Estado de São Paulo
10/07/2017 17:11

FuncionAL - Com vocês, Carlos.

Beatriz Correia - Foto: Raphael Montanaro


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Carlos Dias

Quando o regime militar aproximava-se do fim, em 1983, André Franco Montoro assumia o governo de São Paulo e, em meio a um período de transição, o historiador Carlos Alberto Ungaretti Dias passava a compor o corpo de funcionários da Assembleia Legislativa como assessor do então deputado Bragato.

Pós-graduado em história pela Universidade de São Paulo, Carlos Dias trabalhou na Assembleia por 32 anos e é testemunha da participação da Casa Legislativa em diversos períodos políticos do Brasil. "A Alesp teve um papel fundamental na movimentação das Diretas Já, em 1984. Muitas reuniões do movimento eram aqui e a Casa ficou muito agitada, com figuras sindicalistas e lideranças políticas."

O paulistano, que na juventude identificava-se com as ideologias de esquerda, foi criador e um dos organizadores do Acervo Histórico da Assembleia Legislativa. "Eu comecei a ficar desiludido com a Cortina de Ferro que caía e perdi a vontade de estar no centro da luta política. Então comecei a apostar no meu lado como historiador."

Acervo

Foi com a ajuda do deputado Ricardo Alvarenga Tripoli (PSDB), eleito presidente do Parlamento paulista em 1995, que Dias avançou no projeto. "Eu já conhecia e tinha uma boa relação com o Tripoli. Um dia encontrei-o no corredor e falei que precisávamos voltar a organizar a documentação histórica da Assembleia". O deputado concordou e montou uma comissão de trabalho para coordenar o acervo.

O acervo conta com documentos desde 1828, época da instalação do Conselho da Província de São Paulo. A estimativa é de que existam mais de 150 mil fotos desde a década de 1950, 80 mil páginas sobre a província paulista imperial, 250 mil da República Velha, cerca de 35 mapas ferroviários, além de obras de arte, ilustrações, livros e revistas.

"A organização foi muito prazerosa. Na época, passou-se uma orientação geral pra todo mundo ver o que tinha de documentos em cada setor. O setor de fotografia, que ficava no 5º andar, entregou fotos que estavam guardadas em um armário. Quando eu abri, tinha 92 mil negativos seis por seis datados desde o momento em que se montou o serviço de fotografia da Alesp". Entre as fotos estão registros de todos os políticos regionais de São Paulo desde 1950, assim como governadores e presidentes.

O processo de estruturação legislativa do Estado de São Paulo está documentado. "Isso é caso único no Brasil. Preservar o acervo histórico de modo integral, faltando apenas cerca de 10%, é muito raro". Além de informações estaduais, o acervo conta com documentos municipais provinciais, já que a legislação da época era feita nas Câmaras, mas só se tornava oficial com a validação da Assembleia.

Exposição

Depois de organizados os arquivos, os responsáveis decidiram que tal riqueza histórica precisava ser divulgada. Produziram uma exposição em 1996. Para a mostra, a Galeria dos Presidentes foi restaurada, autores de obras foram identificados, biografias realizadas. A proposta inicial de fazer um vídeo de cinco minutos para expor o acervo histórico oral da Assembleia transformou-se em gravações de muitas horas, dando espaço para 52 pessoas contarem a história do Parlamento.

A partir desses registros, vinte e quatro cartunistas, entre eles Chico Caruso, fizeram ilustrações que foram exibidas. Um making off da exposição mostra o esforço da proposta. Foram mais de trezentos documentos de todos os períodos da Alesp, além de um gráfico de 48 metros quadrados de ilustrações com as curvas do orçamento pendurados no Hall Monumental.

Após a exposição, trabalhando com vinte e seis funcionários disponibilizados de outros setores da Casa, Carlos Dias perdeu 8 quilos ao desenvolver diabete nervosa por exaustão, mas garante que valeu a pena. "Eu me sinto realizado como historiador porque é um acervo muito rico e eu sei como era antes e como é agora. Muito disso só está compilado porque nós o fizemos. Eu tenho uma satisfação pessoal por ter participado desse projeto".

Digitalização

Em 2006 o acervo foi disponibilizado na internet e chegou a ter mais de 10 mil páginas acessadas por dia. Livros foram produzidos e a modernização consolidou aos poucos o acervo. "Ainda não está formado do jeito que eu sonhava, faltam uns passos a serem dados".

O historiador defende a exposição dos registros históricos como uma forma de entender e aprimorar o poder legislativo. "Tinham várias propostas que as pessoas achavam inúteis, como requerimentos de congratulação por aniversário de cidades. Todo mundo queria jogar os documentos fora, mas eu não deixava, porque se o documento não tem sentido, significa que o que se faz na Casa Legislativa não tem sentido. O documento expressa o que acontece aqui. Quanto mais da história você expuser, mais se poderá pensar esse poder - e torná-lo melhor".

Mudanças

"O que eu sei como historiador é que até 1930 todos os cargos praticamente eram por indicação. Com o governo Vargas você passa a dar valor a um concurso público". No entanto, atualmente o Parlamento paulista conta com 747 efetivos e com quatro vezes mais o número de comissionados, totatizando 2.996 funcionários.

Carlos Dias defende o fortalecimento das instituições como solução para uma mudança no cenário político brasileiro. A Lei de Acesso à Informação (LAI), em vigor desde 2012, é um dos recursos, segundo ele, que dão poder à sociedade para saber o que acontece dentro dos órgãos públicos. A LAI possibilita que qualquer pessoa, física ou jurídica, sem necessidade de apresentar motivo, receba informações públicas dos órgãos e entidades.

Dias critica a distância da Assembléia em relação ao eleitorado: "o deputado tem o momento da eleição depois não mantém uma ligação direta com o povo. Há um distanciamento muito grande entre a sociedade e a Alesp".

Histórias

Carlos Dias conta também histórias pitorescas. Um dos casos registrados diz respeito a um dia, entre 1980 e 81, quando surgiram suspeitas da implantação de uma bomba na Assembleia. "O prédio do parlamento foi esvaziado, vieram policiais, revistaram a casa e encontram um pacote que fazia barulho de relógio. Quando abriram era uma bomba, mas no lugar dos explosivos estavam chocolates. Era uma bomba de chocolate".

Outro caso envolve a atriz e então deputada Ruth Escobar, que em uma sessão plenária, ao final de um discurso de combate à ditadura, desmaiou no plenário. Todos correram para socorrê-la e quando leram o papel com a fala, encontraram escrito no fim da folha "desmaiar".

Carlos Dias

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