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17/07/2017 18:15

FuncionAL - Com vocês, Maurício.

Mateus Lima - Foto: Raphael Montanaro


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Maurício Garcia de Souza

Descrever todo o processo de revelação de uma fotografia, detalhando todas as etapas de forma metódica e precisa. Como um mergulho nas memórias, o fotógrafo da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) Maurício Garcia de Souza fala da época em que a produção de uma foto era similar ao artesanato, um trabalho manual e criativo.

A captura de um momento requer, para os profissionais de fotografia, um conhecimento técnico profundo de iluminação, enquadramento e foco - e a sensibilidade de identificar o melhor momento para o click. Na história do Legislativo paulista, desde 1954 os principais acontecimentos já eram registrados. Hoje, esses filmes fotográficos, mais conhecidos como negativos, estão disponíveis de forma digitalizada no Acervo Histórico da Assembleia.

Garcia ingressou como funcionário público na Alesp em 1988, pouco tempo depois de um servidor ter fugido com diversos equipamentos fotográficos; "ele nunca devolveu as máquinas, foi exonerado do serviço", conta.

O episódio não surpreendeu o fotógrafo, que já presenciou outras ocasiões incomuns na Casa. Nos seus 30 anos de serviço para o Parlamento, suas maiores recordações foram capturar os momentos em que grandes cidadãos pisaram no Palácio 9 de Julho.

Nelson Mandela

No dia 2 de agosto de 1991, o Plenário Juscelino Kubistchek da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo recebeu uma das mais importantes figuras mundiais do século 20, o líder sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela.

Maurício lembra que estava "a um metro de distância, fotografando praticamente ao lado dele", no momento em que Mandela presidia a 143ª sessão ordinária. O ex-presidente da África do Sul havia sido libertado há menos de um ano, depois de permanecer preso por 27, acusado de atentar contra o regime racista da África do Sul.

Para o fotógrafo, Mandela representava muita coisa para o mundo inteiro. "Ao mesmo tempo em que estava ali como profissional, eu estava como admirador também. Foi uma coisa sensacional, um dos melhores momentos que vivi aqui na Assembleia", diz.

Neste dia, Mandela foi convidado para sentar na cadeira do presidente da Alesp e "presidir" o evento, como forma de homenagem dos deputados e funcionários da Casa.

Ayrton Senna

Uma mudança no tom de voz, Maurício Garcia baixou levemente a cabeça, e o ar do ambiente mudou. O segundo momento que ele recorda vivamente é 4 de maio de 1994, o velório do piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna.

O piloto havia perdido o controle do carro durante uma corrida e acabou chocando-se violentamente contra o muro de concreto. "A passagem dele aqui foi aquela multidão que você não imaginava. Eu acompanhava as corridas, perdia o almoço de domingo porque sabia que ele estaria lá correndo", fala.

O velório durou mais de 22 horas e levou cerca de um milhão de pessoas às ruas. "Fui dar uma volta no entorno da Assembleia, não tinha fim o número de pessoas", lembra.

Memórias

Antes de começar seus trabalhos na Alesp, Garcia já frequentava o espaço. "Meu pai trabalhou na Assembleia desde o prédio antigo, no Palácio das Indústrias no Parque Dom Pedro", conta. Hoje, o antigo espaço do Parlamento é ocupado pelo Museu Catavento.

"Eu ia de vez em quando, mas achava super interessante". O fotógrafo destaca que, na época, "o concurso era igual a você entrar em uma das faculdades mais conceituadas, era muito difícil aqui". Seu pai não desejava que entrasse na vida política, mas "isso sempre me atraiu", diz.

O interesse por fotografia surgiu depois de um curso que realizou com o primo no Sesc, há mais de 35 anos. "Foi um curso básico, de dois meses. Meu primo não seguiu a carreira, eu me apaixonei por fotografia. Aí, apareceu o concurso aqui", fala.

Registros

Maurício afirma que os deputados vivem da imagem, mas o Legislativo nunca aproveitou "a fotografia da forma como deveria ser". Para ele, a foto precisa "ser usada para mostrar como é o verdadeiro serviço que fazem os deputados. Qual o alcance do deputado, até onde ele pode fazer alguma coisa. Algum projeto, alguma lei que identifique o que ele faz", enfatiza.

Como exemplo, ele recorda quando os professores em greve invadiram a Assembleia Legislativa, em 1993. Garcia explica que "quem estava dentro não saía, e quem estava fora não entrava. Eu estava fora, mas fui chamado para tirar fotografia lá dentro".

Os docentes ficaram em torno de cinco dias no Parlamento. Durante esse período, o servidor fotografou o estado dos banheiros, plenários e salas da Casa. "Como fotógrafo, é gostoso você tirar foto de manifestação. Você tem agitação, sempre sai uma foto boa. Eu tirei foto de tudo isso, mas nunca saiu em jornal nenhum. Naquela época não tinha agência de notícias", lembra.

Outro momento que o fotógrafo registrou foi a aprovação da Constituição do Estado de São Paulo, em 1989. Entretanto, segundo ele, todo o material registrado não foi divulgado em nenhum veículo. Para ele, "qualquer coisa que você consiga divulgar para a sociedade sempre vai ser importante. A sociedade precisa ter acesso, para entender o real serviço da Assembleia, dos deputados".

O melhor click

O instante para capturar a melhor imagem é um processo que exige alta concentração e técnica. O fotógrafo explica que, na Assembleia, é necessária uma leitura corporal do político para saber a melhor situação para fotografar. "É preciso saber o jeito que ele age, a forma que fala. Você espera esse melhor momento para um click", fala.

Maurício acredita que cada situação descreve uma linguagem diferente, e por isso "nunca vai existir o melhor click se você ficar esperando alguma coisa". Para ele, deve-se observar atentamente o ambiente e visualizar a imagem que se pretende capturar.

Além desses aspectos, o servidor ressalta que no início de seu trabalho os negativos eram caros, "não podia ficar desperdiçando", enfatiza. Por isso, "o mais importante era saber o que estava fazendo. Diferente de hoje, antigamente você tinha que ter conhecimento técnico, não podia ser um aventureiro. Você valorizava o click, saía com um filme e tinha 36 fotos para o evento todo", lembra.

Diferente de hoje, antigamente você tinha que ter conhecimento técnico, não podia ser um aventureiro. Você valorizava o click, saía com um filme e tinha 36 fotos para o evento todo."

Maurício Garcia de Souza Maurício Garcia de Souza