualidade dos serviços.
Em 6 de janeiro, de 1999, o jornal Estado de S. Paulo noticiou:
"Telefônica entrega 12 mil telefones mudos"
Também na Folha de S. Paulo, de 08 de janeiro de 1999, publicou-se:
"Telefônica usa gravação por prazo irregular"
Pressionada pelas reportagens, a Direção da Telesp Participações S.A., holding
que agora controla a Telesp e a CTBC, manifestou-se em 08 de janeiro, conforme
publicado na Foljha de S. Paulo:
"A Telefônica afirma que a expansão da rede obrigou a muitas trocas de
números de telefones".
"Quando atingimos o patamar de 150 mil linhas, agora em janeiro, as
empreiteiras deixaram de encontrar mão-de-obra, o que acabou criando
dificuldades... As medidas mostram que, neste final de janeiro já estaremos nos
aproximando do controle da situação" (Fernando Xavier Ferreira – Gazeta
Mercantil de 26 de janeiro, de 1999)
Mas logo, também a Fundação Procom sentia-se pressionada a vir a público:
"Uma ação de não cumprimento de um serviço oferecido é praticamente
líquida e certa... Quando assumiu a empresa, a Telefônica assumiu também todos
os compromissos e ônus" (Maria Inês Fornazaro – Procon (Gazeta Mercantil,
07 de janeiro de 1999).
A população paulista vinha se defrontando com uma acentuada, inesperada e
inexplicada queda na qualidade dos seus serviços de telecomunicações, o que
ficava evidente não só pelo caos da telefonia, mas também pelos inúmeros
protestos e reclamações verificados nos meios de comunicação naquele período.
I
Depoimentos à CPI
Sendo objetivo da Comissão Parlamentar de Inquérito apurar a real situação em
que se encontra a prestação do serviço público de telefonia fixa no Estado de
São Paulo, ora praticado sob concessão, e investigar as causas da degradação do
serviço telefônico em São Paulo, tão logo o controle da Telesp foi transferido
da União para uma empresa privada estrangeira, vejamos como vários depoentes
convidados buscaram esclarecer-nos sobre o problema.
1.1. Os órgãos de defesa do consumidor
Os depoimentos prestados pelas Sras. Maria Inês Fornazzaro, diretora-executiva
da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor do Estado de São Paulo
(Procon/SP), e Flávia Lefevre Guimarães, Coordenadora do Departamento Jurídico
do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), permitiram a esta CPI
obter um quadro muito claro do grau de insatisfação dos usuários com os
serviços prestados pela Telefônica, bem como dos tipos de problemas mais
comuns. Ficou evidente que, diante da ausência ou inoperância da Anatel, foi ao
Procon e ao Idec que se dirigiram, num primeiro momento, milhares de
paulistanos prejudicados por defeitos ou cortes em suas linhas, atrasos de PEX,
erros nas contas etc.
1.1.1. Procon
Nos meses de janeiro a abril do corrente ano, foram recebidas pelo Procon 5.192
reclamações contra a Telefônica. Durante todo o ano de 1998 as reclamações
totalizaram 4.221, das quais 1.399 apenas no mês de dezembro. Diante da
gravidade da situação, a Fundação Procon/SP logrou celebrar, em 30 de março
último, um Termo de Compromisso de Ajustamento com a Telefônica, com o objetivo
de eliminar os planos de expansão vencidos, definir prazos para o atendimento
às solicitações de reparos e mudanças de endereço e garantir o ressarcimento de
contas erradas, emitidas em detrimento ao consumidor. No caso de solicitações
de reparo, o termo de compromisso assegurava que o atendimento devia ser feito
em até cinco dias. Observe-se que, quando estatal, a Telesp fixava este prazo em
três dias, lembrou a Sra. Maria Inês Fornazaro. Ou seja, o novo controlador
privado estrangeiro comprometeu-se com prazos mais extensos e menos favoráveis
aos seus usuários do que aqueles antes assumidos pelo operador estatal.
Entretanto, a Telefônica concordou, neste mesmo Termo de Compromisso, em
retornar aos prazos de três dias, a partir de 1º de junho. No caso de não
cumprimento das condições estabelecidas, de acordo com o Código de Defesa do
Consumidor, a Telefônica arcará com multa diária de R$ 100 mil.
O Termo de Compromisso também determinou a formação de um grupo de trabalho que
reuniu-se três vezes até 23 de abril de 1999. Em sua última reunião, nesta
data, foi constatado que a Telefônica vinha cumprindo até então as condições do
Termo, nos prazos determinados. Na ocasião, a Fundação Procon alertou a empresa
para problemas relativos ao atendimento dos Postos de Trabalho da Telefônica.
A Diretora do Procon admitiu que o período pós-privatização coincidiu, de fato,
com a ocorrência de um grande número de PEXs vencendo. Entretanto, tal não
eximiria a operadora da obrigação de entregar as linhas. Não fazê-lo
"configurou uma falta grave diante do Código de Defesa do
Consumidor", assegurou a Sra. Fornazzano. Foi preciso a intervenção do
Procon para resolver um grande número de casos relativos aos PEXs. A empresa,
em audiências no Procon, passou a fixar prazos para a instalação das linhas,
fato que não ocorria quando o consumidor dirigia suasreclamações diretamente a
ela. Aliás, segundo avaliação da Diretora do Procon, "é extremamente
precário o funcionamento das centrais de atendimento ao usuário da
Telefônica". Os consumidores também reclamaram, no Procon, que
"para ser atendido hoje, em uma loja da empresa, é preciso chegar às
quatro horas da manhã, é preciso passar horas na fila, e que portanto a fila do
Procon é muito mais eficiente e ágil do que a própria fila da empresa".
Outro problema refere-se aos inúmeros usuários que necessitam das suas linhas
telefônicas para trabalhar, prestar serviços; ou seja, que dependem do telefone
para obter alguma forma de receita. Para atenuar os reais prejuízos ou lucros
cessantes constatados nessas situações, as quais afetam em larga medida,
pequenos comerciantes, trabalhadores autônomos e demais profissionais, os bônus
oferecidos pela Telefônica são claramente insuficientes e o Procon tem
orientado a empresa a tratá-los caso a caso, com cada usuário.
Outra reclamação comum, ouvida pelo Procon, refere-se à prática da empresa de
levar a linha telefônica apenas até um poste próximo à residência do usuário.
Daí para dentro de casa, a iniciativa e responsabilidade são inteiramente da
conta da pessoa interessada. Vários consumidores relataram casos de pagamento
de "propinas/gorjetas" para os funcionários das empresas terceirizadas
fazerem o resto do serviço; em geral, os mesmos que levaram a linha até o
poste. A Sra. Maria Inês Fornazzaro afirmou que o Procon
"trata dessa questão diretamente com a empresa Telefônica, porque a
empresa, pelo Código de Defesa do Consumidor, é responsável pelos seus
prepostos, deles deve dar conta e por eles deve ser responsável".
A Sra. Maria Inês Fornazzaro deixou claro que a Anatel agiu, no mínimo, de modo
muito lento e pouco cuidadoso diante de toda essa situação. Foi o Procon que
procurou a Anatel e, em momento algum foi procurado pela agência federal.
"Não houve respaldo expressivo da Anatel", disse a Diretora do
Procon. A Agência apenas informou que estava fazendo um auditoria na empresa
naquela ocasião, sem nenhum outro contato.
Por fim, segundo a Sra. Fornazzaro:
"não se pode dizer que a Telefônica tinha resolvido satisfatoriamente, até
esta data, todos os problemas, pois os mesmos ainda não haviam acabado.
Reclamações ainda estavam chegando ao Procon".
1.1.2. Idec
Assim como a Diretora do Procon, também a Coordenadora do Departamento Jurídico
do Idec, Flávia Lefevre Guimarães, reclamou da passividade da Anatel diante do
crescendo de problemas e da sua pouca disposição para trabalhar em conjunto com
as entidades ligadas à defesa do consumidor. Ela acrescentou que:
"A Anatel foi criada e ela não completou a sua atribuição. A concessão já
foi feita e ainda não existem os mecanismos de controle desses serviços".
Segundo Flávia Lefevre Guimarães, no Idec foram registradas cerca de 300
reclamações desde janeiro de 1999, sendo que o órgão é limitado e não tem a
capacidade de intervenção do Procon. A maioria das reclamações foram relativas
a mudança de prefixo com o telefone ficando mudo. Muitos queixaram-se também da
falta de atenção da Telefônica, quando era informada dos problemas e chamada a
resolver a situação.
1.2. Os sindicalistas
A CPI ouviu os dirigentes das duas centrais sindicais que representam os
trabalhadores do setor de telecomunicações, a maciça maioria deles já empregada
nas empresas, quando ainda eram estatais. A Federação Nacional dos
Trabalhadores em Telecomunicações (Fenatel), presidida pelo Sr. Almir Munhoz,
coordena exatamente o Sindicato dos trabalhadores da Telesp, e mais dois ou
três em outros estados brasileiros. Já a Federação Interestadual dos
Trabalhadores em Telecomunicações (Fittel), presidida pelo Sr. Luis Antonio
Souza e Silva, coordena 17 sindicatos, dentre os quais o sindicato dos
trabalhadores da CRT (empresa também controlada pela Telefônica), da Telepar,
da Telebrasília e os sindicatos de todas as empresas sob o controle da Telemar.
Ambos os dirigentes sindicais, em seus depoimentos à CPI,
convergiram para um mesmo ponto: um dos principais motivos da brutal queda na
qualidade dos serviços pode ser atribuído a um também brutal corte de 17% nos
efetivos empregados pela Telesp. Além da instabilidade interna que uma tal
política de pessoal gerou afetando, obviamente, as condições psicológicas e
mentais de trabalho de cada um dos que ficaram, aquele corte acarretou uma
perda importante da memória organizacional, pois se abateu sobre centenas e
centenas dos mais experientes e qualificados trabalhadores.
1.2.1. Fenatel
O Sr. Almir Munhoz explicou que, para o cumprimento, por parte da Telefônica,
das metas impostas pela Anatel, seria preciso investir maciçamente e contar com
pessoal qualificado. Mas, ao invés disso, a empresa preferiu dispensar 3 mil
trabalhadores durante os meses de novembro e dezembro, através de um suposto
Plano de Demissão Voluntária. Comentou o presidente da Fenatel:
"Está certo que, realmente, esse pessoal saiu por demissão voluntária, por
vontade própria. Mas são três mil funcionários a menos do quadro efetivo.
Acarretou que [...] aumentou a demanda e a cobrança do próprio usuário, com
toda razão, [pois] o seu serviço tem que ser atendido. [Isto] está fazendo com
que os funcionários tenham sobrecarga de trabalho".
O Sr. Almir Muniz revelou um outro grave problema, de natureza operacional, que
começou a clarear para esta CPI uma das causas imediatas, mais diretas, da
queda generalizada na qualidade dos serviços prestados pela Telesp, depois que
foi desnacionalizada: a ocupação, no limite, da capacidade instalada de
centrais e cabos, como forma de atender às metas impostas pela Anatel, poupando
os espanhóis de investir em uma real expansão da rede. Antes, era prática da
Telesp reservar de 10% a 20% da sua capacidade para atender a casos
emergenciais, a consertos de linhas etc. Explicou o Sr. Muniz:
"Se havia um poste que poderia atender 20 assinantes, 18 eram atendidos e
dois pares ficavam como reserva técnica. [...] Chegou-nos esta informação de
que a Telefônica, para instalar os telefones rapidamente, pois estava devendo
até planos de expansão anteriores, acabou usando esta reserva técnica [que
servia para] atendimento da remoção de defeitos: um telefone que poderia ser
atendido rapidamente hoje, já não [conta] lá com um par vago. [Por isso]
realmente tem uma demora maior".
Para o dirigente sindical esses problemas (especialmente os relativos à
dispensa de mão de obra experiente), podem ter sua origem última no próprio
modelo que presidiu o processo de privatização do antigo Sistema Telebrás,
definido através da Lei Geral de Telecomunicações. Isto porque
"a lei geral de telecomunicações não protege a empresa nacional...como não
protegeu o emprego, como não protegeu o quadro de pessoal".
1.2.2. Fittel
Para o Coordenador-Geral da Fittel, Sr. Luiz Antônio Souza e Silva, a origem
dos atuais problemas enfrentados pelos paulistanos em relação à Telesp pode ser
localizada na implementação do modelo de privatização, ou seja na execução da
Lei Geral de Telecomunicações e na atuação da Anatel.
"Temos que estabelecer, em primeiro lugar, que existe responsabilidade
muito grande, não só no processo de privatização, mas pós-processo de
privatização, porque foi uma matéria extremamente debatida no País inteiro,
pelo grau de polêmica, pelos valores envolvidos na privatização, na compra;
pelos valores envolvidos com relação a equipamentos, que são uma parte
importante. Se estabeleceu um novo projeto, que se consagrou com a Lei Geral de
Telecomunicações. Essa Lei Geral teve algumas questões importantes a serem
ressaltadas, que talvez entendamos melhor o que está acontecendo hoje".
O Coordenador da Fittel sublinhou que, neste novo ambiente regulatório, a
Anatel, enquanto agência reguladora e fiscalizadora, assume uma
responsabilidade muito grande que deve, porém, ser repartida com o restante da
sociedade. Autoridades estaduais e municipais, bem como órgãos legislativos,
deveriam se envolver mais nas atividades de fiscalizar as empresas, buscando
conhecer, influir e acompanhar os seus planos e decisões:
"A Anatel tem um trabalho muito grande [para fazer] e acho que seu
desdobramento vai ser este: um desdobramento estadual e municipal para que se
possa fiscalizar. As empresas teriam que ser obrigadas a vir aqui e apresentar
seu plano anual de expansão, dizer o que vão fazer, suas metas de qualidade.
Isto não pode ser segredo, tem que ser apresentado. A Anatel pode ter esta
característica [de cobrar essas informações], mas precisamos atuar: o Poder
Legislativo tem que ter seu representante, porque [...] são assuntos
extremamente relevantes para a população e para todo mundo. Acho que a Anatel
pode ter esta característica, para que o setor sindical, os deputados,
vereadores, a sociedade civil organizada, de fato, possam atuar para que
tenhamos serviços de telecomunicações com maior qualidade".
Em seus comentários sobre o "pós-privatização", o Sr. Souza e Santos
expressou especial preocupação em relaçãoao futuro do parque industrial e
tecnológico nacional. Segundo ele, o desenvolvimento do Brasil neste setor
encontra-se ameaçado, na medida em que os novos controladores estrangeiros
prefiram privilegiar fornecedores de seus países, em detrimento de produtos ou
equipamentos desenvolvidos com tecnologia brasileira. Citou um caso concreto
que se passou no Rio Grande do Sul, onde a Telefônica controla a CRT. Lá, os
espanhóis quiseram substituir os telefones públicos a cartão indutivo (uma
tecnologia genuinamente brasileira) por aparelhos importados, tecnologicamente
mais atrasados, que ainda usam moeda:
"A Telefônica não tem essa tecnologia [de telefone a cartão indutivo], o
seu fornecedor não tem. A tecnologia que [ela] tem é a de telefone público de
moeda. Eles queriam trocar toda a planta de telefone público do Rio Grande do
Sul, porque o seu fornecedor estava impondo a troca para vender o telefone de
moeda. O Governo teve que intervir e fez com que mantivesse o telefone indutivo
que, por sinal, é uma tecnologia nacional desenvolvida aqui no País, e muito
mais barata, que agora inclusive está sendo exportada".
Lembrou o Sr. Souza e Silva que, com base na Lei Geral de Telecomunicações, o
governo deveria fazer aprovar duas novas leis: uma, criando o Fundo de
Universalização; e outra, instituindo um Fundo para o Desenvolvimento
Tecnológico. Nenhuma das duas leis foi, até hoje, aprovada no Congresso. Daí
que
"o CPqT [Centro de Pesquisa da Telebrás] acabou virando uma fundação
privada e não tem recursos para os próximos dois anos. A partir disso,
poderemos não ter mais desenvolvimento tecnológico no País, na área de
telecomunicações. Isso é grave do ponto de vista científico, técnico, e grave
também por conta da indústria nacional de telecomunicações, que pode [vir a]
ser simplesmente um entreposto da indústria de telecomunicações
internacional".
Por fim, mas não por último, o Sr. Souza e Silva relacionou a queda na
qualidade dos serviços de telecomunicações oferecidos em São Paulo, ao processo
de corte de mão-de-obra, vivido pela Telesp e outras empresas
recém-privatizadas.
"Essas empresas, ao comprar, querem efetivamente ter lucro o mais rápido
possível. Esse processo de plano de demissão incentivada, que aconteceu de
Norte a Sul deste País, foi para economizar. E uma das causas, não toda, mas
uma das causas dos problemas de qualidade dos serviços de telecomunicações é a
falta de mão-de-obra [...] Quando você demite uma quantidade de trabalhadores
com grau de experiência e especialização, a qualidade do serviço tende a cair,
porque para um trabalhador ter capacidade plena em seu serviço, demora algum
tempo de treinamento e de prática nesse serviço".
Acompanhado às demissões estaria avançando um processo de terceirizar os
serviços e precarizar as relações de emprego, cujas conseqüências seriam ainda
mais "nefastas" para a qualidade da rede. As empresas prestadoras de
serviços de manutenção, registram, na carteira de seus empregados, salários
muito baixos, mas pagam-lhes comissões extras a título de produção. Essa
produção é medida em unidade de instalação ou em retirada de defeitos. Daí
decorre o que o sindicalista denunciou como "indústria do defeito":
"Tiro um defeito e coloco dois, para que este trabalhador de alguma forma
possa ter a sua remuneração mais ou menos".
1.3. Professor Marcio Wohlers
O depoimento do Professor Marcio Wohlers, da Faculdade de Economia da
Universidade Estadual de Campinas (FEA-Unicamp), ofereceu a esta CPI uma das
mais abrangentes visões dos fatores que condicionaram o processo de
privatização e desnacionalização da Telesp, daí derivando muitas conseqüências
tanto econômicas quanto sociais que acabam por se refletir, positiva ou
negativamente, no dia a dia dos cidadãos e das empresas. O Prof. Wohlers nos
explicou a lógica - nem sempre muito clara e quase sempre obnubilada por
discursos ideológicos ou interessados - que preside o funcionamento dos vários
agentes e atores neste mundo das telecomunicações. O depoente muito contribuiu
para esclarecer à CPI sobre a real natureza dos problemas atualmente
enfrentados pela população paulistana em relação a Telefônica.
Dando-nos uma autêntica e necessária aula, o Prof. Wohlers explicou que
"Para analisar o problema do desempenho de uma concessionária, seja de
telecomunicações, seja de qualquer outro serviço público, é necessário que
tenhamos em mente que dentro de um sistema de concessões há quatro agentes
fundamentais envolvidos, e que existem relações hierárquicas entre eles [...] O
cidadão usuário elege um governo [...] esse governo, por sua vez, pode ele
mesmo oferecer o serviço público, fiscalizar o serviço público, operar e
regular. Ou então ele pode, o Governo, o sistema legislativo, criar uma agência
regulatória [...] um depende do outro, hierarquicamente. E, por sua vez, essa
agência regulatória, através de um contrato de concessão, fiscaliza a
concessionária de acordo com ele e todas as demais regras regulatórias. Temos,
então, uma cadeia que vai desde o cidadão, governo, órgão regulatório e empresa
concessionária".
E prossegue:
"Acontece que, em economia, nessa cadeia há duas questões fundamentais: de
um lado quem tem mais informações sobre o sistema é a empresa concessionária,
ela detém a informação máxima. Ela sabe os custos, ela toma as decisões
empresariais, e há uma perda de informação à medida que saímos da empresa
concessionária. O órgão regulatório não tem condições de saber tudo o que a
empresa faz; por sua vez o governo e o legislativo não têm condições de saber
tudo o que o órgão regulatório faz, e o cidadão também não tem condições de
saber tudo o que o governo trata".
E deixa absolutamente claro:
"A empresa sabe muito e o cidadão sabe pouco".
Por isto, analisar e explicar o que aconteceu à Telesp, depois de adquirida
pela Telefónica, acaba limitado ao que nos informa a imprensa ou ao que se pode
extrair das pessoas ligadas, de alguma forma, à área. "Qual a argumentação
da concessionária que aparece nos jornais?", perguntou-se o Prof. Wohlers.
Segundo ele, a explicação daTelefónica pode ser interpretada pelo
"que os economistas chamam de 'trade-off', ou seja, uma escolha entre
qualidade e quantidade. Diz a empresa: saltamos para um novo patamar de ofertas
- verdade - que inevitavelmente conduziria a uma transitória queda da
qualidade..."
Assim,
"A saturação da rede antiga exigiria obras de vulto, cirurgias, corte de
rede muito fortes, que levariam a problemas, qualquer que fosse a operadora que
tivesse ganho a privatização, argumenta a própria Telefónica. Estes são os
argumentos da operadora".
Mas, para o Prof. Wohlers quem está "no ramo" pode perceber outros
aspectos:
"Para quem está no ramo, principalmente os engenheiros, seja os clientes
das empreiteiras, seja as empreiteiras prestadoras de serviços, o grau de
serviço em uma obra de telecomunicações ou em uma rede de telecomunicações ou
em serviços de telecomunicações dependem de duas coisas: recursos humanos e
recursos materiais".
Quanto a recursos humanos, devem
"ser analisados entre dois prismas: primeiro, o aspecto quantitativo dos
recursos humanos, ou seja: o número de pessoas alocadas às tarefas estão em
volume adequado? E o aspecto qualitativo: as pessoas alocadas possuem
capacitação adequada?"
Com base no noticiário da imprensa e "nas afirmações de técnicos
especializados", o Prof. Wohlers supõe que:
"três fatores ocorreram: redução do quadro de funcionários, terceirização
indiscriminada e renegociação, com arrocho, com as empresas de engenharia,
levando a fortes problemas na gestão de recursos humanos".
Quanto a recursos materiais, de novo, é preciso analisá-los sob os prismas
quantitativo e qualitativo:
"As mesmas perguntas devem ser feitas: o volume de recursos materiais
disponibilizados está dimensionado corretamente para o serviço? Os recursos
materiais empregados têm a confiabilidade requerida e possibilitam um gerenciamento
eficaz das obras? Esses recursos materiais permitem ações preventivas, feitas
no lugar de ações corretivas onde apareceram problemas?"
Citando palavras do Presidente da Anatel, Sr. Renato Guerreiro, em entrevista
ao jornal "O Estado de São Paulo", de 2 de maio de 1999, página B-11,
que informa sobre uma diligência feita pela Anatel na Telefônica, o Prof.
Wohlers fez-nos três avaliações sobre esse quesito "qualidade dos
materiais".
"A primeira avaliação: a estratégia da Telefónica foi de alto risco, para
acelerar o trabalho.
"Segunda: revelou-se equivocada, sob o ponto de vista empresarial e de
engenharia, embora tenha antecipado receita, ou seja: ligações. Um patamar novo
de ligações que produzem mais receitas.
"Terceira avaliação do Dr. Renato Guerreiro: poderia ter sido feita uma
rede alternativa, embora seja uma hipótese mais cara".
Daí que o Professor Wohlers também não tem dúvidas:
"conversando com os técnicos, [percebe-se que] era possível minimizar
sensivelmente a queda dos serviços e, no mínimo, ter maior consideração com o
usuário, ou seja: o usuário deveria ser informado antes e não depois - um mês
ou dois - da perda de qualidade dos serviços".
É aqui que entra a responsabilidade do Governo, ou da Anatel – o segundo
elemento da cadeia de regulação de uma concessão pública. O Prof. Wohlers -
destacando a sua condição de quem participou, como membro-conselheiro, do
Conselho Consultivo da Anatel e, entre outras atividades, pôde analisar o Plano
Geral de Outorgas e o Plano de Universalização – chegou à seguinte conclusão:
"a Lei Geral de Telecomunicações e a própria Anatel têm um pecado original
de uma centralização federal excessiva".
E sugeriu:
"Temos que analisar outras experiências de países continentais que têm
bastante experiência em agências reguladoras, como o sistema americano, que tem
uma constituição diferente. Não podemos, é lógico, imitar o que fazem os Estado
Unidos, mas é uma experiência onde existem órgãos públicos estaduais
reguladores que têm impacto local".
Além disso,
"no sistema americano de regulação está embutido, no órgão regulador, um
sistema judiciário. Ele dispõe de órgãos togados, e ele é última instância, não
há como recorrer ao Supremo, não há como recorrer a outros órgãos. O órgão
regulador tem poder de fato e de direito. A nossa Anatel parece com a FCC
americana, mas ela não é, porque é uma autarquia ministerial e tem os poderes
de uma autarquia ministerial. Ela tem regras de independência, mandato fixo,
mas ela é uma autarquia".
Daí que, o regime regulatório brasileiro ainda deve
"evoluir, seja no sentido de descentralizar, seja fazendo uma profunda
reformulação para que a Anatel possa ter mais poder judiciário. Enquanto isto
não for feito, tem que ser realizadas audiências públicas estaduais. A Anatel
já perdeu algumas oportunidades de [realizar] algumas audiências públicas - que
ela faz em Brasília para os setores interessados - mas [que] poderia vir e
chegar mais próximo à população. É insuficiente esse escritório regional que
ela tem em São Paulo; ela pode e deve descentralizar mesmo essas regras do
jogo, e fazer audiências públicas estaduais".
O outro elo da cadeia regulatória é o cidadão usuário:
"Hoje o cidadão está mais consciente, menos ingênuo quanto às falsas
promessas da privatização. Vemos que mais importante que a privatização é a
concorrência, vide a concorrência na telefonia celular. Pode ser que essa
concorrência chegue à telefonia fixa, mas enfim, o usuário tem que se
transformar num cidadão enquanto tal, e existem maneiras de se auxiliar esse
processo político do consumidor, seja através de conselhos de usuários [...],
seja por uma sociedade civil mais organizada, seja por um legislativo estadual
e municipal mais ativos".
Na parte final da sua intervenção e, depois, durante os debates com os Srs. e Sras.
Deputados, o Prof. Wohlers fez duras críticas ao modelo geral de privatização
adotado pelo Brasil, quando então se percebe que, dificilmente, poder-se-á
desvincular os problemas atualmente enfrentados pela população paulista em
relação à Telesp desnacionalizada, do processo todo que conduziu à privatização
e desnacionalização do próprio Sistema Brasileiro de Telecomunicações.
"A visão geral que tenho de todo este processo é que o Governo Brasileiro
não quis usar a privatização para criar uma multinacional brasileira, tal qual
a Petrobrás. A criação de uma multinacional [nas telecomunicações] foi opção da
Espanha, Portugal e Inglaterra que usaram a privatização para criarem as suas
multinacionais. Nós usamos a privatização para que as multinacionais deles aqui
viessem. Portanto, as regras têm que ser aqui cumpridas".
Prosseguiu:
"O Governo pretendeu fatiar o Sistema, dividir a ex-Telebrás em 12 [novas
companhias]. Isto é inédito no mundo. Na privatização mexicana assim não foi
feito. Venderam a Telmex integral: tem pontos fortes e tem pontos fracos. A
Argentina foi a única que dividiu em duas [companhias], porque o sistema estava
muito dividido. Os Estados Unidos dividiram por sete porque [o monopólio que lá
existia antes] era gigante, tinha mais de um milhão de funcionários. Na
Inglaterra, os liberais queriam que a British Telecom fosse dividida em
pequenas companhias, e qual foi o argumento da British Telecom e seus gerentes?
Hoje, uma companhia, para ser competitiva internacionalmente, comprar bem tecnologia,
desenvolver tecnologias – este é um serviço muito intensivo [em tecnologia] –
precisa ser do tamanho de uma 'Baby Bell' americana, que por sua vez já estão
se fundindo".
Para o Prof. Wohlers, o Brasil adotou esse modelo de privatização "inédito
no mundo", porque o maior objetivo era que
"as empresas tivessem lucro. [...] Por que outros países não fazem sistema
de leilão? Será que o sistema de leilão é muito bom mesmo? O leilão foi
apontado para trazer um benefício para o País, porque daí o País não iria
desvalorizar a moeda, daí os cofres públicos seriam beneficiados com a venda,
seja das licenças da banda B, seja das ações remanescentes em posse do Governo
Federal. Mas no sistema de leilão, por outro lado, uma empresa paga 5 bilhões
de dólares, uma empresa paga ágio grande, mesmo sabendo que o preço mínimo foi
subavaliado pelo Governo, [e isto] induz um comportamento a essa empresa de
curtoprazismo. As próprias regras do jogo induzem um comportamento de
curtoprazismo, de reativar e conseguir os seus lucros".
Depois de informar a esta CPI que as ações da Telefônica e da Portugal Telecom
caíram nas bolsas internacionais, nos dias seguintes aos da realização dos
leilões, prosseguiu o Prof. Wohlers:
"A recuperação da rentabilidade em 98, em que foram cinco meses de
privatizada e sete meses de estatal, [...] configuram que a rentabilidade está
muito boa, mas que [isso] só pode ser feito em detrimento do usuário. Se isto é
crime, não sou advogado para dizer se é crime ou não. Conheço o capítulo 15,
cláusula 15.1., e existe um processo muito grande de graduações, de sanções,
até, em última instância um comportamento que seja considerado crime e sujeito
a cassação. Mas isso tem que ser interpretado juridicamente, mesmo porque
demora muito tempo. É necessário que analisemos as cláusulas 15.1 e também a
cláusula 25.1 do contrato de concessão, e se verifique qual é a palavra mais
adequada: se é crime, se é má gestão. A Anatel classifica de má gestão e está
multando de acordo".
Haveria alternativas? O Prof. Wohlers pensa que sim.
"A Telefónica fez o que o Brasil deveria ter feito. Há 10, 15 anos, ela
era uma operadora de um monopólio público. O sistema seria aberto à
concorrência e ela aproveitou-se de seus laços culturais com a América
espanhola e se expandiu [para poder enfrentar] a concorrência européia, com a
França e a Alemanha, [e com] as americanas que estão chegando".
Se tivesse pensado como os espanhóis, os alemães e os franceses, seria
"o Brasil que deveria ter comprado a Portugal Telecom e feito uma aliança
estratégica com ela [a Telefónica]. Mas o Brasil abriu mão disso".
Ao se expandir pela América Latina, prosseguiu o Prof. Wohlers, a Telefônica
assumiu o controle de sistemas sucateados, que se encontravam em péssimo estado
de conservação e operação. Na Argentina, esperava-se 20 segundos, ou mais, para
obter o tom de discar, e de três a quatro horas para se completar uma ligação
interurbana. O grupo espanhol, portanto, não tem nenhuma experiência
internacional - nem tecnológica, nem empresarial - na administração de sistemas
de boa qualidade de redes que já funcionam conforme padrões minimamente
aceitáveis:
"A Telefónica, por enquanto, ainda não tem indicação no mercado
internacional, porque está pegando redes muito ruins, começando do zero. Era
impossível piorar a rede do Peru. Era impossível piorar a rede da Argentina.
Agora, no Brasil, não. Estamos aprendendo que tínhamos uma rede boa, podia não
estar funcionando bem, porque os investimentos eram politicamente contidos.
Aqui, a Telefónica está tendo o seu principal desafio [...] A Telefónica está
aprendendo que o Brasil tem tecnologia nacional, tem universidades, é diferente
do resto dos pequenos países da América Latina, e há que ter um reequilíbrio
entre métodos de gestão e de tecnologias espanholas com brasileiras".
Considerando tudo o que se passou, nos leilões e depois dele, para o Prof.
Wohlers
"é evidente que o modelo de privatização fracassou. Houve problemas, o
Governo não conseguiu vender a Telemar, teve que semi-estatizar, porque 25% foi
de capital do BNDES. O modelo de três regiões fixas, que foi discutido
arduamente durante dois anos com a consultoria internacional e dentro do
'staff' do Ministério, mostrou que o Governo só conseguiu vender duas áreas. Na
última, ele teve que remontar um consórcio, negociar com outros consórcios que
causaram a queda do ministro. A pressa é inimiga da perfeição. Só se conseguiu
remendar um modelo de privatização, porque o BNDES entrou com 25%".
Para evitar esses e outros equívocos, diz o Prof. Wohlers que
"o ideal era ter criado uma Brasil Telecom, e aberto a concorrência com a
Brasil Telecom que podia ter e tinha métodos de gestão. A própria Telefónica
poderia ser um parceiro estratégico da Brasil Telecom, não haveria problema
algum. O problema é que o Brasil quis maximizar receitas. Para maximizar
receitas, ele vendeu um bloco fechado de controle mínimo acionário. O Brasil
não pôde, como em outros [países], manter uma diretoria, manter uma
interferência. Ao privatizar a Telecom Italia, 3% das ações estão nas mãos do
governo. Como as ações estão bastante dispersas, isto lhe dá uma cadeira no
conselho de administração. Vinte por cento da Telefónica Internacional ainda é
estatal. O próprio governo ajuda a controlar. Na Portugal Telecom idem. Ou
seja, várias privatizações mantém um mínimo de lotes na mão do Governo, para
que possam ser tomadas decisões estratégicas".
Enquanto o processo de privatização em muitos países parece cercado de cuidados
estratégicos, no Brasil privatizou-se conforme um
"calendário eleitoral. Era evidente que precisava privatizar em julho,
porque tinha-se uma eleição atrás, e isso era um capital eleitoral muito
grande. Era evidente que tinha que privatizar segundo as regras do FMI, para
trazer recursos externos. Mas, para minorar o déficit em conta corrente do
País, nada disso adiantou, porque o Plano Real veio por água abaixo com a
maxi-desvalorização. A privatização não adiantou para que o País não sofresse
desequilíbrio macroeconômico".
Em tais circunstâncias,
"o modelo de privatização foi muito apressado. Essa idéia de montar um
órgão regulador, que ainda não tem muita experiência, foi muito apressada
também. Vi o órgão regulador da Itália: ele foi construído muito lentamente,
mas com outros tipos de regras. Aqui, pegamos todo o bloco do Ministério das
Comunicações, mais a Telebrás, e montamos rapidamente uma Anatel. Então, existe
um aprendizado institucional [pelo qual] o País não passou. Estamos passando
agora, com prejuízos para os usuários".
Infelizmente, acha o Prof. Wohlers, tudo isso "são águas passadas".
Agora, cabe "diagnosticar a situação e achar as soluções para minorar os
problemas". E, dito isto, o professor da Unicamp lançou-nos um apelo para
discutirmos bem mais do que apenas os problemas criados pela qualidade dos
serviços – afinal, uma obrigação da empresa concessionária - buscando examinar
e formular, junto com a sociedade, um verdadeiro projeto estratégico para as
telecomunicações brasileiras.
"Acho que é um absurdo que os senhores estejam discutindo um problema de
qualidade, que é uma obrigação, e não tenham discutido os problemas de longo
prazo. Qual é a estratégia de telecomunicações do Brasil? Qual é o nosso
caminho para a sociedade da informação? Qual vai ser o papel da tecnologia e da
engenharia nacional? Os senhores deveriam estar discutindo isso e, não,
qualidade. A qualidade é uma obrigação mínima contratual. Respeito a CPI, acho
que é muito positiva, mas [acho] que os senhores deveriam se engajar num
processo junto com a Anatel, junto com órgãos do setor [para] pensarem uma
política de longo prazo para as telecomunicações, o que o próprio Ministério
não vem fazendo".
1.4. Os executivos da Telefônica
O presidente da holding Telesp Participações, Sr. Fernando Xavier Ferreira, e o
presidente da Telefônica, Sr. Manuel Garcia Garcia, apontaram três causas
principais para a degradação dos serviços. A primeira e, ao que parece, mais
importante dessas causas residiria na obrigação, assumida pela empresa, de
atender, num prazo extremamente curto de seis meses, à exigência de instalar
cerca de 1 milhão de novas linhas telefônicas em todo o Estado, exigência esta
assumida pela antiga operadora estatal, através do programa de Plano de
Expansão (PEX).
Argumentaram que a Telesp estatal não havia realizado os investimentos em
infra-estrutura necessários para atender àquele compromisso, face a contenções
em seus investimentos determinadas pelo governo, em fins de 1997. Mas
reconheceram que a Telefônica, sendo uma empresa privada, estaria obrigada a
investir o necessário para cumprir o PEX. Declarou o Sr. Fernando Xavier:
"A Telefônica, quando assumiu a direção da empresa, sendo uma empresa
privada, e não havendo mais desculpas de contenção de investimento de qualquer
coisa, foi imediatamente cobrada no cumprimento do plano de expansão [...] Quer
dizer, não foi uma estratégia errada. Impulsionada pela própria opinião pública
e exigida pela própria Anatel, à Telefônica foi dado [...], como desafio maior,
cumprir o mais rápido possível a instalação dos planos de expansão".
Entretanto, explica em seguida:
"A infra-estrutura da grande São Paulo estava esgotada de uma maneira que
era como se você tivesse que fazer uma reforma na casa onde as pessoas já
viviam e [eis] porque é que afetou também quem já tinha linha. Teve que haver
uma redistribuição destes centros telefônicos por espaço, reacomodando
inclusive quem já era usuário antigo."
Ou seja, tenta nos esclarecer o Sr. Fernando Xavier, não havendo
infra-estrutura disponível, a rede existente teve que ser redistribuída ou
reorganizada, de modo a acomodar quase 1 milhão de novas linhas, num período de
seis meses.
Além da própria complexidade determinada pela dimensão dos trabalhos a
executar, e como conseqüência dela, a Telefônica teria defrontado-se com sérios
problemas adicionais devido à modalidade de contratação de projetos e obras,
herdada da Telesp estatal. Essa modalidade é conhecida como turn key: a empresa
operadora do serviço contrata uma outra empresa para projetar e instalar toda a
infra-estrutura necessária à prestação daquele serviço, cabendo a esta empresa
contratada subcontratar outras empresas para executar as diversas fases do
projeto. Assim, a empresa contratada em regime de turn key obriga-se a entregar
à contratante todos os equipamentos e instalações já prontos para serem postos
em funcionamento. Segundo os dirigentes da Telefônica, esse modelo de
contratação de obras e serviços não funcionou em São Paulo, conforme o Sr.
Manuel Garcia Garcia deixou claro:
"[...] a modalidade de contratação 'turn key', adotada para a realização destas
obras, não se mostrou adequado para tal tarefa."
Um terceiro problema enfrentado pela empresa, conforme recorrentemente alegaram
seus dirigentes, relacionava-se à qualidade da mão de obra brasileira. É o que
afirma o Sr. Fernando Xavier:
"As obras de expansão, são tradicionalmente feitas e sempre foram feitas
através de um processo de total contratação. Então, essa mão de obra é de
responsabilidade das empresas contratadas. Aí é que se verificou um problema de
insuficiência de mão-de-obra [...] Várias dessas empresas [apelaram] para essas
subcontratações e, muitas vezes, [colocaram] pessoas inclusive para começarem a
trabalhar, sem o devido treinamento e sem uma série de questões."
1.5. Os empresários
Foram ouvidos três empresários, dirigentes de associações de classe que
congregam empresas fornecedoras de serviços à Telefônica: Abercotel, Sinduscon
e Sindimesp. Também a Associação Brasileira da Indústria Eletro-eletrônica
(Abinee) foi convidada a dar sua contribuição mas, ao nos enviar um assessor, no
lugar de um alto-executivo, foi dispensada de participar.
1.5.1. Marcelo Abreu, da Abercotel
O Sr. Marcelo Abreu, presidente da Associação Brasileira das Empresas de
Serviços de Engenharia e de Telecomunicações (Abercotel), sugeriu que os
problemas na qualidade dos serviços prestados pela Telesp originaram-se de uma
"opção técnica", feita pelos seus novos controladores estrangeiros,
de buscar a maior ocupação possível da sua rede como estratégia para,
rapidamente, instalar as novas linhas previstas pelos PEXs a vencer ou já
vencidos. Ou seja, havendo, nas centrais de comutação e nos cabos de rede, uma
certa capacidade ociosa, assim mantida por razões de segurança ou para
atendimentos emergenciais, a Telefônica teria optado por utilizá-la como forma
de, rapidamente, atender às exigências por novas linhas sem, por outro lado,
vê-se obrigada à realização de investimentos maiores na ampliação da capacidade
do sistema. Declarou o Sr. Marcelo Abreu:
"Ela fez uma opção técnica, segundo o que os técnicos do setor afirmam, de
dar uma ocupação maior para a rede existente. A rede do sistema Telebrás era
construída com uma certa reserva técnica, que foi fartamente ocupada [pela
Telefónica] para gerar ganhos de acesso rapidamente. Isso tudo gerou uma
saturação dessa rede, com graves problemas e repercussão na vida dos assinantes
que estavam ligados a essas redes".
Ao mesmo tempo, a Telefônica abandonou, por inteiro, as regras de normatização
e de aquisição praticadas pelas empresas subordinadas à Telebrás, provocando
assim uma acentuada queda na qualidade dos serviços prestados por seus próprios
fornecedores, com óbvias conseqüências na qualidade dos serviços prestados por
ela à população paulista, antes habituada ao bom padrão da Telesp pública e
nacional. É interessante observar que, segundo o depoimento do Sr. Marcelo
Abreu, o Estado, enquanto comprador, através da Telebrás, parecia ter grande
preocupação não apenas com preços, mas também com a qualidade e, inclusive, com
o desenvolvimento tecnológico nacional. Disse o Sr. Marcelo Abreu:
"O modelo de compra adotado pela Telebrás equilibrava, até por força da
Lei nº 8.666, elementos de natureza financeira, de avaliação de preços, a
elementos de qualificação dos fornecedores. Tínhamos então, dentro da Lei nº
8.666, requisitos jurídicos, econômicos-financeiros e de capacitação técnica. E
aTelebrás, a esses requisitos agregava a adequação de seus fornecedores ao
padrão Normativo NBR ISO 9.000."
Insistiu o Sr. Marcelo Abreu:
"Outro aspecto que nos preocupa bastante é o de que, dentro do Sistema
Telebrás, tínhamos um arcabouço normativo de regulação da atividade da
engenharia de redes, da engenharia de telecomunicações, que era um
sistema-modelo, criado ao longo da existência do Sistema Telebrás, com um
debate amplo dos agentes produtivos, capaz de criar um conjunto de normas e
procedimentos técnicos que foram adotados durante a vida do Sistema, e que eram
absolutamente transparentes: todos os que atuavam no segmento de Engenharia de
Telecomunicações sabiam exatamente como o cliente queria as coisas, qual era a
norma aplicável."
O controle de qualidade por parte das empresas do Sistema Telebrás parecia
descer a detalhes que os espanhóis, ao invés de se aproveitarem da elevada
experiência brasileira neste setor, preferiram tudo desdenhar, adotando novos
métodos que apenas serviram para revelar não terem eles nada a nos ensinar
quanto a normas e padrões de qualidade:
"A Telebrás auditava os fornecedores, indo a eles com um 'check list' de
requisitos de qualidade, auditando cada um deles. Os fornecedores, a cada
compra, precisavam comprovar sua condição legal e capacitação para fazer. Não
sua capacitação histórica, mas capacitação efetiva, sua capacitação
técnico-operativa - sua disponibilidade de recursos humanos e materiais para
fazer determinado empreendimento. Tudo isso lastimamos que tenha sido, de certa
forma, abandonado, esperando que venha a ser restaurado de alguma forma".
Daí, conclui o presidente da Abercotel:
"Hoje, ressentimo-nos da falta de critérios [...] Onde há falta de norma
temos o abuso".
Anote-se que, após tão esclarecedor depoimento, o Sr. Marcelo Abreu foi
afastado da Presidência da Abercotel. O Nobre Deputado Luiz Gonzaga Vieira, em
intervenção feita durante os depoimentos dos dois executivos da Telefônica, fez
questão de deixar regitrado o seu protesto,
"porque acho que é um desrespeito para com esta CPI. Procurei a Abercotel
para tirar algumas dúvidas e fui informado de que, por pressão da Telefónica, o
seu presidente, após o depoimento que prestou aqui, foi 'afastado' por 30 dias
do cargo, justamente porque os antigos presidentes eram pressionados pela
Telefónica a se calarem. Até terminarem os trabalhos da CPI, ele não pode mais
falar em nome da Abercotel".
1.5.2. Eduardo Capobianco, do Sinduscon
O Sr. Eduardo Capobianco, vice-presidente do Sindicato das Indústrias da
Construção Civil (Sinduscon), declarou que, para se apresentar à CPI decidiu
fazer uma investigação sobre possíveis indícios de estar a Telefónica
fraudando, ou ferindo, a legislação brasileira, especialmente no que se refere
à Lei das S.A. e à Lei Geral das Telecomunicações. Concluiu porém que, com base
nas informações obtidas junto aos associados do Sinduscon, a empresa espanhola
teve um comportamento, no geral, correto.
Para ele, então, o maior problema da companhia espanhola poderia ser definido
como de natureza "cultural". Ela teria se apresentado de modo
arrogante e preconceituoso ante a sociedade brasileira. Os dirigentes da
Telefônica parecem ter visualizado o Brasil como um país semelhante a outros
países latino-americanos, em termos de pouca evolução democrática e cidadã,
estando agora a sofrer as conseqüências de uma tal postura colonialista. O Sr.
Capobianco atribuiu à sociedade brasileira a tarefa, por assim dizer, de
mostrar que "somos diferentes".
"Acho que a Telefónica errou muito ao chegar ao Brasil. Acho que veio com
uma posição arrogante, desconsiderou que nós temos uma sociedade democrática,
já bastante avançada. Parece-me que ela veio com um viés de outras comunidades
latino-americanas, onde isso não acontecia, e está tendo que enfrentar uma
realidade diferente. Cabe à nossa sociedade enquadrar a Telefônica, cabe à
nossa sociedade mostrar para os espanhóis que não somos assim, que somos
diferentes".
1.5.3. Edvaldo Sarmento, do Sindimesp
O Sr. Edvaldo Sarmento, presidente do Sindicato das Indústrias de Instalação,
Operação e Manutenção de Redes, Equipamentos e Sistemas de Telecomunicações do
Estado de S. Paulo (Sindimesp), foi outro, dentre os depoentes, que acusou o
próprio modelo de privatização como causa última dos atuais problemas, fazendo
duras críticas à Anatel e à Telefônica. Segundo ele, substituiu-se um monopólio
público por um monopólio privado, com todos os prejuízos daí decorrentes:
"Entendemos que esse monopólio que foi instalado, privado, esse sim é
selvagem, literalmente selvagem, e todos aqui declararam."
Diante dessa situação, acusou a Anatel de omissa por não se fazer presente,
instante a instante, na fiscalização das decisões e atividades da Telefônica.
Criticou o órgão regulador por somente atuar a posteriori dos acontecimentos,
de forma punitiva e não preventiva, daí consentindo nos enormes prejuízos
sofridos por paulistanos e paulistas. Concluiu:
"A grande culpada desse processo todo é efetivamente a Anatel e a Telefónica."
O Sr. Edvaldo Sarmento, recusando as suas justificativas quanto à qualidade da
mão-de-obra brasileira, acusou a Telefónica de desqualificar e desvalorizar o
mercado de trabalho brasileiro. Para o empresário, os baixos preços pagos pela
empresa estrangeira aos seus prestadores de serviços, obrigou-os a buscar
mão-de-obra mais barata, logo, menos qualificada já que os seus antigos
empregados, sobretudo os de nível técnico, mais qualificados e experientes, se
recusariam a trabalhar por salários aviltados.
"Na relação da mão-de-obra, queria lembrar à CPI que, antes da
privatização, a Telebrás tinha 94 mil funcionários. Hoje, numa aferição por
cima ainda a ser vista, existe empregado no sistema Telebrás partilhado,
vendido, em torno de 50 a 55 mil funcionários. A pergunta é: o que fazem 40 mil
funcionários técnicos e ex-especialistas no mercado? Então essa história de
falta de mão-de-obra é uma balela, literalmente uma balela. O que está se
verificando é que a Telefónica não descobriu ainda que nós já perdemos aquela
questão de escravismo. Não tem escravo. Se eu ganhava numa operadora de mil a
mil e duzentos reais como técnico, eu não vou trabalhar por duzendo e cinquanta
reais para ela, porquanto eu não existo. O censo de mão-de-obra está na
Telefónica. Então se ela diz que não existe mão-de-obra, não existe mão-de-obra
e o Dr. Marcelo bem disse isso. Tem mão-de-obra, sim senhor".
O presidente do Sindimesp sequer poupou os seus pares, empresários, das
críticas. Para ele, parte dos problemas deve-se ao comportamento
"vassalado" do empresariado brasileiro que, acostumado a resolver os
seus problemas em conversas de gabinetes, em Brasília, pensou que os poderia
continuar resolvendo pelos mesmos métodos, apenas substituindo Brasília por uma
viagem mais longa até Madri:
"O empresariado brasileiro também é culpado pelo que está acontecendo.
Acho que falar da Telefónica, da Anatel, e não falar dos empresários
brasileiros estaria cometendo uma injustiça."
1.6. Telesp estatal
Para melhor esclarecer a CPI sobre os eventuais problemas pelos quais poderia
ter passado a Telesp estatal nacional e que teriam sido herdados pela
Telefônica de España, foi convidado o ex-presidente da empresa, atual Deputado
Federal Sampaio Dória.
Em um dos mais longos depoimentos aqui ouvidos, o Deputado foi bastante
esclarecedor e, praticamente, já antecipou várias das possíveis respostas aos
argumentos justificativos da Telefônica, assim permitindo avançar algumas das
prováveis conclusões desta CPI.
Didático, tentou definir o que seria a questão central em debate: se é possível
conciliar expansão acelerada da rede, com manutenção da qualidade dos serviços.
"Na minha avaliação, a questão central que está em
discussão, em face da experiência extremamente traumática destes últimos oitos
meses, reside basicamente em discutir, avaliar e saber se é compatível ou
impraticável conciliar uma expansão vigorosa da planta do sistema e a
preservação da qualidade dos seus serviços, enquanto se dá a expansão da rede.
A partir da minha experiência pessoal como Presidente da Telesp, a resposta é
afirmativa".
O Deputado Sampáio Dória, porém, deixou muito claro que, se foi possível
conciliar expansão da rede com a manutenção da qualidade dos serviços, tal se
deveu à constante presença do Estado na orientação e fiscalização dos serviços;
presença que se manifestava desde as orientações a ele dadas - a ele e a outros
dirigentes do Sistema Telebrás - pelo Sr. Ministro das Comunicações à época, o
Sr. Sergio Motta, até à atuação dos Conselhos de Administração das empresas e
da própria Telebrás, enquanto holding maior de todo o Sistema. Declarou o
Deputado:
"O ministro Sergio Motta [...] teve a antevisão de que, se não
estabelecesse mecanismos preventivos da degradação da qualidade dos serviços,
enquanto se processasse a expansão prevista, essa degradação se daria de forma
generalizada e extremamente desgastante para o conceito e a credibilidade das
empresas do sistema Telebrás. Por isso, ele teve a prudência e a sabedoria de
estabelecer mecanismos de controle sobre todos nós, extremamente rigorosos, a
partir do próprio Ministério das Comunicações, a partir da cúpula diretiva da
Telebrás que, na ocasião, era presidida pelo atual presidente da holding
Telefônica do Brasil, Dr. Fernando Xavier. Esses mecanismos acabaram se estendendo
aos próprios conselhos de administração de cada subsidiária do sistema
Telebrás. Na verdade, o monitoramento que se deu de maneira extremamente
rigorosa - exemplar, eu diria - acabou prevenindo a degradação da qualidade do
sistema enquanto se processava a expansão."
Insistiu:
"[...] como lhes disse, uma preocupação obsessiva por parte do ministro,do
Ministério, da Telebrás e dos próprios Conselhos de Administração de cada tele.
Esses conselhos se reuniam mensalmente, e uma parte importante dos trabalhos
desses conselhos era exatamente de exigir e cobrar da diretoria de operação de
cada 'tele' um relatório extremamente minucioso, que desfrutava da
credibilidade pelo fato de que era sistematicamente auditado pela própria
Telebrás e pelos órgãos de auditoria do Ministério das Comunicações. Essa
preocupação e a sistematização da preocupação desse monitoramento a respeito de
cada indicador é o que, na verdade, acabou estabelecendo para todos nós
dirigentes das 'teles' estaduais, muito mais do que um compromisso com o
ministro e o ministério, e um compromisso com a sociedade de que a expansão se
daria sem deterioração da qualidade do serviço. Como um sinal de respeito à
sociedade e como um sinal de que com um monitoramento diário desse trabalho
seria possível evitar danos maiores à qualidade dos serviços".
Mesmo que não tenha pretendido afirmá-lo, o Deputado Sampáio Dória acabou
reconhecendo que o modelo de privatização adotado pelo governo, provocou um
súbito desmonte de todo aquele eficiente e eficaz sistema de fiscalização e
controle - do Estado sobre o próprio Estado, frise-se - sem que instrumentos
igualmente eficientes e eficazes tivessem sido remontados para substituí-los.
Esses instrumentos deveriam ser operados pela agência reguladora, a Anatel, mas
esta ainda estava em "fase incipiente" de funcionamento:
"A criação e a estruturação da Agência Nacional de Telecomunicações passou
a constituir, na verdade, a única e a última esperança de controle e
fiscalização eficazes sobre a ação eventualmente abusiva, eventualmente
transgressora dos direitos e das prerrogativas dos usuários e dos cidadãos por
parte das concessionárias privadas de telefonia fixa ou celular em São Paulo e
nos demais estados."
Entretanto:
"A Anatel, na verdade, está numa fase incipiente da sua existência [...]
Alguma paciência vamos ter que ter, embora a sociedade não deva ser penalizada
por conta desse cronograma que, de qualquer maneira, confrontando com os
cronogramas dos processos de privatização que se deram em vários outros países,
inclusive do Primeiro Mundo, nesta última década, foi um processo extremamente
prudente, bem calculado, bem dimensionado e produziu frutos relativamente bons
até aqui e, seguramente, muito promissores para os próximos anos".
Para o Deputado, outro fator que teria provocado a queda de qualidade nos
serviços prestados pela Telesp, agora estrangeira, seria a ausência de
concorrência. A licitação aberta pela Anatel para a concessão de serviços a uma
"empresa-espelho" não atraiu interessados, o que teria deixado a
Telefônica mais a vontade para desconsiderar os justos reclamos de seus
usuários, que sofreram as conseqüências da substituição de um monopólio público
submetido a uma fiscalização rigorosa, por um monopólio privado estrangeiro,
mal fiscalizado. Disse o Deputado Sampaio Dória:
"Um outro dado que precisa ser considerado e que também teve a sua
influência, foi o fato de não termos tido, na telefonia fixa, assegurada a
competição que nós tivemos desde logo, na telefonia móvel celular".
Segundo o Deputado, entretanto, tal se deu por uma "fatalidade". Seja
como for, ficou claro nas declarações do ex-presidente da Telesp que os
problemas residiam mais nas condições que passaram a vigorar após o processo de
privatização - fiscalização incipiente e ausência de concorrência - do que em
falhas específicas da empresa estrangeira. Entretanto, esta não escapou de
algumas críticas. Segundo o Deputado Sampaio Dória, diante do tamanho do
desafio que tinha pela frente a curto prazo, a Telefônica deveria ter
postergado a reestruturação interna da Telesp para um momento posterior, mais
favorável. Ao reorganizar completamente os seus departamentos internos,
suprimindo divisões e hierarquias e demitindo cerca de 4 mil funcionários, os
espanhóis teriam criado um quadro interno de instabilidade, além de perda de
não desprezível memória técnica e gerencial, que muito contribuíram para a
queda da qualidade da empresa operadora paulista, pouquíssimos meses após a sua
privatização.
"O que, na minha opinião, constituiu [...] um erro de avaliação importante
que acabou se refletindo na perda de controle da Telefónica sobre a
deterioração do processo, foi o fato de ela ter promovido exatamente a partir
do terceiro mês da privatização, medidas de reestruturação interna da empresa
que afetaram fortemente, exatamente o setor operacional que era incumbido, até
então, de não apenas fazer a operação e a manutenção dos equipamentos, mas
também o relacionamento com o mercado, com o público e com os usuários, através
de regiões, através de distritos distribuídos ao longo do território do Estado,
no interior e na área metropolitana da capital. Isto foi desmontado, estas seis
regiões administrativas foram extintas e concentradas numa só. Os distritos
operacionais perderam o seu papel tradicional e histórico de manutenção e
operação desses equipamentos, houve uma substituição em escala que me pareceu
absolutamente imprudente das gerências de departamento, das gerências de
divisão e das próprias diretorias dentro da empresa, por técnicos e dirigentes trazidos
do exterior, e portanto não familiarizados com a realidade e as propriedades da
empresa, com a realidade do próprio mercado que eles passariam a administrar a
partir daquele momento [...] essas alterações deveriam ter sido feitas num
momento posterior e não exatamente em que a Telefónica era obrigada a
concentrar todas as energias da empresa".
Também a estratégia de utilizar o limite da capacidade instalada para expandir
a rede, fato já apontado por outros depoentes, foi criticado pelo Deputado,
mais uma vez ressaltando os limites impostos ao antigo monopólio público para
práticas semelhantes:
"Sabemos que a Telefónica está operando no limite, porque interessa
comercialmente à empresa utilizar seus acessos no limite dos limites. Nós,
talvez por sermos uma empresa pública mais susceptível a pressões que, no dia a
dia, nos levavam a ter de estabelecer alguns serviços, inclusive de telefonia
pública, atendimento a algum hospital, atendimento a alguma programa da
Secretaria de Educação do Estado ou da Secretaria da Saúde do Estado, [nós]
muitas vezes [tivemos] de fazê-lo, assim como outras 'teles' certamente o
fizeram. Aquela margem de segurança que observávamos [era] da ordem de 4 a 5
por cento (outras teles, um pouco menos, talvez por terem menos demanda do que
um estado tão dinâmico como o de São Paulo), embora nossa meta fosse chegar a
algo em torno de 3%, sem pôr em risco o atendimento a situações emergenciais.
Soube, por leitura de jornais, que a Telefónica reduziu essa margem de
segurança ao mínimo - ela estaria operando com algo acima de 99%."
O ex-presidente da Telesp, face a toda a sua argumentação rechaçou, com ênfase,
qualquer possibilidade de a Telefônica estar enfrentando agora problemas
herdados da antiga empresa estatal:
"A herança que a Telesp estatal deixou à Telefónica, ao contrário de ter
sido uma herança penosa e uma herança difícil de ser administrada, foi isto sim
extremamente positiva".
1.7. O legislador
Na qualidade de Relator da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), o Deputado
Alberto Goldman pôde esclarecer esta CPI - ao explicar-nos, detalhadamente, o
conteúdo daquela Lei - a respeito de vários aspectos da legislação que estão
sendo infringidos pela Telefônica, enquanto empresa concessionária de um
serviço público; bem como quanto aos poderes interventórios da Anatel e da
própria sociedade. Não se poderia exigir que seu depoimento comentasse os
problemas específicos causados à telefonia paulista pela empresa espanhola. Na
verdade, o Deputado acabaria fornecendo elementos que nos permitem melhor
discutir as motivações do Governo ao fazer uma profunda reforma nas
telecomunicações brasileiras, adotando o modelo afinal adotado.
Defendendo esse modelo, o Deputado Goldman assim respondeu às críticas
formuladas pelo professor Marcio Wohlers:
"Quanto à questão do modelo, isto é uma questão histórica, vale para a
academia colocarmos isto aqui. Esta questão do modelo foi muito discutida na
comissão, intensamente discutida [...] Não vejo nenhuma razão para termos uma
empresa só no País. Qual era uma das razões colocadas naquele momento? Uma
grande empresa nacional vai poder ser a nossa multinacional. Ora, nós temos uma
densidade telefônica baixíssima hoje, que é 12, 13 ou 15 por 100 telefones,
queremos chegar em uma densidade telefônica cerca de três vezes esta, um volume
brutal de investimentos e não é bom nos preocuparmos agora se a nossa empresa
vai ter que ser multinacional; para disputar aonde, se não conseguimos cumprir
durante muito tempo as nossas necessidades? Mais adiante, isto vai acontecer,
isto está acontecendo no mundo todo, certamente muitas delas vão se fundir aqui
e ali, já está acontecendo isso. A alemã e a italiana estão se fundindo".
Também pretendeu deixar-nos seguro quanto ao futuro da soberania e da segurança
nacionais - desde que se aceite a sua visão e compreensão do que sejam
soberania e segurança nacionais, neste mundo em que vivemos hoje, e diante dos
fatos que assistimos acontecer nas relações entre um punhado de grandes e
arrogantes potências e os demais países excluídos do restrito círculo do poder
mundial. Disse o Deputado Goldman:
"O que envolve questões de soberania nacional é o controle do sistema, não
a sua operação. A operação do sistema pode ser feita por ente privado, estatal,
nacional ou estrangeiro, isso não faz nenhuma diferença, o que precisa é ter o
controle do sistema [...] O problema é controlar o sistema, porque ele é
competência da União, assim como, por exemplo, entregar um serviço de água ou
esgoto para uma empresa privada fazer, ou entregar uma operação de uma usina
hidrelétrica, ou entregar um serviço fundamental para a comunidade, não é uma
questão de soberania nacional. Mas [é] fundamental para a comunidade o
transporte coletivo, que é concessão também do setor público, onde se pode a
qualquer momento intervir, entrar, tirar".
Insistiu:
"Quanto à questão de soberania nacional [...] não é só uma questão
ideológica, mas de compreensão do que é soberania nacional e compreensão do
controle que o Estado mantém sobre setores que podem ser considerados estratégicos
ou não. Acho que no setor de telecomunicações há segmentos que podem ser
considerados estratégicos e a grande maioria não tem nada de estratégico. Fazer
rádio taxi não tem nada de estratégico. Pode ser importante, mas não é
estratégico. Mas é evidente que satélite é estratégico. Em todas as operações
do sistema onde é competência da União, todos os serviços públicos, se não são
estratégicos fundamentalmente, são de importância essencial. Citei o transporte
coletivo, que é estratégico. Nessa expressão estratégico cabe tudo o que
podemos imaginar. Em cada cabeça cabe uma definição de estratégico. É
estratégico, transporte coletivo? Bom, para o trabalhador que vai todos os dias
para o trabalho, é estratégico. Sem o transporte ele não chega a lugar algum, não
tem salário, produção, emprego e o país não anda. Estratégico, de fato, é que o
Estdo não abra mão do seu controle sobre aquilo que é de sua competência e seu
patrimônio. Por exemplo, o Estado não abriu mão de manter o controle sobre o
espectro magnético [...] é ele quem concede e pode tirar concessão".
E, dito tudo isto, o Deputado parece sentir-se bastante tranquilo:
"Se amanhã, no setor de exploração de satélites, houver algum tipo de
problema de exploração que fira a soberania nacional, que não cumpra os
contratos existentes, o governo tem todos os elementos legais para intervir.
Esta é a diferença das nossas concepções de estratégico. O estratégico hoje
serve para tudo. Serviu durante muitos anos para a gente dizer que não podemos
privatizar nada, porque tudo é estratégico, como se na mão de uma empresa
estatal estivéssemos imunes a todos os interesses que vagueiam pela sociedade,
imaginar que aqueles que estão numa empresa estatal, pelo fato de ser uma
estatal são todos patriotas isentos e imunes a qualquer tipo de pressão e
interesse".
É bem verdade que o Deputado Goldman não nos deixou em dúvidas quanto aos
amplos poderes da Anatel em relação às empresas privadas que, agora, prestam
serviços de telecomunicações no Brasil:
"A Anatel tem a obrigação de estabelecer as condições de transferência
acionária de uma empresa para outra, os limites de participação de cada grupo
econômico, os limites de participação, portanto, do sistema de telecomunicações
exatamente para evitar a monopolização, a cartelização, enfim, todos os
processos que conhecemos no setor privado. Porque, na medida em que as empresas
entram, sabemos que o objetivo dela é o lucro e não poderia ser de outra forma.
Mas a Anatel tem o papel, como instrumento do Estado, da sociedade, de evitar
os abusos que possam ser cometidos".
Acrescenta, com ênfase, referindo-se aos contratos de concessão fixados pela
Anatel, nos termos da L.G.T.:
"Enfim, o contrato estabelece todas as normas [...] todos os índices e
obrigações qualitativos. Nãohá como tergiversar a respeito desta questão. Neste
ano, as metas também são bastante ousadas, mas que foram aceitas em contrato.
"O nosso problema é ter a meta física cumprida, a meta qualitativa
cumprida. Isso tem que haver, não tem choro sobre isso."
Seja pelo que efetivamente consta na L.G.T. e nos contratos de concessão, seja
pelo aqui dito pelo Deputado Goldman, estamos diante de uma situação que não só
assegura direitos políticos e jurídicos ao Estado, através da sua Agência
reguladora (mas não apenas através dela), como também impõe deveres públicos à
empresa privada que em muito restringem a sua liberdade de ação privada - até
mesmo a de livremente negociar a compra ou venda das ações de controle.
Por outro lado, tanto o seu depoimento, quanto o do Deputado Sampaio Dória,
demonstraram, mesmo que isto não pretendessem, que todo esse poder regulatório
de um Estado completamente afastado das atividades de operação, pode esbarrar
na força nada desprezível dos lobbies desses poderosos grupos estrangeiros que
acabam de se assenhorear das telecomunicações brasileiras. Numa questão talvez
menor, como a da criação de dois Fundos destinados ao desenvolvimento das
nossas telecomunicações, os Deputados Goldman e Sampaio Dória nos revelaram as
dificuldades que o Congresso - e o Governo - vêm enfrentando para fazer
tramitar os respectivos projetos de lei previstos, aliás, na própria L.G.T.
Estes Fundos são o de Universalização (FUST) e o de Desenvolvimento Tecnológico
(FDT), e devem ser constituídos através da contribuição, para cada um, de 1% do
faturamento de cada empresa operadora - contribuição modesta, face ao lucro que
extrairão das nossas telecomunicações e poderão remeter para os seus
países-sedes. Mas a tramitação de ambos os projetos está emperrada, por força
da oposição das novas concessionárias privadas:
"[...] mas há também uma pressão das empresas para que a lei não se
concretize, porque ela é uma cobrança de um percentual sobre o faturamento,
sobre o lucro, enfim, sobre alguma forma de receita das empresas; sobre o
faturamento possível ou sobre a receita operacional, sobre algum tipo de
receita das empresas.
"As empresas [...] estão pressionando, principalmente as celulares, por
exemplo. Pressionam muito contra, dizendo que elas não têm nada a ver com a
universalização, e que não vão ter resultado nenhum do desenvolvimento
tecnológico, porque têm seus próprios instrumentos de desenvolvimento
tecnológico. Não interessa. A Lei diz isso e as empresas, quando assinaram os
contratos, já tinham conhecimento da Lei e está dentro dos termos dos
contratos, só não diz qual o percentual, porque o precentual não tinha sido
estabelecido na Lei".
Se já é assim quando se trata de apenas abrir mão de um irrisório percentual da
receita em favor do desenvolvimento geral da sociedade brasileira, imagine-se o
que não poderá acontecer se algum Governo, em algum futuro mais próximo ou mais
distante, se vir forçado a tomar medidas nas telecomunicações que possam afetar
as poderosas forças econômicas, políticas e militares que se movem na arena -
cada vez mais assemelhada à dos antigos circos romanos - dos interesses
internacionais.
1.8. O CPqD
Com a finalidade de discutir os impactos da desnacionalização da Telebrás e
Telesp no desenvolvimento tecnológico brasileiro, foi convidado a falar a esta
CPI, o engenheiro Hélio Marcos Machado Graciosa, ex-diretor de Desenvolvimento
da Telebrás e, hoje, presidente da Fundação CPqD, centro de pesquisa situado na
cidade paulista de Campinas, que emprega mais de 800 cientistas, engenheiros e
outros técnicos de alta qualificação.
O CPqD foi criado em 1976, como um centro de pesquisa vinculado à Telebrás num
contexto, segundo o engenheiro Graciosa, de um modelo de política industrial
baseado na "substituição de importações". A partir do início da
década de 90,diz ele:
"houve uma mudança do modelo de desenvolvimento por um modelo de
integração competitiva no mercado internacional, ou seja, uma gradual abertura
das importações que até então eram proibidas, ou seja, aquela exposição gradual
das empresas brasileiras à competição internacional. Este fato refletiu-se
muito em cima do CPqD, porque ele nunca foi uma indústria e, então, todos os
produtos que desenvolvia, transferia para as indústrias. As empresas para as
quais ele transferia tecnologia passaram a concorrer com as empresas
estrangeiras, tendo como base de seu desenvolvimento suas matrizes no
exterior".
Desde então, o CPqD veio tornando-se "seletivo" nas suas opções de
investimento, priorizando aqueles que resultassem em produtos com real
"competitividade internacional". Em seguida, face a decisão
governamental de privatizar a Telebrás, foi necessário examinar o destino a ser
dado ao Centro. Sublinhou o Sr. Hélio Graciosa ser o CPqD "a única
instituição a constar na Lei Geral de Telecomunicações" como sendo de
obrigatória "preservação". E, para assegurar tal disposição,
resolveu-se transformá-lo em fundação de direito privado.
Observemos, como deixou bem claro o engenheiro Graciosa, que
este é um modelo sem similar no mundo:
"O que acontece em outros países? Esses recursos [para financiamento à
pesquisa] são normalmente dinheiro do governo. Um centro de pesquisa como o
CPqD, ou pertence a um grupo grande de empresas (a Telebrás tinha um volume de
negócios que perfeitamente poderia suportar essas aplicações de longo prazo, e
era um volume grande); ou eles têm uma parte do seu orçamento vindo do governo,
mesmo sendo entidade privada.
Quer dizer, no processo de privatização, falei isso várias vezes, teve
consultores do Ministério e sempre lancei desafios para o pessoal. Queria que
eles achassem um centro de pesquisa autônomo – que é o caso do CPqD, ele ia
ficar autônomo, antes ele não era – que consiga sobreviver como centro de
pesquisa só indo ao mercado. Não se achou, eles não tinham achado. Dr. Rômulo1
, que é o meu grande consultor e está ali atrás, procuramos, conversamos, vimos
na Internet, não existe, e nem em outras áreas, não é só em telecomunicações.
Por que? Porque isso é investimento de longo prazo e que não se faz só com
dinheiro do mercado".
Mesmo assim, decidiu o governo – como corolário lógico do fatiamento da
Telebrás - dissociar o CPqD das operadoras, e tentar assegurar-lhe futura
sustentação através de recursos provenientes de um Fundo para o Desenvolvimento
Tecnológico das Telecomunicações (FDTT), cuja criação foi prevista na Lei
Geral, mas ainda carecendo de outra lei específica.
Declarou o engenheiro Graciosa a esta CPI que o CPqD, agora, tem duas missões:
a primeira, de curto prazo, voltada para a sua sobrevivência em função da sua
competência para competir, com os seus produtos e serviços, no mercado; a
segunda, de longo prazo, voltada para o desenvolvimento de tecnologias
estratégicas. Ele acredita que o Centro poderá, sempre, ocupar algum espaço no
mercado. Porém, a sua função estratégica somente será cumprida se contar com
apoio de recursos públicos:
"Se não houver dinheiro do fundo [do FDTT] para o CPqD, ele não vai
conseguir exercer a sua função estratégica, com o dinheiro do mercado. Mas ele
não morre porque ele vai ficar com a sua faceta de mercado, dentro da
competência daquilo que estamos desenvolvendo lá.
[...]
Somos um centro de pesquisas independente, e a solução que vejo, se não houver
dinheiro do governo, o CPqD não exercerá a sua função estratégica".
Entretanto, também as condições para sobreviver no mercado não são para deixar
esta CPI muito otimista, como já nos apontava, aliás, a nobre Deputada Maria do
Carmo Piunti:
"[...]poderíamos dizer que [o CPqD] tem condições de sobreviver por três
anos, e depois disso vai depender exclusivamente do mercado, ou praticamente do
mercado? [...] Preocupa-nos nessa comissão, porque nos pareceu que a
Telefónica, desde a sua implantação, tem dado preferência para empresas, pelo
menos na área de prestação de serviços, para empresas de grupos espanhóis, e o
senhor mesmo colocou isso, que é até óbvio que elas tragam empresas de
gruposespanhóis.
Pergunto, se a empresa é uma multinacional, é empresa de capital espanhol, qual
o interesse que ela tem de estar investindo em desenvolvimento no Brasil, para
que as empresas brasileiras passem a fabricar equipamentos se, na verdade, ela
poderá comprar de outros grupos, importar e talvez até ter um custo mais
barato, ou estar contribuindo com uma empresa de seu próprio país?".
De fato, o engenheiro Hélio Graciosa reconheceu que as operadoras que aqui
chegaram na esteira da desnacionalização da Telebrás tendem a trazer, dos seus
países de origem, as suas tecnologias e seus fornecedores. E acabou, para
apoiar a sua própria argumentação, fornecendo-nos um exemplo que,
aparentemente, reforça, isto sim, os argumementos daqueles que criticaram o
modelo de privatização, dentre estes, nesta CPI, o professor Marcio Wohlers:
"Porque é natural, você vem com uma empresa globalizada, que elas queiram
trazer os seus parceiros. Por exemplo: se o Brasil fizesse uma estratégia
diferente de comprar as empresas de fora, é óbvio que a tecnologia do TP
embutido [telefone público a cartão] iria ser a primeira opção para o Brasil
colocar numa Telefônica com um contrato no exterior, e vice-versa, quer dizer:
se uma empresa nova controladora vier de fora, ela já tem alguns parceiros que
ela quer trazer. Se não se toma medidas como as que estão na lei, obviamente
que haveria um risco maior, mas na minha opinião tem que se fazer valer o que
está na lei".
Resta saber se não teria sido muito melhor, "fazer uma estratégia
diferente" e, mesmo abrindo o nosso mercado a outros operadores, inclusive
do exterior (com os seus fornecedores), também levar a nossa Telebrás a
disputar esses outros mercados, nos termos do exemplo a seguir, fornecido pelo
próprio engenheiro Hélio Graciosa:
"Volta o exemplo, se a Telebrás comprasse a Teleuruguai, o telefone
público que estaria lá provavelmente seria o nosso telefone público, porque já
conhecem, sabem como funciona, qual o problema que dá e que não dá. Esse risco
também foi avaliado na lei. Olha, então temos que colocar aqui que temos de dar
preferência a equipamento nacional etc. e tal, então acho que isso é o jogo
certo".
1.9. A Anatel
Em seu depoimento à CPI, Renato Guerreiro, presidente da Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel), dissertou sobre todo o aparato legislativo criado
para a privatização do Sistema Telebrás, explicitando a questão do usuário.
Antes das questões específicas ocorridas em São Paulo, também fez considerações
sobre o modelo de privatização e universalização.
"Em 1997, finalmente aprovou-se a Lei Geral de Telecomunicações, que é
composta por quatro livros, sendo que o primeiro é muito pequeno em termos de
tamanho, mas é certamente o de maior densidade. Possui cerca de 12 artigos,
desenha toda a filosofia da reestruturação das telecomunicações no Brasil,
definindo claramente que a regulamentação de telecomunicações deve privilegiar
o usuário, atribuir ao Estado o papel regulamentador e fiscalizador das
telecomunicações e à iniciativa privada o provimento dos serviços. Essa mesma
lei criou um órgão regulador, que é a Anatel".
Prosseguiu:
"O modelo brasileiro de telecomunicações todo, sustenta-se em dois
pilares: a universalização dos serviços e o princípio da competição. A lei
geral é permeada de insinuações, ilações, recomendações em muitos casos, e
determinações em tantos outros de que os serviços devem ser universais. E todos
devem ser prestados em regime de competição, para permitir que o cidadão tenha
o direito constitucional de escolher o provedor que melhor atenda às suas
necessidades".
Esclareceu quanto ao conceito de universalização:
"A universalização não significa ter telefone residencial em todas as
residências. Não é isso, universalização significa ter o serviço disponível a
todos os cidadãos".
Daí que
"os telefones de serviço público terão que crescer no Brasil. Teremos, no
final de 1999, 713 mil, e esse número cresce de tal forma que, após 31 de
dezembro de 2003, vamos ter mais de sete telefones públicos por mil habitantes
no mundo [...] O nosso objetivo é termos a partir de 2001, 2003, sete e meio
telefones públicos por mil habitantes. E, mais, isso não significa concentrar
telefones públicos em aeroportos, rodoviárias, portos, shoppings, porque eles
têm obrigação de ter, em cada área da localidade atendida, uma densidade mínima
de três telefones por mil habitantes, o que é a densidade média dos países no
mundo".
As empresas interessadas na privatização do Sistema Telebrás conheciam bem
esses objetivos, transformados aliás em obrigações contratuais futuras daquelas
que vencessem os leilões de privatização. Os contratos estabelecem várias
determinações sobre metas de universalização, qualidade e recursos humanos.
Além disso, as empresas interessadas tiveram acesso às informações sobre a
situação financeira e operacional das operadoras do Sistema Telebrás.
"Quando as empresas foram privatizadas, o foram conscientes de que essas
obrigações existiam e de que teriam que ser resgatadas, cumpridas, sob pena das
mais variadas sanções, inclusive multas, e, eventualmente, por repetições
sucessivas de quaisquer faltas ou infrações contratuais, até a cassação do
contrato".
Entretanto, esclareceu o Sr. Renato Guerreiro, os contratos de concessão
estipulam metas apenas a partir de dezembro de 1999. Daí que a Anatel teve que
criar um documento para o período de transição, de julho de 1998 a dezembro de
1999. Este é o Protocolo de Compromisso, cujo objetivo é o acompanhamento
mensal de vários indicadores do Operador privado até dezembro de 1999. Com base
neste Protocolo, informou o Sr. Guerreiro:
"em novembro de 1998, no acompanhamento mensal que estávamos fazendo do
desempenho das empresas, percebemos que [a realização daquelas] previsões que
as empresas haviam oferecido em julho, [...] estava acima do que elas tinham
previsto. Observando-se já os dados de agosto, setembro e outubro, estava
havendo um desvio em cima daquilo que estava previsto. Determinamos às empresas
formalmente [que se preocupassem] com o crescimento dos Planos de Expansão
vencidos, e que tomassem providências para compensar os assinantes e resolver o
problema".
Apesar disso,
"o número se manteve preocupante em novembro. Então a Anatel decidiu, em
dezembro, convocar uma reunião gerencial com as empresas todas, solicitando que
elas levassem para a reunião gerencial uma ação específica com relação à
recuperação, o resgate, dos Planos de Expansão vencidos, com os assinantes.
Essa reunião se deu em janeiro de 1999, tendo por base os dados realizados até
dezembro. Nessa oportunidade foram apresentadas, pelas empresas, propostas
[para a] redução dos Planos de Expansão vencidos, [mantendo-se] o prazo final
que a Anatel havia acordado, nos Protocolos de Compromisso, de que, a partir de
maio, não haveria mais plano de expansão vencido. Haveria sim, em maio, os
planos de expansão que venciam em junho, eventualmente, ou venciam no próprio
mês de maio. E, em junho, os planos de expansão com vencimento em junho, mas
jamais planos de expansão com vencimentos nos meses anteriores".
É nesse contexto que vai emergir o problema da qualidade dos serviços prestados
pela Telefônica, em São Paulo.
"Independentemente da questão dos Plano de Expansão vencidos, havia uma
questão de qualidade que estava nascente na Telesp, muito importante, já no
final do ano. Então decidimos por esse ressarcimento da Telesp [multa em forma
de ressarcimento ao usuário] já em 12 de fevereiro. Determinamos também a
abertura de uma auditoria técnica na Telesp com duas finalidades: a primeira
era comprovar se tecnicamente era possível resgatar os Planos de Expansão
vencidos, na velocidade que a empresa havia se proposto, verificando se a
empresa tinha absoluto controle das áreas onde estavam os Planos; se tinha
contrato com os fornecedores de comutação para instalar centrais naqueles
prazos; se tinha contrato com empresas construtoras de rede para fazer a
construção de rede naquele prazo. O segundo mandato [dessa auditoria] foi
verificar até que ponto a modificação na rede de São Paulo estava afetando a
qualidade dos serviços, o que já era evidente pelas informações obtidas no
'call center' de comunicações da Anatel. Esses dois mandatos foram cumpridos
por uma auditoria, que inauguramos em seguida".
Com base nos dados levantados por sua auditoria, a Anatel concluiu que:
"que a programação de resgate do compromisso dos Planos de Expansão
vencidos era factível. A empresa havia colocado na reunião em janeiro com a
Anatel, um planejamento absolutamente realizável e tenho a impressão que mais
do que a auditoria da Anatel, o que aconteceu com os Planos de Expansão
vencidos em São Paulo, demonstra que o planejamento apresentado por ela foi um
planejamento real".
Entretanto, a qualidade dos serviços efetivamente caiu e, neste quesito, a Anatel
identificou três infrações aos contratos e à legislação:
"A primeira, foi a não comunicação do novo número. No caso da troca do
número do assinante ela tem que informar o assinante, com 90 dias de
antecedência, da troca do seu número".
A segunda foi a
"não interceptação do número anterior, quando o número é trocado, para que
quem ligue para o assinante que teve seu número trocado possa ser informado da
troca do número e fazer uma ligação correta. E devo dizer, essa ligação não é
paga. As ligações destinadas às máquinas interceptadoras não são pagas pelo
assinante que originou a chamada. O regulamento não permite cobrança de
chamadas que são encaminhadas com máquina interceptadora. Portanto, o assinante
que chamou não estaria pagando uma ligação que estaria sendo destinada a uma
máquina para informar o novo número, que foi uma outra infração cometida".
A terceira infração
"foi a interrupção indevida do serviço por uma ação objetiva da empresa. A
ação da empresa no corte da rede, na reengenharia da rede na cidade de São
Paulo ou em parte da cidade de São Paulo, fazia com que a empresa interrompesse
a prestação ou descontinuasse a prestação do serviço telefônico para
determinados assinantes, e descontinuar a prestação significa que vem instalar
e instala errado, instalar o número do telefone do cidadão num orelhão, tudo
isso significa interrupção indevida da prestação dos serviços".
Vários argumentos foram utilizados pela Telefônica para explicar e/ou
justificar suas falhas para com o usuário, dentre elas, a extrema expansão que
realizou a partir de sua gestão. Segundo o Sr. Renato Guerreiro, em trecho de
seu depoimento, tal argumentação não é cabível nem, em hipótese alguma,
aceitável:
"Na nossa concepção, a expansão não necessariamente e em hipótese alguma
pode ser associada à degradação da qualidade. Essa é a posição que temos
colocado junto as empresas que eventualmente tentam colocar um argumento desse
para justificar uma degradação da qualidade".
II
A Telefónica no Brasil
Como declarou, numa das suas intervenções, o nobre Deputado Arnaldo Jardim:
" estamos preocupados se a Telefônica veio aqui realmente para criar uma
rede moderna, concorrencial, que busca o aprimoramento, o desenvolvimento da
produtividade, diminua, afinal de contas, o custo da tarifa para que o usuário
possa pagar menos, ou se estamos assistindo a uma montagem de uma estrutura
voraz pelo lucro"
Infelizmente, se os depoimentos prestados a esta CPI, conforme apresentados no
capítulo anterior, já são de justificar tal preocupação, mais preocupados
ficamos quando examinamos os números da Telefônica extraídos de balanços e
relatórios. Neste capítulo, serão apresentados vários quantitativos que
reforçam a idéia de ter a Telesp sofrido, efetivamente, uma acentuada involução
em muitos dos seus mais importantes indicadores operacionais e financeiros,
depois que o seu comando passou às mãos do grupo espanhol. Um dos poucos
indicadores importantes que não regrediu foi o do lucro. Mas este, como ficará
bem demonstrado, já começou a servir para ainda mais enriquecer a Espanha, em
detrimento do Brasil.
2.1. A Telesp antes da privatização
Como outras "teles", ou talvez até mais, a Telesp, a partir de 1994,
pôde dar início a um forte programa de expansão das suas redes de telefonia
fixa e celular. Conseqüentemente, iriam crescer, também, as suas receitas e
lucros.
Os números da Tabela 2.1., abaixo, confirmam essa expansão. Os resultados
inferiores registrados a partir de 1997, devem-se exclusivamente à cisão das
operações de telefonia celular. Na telefonia fixa, os números indicam
permanente crescimento.
Tabela 2.1.
Resultados da Telesp (1995-98)
|
|
1995 |
1996 |
96/95 (%) |
1997 |
96/97 (%) |
1998 |
97/98 (%) |
|
Linhas
fixas instaladas
(mil) |
4.937,0 |
5.372,0 |
8,81 |
5.935.7 |
10,49 |
6.877.1 |
15,86 |
|
Linhas
em serviço (mil) |
4.480,6 |
4.994,8 |
11,5 |
5.428,6 |
8,69 |
6.247,6 |
15,1 |
|
Linhas
de telefone público (mil) |
102,9 |
123,2 |
19,65 |
150,9 |
22,53 |
161,9 |
7,3 |
|
Aparelhos
de telefone público (mil) |
126,9 |
146,7 |
15,6 |
168,8 |
15,1 |
179,7 |
6,4 |
|
Quadro
de pessoal (u) |
25.265 |
22.782 |
(9,8) |
23.348 |
2,5 |
18.930 |
(18,9)) |
|
Linhas
em serviço por 100 hab. |
14 |
15 |
7,1 |
17 |
13,3 |
19 |
11,8 |
|
Linhas
em serviço por empregado |
181 |
225 |
24,3 |
239 |
6,2 |
338 |
41,4 |
|
Receita
Oper. Líq. R$ 106 |
2.418,6 |
3.841,9 |
58,83 |
3.782,7 |
(1,5) |
4.496,1 |
18,9 |
|
Resultado
Oper. R$ 106 |
400,4 |
1.019,9 |
154,7 |
917,4 |
(10,0) |
1.297,3 |
41,4 |
|
Resultado
Líquido - R$ 106 |
293,2 |
832,2 |
183,86 |
646,6 |
(22,3) |
1.041,4 |
61,0 |
|
Investimento
Econômico - R$ 106 |
968,0 |
1.615,4 |
66,9 |
1.464,6 |
(9,3) |
2.580,0 |
76,2 |
Fonte: Telefônica
(página de Internet)
1995/6: Telesp Consolidado; 1997: Telesp Celular excluída; 1998: inclui a reversão dos juros sobre o capital próprio.
2.2. Chega a Telefônica
Em 28 de julho de 1998, deu-se, como sabemos, a desestatização e
desnacionalização da Telesp, junto com o restante do Sistema Telebrás. Sabemos
pelo noticiário dos jornais, pelas reações da população, pela própria
necessidade que tivemos nesta Casa de constituir esta CPI, quais foram as
primeiras conseqüencias desse feito. A seguir, porém, discutiremos, com base
nos dados da Anatel e dos balanços da Telesp/Telefónica, o que nos dizem a
frieza dos números quanto a estes primeiros meses, durante os quais as telecomunicações
paulistas passaram a ser operadas por uma empresa estrangeira.
2.2.1. As metas
Para atender às emergências do período de transição que deveria seguir-se
imediatamente à alienação desse conjunto de empresas nacionais, a Anatel firmou
com os seus novos controladores um Protocolo de Compromisso - que não pode ser
confundido com o Contrato deConcessão - que determinou metas mensais de
universalização e qualidade dos serviços, para os meses de julho de 1998 a
dezembro de 1999. Estabelece ainda
"entre outros aspectos, que em qualquer situação deve ser evitada a
degradação na prestação do serviço" (grifos nossos, da Relatoria).
Sem dúvida, um dos maiores, possivelmente o maior problema a ser enfrentado não
somente pela Telefônica mas por todas as novas operadoras que abocanharam os
diferentes pedaços nos quais foi dividida a Telebrás, tratava dos compromissos
anteriores com os planos de expansão. Entre 1996 e 1997, o Ministério das
Comunicações orientou as antigas "teles" a retomarem, com vigor, a venda
de Planos de Expansão (PEX). Em 1997, o Governo mudou a sua política e
suspendeu a colocação de novos PEXs. Assim, em São Paulo e em todo o Brasil, as
últimas linhas a serem entregues nos termos desses PEXs, foram concluídas nos
meses de junho e julho de 1999.
Através dessa venda agressiva de novos PEXs, o Sistema Telebrás viveu um
período de forte expansão nos últimos anos. Devido ao realinhamento tarifário
que pôde praticar no mesmo período (assunto que será melhor explicado no
capítulo seguinte), contou com recursos suficientes para realizar os
investimentos necessários ao atendimento desse compromisso assumido com milhões
de brasileiros. Assim, em geral, dentro dos prazos estipulados (dois anos, em
média), os PEXs vinham sendo entregues. Mas sempre, a cada mês, por diferentes
motivos, algumas centenas de novas linhas deixavam de ser instaladas, gerando
ou até acumulando um volume de entregas atrasadas que deveria ser compensado
nos meses seguintes. Ao concluir o processo de privatização, era objetivo do
Governo, logo da Anatel, que, até julho deste ano, não mais existisse algum
saldo de PEX a entregar, seja na data deste mês, seja, principalmente, com data
vencida.
Aqui em São Paulo, a Telefônica herdou uma situação um tanto estranha. Por
alguma razão que não ficou muito bem esclarecida a quantidade de PEXs a
entregar nos meses de novembro, dezembro, janeiro e fevereiro; era muito
superior à média dos demais meses (Tabela 2.2.). Evidentemente, a Telesp
estatal se comprometera com um autêntico tour de force para a virada dos anos
98 e 99. É de se supor que os seus programas de investimentos e prazos de
contratação de obras e serviços previam isto. E, com toda a certeza, ao assumir
o controle da Telesp, a Telefónica sabia o que estava lhe esperando.
Tabela 2.2.
PEXs: evolução em 98/99
|
|
Meses |
Permitidos |
Relazidado p/Telef |
|
|
|
Agosto |
3.886 |
9.540 |
|
|
|
Setembro |
3.216 |
6.932 |
|
|
|
Outubro |
933 |
2.139 |
|
|
|
Novembro |
78.128 |
122.285 |
|
|
|
Dezembro |
67.000 |
137.174 |
|
|
|
Jeneiro/99 |
120.000 |
118.336 |
|
|
|
Fevereiro |
90.000 |
96.164 |
|
|
|
Março |
55.000 |
12.635 |
|
|
|
|
|
|
|
O Protocolo de
Compromisso firmado pela Anatel com os novos donos das "teles",
visava, sobretudo, assegurar o completo encerramento daquele programa de
expansão, garantindo, ao mesmo tempo, a manutenção dos padrões de qualidade do
antigo Sistema. Mas, ao menos aqui em São Paulo, com base nos Relatórios de
Acompanhamento das metas compromissadas e de execução de ações corretivas
específicas, a ela enviados pela Telesp/Telefónica, já se percebia, desde
agosto, apenas um mês passado da privatização, uma tendência a crescente
degradação dos serviços. Documento da própria Anatel2 mostra que, além dos
planos de expansão (PEXs) vencidos, a quantidade de telefones de uso público -
TUP em serviço, o número de solicitações de reparo por 100 acessos do SFTC e o
número de contas com reclamação de erro em cada 1000 contas emitidas, já se situavam
aquém das metas estabelecidas. O mesmo comportamento dos indicadores ocorreu na
CTBC.
Se o número de solicitações de reparo por 100 acessos é ascendente, é porque
está caindoa qualidade do serviço prestado. Para março de 1999, a meta acordada
era de 3 solicitações de reparo por 100 acessos, mas a Telesp apresentava 7,75.
Outro indicador que aponta a boa ou má qualidade do serviço, é o número de
contas com reclamação de erro, em cada 1.000 contas emitidas. Em março de 1999,
a meta determinada era de 8 contas em cada 1.000, mas a empresa apresentou o
excessivo número de 17,59 contas por 1.000 – mais que o dobro admissível! Como
explicar isto? Um erro "lamentável", ou alguma experiência para medir
a capacidade de reação dos usuários?...
Em maio de 1999, alguns indicadores continuavam abaixo do estabelecido no
Protocolo de Compromissos. É o caso do número de solicitações de reparo por 100
acessos do Serviço Fixo Telefônico Comutado (SFTC): 7,24 solicitações, quando a
meta – decrescente relativamente a março – seria de 2,71 solicitações. O mesmo
ocorre com o número de solicitações de reparo de telefones de uso público por
100 telefones em serviço e o número de contas com reclamação de erro em cada
1000 contas emitidas, que registraram 22,78 e 15,50 frente à meta de 21,78 e
6,80 respectivamente.
Um dos poucos indicadores que se encontra além das metas fixadas pela Anatel é
o de número de terminais instalados. Segundo declarou o Sr. Fernando Xavier
Ferreira a esta CPI, entre os meses de setembro de 1998 e abril de 1999 foram
instalados mais de 956 mil novas linhas telefônicas. Entretanto, conforme
informações posteriores encaminhadas à Comissão, pelo Sr. Manuel Garcia Garcia3
, em resposta a requerimentos feitos à empresa,
"de agosto de 1998 a março de 1999, a Telecomunicações de São Paulo S.A.
contratou, para a expansão da planta, 306.613 (trezentos e seis mil, seiscentos
e treze) terminais".
Então, na verdade, é certo e cabível entender que das mais de 956 mil novas
linhas telefônicas instaladas, pelo menos 649 mil linhas já haviam sido
contratadas pela Telesp estatal.
Diz ainda o mesmo documento que, no mês de agosto de 1998, existiam em processo
de instalação (logo, já contratados) 1.827.428 terminais. Ora, se quando a
Telesp foi desnacionalizada, já estavam em instalação 1,8 milhão de terminais,
e se foram instalados, de setembro a abril, 956 mil novas linhas (pouco mais da
metade do que já estava em instalação), deduz-se, com segurança, que dessas 956
mil novas linhas, pelo menos 649 mil (68%) já estavam contratadas antes de ter
sido a Telesp entregue à Telefônica. Mas também deduz-se, como bem provável,
que, de fato, a Telefônica não instalou nenhuma linha que ela mesma tivesse
contratado ou, se o fez, o foi secundária ou marginalmente. Aquelas 306 mil novas
contratações alegadas pelo Sr. Garcia Garcia, provavelmente visam atender
situações futuras, até porque, sabemos todos, entre contratação e instalação há
sempre uma defasagem não desprezível de tempo. Em suma: a Telefônica apenas
executou até agora, quando muito, o que a Telesp executaria, mesmo se não
tivesse sido privatizada! Ou, noutras palavras: a Telesp, no momento da sua
privatização, já estava preparada para entregar a maior parte dos PEXs a vencer
no final do ano. O caos que então se seguiu foi, como bem enfatizou nesta CPI o
Deputado Sampaio Dória, da inteira responsabilidade da Telefônica.
2.2.2. Recursos e investimentos
Quanto examinamos a evolução das receitas da Telesp e o comportamento dos seus
investimentos, mais se reforça a forte suspeita de que aquela certamente
expressiva expansão da rede paulista realizada pela Telefônica (quase 1 milhão
de novos terminais fixos em menos de um ano) poderia ter sido executada também
sem a Telefônica.
A Telesp investiu, em 1998, o total de R$ 2.439 milhões. Conforme o balanço da
Telesp Participações S/A (a empresa holding), o EBITDA (resultado operacional
excluindo-se as despesas financeiras líquidas, impostos, depreciações e
amortizações), também conceituado como geração de caixa, foi de R$ 2.429
milhões. Sabe qualquer economista ou contador que o EBITDA corresponde a
"dinheiro livre" que a empresa conta efetivamente para investir ou
gastar. Portanto, o que a Telesp investiu, no ano passado, foi tão somente o
que ela tinha em caixa para aplicar, a partir das suas operações e serviços no
mercado paulista, confirmando-se o que declarou, a esta CPI, o Sr. Fernando
Xavier, quanto a não ter a Telefônica feito qualquer aporte de recursos
externos à sua agora filial paulista. Aliás, investir na Telesp não parece ser,
de fato, o objetivo da Telefônica, com base no argumento de que não detém o
controle majoritário do capital da empresa, conforme nos lembrou, citando
entrevista à imprensa do Sr. Manoel Garcia Garcia, o ex-presidente da empresa,
Deputado Sampaio Dória.
Além de não ter planos para trazer investimentos do exterior, parece que a
Telefónica programa reduzir os próprios investimentos da Telesp, ao longo deste
ano. Seu orçamento para investimentos, em 1999, é de R$ 2.190 milhões, menor
que o de 1998 (R$ 2.439 milhões) sendo que, de acordo com as metas determinadas
pela Anatel, a empresa terá que instalar 1.119.333 terminais fixos comutados
durante este ano. Até meados do ano passado, redução nos investimentos se
explicavam pelos "cortes governamentais". Agora, se explicam como?
Se não trouxe dinheiro para o país, a Telefônica já começou a enviar recursos
consideráveis para a sua sede na Espanha. Esta Relatoria pôde confirmar e até
quantificar a denúncia feita a este respeito, nesta CPI, pelo Deputado Sampaio
Dória. Em seu balanço consolidado relativo ao ano de 1998, a Telefônica
Internacional - TISA registrou ingressos provenientes de suas associadas no
valor de 336,5 milhões de euros (US$ 392,6 milhões) que, somados às taxas de
gerenciamento de 122 milhões de euros (US$ 142,3 milhões), totalizam 458,5
milhões de euros (US$ 534,9 milhões). Este é o quanto a Telefônica e a própria
Espanha retiraram da América Latina, em 1998, por conta dos seus investimentos
em telecomunicações.
Daquele total de 336,5 milhões de euros, a Telesp Participações contribuiu com
27,7 milhões (US$ 32,3 milhões), ou 8%. De todas as suas operações no Brasil -
incluindo Telesp Participações, CRT Brasil, Telesp Celular Participações, Tele
Sudeste Celular Participações e Tele Leste Celular Participações - a Telefônica
Internacional recebeu 61,5 milhões de euros (US$ 71,7 milhões), ou seja: a TISA
retirou do Brasil o equivalente a 18% do total de suas operações na América
Latina, já em 1998.
Recordemos que a Telefônica controla a Telesp Participações desde agosto de
1998. Isto significa que, em cinco meses, a sua nova filial paulista enviou
para a matriz espanhola o equivalente a 0,9% da receita operacional líquida
anual consolidada (US$ 3,7 bilhões) e 4,2% do lucro líquido anual, também
consolidado (isto é, mundial), da controladora (US$ 763,6 milhões). Em poucos
meses de controle na Telesp Participações, o retorno do investimento da TISA já
foi o terceiro, em volume, na América Latina, ficando atrás apenas das remessas
provenientes do Chile e Peru, países onde a corporação espanhola atua há bem
mais tempo. Evidentemente, não levará muito tempo para a Telesp assumir
liderança inconteste neste triste ranking. Somos nós, os pobres, mandando
dinheiro para eles, os ricos! Mas há quem concorde com isso...
É a versão mais moderna de "As veias abertas da América Latina"! No
primeiro semestre deste ano de 1999, as controladas da Telefônica no Continente
remeteram para a Espanha 36,7 milhões de euros (US$ 39,5 milhões). Só a Telesp
Participações entrou com 22% desse total. De janeiro a março de 1999, foi
enviado para a matriz 8 milhões de euros (US$ 8,6 milhões). Tal volume, que
representa 1,2% da receita operacional líquida da Telesp (US$ 719,1 milhões) e
14,9% do seu lucro líquido (US$ 57,8 milhões), já equivale a mais de um quarto
do total enviado em 1998.
2.2.3. Gestão empresarial
Questionada não apenas por sindicalistas (o que até seria natural), mas também
pelo Deputado Sampaio Dória e até por alguns dos empresários que aqui
depuseram, a política de recursos humanos adotada pela Telefônica também
precisa ser melhor analisada. Tudo leva a crer que este foi um dos mais
importantes fatores a causar tão abrupta queda na qualidade dos serviços, ao
longo do segundo semestre do ano passado.
Em 1997, a Telesp (ainda estatal) demitiu 1.156 funcionários, sendo 451 da área
técnica, 364 da área de atendimento e 341 de outras áreas. Nos meses de janeiro
a julho de 1998 - o leilão de privatização ocorreu no dia 29 de julho de 1998 -
foram dispensados 1.234 empregados, sendo 482 da técnica, 365 da área de
atendimento e 387 de outras áreas. Nos últimos cinco meses finais de 1998, a
Telefonica efetuou 2.998 demissões, das quais 1.188 apenas na área técnica,
crucial para a manutenção e elevação da qualidade dos serviços.
Em 1999, nos meses de janeiro a março, outras 803 pessoas foram demitidas, das
quais 249 na área técnica. Dessa forma, a Telefonica dispensou, desde agosto,
1.437 pessoas da área técnica, o que equivale a 38% do total de demitidos, após
a desnacionalização.
Dos 3.801 empregados demitidos pela Telefônica desde agosto de 1998, 3.652
saíram via "plano de demissão incentivada". Daqueles 3.652 que
aderiram ao plano de demissão incentivada, 1.860 já tinham tempo de serviço
para a aposentadoria e 1.792 ainda eram funcionários ativos.
De todos os trabalhadores brasileiros demitidos pelos espanhóis e seus
testas-de-ferro locais, 2.235 trabalhavam na Capital do Estado. Em termos de
qualificações, daqueles 3.801, 180 eram supervisores técnicos em
telecomunicações; 564, técnicos em telecomunicações; 419, auxiliares técnicos
em rede; 106, engenheiros; 111, auxiliares técnicos; e 53 analistas de
planejamento e gestão.
Na CTBC, o número de demissões entre agosto de 1998 e março de 1999 foi de 244,
das quais 37% na área técnica. As demissões na CTBC representaram um corte de
14% sobre o quadro funcional em dezembro de 1998.
Além de reduzir drasticamente o quadro de funcionários, a Telefonica também
promoveu uma reorganização interna nos altos escalões da empresa, redefinindo a
cadeia de responsabilidades pelas decisões estratégicas. Até 1998, a estrutura
organizacional da Telesp era composta pela Presidência, com três departamentos
diretamente ligados a ela (Departamento de Auditoria, Departamento Jurídico e o
Departamento de Comunicação Social), havendo ainda outras oito divisões
subordinadas aos mesmos.
Abaixo da Presidência, a Vice-presidência Executiva controlava diretamente dois
departamentos (Departamento de Informática e Coordenação de Sistemas, e o
Departamento de Planejamento Empresarial), aos quais se subordinavam, ao todo,
outras onze divisões.
Abaixo das Presidências e Vice, estavam cinco diretorias: Administrativa, de
Rede, Econômico-financeira, de Negócios e de Recursos Humanos. A estas
diretorias estavam subordinados, ao todo, 23 departamentos (com oitenta e três
divisões) e mais seis gerências (com quarenta e duas divisões).
A partir de 14 de outubro de 1998, a Telefonica modificou todo o organograma da
Telesp, substituindo os Departamentos existentes por Diretorias e as antigas
Diretorias por Vice-presidências subordinadas à Vice-presidência Executiva.
Esta, por sua vez, subordinada diretamente à Presidência. No lugar dos
Departamentos e Gerências, foram criadas vinte e três Diretorias, com 103
Divisões. Houve um enxugamento do número de Departamentos/Gerências, assim como
do número de Divisões. Novas denominações foram adotadas para cada nova
Diretoria.
Neste novo organograma, o espanhol Manuel Garcia Garcia acumula os cargos de
Presidente e Vice-presidente Executivo. O espanhol Juan Vicente Revilla Vergara
ocupa, também acumulando, as Vice-presidências Econômico-Financeira e de
Recursos Humanos. Ao brasileiro Stael Prata Silva Filho coube a
Vice-presidência de Negócios/Grande Público e a de Negócios/Empresa. Outro brasileiro,
Ivan Campagnolli Júnior é o Vice-presidente de Rede.
Perceba-se que os executivos espanhóis ocupam cargos vitais para a definição
dos rumos da empresa. Além de controlar efetivamente as informações sobre a
movimentação financeira, também comandam as áreas de compra e, via informática,
toda a gestãoempresarial. Em princípio, essa organização apenas reflete, como
seria natural, a posição dominante do sócio controlador. Entretanto, ela ajuda
os Deputados membros desta CPI a melhor entender uma discussão mantida com
vários palestrantes convidados, dentre eles o Deputado Alberto Goldman, sobre
centro de decisão. Recordando, como nos disse o professor Márcio Wohlers, que,
após a privatização e desnacionalização das empresas de telecomunicações, é a empresa
e não mais o Estado – vale dizer a sociedade – que detém o grosso das
informações financeiras e técnicas, percebe-se que os espanhóis ocupam, como
seria de se esperar, justamente aquelas posições que lhes permite um completo
controle das informações empresariais estratégicas, daí podendo determinar como
tratar, organizar, arranjar, agrupar, liberar e inclusive omitir, praticamente
qualquer outra informação de interesse empresarial, econômico, técnico e até
público, inclusive, por exemplo, as decisões sobre aquisição de bens e
serviços, de atendimento e desempenho etc.
Entretanto, esse organograma revela algo mais preocupante: ele busca contornar
e até escamotear uma outra determinação contratual, menos conhecida. O Contrato
de Concessão, sua cláusula 17.3 (capítulo XVII – da concessionária), estabelece
que "a concessionária e seus controladores se obrigam a assegurar, durante
o prazo da concessão e sua prorrogação, a efetiva existência, em território
nacional, dos centros de deliberação e implementação das decisões estratégicas,
gerenciais e técnicas, envolvidas no cumprimento do presente Contrato,
inclusive fazendo refletir tal obrigação na composição e nos procedimentos
decisórios de seus órgãos de administração". Está claro: deve ser
assegurado que o poder de decisão, nas empresas concessionárias, permaneça no
Brasil.
O que se observa é estar a empresa Telefônica, operadora de telecomunicações no
Estado de São Paulo, apenas formalmente subordinada à Telesp Participações
S.A., presidida pelo brasileiro Fernando Xavier da Silveira, assim fazendo
deconta que a cláusula contratual está sendo respeitada. O verdadeiro centro de
decisões, porque detém as reais informações estratégicas sobre as operações da
empresa, encontra-se na Presidência com Vice-presidência Executiva e na
Vice-presidência Econômico-financeira com Recursos Humanos. Acreditar, aliás,
que o Sr. Manoel Garcia Garcia, para cá enviado pela Telefonica de España como
representante do sócio-controlador, pudesse aceitar orientações e determinações
do Sr. Fernando Xavier, o seu empregado que ocupa nominalmente a Presidência da
holding, seria o mesmo que acreditar em Papai Noel. O Sr. Fernando Xavier
Ferreira, de fato, não passa de um muito bem remunerado testa-de-ferro.
2.2.4. A atuação da Anatel
Os problemas enfrentados pelos paulistas em relação à Telefônica, revelaram,
também, a nós e a todos os brasileiros, as enormes deficiências da Anatel no
cumprimento do seu papel fiscalizador – o que dirá normatizador! Se
considerarmos as lições do professor Marcio Wohlers quanto a perda de
informação pelo Estado em favor da operadora privatizada, e os depoimentos,
entre outros, do empresário Marcelo Abreu e do Deputado Sampaio Dória,
atestando a maneira rigorosa e meticulosa como a Telebrás estabelecia e acompanhava
as atividades de investimento e operação das "teles", fica
cristalinamente claro (o pleonasmo é proposital) o quanto perdeu a sociedade
com a desnacionalização de suas operadoras de telecomunicações, em termos de
planejamento, normatização, padronização e execução das operações; em síntese,
em qualidade na prestação dos serviços.
A Anatel não tem e muito dificilmente terá as mesmas condições da Telebrás para
regulamentar e fiscalizar a execução dos serviços – desde as suas fases de
especificação e contratação, até o acompanhamento continuado da operação –
porque, pura e simplesmente, não possui a mesma relação direta, inclusive de
subordinação, que a antiga holding mantinha com as operadoras estaduais. Agora,
é como se a autoridade regulamentadora e fiscalizadora precisasse "pedir
licença" à entidade regulamentada e fiscalizada, para regulamentá-la e
fiscalizá-la. Mais importante: a autoridade fica na inteira dependência da
operadora, quanto à obtenção de informações confiáveis para bem cumprir as suas
funções. E todo e qualquer conflito dá logo ensejo a protestos, apelações,
recorrências e, inclusive, ações na Justiça, apenas favorecendo a postergação
de soluções e, se necessário, punição de responsáveis.
A Anatel demorou a agir em São Paulo – isto já fora apontado, a começar, pelos
depoimentos das Sras. Maria Inês Fornazzaro, diretora-executiva do Procon/SP, e
Flávia Lefevre Guimarães, Coordenadora do Departamento Jurídico do Idec. Ao que
consta, até hoje não fez uma auditoria das causas do desastre sofrido pelas
telecomunicações no Estado. Sua única auditoria conhecida tinha por objetivo
verificar "o andamento das ações que objetivam eliminar os PEXs vencidos
até abril/99"4 . Esta, aliás, explicada nesta CPI, pelo Sr. Renato
Guerreiro, foi realizada entre 23 de fevereiro e2 de março. Considerando que,
entre esses dois dias – uma quarta-feira e uma terça-feira – ocorreu um
fim-de-semana, sendo ainda o mês de fevereiro, como todos sabemos, de 28 dias,
isto significa que a tal auditoria realizou-se em apenas cinco dias úteis, no
máximo. É impraticável
O relatório da Anatel, de apenas seis páginas, é meramente de constatação. Suas
fontes de informações são exclusivamente os documentos fornecidos aos auditores
pela empresa, ou entrevistas com seus diretores.
Nele, vemos afirmações como:
"De acordo com o Sr. Ivan Campagnolli, Vice-Presidente de Redes, o maior
ofensor para o atendimento dos PEXs vencidos e a vencer é a Rede Externa"
[pag. 2]
É mesmo? Pode não ser! Que outra fonte independente de informação confirma ou
desmente aquela fornecida pelo diretor da Telefônica? Que esforço ou trabalho
tiveram os auditores da Anatel para conferir essa informação? A verdade é que,
diante de tantas limitações para o exercício da fiscalização, este trabalho
acaba perdendo a necessária confiabilidade.
O Relatório descreve de modo muito sucinto, as providências técnicas tomadas
pela Telefônica para entregar os PEXs vencidos, confirmando a orientação da sua
Engenharia, já por demais explicada a esta CPI por diferentes testemunhos, de
buscar maximizar a ocupação da capacidade instalada disponível, através do que
se passou a denominar "cortes de área". Constata isto, sem nenhum
outro comentário e inclusive com apoio de alguns números, que aconteceu
"acentuada degradação da qualidade do serviço
telefônico, a partir do 2º semestre de 1998 e, especialmente, a partir de
novembro/98, com o início dos serviços de cortes nessas áreas" [pag. 3].
Quais as causas dessa degradação? Resposta da assim dita "Auditoria":
"Em reunião com a Diretoria de Assistência Técnica, obteve-se informação
que essa degradação é ocasionada, dentre outros, pelos seguintes motivos:
'a) Execução de serviços de corte de área;
'b) Execução de serviços de cortes locais (rearranjo);
'c) Falta de mão-de-obra especializada;
'd) Fatores climáticos (chuvas)" [pag. 5].
Sim, mas, do ponto de vista da Anatel, quais as causas dessa degradação? O que
constatou a Auditoria? Que investigações realizou? Concordou com as informações
passadas aos auditores pela Diretoria de Assistência Técnica? Com certeza, nos
tempos da Telebrás a conversa teria sido outra e disto sabe muito bem o
ex-presidente da Telebrás, Sr. Fernando Xavier Ferreira!
Já que até "fatores climáticos (chuvas)" também favoreceram à
degradação dos serviços, conclui-se que a Auditoria choveu no molhado...
Se for este o tipo de fiscalização que a Anatel se dispõe a realizar, não
somente aqui em São Paulo (onde os problemas costumam ter maior repercussão),
mas em todo o Brasil, inclusive nas suas áreas mais distantes e menos presentes
nos meios de comunicação, estamos assistindo, desde já, a um enorme e trágico
retrocesso nas condições de evolução e operação das telecomunicações
brasileiras. Logo, tudo isto será um caos! – e mais caos tivemos, recentemente,
quando da introdução de um novo padrão nas chamadas de longa distância. O
Estado – vale dizer a sociedade – perdeu efetivamente as suas condições de
orientar e controlar este mais do que vital setor de telecomunicações. Tudo
indica que a Anatel renunciou a atuar preventivamente - ou de fato não pode
fazê-lo. Vai se contentar apenas em agir – quando agir – a posteriori dos
acontecimentos, porém sem força nem meios para realizar autênticas
investigações. Deu problema, impõe uma multa! Está nascendo um grande Detran
das telecomunicações!
III
Da Telesp estatal nacional à Telefônica privada estrangeira
Deve ter ficado claro, considerando-se o conjunto dos depoimentos ouvidos nesta
CPI que, se quisermos apurar de fato as causas da degradação dos serviços
telefônicos no Estado de S. Paulo, confirmada também no Capítulo precedente,
elas deverão ser procuradas, em primeiro lugar, no próprio modelo que presidiu
todo o processo de privatização desses serviços. Certamente, os depoimentos
apontaram alguns erros sérios de estratégia gerencial e operacional por parte
da Telefônica mas, sobretudo, eles indicaram, sem sombra de dúvidas, que o
Estado brasileiro, ao privatizar, da forma como o fez, o Sistema Telebrás,
abriu mão de mecanismos bem mais eficientes de normatização, controle e fiscalização
dos serviços, do que os introduzidos pela L.G.T., para substituir o poder
normativo e regulador antes exercido pelo Ministério das Comunicações e pela
própria Telebrás. Além disso, também ficou cristalino o fato de o modelo
adotado apoiar-se em premissas - como a entrada imediata de novos competidores
ou uma rápida estruturação da Anatel - que não se consumaram, ao menos em tempo
hábil. Apregoá-las na época da discussão da Lei, como promessas para o futuro,
não passava de wishfull thinking dos homens do Governo. Insistir agora nesses
erros deixará de ser humano, para se tornar burrice - ou, então, humano
demais...
Uma avaliação maior desses problemas e a sugestão de meios para corrigí-los ou
minorá-los em suas nefastas conseqüências para o povo e a Nação, serão melhor
discutidos nas Conclusões deste Relatório. Mas, desde já, impõe-se a esta CPI
conhecer de modo um pouco mais aprofundado, aspectos pouco debatidos do modelo
de privatização adotado pelo Governo.
Afirme-se, reitere-se, sublinhe-se: não se trata mais de discutir se o setor de
telecomunicações deveria ter permanecido sob controle de um monopólio estatal,
ou vir a ser privatizado, como de fato o foi. Mas de questionar se o modelo de
privatização adotado foi mesmo o melhor para o País, ou se teríamos outras
alternativas. Se insistirmos neste questionamento, não como uma questão
acadêmica (o que aliás, por isto, não a desqualificaria), mas como um tema de
real interesse para os rumos políticos e econômicos do País, estaremos melhor
nos capacitando para corrigir as falhas atuais deste modelo - do qual o povo de
São Paulo acabou tornando-se a primeira grande vítima - e, ao mesmo tempo, já
nos preparando para a eventualidade de virmos a substituí-lo por algum outro,
quando a oportunidade assim se apresentar.
3.1. De volta ao passado
Até o início dos anos 60, as telecomunicações brasileiras encontravam-se entre
as mais atrasadas do mundo. O mais confiável meio de comunicação de longa
distância, em nosso País, ainda era o telégrafo por cabo submarino ou rádio. A
telefonia interurbana, mesmo entre Rio e São Paulo, funcionava de modo
extremamente precário, dependendo da intermediação de telefonistas. A ruptura
com o atraso teve por base a elaboração e aprovação do primeiro Código
Brasileiro de Comunicações, em 1962. Resultado de um ano de debates no
Congresso Nacional, nasceu em meio a manifestações de crescente impaciência com
os serviços de comunicações então prestados no país por diferentes empresas
estrangeiras. No Rio Grande do Sul, o então governador Leonel Brizola estatizou
a CTN (operador privado, controlado pelo grupo ITT, norte-americano), num ato
revestido de simbolismo nacionalista. No antigo Estado da Guanabara, o
governador Carlos Lacerda, político que ocupava posição antípoda à de Brizola no
espectro ideológico, criou a Cetel, visando estender as linhas telefônicas para
bairros de subúrbio, mal atendidos pela companhia canadense CTB. Esta, aliás,
operava dois terços de todas as linhas telefônicas urbanas do País, embora suas
concessões estivessem limitadas às principais cidades da Região Sudeste,
inclusive Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Em todas as demais
cidades brasileiras, o serviço telefônico era explorado pela própria
municipalidade, exceto nos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Pernambuco,
onde dominava a ITT. Havia cerca de 900 companhias telefônicas, espalhadas por
todo o País5 . E apenas 1 telefone para cada 100 habitantes.
O Código de 1962 criou o Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel), que
funcionava como um organismo regulamentador, e determinou a formação de uma
empresa estatal para instalar e operar troncos de comunicação de longa
distância. Instituiu, ainda, o Fundo Nacional de Telecomunicações (FNT) para,
alimentado por uma sobretaxa a ser cobrada nos dez anos seguintes sobre as
contas telefônicas, levantar os recursos necessários aos investimentos.
A empresa prevista pelo Código viria a nascer em 16 de setembro de 1965, com o
nome de Empresa Brasileira de Telecomunicações - Embratel. Realizando um esforço
gigantesco para a época, montou um sistema nacional de comunicações por
microondas que, até 1972, colocou Porto Alegre em ligação direta com Manaus;
instituiu a Discagem Direta à Distância (DDD) entre todas as capitais e
principais cidades brasileiras; viabilizou a formação das grandes redes
nacionais de televisão. Esse sistema também foi determinante na expansão da
Rede Nacional de Telex, que por muitos anos, foi visto como um dos mais
importantes sistemas de comunicação empresarial dentro do país.
A expansão da telefonia urbana começa em 1972, quando o Governo decidiu criar a
Telebrás, como empresa holding de um sistema nacional de empresas-pólos
estaduais (as "teles"), nela também se incorporando a Embratel. À
Telebrás e suas "teles" caberia absorver a miríade de companhias
telefônicas municipais, ao mesmo tempo em que investiam na expansão e
modernização das redes telefônicas urbanas. Desta forma, o governo transformou,
na prática, o monopólio constitucional da União na exploração dos serviços de
telecomunicações - diretamente ou mediante concessões - em um quase monopólio
exercido por empresas sob controle do Estado. Apenas a CTBC, no Triângulo
Mineiro, e mais algumas poucas companhias municipais escaparam, na ocasião, de
serem absorvidas pela Telebrás.
Para financiar os investimentos o governo criou um programa de
auto-financiamento pelo promitente usuário (os "planos de expansão",
ou PEX, que voltaram a ser assunto nesta CPI), através do qual o candidato a
uma linha telefônica adquiria um lote de ações da Telebrás, sendo-lhe garantido
que o dinheiro assim arrecadado seria aplicado na instalação de novas linhas,
que chegariam ao seu domicílio ou escritório, num prazo máximo de dois anos.
Para a Telebrás, era um modo de se financiar a custo baixo, com base na
poupança interna, através da abertura e pulverização do seu capital social.
Para as pessoas, era uma maneira prática de comprar um telefone por cerca de
mil dólares, pagando antecipadamente em suaves prestações.
O programa, em seus primeiros anos, foi um extraordinário sucesso, conforme
atestam os números do crescimento da rede telefônica brasileira: entre 1972 e
1975, o número de linhas saltou de 1,4 milhão para 2,2 milhões; nos três anos
seguintes, chegou a 4,6 milhões. O incremento anual do número de linhas vinha
se realizando a taxas sempre superiores a 15%, tendo chegado a 32% em 1976,
sobre 19756 . De repente, esta acelerada expansão sofreu uma brusca freada.
Geralmente se atribui a desacelaração do programa à crise econômica geral na
qual mergulhou o modelo de desenvolvimento desde então e, particularmente, à
perda de capacidade de investimento do Estado - muito embora, este fosse um
investimento que muito pouco dependia de recursos públicos. Mas se a crise do
modelo de desenvolvimento pode ter tido a sua influência, o próprio padrão de
financiamento adotado pelo Estado para expandir o Sistema Telebrás, baseado nos
PEX, pode ajudar a melhor compreender essa crise, daí extraindo-se outras
inferências mais amplas.
Considerando que o acesso ao telefone implicava na aquisição de um patrimônio,
o mais provável é que a expansão do sistema estivesse limitada à renda marginal
de cada possível usuário. Considerando que a maioria da população brasileira,
vitimada por um forte processo de concentração de renda, teria outras
prioridades quanto à distribuição de suas receitas - desde a obrigação de arcar
com gastos relativamente pesados em alimentação e transporte até a preferência,
na compra de bens quando possível, por tijolos para o barraco, geladeira, televisão
etc. - será razoável supor que aquela acelerada expansão inicial da rede
correspondesse basicamente ao atendimento de uma efetiva demanda reprimida,
concentrada nas famílias de classe média e alta, cujos rendimentos aliás
expandiram-se aceleradamente, na onda do "milagre econômico". Se isto
é verdade, então desde os fins dos anos 70 a expansão do sistema acompanha o
crescimento vegetativo da demanda, o que parece confirmar-se pelo fato de,
hoje, o Brasil ostentar uma relação de 44 telefones por 100 habitantes, se
considerarmos apenas as famílias com renda superior a 10 salários mínimos7 . O
auto-financiamento continha, nele mesmo, oseu limite.
3.2. Investimentos: contenção e retomada
Se já haveria uma limitação estrutural à expansão e universalização real do
Sistema, em função do seu padrão básico de financiamento relativamente à
distribuição da renda nacional, outros fatores, mais ligados diretamente às
políticas macroeconômicas implementadas por diferentes governos, também
contribuíram para manter os investimentos aquém do que poderia ser desejável à
consecução das metas de universalização e de manutenção dos padrões de
qualidade.
A partir da segunda metade dos anos 70 e durante toda a década 80, sucessivos
governos buscaram conter a escalada inflacionária através de, entre outros
meios, a limitação dos investimentos de empresas estatais e contenção, abaixo
das taxas da inflação, da evolução das tarifas de serviços públicos. Assim, em
1989, a assinatura residencial básica, por não terem os seus reajustes
acompanhado a inflação, custava, em termos reais, 20% do que fora em 19768 .
Calcula-se que a Telebrás, devido a essa defasagem, deixou de faturar, no
período, cerca de US$ 20 bilhões9 .
A Tabela 3.1 mostra que, em valores reais, o Sistema Telebrás investia, em
1974, montantes relativamente ao PIB superiores aos que vinha investindo em
seus últimos anos de existência, embora a extensão nacional das suas
instalações e, consequentemente, o volume de tráfego fosse, àquela época,
muitas vezes menor. Entre 1974 e 1982, o Sistema Telebrás investiu, em média,
R$ 4 bilhões; entre 1983 e 1987, R$ 3 bilhões; entre 1988 e 1995, voltou ao
patamar de R$ 4 bilhões médios anuais. Somente a partir de 1996, os
investimentos do Sistema voltaram a subir significativamente, recolocando-se à
altura das dimensões que a esta altura já alcançara, em termos de número de
linhas nacionalmente instaladas (cerca de 10 milhões) e da diversidade dos
serviços prestados.
Essa retomada, a partir de 1996, fez parte "da política de revitalização
da Telebrás com vistas à sua privatização, e fortalecimento diante da
concorrência a ser implantada em todos os segmentos do setor"10 . Ou seja,
o governo resolveu recuperar quantitativa e qualitativamente as
"teles" e a Embratel, menos porque elas precisavam prestar melhores
serviços à população e às empresas, mais para valorizá-las e elevar os
possíveis preços de venda, por ocasião da sua privatização. Mas ao agir assim,
o governo confirmou antiga suposição de ser o Grupo Telebrás capaz de sustentar
os investimentos necessários à expansão e manutenção dos serviços, desde que
não fosse contido por cortes políticos nos seus investimentos e, também, por
congelamentos injustificáveis em suas tarifas.
A importância do "rebalanceamento tarifário" praticado a partir de
1995, para a retomada dos investimentos, tão bem destacada nesta CPI tanto no
depoimento do Professor Marcio Wohlers, quanto no do Deputado Sampaio Dória é
evidente11 : em 1997, a participação dos recursos próprios no total dos
recursos para investimento saltou da média histórica de 50% a 60%, para 77%. A
participação do mecanismo de auto-financiamento (PEX) prosseguiu declinante (de
22,5%, em 1986 para 18,5%, em 1977). Quanto ao Tesouro, desde a década passada,
a sua contribuição era irrisória, ou mesmo nula12 .
|
Tabela
3.1 Investimentos da Telebrás |
||
Ano |
ValorR$
109 |
Inv./ PIB(%) |
|
1974 |
3.216 |
0,73 |
|
1975 |
4.641 |
0,94 |
|
1976 |
5.871 |
1,08 |
|
1977 |
5.149 |
0,89 |
|
1978 |
4.431 |
0,73 |
|
1979 |
4.057 |
0,61 |
|
1980 |
2.678 |
0,39 |
|
1981 |
3.159 |
0,52 |
|
1982 |
3.576 |
0,56 |
|
1983 |
2.907 |
0,52 |
|
1984 |
2.560 |
0,46 |
|
1985 |
2.809 |
0,44 |
|
1986 |
3.445 |
0,49 |
|
1987 |
3.566 |
0,51 |
|
1988 |
4.231 |
0,64 |
|
1989 |
4.383 |
0,62 |
|
1990 |
2.783 |
0,49 |
|
1991 |
3.263 |
0,60 |
|
1992 |
4.272 |
0,79 |
|
1993 |
4.285 |
0,69 |
|
1994 |
4.414 |
0,60 |
|
1995 |
4.532 |
0,62 |
|
1996 |
6.843 |
|
|
1997 |
7.000 |
|
|
Fonte: M. Wohlers[1] |
||
O aumento das receitas de operação permitiu o expressivo aumento
da margem líquida, entre 1995 e 1997, proporcionando à Telebrás duplicar o seu
volume de investimentos anuais no período (Tabela 3.2). Ao ser privatizado, o
Sistema havia virtualmente alcançado um quantum de investimento anual que
corresponderia a mais de 60% do que estava previsto no Programa de Recuperação
e Ampliação do Sistema de Telecomunicações (Paste), para atender as metas de
expansão das telecomunicações brasileiras, até o ano 2.003.
Considerando-se o baixo nível de endividamento do Grupo Telebrás e o próprio
fato de o mercado ter sido aberto a inversões privadas diretas - que poderiam e
deveriam se realizar em paralelo e concorrencialmente às da Telebrás - não
teria sido necessário fatiar o conglomerado nacional e alienar o seu controle a
grupos privados nacionais e estrangeiros, para assegurar-se o crescimento dos
investimentos (se este seria um dos argumentos a justificar o modelo adotado de
privatização). Bastaria deixar que os grupos interessados investissem nos
segmentos de mercado que lhes interessasse ou demandasse, em paralelo e em
concorrência à Telebrás, para que, teoricamente, se lograsse completar o volume
de recursos necessários à expansão do sistema, conforme previsto no Paste.
3.3. O Plano de Metas (Paste)
O Programa de Recuperação e Ampliação do Sistema de Telecomunicações e do
Sistema Postal (Paste) anunciado, em primeira versão, em 1995, e, em segunda
versão, em 1997 - tem servido para orientar as projeções sobre a evolução
futura das telecomunicações brasileiras, inclusive constituindo-se em
referência oficial para a elaboração dos Planos de Outorga e dos
contratos-padrões de concessão, que passariam a vigorar depois da privatização.
Tabela
3.2. Receitas e margens do Grupo Telebrás (1994-97)
(em
R$ 109)
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|
1994 |
1995 |
1996 |
1997 |
|||||||
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Valor |
Margem |
Valor |
Margem |
Valor |
Margem |
Valor |
Margem |
|||
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1. Rec. op. bruta |
10.400 |
|
11.151 |
|
16.478 |
|
20.698 |
|
|||
|
2. Deduções fiscais |
2.339 |
|
2.533 |
|
3.991 |
|
4.892 |
|
|
||
|
3. Rec. op. liquida |
8.060 |
100,0 |
8.618 |
100,0 |
12.487 |
100,0 |
15.806 |
100,0 |
|
||
|
4. Custos dos serviços |
4.845 |
60,1 |
4.562 |
52,9 |
5.809 |
46,5 |
|
|
|
||
|
5. Desp. operacionais |
-2.564 |
|
-2.031 |
|
-2.750 |
|
|
|
|
||
|
6. Lucro operacional |
988 |
12,3 |
1.533 |
17,8 |
4.066 |
32,6 |
5.165 |
32,7 |
|
||
|
7. Lucro líquido |
684 |
8,5 |
810 |
9,4 |
2.756 |
22,1 |
3.900 |
24,7 |
|
||
|
8. Deprec./amortização |
2.994 |
|
2.886 |
|
3.564 |
|
|
|
|
||
|
9. Geração caixa op. EBITDA (9 = 3-4-5+8) |
3.645 |
45,2 |
4.911 |
57,0 |
7.492 |
60,0 |
|
|
|
||
|
10. Investimentos |
3.337 |
|
4.660 |
|
6.843 |
|
7.000 |
|
|
||
|
Fonte: Wohlers[2] |
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|
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|
|
|
||
O Paste parte do
princípio de que a década de 1990 marca a transição para a "sociedade da
informação". Nesta, os processos de produção, distribuição e consumo
tornam-se cada vez mais dependentes de comunicações eletrônicas, exigindo o
estabelecimento de uma Infra-estrutura Global de Informação (IGI), que
permitirá o acesso de todos aos esperados benefícios econômicos, sociais e
culturais da "sociedade da informação", bem como fomentará vantagens
competitivas e viabilizará a inserção de qualquer país, em posição destacada,
no contexto internacional. Daí, o Paste constata a necessidade de se construir
uma infra-estrutura nacional de comunicações de grande capacidade e alta
velocidade, capaz de transmitir informações vinculadas à multimídia (voz,
dados, textos, imagens e vídeo), e de fomentar o desenvolvimento de um mercado
de informações eletrônicas.
Com base nessas premissas, o Paste estabelece metas bastante ousadas, mas não
inviáveis, para a expansão das telecomunicações brasileiras nos próximos cinco
anos. Prevê que o Brasil terá cerca de 40 milhões de linhas telefônicas fixas,
em 2.003 (contra as atuais 17 milhões); 1,5 milhão de telefones públicos; e 23
milhões de telefones celulares. Assim, nos próximos cinco anos, a taxa de
penetração da telefonia fixa atingiria 23 linhas por 100 habitantes; a de
telefonia celular, 13 linhas por 100; e todas as localidades brasileiras com
mais de 300 habitantes deveriam estar conectadas a infovias. Para alcançar
esses objetivos, além de outros relacionados à TV por assinatura e transmissão
de dados, o Paste calcula que o Brasil deverá investir cerca de R$ 11 bilhões
por ano, nesses próximos cinco anos.
3.4. Cenários mundiais
Para entender melhor a política de telecomunicações deste governo será
necessário conhecer, nem que seja por alto, o cenário mundial das
telecomunicações. Até os anos 80, em todos os países centrais e em boa parte
dos periféricos, as telecomunicações eram controladas e operadas por monopólios
públicos, semi-públicos ou estatais. Em apenas um país importante - nos Estados
Unidos - o monopólio era exercido por uma empresa privada, a AT&T, embora
mantida sob regime de rigorosa regulamentação e fiscalização por parte de um
órgão federal de regulação (Comissão Federal de Comunicações (FCC)15 .
3.4.1. Estados Unidos
O processo de derrocada desses monopólios é caracterizado por uma longa
história. Nos Estados Unidos pode ser datado de 1968 - há mais de 30 anos,
portanto - quando uma empresa emergente, a MCI, quis oferecer um serviço de
comunicações por microondas para um grupo de clientes corporativos16 , e viu-se
impedida pela AT&T, respaldada na regulamentação vigente. Além da MCI,
grandes empresas de informática, como a IBM, e outros interesses empresariais
pressionavam para quebrar o monopólio da AT&T, então a maior empresa
privada dos Estados Unidos, com cerca de 1 milhão de empregados. Pressões e
contrapressões faziam-se sobre a FCC, o Departamento da Justiça, outros órgãos
do governo, a Justiça Federal e até o Congresso. Somente em 1982,um juiz
federal obteve um acordo, entre todas as partes interessadas, que levou à
perda, pela AT&T, do seu monopólio nas telecomunicações, ganhando, em
troca, liberdade para investir no exterior, avançar nas comunicações por
satélite e expandir-se na indústria de informática, segmentos estes que até
então lhe eram vedados pelas disposições regulatórias.
Entretanto, a evolução do modelo norte-americano não parou
aí. Com base no acordo judicial de 1982, em vigor a partir de janeiro de 1984,
o País foi dividido em sete regiões. As antigas operações da AT&T na
telefonia urbana foram agrupadas por região, sendo mantido o monopólio na
oferta e operação do serviço de telefonia fixa urbana, monopólio este a ser
exercido por novas empresas, desmembradas da AT&T, e desde então
genericamente conhecidas por Baby Bells. Ou seja, na rede básica substituiu-se
um monopólio nacional por sete monopólios regionais.
Os demais segmentos de telecomunicações - nos quais o que restou da AT&T
poderia seguir operando - foram abertos à concorrência, o que gerou o
aparecimento de muitas novas companhias oferecendo serviços de telefonia de
longa distância, instalação e operação de redes empresariais (corporativas) e
outros serviços. Surgiu um grande conjunto de novos e inesperados problemas que
viriam a dar muito trabalho à FCC, à Justiça Federal e ao Congresso: disputas
entre as empresas, mal atendimento a serviços públicos e a bairros ou regiões
mais pobres etc. No bojo desses problemas, o Congresso norte-americano, após dois
anos de discussão, acabou aprovando, em janeiro de 1996, uma nova Lei de
Telecomunicações que admitiu de vez um alto grau de liberdade para o mercado
definir os rumos do setor. Mesmo assim, ou por isto mesmo, a Lei fortalece as
possibilidades de intervenção das autoridades estaduais e municipais em defesa
dos interesses de serviços públicos como educação e saúde - cada vez mais
usuários de sistemas de telecomunicações, não só do telefone - aspecto lembrado
nesta CPI, pelo Professor Marcio Wohlers. Estas autoridades impõem fortes
restrições ou controles à transmissão de conteúdos obscenos ou violentos pelas
redes de comunicações, o que continua a gerar muita polêmica; e por fim, mantém
as maiores empresas, especialmente as Baby Bells e a AT&T, sujeitas a restrições
ou fiscalizações que visam coibir a formação de novos monopólios.
Curiosa mas nem um pouco surpreendentemente, após a Lei de 1996, sob a desculpa
de "criar músculos" para enfrentar a concorrência, as maiores
empresas norte-americanas do ramo das telecomunicações começam a se associar ou
até se fundir. Das sete Baby Bells originais só restam quatro, sendo que a
AT&T está negociando associação com uma destas. Empresas de TV a cabo e de
telefonia estão se fundindo; empresas de telefonia celular se agrupam, sendo
que uma, até então relativamente pequena, a WordCom, adquiriu um controle da
MCI, especializada nas comunicações de longa distância e que lhe era cinco
vezes maior. Observe-se que, quando foram criadas, qualquer uma das Baby Bell
já era maior que a nossa então Telebrás. Com fusões, incorporações e, também,
grandes investimentos no exterior, a AT&T e suas já crescidas filhas
tornaram-se empresas globais mastodônicas que, hoje, se encontram entre as
maiores corporações capitalistas do planeta.
É fácil perceber-se como o processo de quebra do monopólio nos Estados Unidos
foi lento e extremamente discutido. Não foi um processo comandado e decretado,
de cima para baixo, pelo governo, mas negociado, com mediação do governo e da
Justiça, pelas várias forças econômicas e políticas interessadas. De 1968,
quando tudo começou, até 1982, quando a Justiça decidiu, passaram-se 14 anos. A
AT&T ganhou ainda mais dois anos para desmembrar-se nas suas Baby Bells e
ajustar-se, tecnológica e empresarialmente, ao novo ambiente concorrencial.
Depois, mais discussões técnico-econômicas, políticas e jurídicas, consumiram
outros 12 anos, até a votação da nova Lei de Telecomunicações. E o processo
continua...
3.4.2. Europa e Japão
A quebra do monopólio da AT&T, norte-americana, viria a ter,
necessariamente, um profundo impacto econômico e político no mundo capitalista
avançado. Imediatamente, o governo dos Estados Unidos, à frente do qual se
encontrava Ronald Reagan, passou a pressionar os seus grandes parceiros
ocidentais para também abrirem os seus mercados de telecomunicações, pois
somente deste modopoderia se concretizar a entrada da AT&T na arena
internacional. Mas, com exceção do Reino Unido, então governado por Margareth
Tatcher, os demais países reagiram com prudência: não deixariam de liberalizar
as suas telecomunicações, mas o fariam passo a passo, testando e experimentando
cada fase, de modo a garantir que a introdução de um novo marco regulatório não
conduzisse a retrocessos em aspectos importantes, especialmente os sociais e
tecnológicos.
Em todos esses países, com exceção do Japão, as telecomunicações eram operadas
por entidades de administração direta, ou departamentos públicos, conhecidas
geralmente como Postal, Telephone and Telegraph (PTTs). A primeira etapa das
reformas, realizadas entre 1984 e 1988, separou os correios dos serviços
próprios de telecomunicações e incorporou estes a empresas de capital 100%
estatal: as telecoms. A British Telecom foi, pouco depois, em 1986,
privatizada, mas o Estado britânico permaneceu mantendo em seu poder, até hoje,
um tipo especial de ação - denominada "ação de ouro", ou golden share
- que lhe dá direito para intervir e até vetar algumas decisões dos sócios
majoritários, que possam afetar interesses estratégicos do Reino Unido.
As demais Telecoms - France Telecom, Deutsche Telekom, Telefónica de España,
Telecom Italia etc. - iriam permanecer estatais por ainda uma década, mais ou
menos. Conforme um programa que envolvia inclusive acordos no âmbito da União
Européia, cada país veio abrindo os segmentos mais interessantes do mercado a
terceiros investidores, sem deles excluir, entretanto, a empresa estatal. A
concorrência começou na telefonia celular, na TV a cabo, nas comunicações por
satélite, nas redes corporativas, mas levaria um bom tempo para chegar à
telefonia fixa. Novas leis, estabelecendo marcos regulatórios e, inclusive, os
limites e obrigações das Telecoms, vieram sendo introduzidas. Um país como a
França, por exemplo, teve três leis de telecomunicações, entre 1988 e 1996,
cada uma representando um avanço em relação à anterior. A Alemanha teve duas:
1988 e 1996. Em momento algum buscou-se, em uma única lei, revogar todo o
passado e pretender decretar o futuro. Ao contrário: o passado foi modificado
pouco a pouco pelas novas exigências da construção do futuro.
Além de consolidar as Telecoms como grandes operadores nacionais, embora
enfrentando concorrência interna e internacional, outro aspecto importante das
legislações desses países é o princípio do serviço mandatário. Os órgãos de
regulação, ao contratarem uma concessão, podem determinar ao concessionário -
uma empresa privada - que execute certos serviços de interesse social, ou
nacional, contribua para algum programa de desenvolvimento regional, atenda a
alguma demanda de outros serviços públicos. Foram instituídos fundos, formado
com taxas cobradas sobre as tarifas e preços, para financiar serviços
deficitários. E como, sobre a Telecom recai a maior parte dos serviços de
interesse público e social, são sempre tomados cuidados para que não venha a
sofrer concorrência predatóriapor parte de outros competidores privados.
De qualquer forma, seria previsível que as Telecoms sofressem fortes perdas de
receitas nos segmentos mais lucrativos do mercado. Para que isso não inviabilizasse
as suas obrigações sociais e nacionais, elas foram estimuladas e apoiadas a
investir no exterior, capturando em outros países rendas que lhes permitissem
suprir as suas perdas em seus mercados nacionais. British Telecom, France
Telecom, Deutsche Telekom, Telefónica de España, Telecom Italia, e ainda as
operadoras de países menores, como Holanda, Suécia, Suiça, Portugal e outros,
iriam começar a se tornar conhecidas mundo afora. Na América Latina, os
franceses e os espanhóis viriam a ter presença dominante. Os países
ex-socialistas do Leste Europeu tornaram-se presas fáceis dos alemães da
Deutsche Telekom. As norte-americanas Baby Bells também se expandiram por essas
regiões, sobretudo controlando sistemas de telefonia celular.
Somente na segunda metade dos anos 90, depois de fortalecidas nacional
einternacionalmente, iniciaram a desestatização das Telecoms. Em alguns casos,
como na Espanha, na Itália e em Portugal, o Estado ainda mantém e deve seguir
mantendo participações superiores a 10% no capital de controle, além de reter
ações douradas. Noutros casos, o Estado ainda possui mais de 51% do capital
votante das empresas, sendo que tanto na France Telecom quanto na Deutsche
Telekom, essa participação, até agora, mantém-se em 75%. Em todos os casos,
inclusive no da pioneira British Telecom, a forma adotada para a alienação da
participação estatal foi a da oferta pública pulverizada de lotes de ações nas
Bolsas, tomando-se cuidado para que nenhum investidor viesse a adquirir mais de
10 a 15 por cento do capital total. Pode-se afirmar que as Telecoms vieram a se
tornar empresas acionariamente públicas, nas quais os seus respectivos Estados
estão minoritariamente associados a milhões de pequenos acionistas e a alguns
grupos de investidores com grande poder de influência nas decisões, mas nenhuma
condição para decidir sozinhos – sendo, dentre estes, os bancos e fundos de
pensão, os mais importantes. O irônico de tudo isso é que, devido aos PEXs, a
nossa Telebrás e muitas das demais "teles" ostentavam uma situação
bastante similar: na holding, o Estado detinha apenas 19% do capital total,
embora esse percentual correspondesse a pouco mais de 50% do capital votante,
estando o restante do capital pulverizado entre mais de 4 milhões de pequenos e
anônimos acionistas, além de alguns grandes, com ou sem direito a voto. Não
teria sido muito difícil privatizá-la apenas democratizando de modo efetivo o
seu processo decisório.
3.5. Fatiamento e desnacionalização do Sistema brasileiro
Evidentemente, as transformações que estavam se dando nas telecomunicações
mundiais, ao longo dos anos 80, não poderiam deixar de afetar o Brasil e a
Telebrás. Mais cedo ou mais tarde, o regime monopolista estatal brasileiro
precisaria evoluir, acompanhando a tendência mundial à liberalização e
privatização.
O processo já atingiraa nossa América Latina, mas aqui os exemplos não pareciam
muito edificantes. No Continente, "liberalização" e
"privatização" estavam se tornando, para todos os efeitos práticos,
sinônimos de redução dos monopólios públicos ou estatais passando a monopólios
privados controlados por empresas estrangeiras, na maioria ainda estatais. Este
movimento começou no Chile que, em 1987, vendeu a sua Companhia Telefônica
Chilena para o especulador autraliano Alan Bond, por US$ 278 milhões, o qual
repassou a empresa, por US$ 392 milhões, para a Telefónica de España, em 1990.
Em novembro de 1991, foi a vez da Argentina: sua Entel foi dividida em duas
companhias, sendo a metade norte entregue para um consórcio formado pela France
Telecom, Italia Telecom e o Banco Morgan; enquanto que a metade centro-sul
passou para as mãos de outro consórcio formado pela Telefônica de España e o
Citicorp. Um mês depois, o México: a rica e lucrativa Telmex foi comprada pelo
consórcio France Telecom-Bell South-Grupo Caruso, mero intermediário financeiro
local. Em novembro de 1991, a CANTV venezuelana foi vendida para o consórcio
Telefônica-AT&T-GTE. A Telefônica também compraria a TLD portoriquenha, em
1991, e a Entel peruana, em 1994.
O temor que a Telebrás viesse a ter o mesmo destino que já se anunciava para as
suas congêneres latino-americanas justificaria a consagração do princípio
monopolista na Constituição de 1988. Pelo artigo 21, inciso XI, não apenas se
reafirmava o monopólio da União nas telecomunicações - princípio introduzido,
pelo regime militar, na Carta constitucional de 1967 - como se acrescentava que
esse monopólio seria exercido por empresas sob controle estatal. Por outro
lado, a radiodifusão permanecia sob monopólio, mas podendo ser exercido em
regime de concessão a empresas privadas brasileiras.
De fato, esse enunciado constitucional impediu que um processo atabalhoado e
incerto de liberalização tivesse início, ainda em fins da década de 80. Mas não
foi o suficiente para agendar um amplo debate sobre o futuro das
nossastelecomunicações. Ao contrário, no Brasil dos governos Sarney, Collor e
Itamar Franco, teve início um processo de progressiva deterioração das
telecomunicações brasileiras, sobretudo nos maiores centros urbanos, como Rio
de Janeiro e São Paulo. Embora não faltassem à Telebrás recursos para investir,
seus investimentos eram sistematicamente mantidos abaixo do necessário. A
direção e a administração das subsidiárias estaduais (as "teles")
foram politizadas, passando a atender aos interesses da clientela dos partidos
governistas17 . Perdeu-se qualquer capacidade de formulação sistêmica e
estratégica. Ao invés de se debater um projeto de mudança nas comunicações que
respondesse aos desafios globais deste fim de século, aferraram-se posições
"contra" ou "a favor" da "quebra do monopólio".
Quando afinal se deu a flexibilização do monopólio constitucional, em 1995, foi
como se o dique de uma represa cheia até a borda se rompesse violentamente: veio
tudo por água abaixo...
Ao invés de levar o Sistema Telebrás a avançar conforme os exemplos do chamado
"primeiro mundo", o Presidente Fernando Henrique Cardoso preferiu
optar pelo que poderíamos denominar modelo cucaracho, tipicamente
latino-americano, conforme apontou a esta CPI o professor Marcio Wohlers.
Poderia adotar um modelo de liberalização e abertura do mercado que preservasse
o Grupo Telebrás como um grande operador global brasileiro e, assim,
assegurasse, entre outros aspectos, a evolução da capacitação tecnológica e
industrial do País. Mas o Presidente, sem sequer proporcionar à sociedade
informações e tempo para uma discussão aprofundada e decisão amadurecida,
preferiu fragmentar o Sistema estatal e vendê-lo, em fatias, para os mesmos
operadores europeus e norte-americanos que já controlam as telecomunicações em
outros países do Continente. Daí nasce o atual controle da Telefónica sobre as
telecomunicações paulistas, com todas as suas, agora bem conhecidas,
conseqüências.
3.5.1. As reformas legais
O processo de abertura teve início com o envio de proposta de Emenda
Constitucional ao Congresso Nacional modificando a redação do artigo 21, inciso
XI, da Constituição de 1988, aprovada em agosto de 1995. O monopólio da União
foi mantido, mas ao Estado, agora, caberia exercer papel regulamentador, tanto
podendo seguir operando diretamente os serviços, como outorgá-los a empresas
privadas. Uma nova lei de telecomunicações (que substituiria o velho Código de
1962) regulamentaria o novo ordenamento constitucional.
Pouco depois, em novembro de 1995, o governo enviou ao Congresso um projeto de
lei que viria a ser conhecido como "Lei Mínima", porque tratava
apenas de regulamentar as concessões para serviços de telefonia móvel celular e
de comunicações via satélite, além de outros segmentos de menor importância.
Essa Lei - nº 9.295, de 19 de julho de 1997, a rigor, visava resolver
contenciosos jurídicos e políticos que se arrastavam desde a promulgação da
Constituição, devido a tentativas do Ministério das Comunicações, durante o
governo Sarney, de interpretarcertos dispositivos do Código de 1962 de um modo
que lhe permitisse começar a transferir para a iniciativa privada, a exploração
da telefonia móvel celular, na chamada "banda B". Paralisada na
Justiça por ações populares impetradas por sindicatos e partidos políticos, a
abertura da telefonia celular ao investimento privado poderia, agora, ter
prosseguimento, sob o respaldo legal da "Lei Mínima".
Em dezembro de 1996, o governo envia ao Congresso a Lei Geral de
Telecomunicações (L.G.T)., que seria aprovada, nas duas Casas, até julho de
1997, após um debate, portanto, de apenas sete meses. Se é que, de fato, houve
um real debate, na Câmara e no Senado, ao longo da tramitação do projeto.
Para elaborar a sua proposta, o Ministério das Comunicações contou com o
suporte de consultores internacionais, fornecidos pela União Internacional de
Telecomunicações (UIT), agência especializada da ONU com quem firmou, em 1996,
um acordo de cooperação técnica18 . Universidades ou centros brasileiros de
pesquisa, ao contrário, não foram formalmente envolvidos nos estudos relativos
ao processo.
3.5.2. A Lei Geral
A grande e mais importante mudança introduzida pela LGT no ordenamento das
telecomunicações brasileiras foi determinar a total retirada do Estado das atividades
de operação, em que pese nem a Constituição reformada chegar a tanto19 . O
Estado passou a ter, através da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel),
apenas papel concedente, regulamentador e fiscalizador. Toda operação ou
exploração direta de redes e serviços deverá ser concedida a pessoas jurídicas
de direito privado. Se amanhã, nos termos da Constituição em vigor, algum outro
presidente resolver que o Estado deva voltar a operar, mesmo que parcialmente,
alguma rede, ou fornecer algum serviço, talvez tenha que, antes, providenciar
uma nova lei, ou emendar a L.G.T.
A partir daí, a L.G.T. torna-se, fundamentalmente, uma lei que estabelece
normas e regras de outorgas, a começar pelo detalhado tratamento que dá à
organização burocrática da Anatel20 . Divide os serviços entre os prestados em
"regime público" e os em "regime privado" - podendo haver
serviços "concomitantemente" prestados em ambos os
"regimes". Caracteriza que o "regime público" é aquele que
impõe ao operador "obrigações de universalização e de continuidade".
Esclarece que, nas obrigações de universalização, "incluem-se" as
"diversas modalidades do serviço telefônico fixo comutado, de qualquer
âmbito, destinado ao uso do público em geral"21 . Percebe-se ficar
subentendido que outras modalidades de telecomunicações podem ser excluídas das
obrigações de universalização; logo, também, do "regime público". Com
efeito, nas regulamentações posteriores à lei, apenas a telefonia fixa passou a
ser considerada, pela Anatel, como um serviço público.
As "obrigações de universalização são as que objetivam possibilitar o
acesso de qualquer pessoa ou instituição de interesse público a serviço de
telecomunicações, independente de sua localização e condição
sócio-econômica", além de também atender a serviços essenciais22. Elas
serão "objeto de metas periódicas" determinadas em planos elaborados
pela Anatel e aprovados "pelo Poder Executivo". Prevê-se que será
necessário, a cada plano, "detalhar as fontes de financiamento das obrigações
de universalização", ficando claro que elas "serão neutras em relação
à competição, no mercado nacional, entre as prestadoras"23 . A Lei, logo
em seguida, esclarece como garantirá essa neutralidade: os déficits financeiros
dos operadores decorrentes das suas "obrigações de universalização"
serão cobertos por "recursos complementares" oriundos do
"Orçamento Geral da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios" e de um "fundo especificamente constituído para essa
finalidade" [cobertura daqueles déficits].
O Fundo de Universalização (Fust) deverá ser criado através de uma outra lei, a
ser enviada pelo Executivo ao Congresso num prazo de 120 dias, a partir da
vigência da LGT, mas sem nenhuma previsão posterior quanto aos seus prazos de
discussão, tramitação, votação e entrada em vigor24 . Em sua exposição a esta
CPI, o Deputado Alberto Goldman não explicou porque este Fundo não teve a sua
instituição já definida na própria L.G.T. e ainda confessou desconhecer se
fundos idênticos existem em outras leis similares, fora do Brasil. Revelou
assim que, além de não ter estudado convenientemente a matéria que deveria
relatar, sequer leu o texto e justificativas de emendas que lhe foram
encaminhadas por vários deputados, sobre a matéria: fundos de universalização
são previstos no corpo das leis de telecomunicações, de 1996, da França e da
Alemanha, inclusive nelas se estabelecendo as origens dos recursos, todos
exclusivamente por conta das receitas dos operadores. As Justificativas das
Emendas apresentadas ao Deputado Goldman explicavam isto muito bem. Tivesse
acolhido essas emendas, não estaríamos agora a enfrentar os problemas para
aprovar o projeto de criação do Fust, que o próprio Deputado Goldman nos disse
estarem sendo enfrentados no Congresso.
No dispositivo contido no artº 81 parece residir a filosofia
básica da LGT, relativamente ao financiamento ao atendimento público
universalizado. Ao contrário do que vigora nas legislações de outros países
que, aparentemente, estariam a nos servir de modelo, no Brasil, os operadores privados
serão isentados de arcar com qualquer eventual déficit ou prejuízo que possam
resultar das suas "obrigações de universalização"25 . Os orçamentos
públicos deverão provisionar verbas para atender à cobertura de custos que
venham a ser reclamados pelos operadores incumbidos dos serviços universais.
Sabendo-se que, dos mais de 5.500 municípios brasileiros, em apenas cerca de
600 as telecomunicações são superavitárias, pode-se prever para breve, a
emergência de conflitos e protestos por parte de surpresas comunidades,
políticos paroquianos, lideranças municipais e estaduais, prefeitos e até
governadores, quando constatarem a redução quantitativa e queda qualitativa dos
serviços em suas cidades menores, vilas distantes, regiões interioranas,
periferias urbanas - até concordarem, resignados, em consignar as necessárias
verbas em seus apertados orçamentos, para que os serviços voltem a melhorar.
3.5.3. Divisão da Telebrás
A L.G.T. autorizou o Poder Executivo a "promover a reestruturação e a
desestatização" das suas empresas de telecomunicações26 . Não determinava
que essa reestruturação e desestatização levasse, necessariamente, à extinção
do Grupo Telebrás, ao seu fatiamento em empresas independentes entre si, e à
venda isolada de cada parte a diferentes companhias interessadas, nacionais ou
estrangeiras. Mas desde o início do governo Fernando Henrique, o ministro
Sergio Motta, em pronunciamentos à imprensa ou palestras nos mais diversos
fóruns, deixava claro que este seria o seu objetivo - ver, por exemplo, RNT,
Suplemento Especial, junho de 1996.27 .
Assim, uma vez promulgada a nova Lei, o governo perseguiu de forma acelerada os
seus objetivos, fazendo constituir a Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) e, logo, aprovar os seus principais documentos de orientação política,
inclusive o Plano Geral de Outorgas, o Plano Geral de Metas de Universalização
e os contratos-padrões para a concessão dos serviços públicos.
O Plano Geral de Outorgas, ao dividir o país em regiões de concessão na
telefonia fixa, na celular e em outros serviços, selou o destino do Sistema
Telebrás: ele deveria ser fatiado conforme as áreas desenhadas pelo Plano. As
então 27 "teles", mais a Embratel, seriam reorganizadas em 12 novas
companhias. Destas, oito sairiam dos departamentos ou divisões de telefonia
celular ("banda A") das "teles", que seriam agrupados em
empresas regionalizadas. Apenas São Paulo e Minas Gerais permaneceriam, cada
um, com um operador de telefonia celular, de âmbito estadual, na "banda
A". Os demais estados seriam servidos por operadores de âmbito regional,
numa divisão que podia agrupar desde apenas dois estados (Rio de Janeiro e
Espírito Santo; Bahia e Sergipe), até quatro ou cinco (áreas Norte, Nordeste,
Centro-Oeste). Excluída a telefonia celular, o que sobrava das
"teles", basicamente a telefonia pública fixa, foi reunido em três
grandes companhias: a Telesp (São Paulo); a Tele Norte-Nordeste-Leste (desde o
Amazonas até o Estado do Rio); a Tele Centro-Sul (desde Santa Catarina e Paraná
até o Acre, passando pelos estados do Centro-Oeste, por Rondônia e por
Tocantins). A Embratel tornou-se, também, uma companhia independente.
Assim como já acontecia na telefonia celular, em que cada uma das nove áreas de
concessão é atendida por duas empresas operadoras (bandas A e B), também na
longa distância e na telefonia fixa urbana, deveriam existir duas companhias
por área: estas seriam as chamadas empresas-espelhos. Mas ao contrário de fazer
com que, primeiro, chegassem os concorrentes, para depois iniciar a privatização
da Telebrás, como foi insistentemente sugerido por muitos parlamentares durante
os debates da Lei, no Congresso, o Governo e a Anatel, respaldados na
legislação que fizeram aprovar, acharam por bem, antes, entregar os melhores
bocados do Sistema brasileiro aos grupos empresariais internacionais mais
poderosos, imaginando que, depois, atrairiam outros investidores, obviamente
menos poderosos, para assumir as "espelhos". Uma coisa seria oferecer
a empresas do porte de uma Telefônica ou de uma MCI, a possibilidade de
concorrer com a Telesp, ou até com a Telebrás, em São Paulo, ou no Brasil.
Outra é esperar que, neste mundo de grupos mastodônticos e mercado muito bem
dividido internacionalmente, apareçam investidores menores dispostos a correr o
risco de disputar o mercado paulista com a fortíssima corporação espanhola. O
resultado foi o que já se viu: não se tratou de uma "fatalidade",
como pretendeu nos impigir o Deputado Sampaio Dória, o não aparecimento, desde
logo, de concorrentes na telefonia de São Paulo, bem como na dos estados do
Centro e do Sul (sem "espelho" até hoje). Foi conseqüência,
absolutamente prevista, do próprio modelo adotado. Somente quando a Anatel
baixou o seu nível de exigências, surgiram interessados que, entretanto,
justamente porque não estão submetidos a quase nenhuma obrigação de natureza
pública, buscarão operar em nichos muito bem definidos e altamente lucrativos
do mercado. O grosso da população paulista e brasileira continuará submetido
aos monopólios da Telefónica, Telemar e Tele Centro-Sul.
Aliás, que assim seria, era sabido das consultorias que imaginaram esse
esdrúxulo modelo; dos altos escalões governamentais que o adotaram; das
empresas participantes dos leilões de privatização; mas não era do conhecimento
geral da sociedade, iludida pela maciça propaganda sobre as vantagens da
"competição", inclusive da grande maioria dos seus representantes
políticos, como os deputados desta Casa legislativa. Aquelas consultorias
projetaram - até como parte dos cálculos que as levariam a definir o preço da
Telebrás - a perda de mercado, pelas "teles", ao longo dos próximos
dez anos, em função da concorrência. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, após uma
década, Telesp e Telerj teriam perdido apenas 20% das chamadas telefônicas
locais residenciais e pouco mais de 30%, das chamadas locais não residenciais.
A Telemig e a Telebahia teriam perdido, respectivamente, 13% e 10%. Em todo o
restante do País, essas taxas não superariam 2% - ou seja, nada. Certamente,
quem viesse a abocanhar a Telesp não teria muito a temer quanto ao futuro, a
curto prazo e mesmo a longo prazo, de sua posição absolutamente dominante!
Apesar de todas essas evidências, o Governo e a direção da Telebrás, através de
decisões administrativas, começaram a ajustar o conjunto do Sistema ao projeto
desnacionalizante, adotando, a toque de caixa, as medidas cabíveis para separar
ou agrupar (conforme o caso) as ex-nossas "teles". No dia 22 de junho
de 1998, uma Assembléia Geral de acionistas da Telebrás aprovou a cisão e futura
extinção do Grupo, determinando a criação formal das novas holdings.
3.5.4. Discussão do novo modelo
A rigor, são desconhecidos da nossa sociedade os estudos e análises que
poderiamter justificado e avalizado o fatiamento do Sistema Telebrás. O governo
quase que limitou-se a informar a opinião pública das suas intenções, através
de entrevistas das autoridades à imprensa, afinal confirmadas e oficializadas
em palestra do então ministro Sergio Motta, transmitida em rede nacional de
televisão, no dia 23 de outubro de 1997. Nenhum real debate técnico e econômico
foi publicamente realizado. Os mais aprofundados desses estudos técnicos,
provavelmente, foram aqueles realizados pelas consultorias estrangeiras
indicadas pela UIT. Mas esses estudos, somente há menos de 30 dias da
realização dos leilões, puderam vir a conhecimento público, mesmo assim após
uma intervenção, neste sentido, do Ministério Público. Pouquíssimas pessoas,
fora do âmbito oficial ou das empresas, os viram. Não houve tempo, nem
condições para criticá-los, questioná-los, contraditá-los. A imprensa os
ignorou.
Em se tratando de uma questão naturalmente complexa, um grande e transparente
debate deveria ter-se realizado ao longo de todo o tempo necessário para
amadurecimento e total esclarecimento dos problemas envolvidos. Como vimos, os
Estados Unidos levaram 14 anos para se decidirem a quebrar o monopólio da
AT&T e ainda outros dez, para alcançar a elaboração de sua atual lei de
Telecomunicações. Os principais países europeus, também, têm levado mais de década
experimentando, aos poucos, um novo regime regulatório e, paralelamente,
transformando as suas antigas autarquias públicas em novas companhias privadas.
O Brasil, em menos de dois anos, sairia de um monopólio estatal nacionalmente
articulado e integrado, para um regime de concessões privadas fragmentado,
desintegrado e, no fundamental, sob controle estrangeiro.
Examinando-se o cenário internacional, olhando-se a própria realidade
brasileira e inexistindo explicações substantivas - tudo o que o Deputado Goldman
declarou a esta CPI, foi "não ver razões" para fazer diferente - será
difícil encontrar justificativas para a decisão do governo de destruir, via
fragmentação,o Sistema Telebrás. Aparentemente, o único motivo seria facilitar
a sua venda, através de transferência do controle estratégico28 , pois, por
este mecanismo, o preço de mercado das ações de controle do Grupo Telebrás - de
13 a 30 bilhões de dólares, conforme diferentes estimativas - tornaria a sua
compra inviável por parte de qualquer investidor, mesmo as maiores companhias
internacionais. Divididas, as novas holdings puderam ser oferecidas, cada uma,
por preços que variaram entre 600 milhões a 3 bilhões de dólares, mais
acessíveis ao caixa e à capacidade de financiamento dos principais grupos empresariais
interessados.
Apesar da ausência de um debate maior, não faltou quem registrasse as possíveis
inconveniências do plano adotado29 . Empresários, economistas e políticos
chamaram a atenção para as prováveis repercussões desse modelo no aprofundamento
das desigualdades regionais; na perda de capacidade competitiva da economia
brasileira; no retrocesso tecnológico e industrial; e até em ameaça à soberania
e à segurança nacionais. Sublinhe-se que a maioria dos críticos não se opunha,
em princípio, a uma possível desestatização do Sistema Telebrás mas,
principalmente, questionava o modelo elaborado pelos consultores da UIT
sugerindo, alternativamente, que a companhia estatal viesse a evoluir para se
tornar uma Telecom brasileira, nos moldes das européias, inclusive
privatizando-se, parcial ou totalmente, o seu capital de controle, de
preferência por via de oferta pública.
3.5.4.1. Dificuldades à universalização
Considerando a ênfase dada nos diversos depoimentos, especialmente no do Sr.
Renato Guerreiro, da Anatel, aos objetivos de universalização dos serviços que
estariam entre os mais prioritários da atual política. E considerando, também,
ser este um assunto que toca de muito perto ao conjunto da população, cabe
estender mais um pouco a análise da regulamentação em vigor, no que interessa a
este aspecto da maior importância.
Apesar do discurso oficial, o novo regime, ainda em implantação, parece
predestinado a reproduzir as limitações sociais do regime monopolista estatal,
já expostas mais acima. O esquartejamento do integrado Sistema Telebrás e o
modelo adotado para financiar, a partir de agora, a universalização, recorrendo
a verbas públicas, apontam na direção contrária à anunciada pelo governo: os
serviços, graças ao aporte de investimentos privados, deverão se expandir e
melhorar muito nas regiões e nos segmentos sócio-econômicos que constituam
mercado, pouco avançando, ou até retroagindo, nas regiões ou segmentos cujo
atendimento se justifique, acima de tudo, por razões de ordem social, cultural
ou cidadã.
Pode-se argumentar que os Planos de Outorga, decretados pelo Poder Executivo,
nos termos da LGT, fixarão as metas de universalização enquadráveis nas
"obrigações" a serem assumidas pelos novos concessionários - pelas
atuais disposições da Anatel, apenas as empresas operadoras de telefonia fixa
em "regime público". A esses Planos caberiam detectar as carências de
atendimento - por região, ou por segmento social, ou por necessidades das
políticas públicas - a serem supridas pelos novos operadores. Mas percebe-se
uma sutileza na lei brasileira, se comparada às suas congêneres européias ou
mesmo norte-americana: em nosso país nenhum investidor privado estará obrigado
a prestar um determinado serviço. O Estado oferece a outorga, e espera pelos
prováveis candidatos. Pode acontecer - como já aconteceu na licitação para a
concessão da "banda B" na Amazônia, ou para as
"empresas-espelhos" - de não aparecerem candidatos. Pode acontecer -
como já se ensaia nos debates sobre o Fust e o FDT, no Congresso - de empresas
operadoras alegarem não estarem obrigadas a prestar tais serviços, pois não se
encontram sob as regras do "regime público". A L.G.T. não dá ao
Estado, nem muito menos à sociedade civil (como garante, por exemplo, a Lei de
Telecomunicações norte-americana), nenhum poder para convocar mandatoriamente
um operador a prestar um serviço de exigência social ou de necessidade
nacional.
Na medida em que o atendimento às populações ou às regiões mais pobres implique
na manutenção ou ampliação de serviços deficitários - especialmente, os de
telefonia fixa residencial e de telefonia pública -, os operadores começarão a
recorrer ao fundo de universalização (se e quando vier a existir), ou a adotar
estratagemas que maquilem os compromissos assumidos com a Anatel. Em princípio,
nada impede que a expansão nominal das linhas se concentre nas residências de
mais alta renda (duas a três linhas, por residência), embora, estatisticamente,
o resultado venha a ser a elevação do indicador "linhas por 100
habitantes". Sabe-se que, em outros países latino-americanos, é comum
colocar-se os aparelhos de telefonia pública, notadamente os localizados em
vilas distantes ou de periferias pobres, no interior de pequenos
estabelecimentos comerciais (lojas, bares), repartindo com os seus proprietários
os custos e as receitas mas, obviamente, interrompendo as operações à noite e
em outros horários não comerciais.
O mais provável, porém, nas condições da legislação brasileira, é virem as
autoridades estaduais e municipais a pressionar para aumentar, no orçamento da
União, as verbas destinadas ao fundo de universalização, ou mesmo para
assegurá-las nos orçamentos de seus estados e municípios. Assim, a evolução das
telecomunicações em cidades ou regiões mais pobres passaria a depender da
mobilização, poder de barganha e do próprio interesse das forças políticas
locais. Esta hipótese foi claramente sinalizada pelo presidente da Anatel,
Renato Guerreiro, em entrevista à Folha de S. Paulo, em 2 de agosto de 1998.
Perguntado se recursos públicos seriam utilizados para financiar os planos de
universalização, inicialmente o negou, para, em seguida, completar:
"Nas discussão com o Congresso, ficou evidente o interesse dos
parlamentares em que estados e municípios pudessem fazê-lo. Não consideramos a
hipótese de a União alocar recursos para isso. Mas Estados e municípios têm a
possibilidade legal de aplicar verbas orçamentárias no setor"30 .
3.5.5. Política industrial e tecnológica
Tendo sido, também, um tema muito discutido na CPI, a política industrial e
tecnológica, bem como o relacionamento dos novos operadores com o empresariado
brasileiro precisarão ser avaliados, recuperando, para começar, alguns eixos
históricos fundamentais.
Embora alguns dos mais importantes fornecedores brasileiros de tele-equipamentos
já operassem instalações industriais no Brasil há muitas décadas, fornecendo
aparelhos telefônicos e alguns componentes, é certo que, até o início dos anos
70, as mais significativas e maiores encomendas colocadas pelo Sistema
Telebrás, em sua fase inicial de expansão, foram atendidas através de
importações. Será o crescimento acelerado do mercado que permitirá estender
também à indústria de tele-equipamentos o processo de substituição de
importações que caracterizou todo o ciclo industrial-desenvolvimentista, desde
os seus primórdios. Por substituição de importações - deixemos claro - não se
pode entender "incentivar o projeto e fabricação local" de
equipamentos e produtos, como pretendeu caracterizá-lo o atual presidente do
CPqD, engenheiro Hélio Graciosa, em depoimento a esta CPI. Do modelo
substituidor de importações estavam geralmente excluídas as atividades de
projeto, sobretudo as de desenvolvimento tecnológico e de projeto básico de
engenharia. Desde quando trouxemos - dos Estados Unidos, nos anos 40 - a nossa
primeira grande usina siderúrgica (a CSN), até quando, em tempos mais recentes,
vimos crescer, entre nós, grandes complexos industriais, como os petroquímicos,
e importantes indústrias fornecedoras de bens de consumo, como a automobilística,
não se cuidou de fomentar, internamente, maior capacitação para a pesquisa e
desenvolvimento. Toda vez que precisávamos trazer para o país um segmento
industrial novo ou expandir a capacidade produtiva já instalada,
encomendávamos, no exterior, as pesquisas, os projetos, os desenhos e, até
mesmo, boa parte das máquinas necessárias. Produzir sem dominar a tecnologia,
esta foi uma das características mais marcantes do modelo de substituição de
importações.
Foi somente na segunda metade da década de 70, durante o Governo Geisel, que
essa característica do modelo substituidor de importações começou a sofrer uma
forte crítica, e novas políticas econômico-industriais passaram a ser
implementadas, visando fomentar o desenvolvimento tecnológico. As críticas provinham
de diferentes atores: da comunidade acadêmica, de alguns segmentos
empresariais, de setores da engenharia brasileira e, claro, de núcleos
civís-militares bem situados nas estruturas do poder na época. Contando com
esse apoio social, o Governo Geisel daria início a uma nova estratégia de
política econômico-industrial, que viria a superar a mera substituição de
importações. O objetivo, a partir de então, seria o de priorizar, no país, o
desenvolvimento tecnológico, o suprimento de novas tecnologias, na medida do
possível e desejável, para o sistema econômico-produtivo nacional.
É dentro desse quadro maior que nasce o Centro de Pesquisas da Telebrás (CPqD).
A acelerada expansão da Telebrás, nos anos anteriores, havia feito do Brasil um
importante mercado para os fornecedores transnacionais de sistemas e
equipamentos de telecomunicações. Disso se aproveitaram os fabricantes que, há
muito, já aqui mantinham unidades de montagem de equipamentos profissionais:
nomeadamente a Standard Elétrica, da norte-americana ITT; a sueca Ericssom; e a
alemã Siemens. Estas três grandes companhias iriam formar um autêntico cartel
que passaria a controlar quase completamente os fornecimentos para a Telebrás,
Embratel e demais "teles". Como era típico do modelo substituidor de
importações, essas empresas apenas montavam sistemas e equipamentos produzidos
com tecnologias que traziam dos seus países de origem.
Para romper com a dependência das telecomunicações brasileiras frente o
oligopólio estrangeiro e, ao mesmo tempo, ampliar a presença da tecnologia e da
indústria nacionais no suprimento ao setor, o Governo Geisel, através das
resoluções ministeriais de número 661, de agosto de 1975, e 622, de junho de
1978, fixou um programa que buscaria direcionar as compras da Telebrás para produtos
fornecidos por empresas genuinamente brasileiras. De modo a prover essas
empresas com as adequadas tecnologias, as mesmas Resoluções criavam um Centro
de Pesquisas e Desenvolvimento (CPqD) que se localizaria na cidade de Campinas,
São Paulo.
Ao criar o CPqD e estabelecer uma política industrial que, apoiada no poder de
compra estatal, buscaria desenvolver a tecnologia e a indústria nacionais, o
governo brasileiro de então, basicamente, adotou o mesmo modelo que já se
mostrara exitoso em vários países centrais. Em todos esses países, os sistemas
de telecomunicações, do ponto de vista econômico-produtivo, formavam sistemas
fechados. O operador monopolista (AT&T, NTT japonesa, as PTTs européias
etc.) definia as suas estratégias tecnológicas de longo prazo e programava as
suas compras, um grande laboratório quase sempre vinculado ao operador (Bell
Labs, da AT&T; os cinco laboratórios da NTT; o CNET, da PTT francesa etc)
desenvolvia as principais tecnologias e produtos. Um pequeno e cartelizado grupo
de grandes fabricantes (Western, associado à AT&T; os zaibatusu japoneses;
a Siemens, na Alemanha, ou a Thomsom, na França) absorve essas tecnologias e
fabrica os produtos para vendê-los aos mesmo monopólio que os havia
desenvolvido. O resultado de um tal modelo é que, até hoje, mesmo depois de uma
grande abertura internacional dos mercados, as tecnologias e empresas nacionais
ainda continuam a dominar o suprimento de seus países de origem, transferindo a
concorrência para terceiros países (Tabela 3.3.).
|
Tabela
3.3. Participação
de tecnologia local
em mercados nacionais (centrais de comutação) |
|||
|
País |
Tecnologia |
(%) |
|
|
Suécia |
Ericsson |
96,5 |
|
|
Japão |
|
94,1 |
|
|
|
NEC Oki Hitachi Fujitsu |
34,1 23,6 18,5 17,9 |
|
|
França |
Alcatel |
90,8 |
|
|
EUA |
|
82,2 |
|
|
|
Lucent 45,6 Nortel 36,6 |
|
|
|
Alemanha |
Siemens |
74,5 |
|
|
Canada |
Nortel |
76,5 |
|
|
R.Unido |
GPT |
66,8 |
|
|
Itália |
Italtel |
53,9 |
|
|
Espanha |
Alcatel |
46,1 |
|
|
Finlândia |
Nokia |
40,5 |
|
|
Coréia |
TDX |
51,1 |
|
|
Fonte: Sintpq[3] |
|||
O objetivo, a curto prazo, da nova
política então implementada, seria, não somente, o de buscar maior equilíbrio
na balança comercial32 , mas tornar o Brasil menos dependente dos azares da economia
internacional e, mesmo, do poder de barganha, político e comercial, detido por
países que controlavam setores tecnológicos essenciais e de ponta. A longo
prazo, porém, se perseguido com convicção, o projeto poderia levar o Brasil a
ocupar algum espaço no mercado internacional de tecnologias e serviços de
telecomunicações, até então exclusivo dos Estados Unidos e poucos países
europeus sendo inequivocamente invadido por companhias do Japão, às quais se
seguiriam fornecedores coreanos e de outros "tigres asiáticos". Como
não foi perseguido com convicção, hoje assistimos, não somente nas
telecomunicações mas em outros segmentos industriais, à repetição das mesmas
fórmulas já gastas de expansão industrial, através de um modelo de substituição
de importações que já se dizia superado para atender à demanda do mercado de
telecomunicações tanto público quanto privado, continuamos a conceder
incentivos e subsídios de toda ordem a empresas estrangeiras que aqui vêm tão
somente montar sistemas e equipamentos, com tecnologias trazidas de seus países
de origem. Fenômeno semelhante se repete na indústria automobilística – vide o
caso Ford e em outros segmentos.
Isto, apesar de ter o CPqD, do ponto de vista tecnológico, alcançado um
inquestionável êxito. Entre 1976 e 1994, período durante o qual chegou a
empregar cerca de 1.800 profissionais de formação superior - hoje são 835,
conforme informou-nos o seu presidente - o Centro desenvolveu 76 produtos
novos, a maioria com elevado potencial de colocação no exterior e, no geral,
iguais ou superiores aos de seus concorrentes, fornecidos por empresas
estrangeiras no Brasil. Dentre estes, destaca-se o primeiro aparelho telefônico
brasileiro, já reunindo características próprias para utilização em sistemas
digitais: sistema de telefonia pública mundialmente inédito, operado por cartão
indutivo, tecnologia de produção de fibras óticas e as centrais digitais de
comutação, denominadas "Trópico".
Percebendo-se àquela época que, como estava acontecendo nos países centrais,
num futuro relativamente próximo, toda a base de comutação do sistema
brasileiro, com tecnologia analógica, seria substituída por uma nova, digital,
o ponto nodal da política industrial geiseliana consistia em projetar centrais
de comutação digital no CPqD, para adotá-las nas futuras encomendas da
Telebrás. Desde logo, conforme as Resoluções 661 e 622, este previsível mercado
ficaria 100% reservado para empresas que viessem a industrializar as centrais
do CPqD. Significa dizer que, quando viesse a iniciar a digitalização da sua
rede, a Telebrás não seria mais mercado cativo das centrais digitais com
tecnologia estrangeiras, que também a Ericsson, a Siemens e outras grandes
empresas vinham então projetando e desenvolvendo em seus países de origem.
Mas, conforme seria previsível, esse programa viria a sofrer toda a sortede
boicotes por parte das empresas estrangeiras já instaladas no país. Não foi
difícil para as montadoras multinacionais, aliadas a capitalistas brasileiros e
articuladas por segmentos da alta burocracia do Ministério das Comunicações,
encenar verdadeiras farsas que as travestiram em "empresas
nacionais". Ericsson, Siemens e Standard Elétrica associaram-se,
respectivamente, aos grupos Hering, Monteiro Aranha e Pereira Lopes. Além de
não terem qualquer tradição industrial nas telecomunicações e não demonstrarem
condições para absorver ou desenvolver tecnologias, estes sócios nacionais
possuíam, de fato, 17% a 30% do capital local daquelas companhias - o
suficiente apenas para se apresentarem como "donos" de 51% do capital
votante, mas não para exercer efetivo poder sobre as suas decisões
estratégicas.
Passado o governo Geisel, o oligopólio estrangeiro logrou recuperar o controle
político dos programas de compras da Telebrás, mais facilmente agora que as empresas
se apresentavam "nacionalizadas". Em 1981, pela portaria 215, o
Ministério das Comunicações reduziu para 50% das futuras compras da Telebrás, a
reserva de mercado para as CPAs que o CPqD desenvolvia. Em 1985, no governo
Sarney e ainda sem estar pronto o produto do CPqD, começam as encomendas de
centrais digitais. A Telebrás pagou o equivalente a US$ 800 por linha instalada
nas centrais adquiridas em dezembro de 1987. Um ano depois este valor chegou a
US$ 950, para chegar a US$ 1.100, em dezembro de 1989. As "Trópico
RA" entraram pela primeira vez na disputa, oferecidas por quatro empresas
genuinamente nacionais, em 1990. Preço médio: US$ 400, por linha. Derrotado em
sucessivas concorrências, o cartel transnacional começou a baixar os seus preços,
até chegar a US$ 330, em dezembro de 199133.
O êxito comercial e tecnológico das "Trópico" está confirmado pelos
números. Em pouco mais de cinco anos, elas já representam cerca de 18% do total
das linhas telefônicas fixas instaladas no Brasil (analógica e digital) e 32%
do total digital (Tabela 3-4). Isto é, em 1997, das 12,4 milhões de linhas
telefônicas suportadas por centrais digitais, quase 4 milhões estavam
conectadas às "Trópico". Em algumas "teles" da Região
Norte, as "Trópicos" chegavam a suportar mais de 70% das linhas
digitais e se, no total do que é hoje a Tele Norte-Nordeste-Leste, elas
representam apenas 36%, é porque operadoras como Telemig (12% de linhas
suportadas nas "Trópicos"), Telest (19%), Telpe (13%) e Telebahia
(25%) optaram preferencialmente por outras tecnologias.
Muito ao contrário do que declarou o engenheiro Hélio Graciosa a esta CPI -
certamente apostando no nosso natural desconhecimento em assuntos de tanta
especialização - o CPqD e as empresas nacionais para as quais transferia a sua
tecnologia (tecnologias de centrais de comutação, de fibras óticas, de
telefonia pública e tantas outras) vinham concorrendo, já há 20 anos, com
empresas estrangeiras (Ericsson, Siemens, NEC), que traziam do exterior as
tecnologias dos sistemas e equipamentos que forneciam à Telebrás. E vinham
ganhando. Foi depois da abertura do mercado promovida a partir do (des)governo
Collor, que não puderam mais concorrer. A partir de então foram, rapidamente,
liquidadas, do que são exemplos as vendas da Zetax e da Batik para a Lucent, da
AT&T.
Tabela
3.4
Centrais
"Trópico" no total de centrais digitais
(Número de terminais instalados)
(1997)
|
|
"Trópico"
|
Outros |
Total |
%
"Trópico" |
Tele Norte-Leste
|
2.140.953 |
3.814.455 |
5.955.408 |
36,0 |
|
Telesp |
935.759 |
2.923.713 |
3.859.472 |
24,3 |
|
Tele
Centro-Sul |
894.322 |
1.688.821 |
2.583.143 |
34,7 |
|
Total ex-Telebrás |
3.971.034 |
8.426.989 |
12.398.023 |
32,0 |
|
Fonte: Melo e Gutierrez[4] |
||||
Foram liquidadas por que essas tecnologias
não eram competitivas? Não! Foram liquidadas porque, neste mercado, continua a
ser mantido o princípio da estreita simbiose entre operadores, laboratórios e
um punhado de grandes fornecedores – e o próprio depoimento do engenheiro
Graciosa nos confirmou isso! Despojados de um grande operador nacional
brasileiro, o CPqD e as empresas dele nascidas não terão como concorrer com o
CNET e a Alcatel francesas, o I+D espanhol e a Alcatel franco-espanhola, o Bell
Labs e a Lucent etc. O futuro das nossas empresas é a venda para fornecedores
estrangeiros. O futuro do CPqD é o de prestar pequenos e secundários serviços
para a Anatel e, eventualmente, para os novos operadores que se instalaram no
Brasil, substituindo a nossa Telebrás.
3.5.5.1. A abertura
Durante o governo Collor, o que ainda restava de política industrial voltada
para o desenvolvimento tecnológico endógeno, foi definitivamente revogado
através de diretrizes que, reduzindo drasticamente as tarifas aduaneiras e
eliminando, sem critérios, outras barreiras não tarifárias, abriram
desordenadamente o mercado interno às importações. No caso das
telecomunicações, contudo, prosseguiam sendo praticadas diversas barreiras
técnicas, como a homologação dos equipamentos pela Telebrás, que impunham
alguns limites à abertura. No entanto, a definitiva supressão das exigências
quanto ao controle nacional do capital das empresas fornecedoras, possibilitou
a instalação, no país, de novos montadores estrangeiros - a Alcatel, por
exemplo - e a reconversão para total controle forâneo das joint-ventures então
existentes.
Em novembro de 1991, a Lei 8.248 que estabeleceu um novo modelo para a
indústria de informática, pondo fim à reserva de mercado, também estendeu as
mudanças à política industrial para as telecomunicações. A Lei admitia conceder
alguns incentivos a toda a indústria eletro-eletrônica aqui instalada. Destes,
o mais importante permitia isenção de IPI, por um período máximo de dez anos, a
empresas que realizassem, no país, o chamado Processo Produtivo Básico (PPB).
Reduções no imposto de renda também seriam dadas a empresas que aplicassem 5%
da receita total em atividades de pesquisa e desenvolvimento no Brasil - 3%
diretamente na empresa e 2% em outras instituições brasileiras.
Ora, eventuais incentivos ao PPB podem assegurar a sobrevivência, no país, de
unidades montadoras e integradoras de sistemas e equipamentos; ou mesmo atrair
novas unidades montadoras para o Brasil. Mas não garantem, em absoluto, a
manutenção e fortalecimento dos departamentos e divisões de projeto e
engenharia das empresas. Considerando que as próprias atividades de montagem
vinham se tornando altamente automatizadas - daí dispensando um grande
contigente de mão-de-obra fungível e barata, que até então ainda podiam
empregar - somente a ocupação de posições muito próximas ao mercado consumidor
(incluindo o Mercosul) ou, eventualmente, estratégias globais que confiram ao
Brasil algum tipo de vantagem comparativa, poderá justificara permanência dessa
indústria no país. De fato, o Brasil deixou de ser, em termos mundiais, um polo
alternativo nascente de desenvolvimento de tecnologias das comunicações e
informação e aceitou converter-se em mais um mero território de "unidades
maquiladoras" vinculadas às corporações mundializadas. Voltamos aos tempos
da substituição de importação, agora rebatizada como "integração
competitiva" – termo empregado pelo engenheiro Graciosa, em sua palestra a
esta CPI.
Tabela 3-5
Balança
comercial do segmento de telecomunicações
1994-1997
(Em US$ 106)
|
|
1994 |
1995 |
1996 |
1997 |
|
|
Importações |
854,5 |
1360,1 |
1958,5 |
2740,2 |
|
|
Centrais de comutação |
203,6 |
354,0 |
483,6 |
803,6 |
|
|
ERBs e telefones celulares |
274,4 |
375,8 |
641,9 |
891,2 |
|
|
Outros aparelhos |
54,4 |
77,5 |
89,9 |
113,9 |
|
|
Fios e cabos |
82,1 |
134,5 |
259,7 |
315,5 |
|
|
Partes e peças |
240,0 |
418,3 |
483,4 |
616,0 |
|
|
Exportações |
124,1 |
130,4 |
154,4 |
289,4 |
|
|
Centrais de comutação |
31,6 |
25,1 |
58,2 |
100,4 |
|
|
ERBs e telefones celulares |
6,3 |
4,2 |
9,2 |
92,8 |
|
|
Outros aparelhos |
11,2 |
5,2 |
6,6 |
16,0 |
|
|
Fios e cabos |
62,2 |
84,5 |
64,5 |
60,7 |
|
|
Partes e peças |
12,8 |
11,4 |
15,9 |
19,5 |
|
|
Déficit |
(730,4) |
(1229,7) |
(1804,1) |
2450,8) |
|
|
Fonte: Melo e
Gutierrez[5] |
|
||||
Essa renúncia a uma efetiva estratégia de desenvolvimento
tecnológico-industrial logo se refletiu na política de compras do Sistema
Telebrás, justo quando estava se dando, de forma acelerada, a instalação e
ampliação, em todo o país, do serviço de telefonia móvel celular. Não houve,
neste caso, num primeiro momento, qualquer preocupação com algum
desenvolvimento local, nem ao menos se buscou atrair, para o Brasil, a montagem
industrial de equipamentos e aparelhos. A expansão inicial - mas expressiva -
da rede celular na chamada "banda A", foi quase que integralmente
realizada através de importações36 , tendo contribuído de forma não desprezível
para o crescente aumento do déficit na balança comercial do país, no ítem
telecomunicações, o qual pulou de US$ 420 milhões para US$ 1,8 bilhão, entre
1993 e 1997 (Tabela 3-5).
3.5.5.2. A cláusula 15.8
É no contexto dessa política industrial neosubstitutiva de importações que se
pode entender a já famosa Cláusula 15.8, tantas vezes arguida nesta CPI.
Trata-se de um artigo introduzido, provavelmente por pressão de setores
industriais, nos contratos de concessão firmados pela Anatel com as antigas
"teles", os quais devem ser agora cumpridos pelos novos sócios
controladores privados.
Diz o seguinte:
"Cláusula 15.8 – Na contratação de serviços e na aquisição de equipamentos
e materiais vinculados ao serviço objeto deste Contrato, a Concessionária se
obriga a considerar ofertas de fornecedores independentes, inclusive os
nacionais, e basear suas decisões, com respeito às diversas ofertas
apresentadas, no cumprimento de critérios objetivos de preço, condições de
entrega e especificações técnicas estabelecidas na regulamentação pertinente.
§ 1º - Nos casos em que haja equivalência entre ofertas, a empresa
Concessionária se obriga a utilizar como critério de desempate, a preferência a
serviços oferecidos por empresas situadas no País, equipamentos e materiais
produzidos no País, e, entre eles, àqueles com tecnologia nacional. A
equivalência referida nesta cláusula será apurada quando, cumulativamente:
I – o preço nacional for menor ou igual ao preço do importado, posto no
território nacional, incluídos os tributos incidentes;
II – o prazo de entrega for compatível com as necessidades do serviço; e
III – sejam satisfeitas as especificações técnicas estabelecidas na
regulamentação pertinente e possuam certificação expedida ou aceita pela
ANATEL, quando aplicável.
§ 2º - Compreende-se como serviços aqueles relacionados com a pesquisa e
desenvolvimento, planejamento, projeto, implantação e instalação física,
operação, manutenção, supervisão e testes de avaliação de sistemas de
telecomunicações.
§ 3º - A operacionalização do disposto nesta cláusula será objeto de
regulamentação por parte da ANATEL, incluindo sanções aplicáveis."
Essa cláusula, no fundo, obriga as concessionárias (privadas) a prosseguirem
adquirindo equipamentos e serviços através de licitações em moldes públicos,
respeitando critérios já estabelecidos para qualquer órgão da União, nos termos
da Lei de Licitações e da Lei de Informática: desde que o preço nacional seja
igual ou menor ao do produto ou serviço importado, a operadora deverá favorecer
o fornecedor local, inclusive observando critérios de desempates que podem
incluir o desenvolvimento tecnológico nacional.
Por outro lado, percebe-se que, de fato, como várias vezes ressaltou, em seu
depoimento, o presidente da Telesp Participações, Fernando Xavier, a Cláusula
não distingue empresas efetivamente nacionais, de empresas montadoras
estrangeiras. Ela apenas oferece alguma proteção às empresas situadas no
Brasil, diante da concorrência de produtos ou serviços importados. Neste
sentido, ela pode favorecer tanto a empresas nacionais quanto a filiais
estrangeiras. Trata-se, em suma, como era típico dos tempos de substituição de
importação, de uma nova modalidade, talvez mais maleável, de reserva do nosso
mercado para companhias internacionais sediadas no exterior mas dotadas de
unidades de montagem no Brasil.
Na verdade, hoje em diaos empresários genuinamente nacionais não contam com
muitos meios para protegê-los da mundializada concorrência predatória
estrangeira. Essa proteção estava prevista na Constituição de 1988, mas foi
revogada nas reformas constitucionais. As críticas e reclamações ouvidas nesta
CPI por parte de representantes de empresas prestadoras de serviços – ausente
algum porta-voz autorizado da indústria eletro-eletrônica – deveria incluir,
também, uma séria autocrítica quanto a omissão desses empresários quando da
discussão dessas reformas, nos pontos que iriam afetar justamente as condições
de mercado que então os favorecia: a cláusula constitucional que distinguia,
corretamente, a empresa genuinamente nacional, da filial de empresa
estrangeira; e a própria cláusula que estabelecia o monopólio estatal nas telecomunicações.
Na verdade, reconheça-se, apenas o presidente do Sindimesp, Edvaldo Sarmento,
soube apontar a responsabilidade também dos empresários brasileiros pela
situação da qual agora amargamente se queixam.
3.5.5.3. O CPqD tem futuro?
Considerando todo esse cenário, tudo aponta para um progressivo esvaziamento do
CPqD. Já afetado por um longo período de contenções salariais que levaram à
saída de alguns dos seus mais experientes pesquisadores, atraídos por melhores
salários e oportunidades na iniciativa privada, sem que se pudesse promover as
reposições necessárias, o CPqD foi formalmente reorientado, durante o governo
Collor, para tornar-se um centro de consultoria técnica e normalização
industrial, abandonando os seus programas de pesquisa e desenvolvimento. O seu
Laboratório de Optoeletrônica, num exemplo expressivo, foi desativado,
interrompendo-se todas as pesquisas em componentes e equipamentos que lá se
realizavam, e se transferindo os seus técnicos para áreas ligadas ao
desenvolvimento de softwares, ou outras. Mesmo que o desenvolvimento de
softwares possa e deva ser considerado uma atividade tecnológica importante,
como sustentou nesta CPI o presidente do CPqD, nada – absolutamente nada, nem
muito menos uma alegada nova política de "inserção competitiva" –
justificaria o fechamento do laboratório de Optoeletrônica, ao qual devemos a
posição de pioneirismo mundial que o Brasil chegou a ostentar nessas novíssimas
tecnologias, ligadas às fibras óticas e outros meios de comunicações por luz. O
reposicionamento do CPqD inseria-se, na verdade, em uma estratégia deliberada
para levar o nosso país de volta ao passado. Tanto é uma estratégia, conduzida
por segmentos sociais e econômicos poderosos e dominantes, que o processo de
esvaziamento do CPqD e de toda a indústria nacional nascida à sua volta, uma
vez derrubado Collor, não foi interrompido no governo Itamar Franco, e
encontraria a sua solução final no governo Fernando Henrique Cardoso. O
engenheiro Graciosa cumpre nisto tudo apenas um papel menor.
A Lei Geral de Telecomunicações, ao determinar a destruição do Sistema Telebrás
e a completa privatização das empresas operadoras, precisou apontar um destino
para o CPqD. Como ninguém ousou sugeriro puro e simples encerramento das suas
atividades, e atendendo a alguma pressão, mesmo que muito tímida, de
empresários e cientistas nacionais, os formuladores da Lei, no Ministério das
Comunicações e no Congresso, aceitaram estabelecer um princípio genérico
segundo o qual a futura privatização deveria prever "mecanismos que
assegurem a preservação da capacidade em pesquisa e desenvolvimento
tecnológico" existente no Sistema Telebrás (artº 190), daí autorizando ao
Poder Executivo a transformar o CPqD em "empresa estatal" ou em
"fundação governamental, pública ou privada". Também foi aprovada a
criação de um Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico nas Telecomunicações
(FDTT), através de projeto do Executivo a ser enviado ao Congresso até 120 dias
após a publicação da Lei Geral.
Em maio de 1998, o governo optou por transformar o CPqD em fundação de direito
privado, constituindo-lhe um Conselho Curador formado por 12 representantes de
entidades governamentais, instituições de pesquisa pública e privada,
representantes de empresas industriais e operadoras, além de entidades
representativas da sociedade civil. Também determinou a todas as operadoras do
Sistema Telebrás, visando garantir a sobrevivência da nova Fundação durante o
período de transição, que firmassem com o CPqD contratos de três anos de
duração, para a manutenção e desenvolvimento de diversos sistemas, bem como
para a prestação de serviços tecnológicos de consultoria e treinamento.
Denominados "Contratos 7000", eles foram incorporados às condições da
privatização. No todo, garantem cerca de R$ 130 milhões por ano ao CPqD,
durante os próximos três anos, montante equivalente ao que tem sido o seu
orçamento anual, nos últimos tempos
Entretanto, ultrapassados esses três anos, o CPqD deverá
disputar, por sua própria conta e risco, o mercado de produtos e serviços de alto
conteúdo tecnológico. Mesmo que as dimensões das instalações brasileiras em
telecomunicações suportadas na sua tecnologia ainda possam a vir lhe garantir
boas receitas por algum tempo - serviços de assistência técnica, reposições e
similares - o Brasil estaria inaugurando um modelo de atuação de laboratório de
pesquisa e desenvolvimento industrial sem similar no mundo, nem mesmo nos
países onde a tecnologia industrial encontra-se em estágio muito mais avançado
do que o nosso – conforme, aliás, candidamente confessou a esta Casa o
engenheiro Graciosa, ao nos revelar que o governo buscou encontrar, sem
conseguí-lo, em algum outro país, um "exemplo de centro de pesquisa
autônomo". Como já foi dito antes – e pessoas como os engenheiros
Graciosa, Fernando Xavier e tantos outros que vieram dirigindo este nosso setor
de telecomunicações há mais de 20 anos sabem disto muito bem -em todos os
países que possuem presença expressiva nas telecomunicações mundiais, a
articulação entre o laboratório de P&D, indústrias fornecedoras e operadora
(ou operadoras) é muito estreita. Nesses outros países, mesmo depois das
privatizações, esses elos vêm sendo mantidos, na medida em que as operadoras
devem compulsoriamente destinar parte das suas receitas aos laboratórios,
variando os percentuais de 1,5% (CET, da Portugal Telecom, e TI+D, da
Telefônica de España) até 4% (CNET, da France Télecom) e 4,5% (Centro de
Pesquisa da NTT)37 . No Brasil, nenhum dos novos operadores privados está
sujeito a tal obrigação, por força dos contratos de concessão.
Assim, a única expectativa real de manutenção de alguma atividade de P&D em
telecomunicações no Brasil, a longo prazo, acaba reduzida à instituição futura
do FDTT. O projeto de lei que o regulamenta (Nº 3.939/97) já foi enviado ao
Congresso, inexistindo qualquer prazo para a sua tramitação e votação nas duas
Casas. Daí que, a passo de cágado, após quase um ano de privatizada a Telebrás
e dois de aprovada a L.G.T., somente agora, ao que parece, a Câmara dos
Deputados terá algo concreto para votar. Em apenas sete meses, todo o Congresso
– Câmara e Senado - discutiu (!) e votou o enorme e complexo projeto da Lei
Geral. Já se passaram dois anos, e a muito mais simples lei que institui um
mero fundo de desenvolvimento tecnológico ainda prossegue em tramitação.
O Relator do projeto e autor do substitutivo, Deputado Luis Moreira, reconheceu
que, pelo projeto original do governo, o futuro do CPqD e do nosso
desenvolvimento tecnológico estaria extremamente dependente de verbas
orçamentárias. O projeto, inclusive, não previa nenhuma contribuição ao Fundo,
por parte das empresas operadoras. Para minimizar essa fragilidade, o Deputado
Moreira estabeleceu um "patamar mínimo" para a parcela do Fistel -
Fundo formado com recursos captados pela Anatel - a ser destinada anualmente ao
FDTT, agora rebatizado Funttel. A isso acrescenta-se mais duas fontes de
receitas: contribuição de 0,5% sobre o faturamento das empresas prestadoras de
serviços de telecomunicações; e de 1% sobre arrecadação de sorteios que utilizam
esses serviços e são divulgados por meio da mídia televisiva. Entretanto, não
se tratam de recursos inteiramente destinados ao CPqD: na ponta da aplicação,
50% deles deverão ser utilizados pelo BNDES; 30%, pela Finep; e apenas 20%
tocariam ao CPqD.
Recordemo-nos que até a privatização da Telebrás, o CPqD recebia de 1% a 1,5%
de todo o faturamento do setor, já que aquele era o percentual das receitas
anuais do Sistema Telebrás, a ele transferido pela holding. O que se está
propondo agora poderá representar uma drástica redução no orçamento do CPqD
que, mais uma vez, não encontra similar no mundo. Todos os países que têm
alguma ambição nas telecomunicações mantêm e apóiam um centro estratégico de
pesquisa. Nada mais expressa o compromisso com esse apoio do que a destinação
de recursos da ordem de 1 a 4 por cento das receitas das prestadoras de
serviços para esse centro estratégico, como apontamos acima. Por um lado, isto
implica em dizer que de 1% a 4% de tudo o que toda a sociedade paga às
operadoras para usar serviços de telecomunicações será empregado no
desenvolvimento de novas tecnologias de comunicações. Por outro lado, nesses
países, já que estão sendo obrigadas a abrir mão de um percentual, pequeno mas
expressivo, de suas receitas em benefício de um centro de pesquisas,
dificilmente essas operadoras deixarão de buscar se beneficar, por algum modo,
das atividades realizadas por esse centro de pesquisa.
No Brasil, ao contrário, se mantido o substitutivo do Deputado Luis Moreira, as
operadoras somente responderão por 0,5% do total dos recursos do Funttel, daí
extraindo-se não mais que 20% para o CPqD. Ou seja, depois de receber,
anualmente, mais de 1% da receita amealhada pelas telecomunicações brasileiras
até passado recente, o CPqD, a partir de agora, deverá se contentar com 0,1% -
e mais alguma coisa proveniente das loterias eletrônicas.
Sendo quase nenhum o comprometimento fiscal e tecnológico das operadoras com o
CPqD, e não havendo sequer alguma segurança até mesmo quanto aos termos e
prazos de aprovação do Funttel, torna-se quase impossível imaginar como poderá
sobreviver, no futuro, a capacitação brasileira para gerar e desenvolver
tecnologias industriais nas telecomunicações. Na ponta do mercado, as
indústrias fornecedoras - quase exclusivamente estrangeiras - muito
dificilmente optarão por aproveitar tecnologias do CPqD em detrimento das
desenvolvidas em seus próprios laboratórios. As operadoras - que, em seus
países de origem, já investem em P&D nos seus próprios laboratórios e
transferem os resultados dessas pesquisas para os seus fornecedores globais -
igualmente não se sentirão muito atraídas a utilizar tecnologias concorrentes
do CPqD. Restaria ao laboratório brasileiro seguir prestando alguns serviços de
consultoria técnica para a Anatel, de homologação de sistemas e produtos, de
testes de equipamentos etc. Se de um modo ou de outro, não surgir, num futuro
próximo, real preocupação em se assegurar demandas para pesquisas e projetos no
CPqD, a sua função como laboratório industrial estratégico se extinguirá, a sua
capacitação tecnológica se dissipará por completo, a sua sobrevivência se
limitará, quando muito, à manutenção de algumas atividades de pouco valor
produtivo, na dependência de verbas orçamentárias que a experiência histórica
recente tem demonstrado estarem cada vez mais escassas quando dirigidas para a
ciência e a tecnologia.
IV
Conclusões e recomendações
Os graves problemas causados à população paulista e às empresas situadas no
Estado de São Paulo pela Telesp, depois de agosto de 1998, eram desconhecidos
por qualquer pessoa com menos de 40 anos de idade e quase já haviam sido
esquecidos por aqueles mais velhos: foram problemas em tudo similares aos que
sofriam, até os anos iniciais da década de 70, cotidiana e insoluvelmente, os
antigos usuários da canadense CTB e de uma miríade de outras empresas de
telefonia espalhadas por todo o nosso Estado.
Voltamos no tempo? Parece.
O que fazer? – eis a velha pergunta. Não caberá a esta CPI, evidentemente,
rediscutir todo um programa para as telecomunicações brasileiras. No máximo
pode - e, por intermédio deste Relatório o está fazendo – recolocar certas
questões-chaves em discussão, assim ajudando a alimentar um debate para o
presente e o futuro. No seu âmbito específico, a CPI pode e deve assumir algumas
Recomendações que, naquilo que for da alçada de lei estadual, caberia vir a
transformar em projeto de lei para deliberação da Assembléia; e naquilo que for
da alçada dos poderes da União, caberia encaminhar ao exame dos poderes
constituídos federais.
4.1. A principal conclusão
A causa básica e mesmo imediata dos problemas se encontra no modelo adotado
para introduzir a concorrência no mercado brasileiro de telecomunicações. A
concorrência podia e precisava ser introduzida. Mas o modo de fazê-lo podia ser
outro, não desmontando e, muito menos, desnacionalizando todo um sistema
nacionalmente integrado que funcionava, no geral, muito bem, inclusive
demonstrando alta preocupação em garantir qualidade na execução dos serviços,
conforme evidenciaram vários dos depoimentos ouvidos nesta CPI – que nos levam
todos a constatar que éramos felizes e não sabíamos. Vimos que, ao contrário, a
Telefônica assumiu, em alto e bom tom, a premissa de que, expandir a rede está
em contradição com qualidade na prestação dos serviços.
A concorrência poderia ter sido introduzida pari passu à desestatização do
Sistema Telebrás – sem que este Sistema de modo algum fosse desfeito. O
Governo, via Ministério das Comunicações ou via a nova agência de
regulamentação, poderia ir oferecendo concessões de serviços - por natureza ou
por área, regional ou nacionalmente – a empresas, inclusive estrangeiras, que
se dispusessem a vir competir com o nosso Sistema Telebrás. Assim se fez, ou se
está fazendo, em qualquer país que tenha um projeto sério para as suas
telecomunicações.
Nada impediria, também, que o Estado fosse reduzindo a sua participação no
capital de controle da holding Telebrás e, por extensão, no capital de todo o
S