São Paulo na vida da pequena notável

50 anos de saudades de Carmen Miranda
04/08/2005 20:35

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Correio Paulistano, 1938<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/03-2008/correiopaulistano1938.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Carmen Miranda (ao centro) em São Paulo em 1934<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/03-2008/carmencentrosp1934.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Folha da manhã de 1937<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/03-2008/folhamanhajan1937.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

Há 50 anos, no plenário do velho prédio da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, localizado no Parque D. Pedro II, a deputada Conceição da Costa Neves (PSD) dava entrada ao Requerimento nº 768/1955, no qual solicitava à Mesa da Assembléia, então presidida pelo deputado André Franco Montoro, a inserção na ata dos trabalhos do Legislativo Paulista de um voto de pesar pelo falecimento da nossa artista Carmen Miranda.

O requerimento apresentado, além da autora, era assinado por mais 16 deputados, entre eles Araripe Serpa, Blota Júnior, Homero Silva, Cantídio Sampaio, Abreu Sodré, Paulo de Castro Viana e Marcio Ribeiro Porto. Em sua justificativa a deputada Conceição da Costa Neves lembrou:

"Carmen Miranda era a artista brasileira mais conhecida internacionalmente, e através da indústria cinematográfica norte-americana levou o nome do Brasil para os mais distantes cantos do mundo (...) e que o nome de Carmen Miranda lembrava sempre o do Brasil."

Nas imagens em que o Brasil aparece como uma terra feliz, cheia de sol e alegria, como um país de gente alegre, despreocupada e boa, tenha-se a certeza: ali está a influência da propaganda inteligente que fez Carmen Miranda.

E finalizando a deputada afirmou:

"Incomparável, sem dúvida, foi o serviço que Carmen Miranda prestou ao Brasil. Ela, criatura humana, passa. Seu trabalho, realização sólida, permanece. Mas nem por isso seu passamento deixa de ser razão justificada de muita e muita pena para nós. Pois não se pode negar, de forma alguma, que Carmen Miranda foi o grande embaixador que o Brasil já teve."

Conceição da Costa Neves, antes de ser constituinte paulista em 1947 e deputada estadual, tendo sido eleita para cinco legislaturas consecutivas, até ser cassada pelo AI-5, em 1969, foi conhecida atriz de comedia com o nome artístico de Regina Maura, da companhia do grande ator Procópio Ferreira. Com suas turnês teatrais na antiga Capital Federal travou contato com o meio artístico carioca, inclusive do meio radiofônico quando conheceu no inicio dos anos 30 a jovem cantora Carmen Miranda, que se firmava como a mais importante cantora da música popular brasileira.

Origem portuguesa

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu em Marco de Canavezes, província do Porto, em 9 de fevereiro de 1909. Seu pai José Maria Pinto da Cunha, sete meses e meio depois do nascimento de sua segunda filha, imigrou para o Brasil, deixando em Portugal sua esposa Maria Emilia Miranda da Cunha e suas duas filhas, além da recém nascida Maria do Carmo, a mais velha Olinda de quase 2 anos de idade.

Em 1911, Maria Emilia veio para o Brasil, onde permaneceu poucos meses, retornando a Portugal para buscar suas filhas e radicar-se definitivamente na cidade do Rio de Janeiro com o marido, que exercia a profissão de barbeiro. A vida foi difícil para a família, morando de aluguel, em pequenas habitações. Em 1919, com a família radicada na Lapa, a pequena Maria do Carmo foi matriculada na Escola Santa Teresa, de irmãs vicentinas, que atendia meninas pobres do bairro carioca.

Deixando a escola em 1923, foi trabalhar em uma loja de gravatas e depois outra de chapéus, onde aprendeu o ofício. Anos depois, usaria sua habilidade na confecção dos seus famosos turbantes. Cantando amadoristicamente, foi convidada, no início de 1929, a participar de um recital no Instituto Nacional de Música, em beneficio da Policlínica de Botafogo. Nesse espetáculo, organizado pelo futuro deputado constituinte de 1946 Aníbal Duarte, então exercendo a profissão de dentista, estavam entre os convidados o famoso compositor Ernesto Nazareth e o violonista e compositor Josué de Barros, que se interessou pela jovem cantora e começou a ajudá-la em sua nova carreira.

Carmen Miranda no Rádio

Graças ao empenho de Josué e já com o nome artístico de Carmen Miranda foi levada a cantar nas Rádios Educadora e na Sociedade do Rio de Janeiro, fundada pelo pai do rádio brasileiro, professor Edgard Roquette Pinto. Ainda em 1929, grava seu primeiro disco na Brunswick, com duas músicas de Josué de Barros: "Se o Samba é Moda" e "Não Vá Simbora". Em 4 de dezembro de 1929, grava seu primeiro disco na Victor, com "Triste Jandaia" e "Dona Balbina". Com o sucesso desse disco, pouco depois, assinou contrato por um ano com essa companhia, renovado anualmente até 1935, quando trocou de gravadora, indo para a Odeon.

Em 27 de janeiro de 1930, gravou aquele que seria um dos maiores sucessos na história da música popular brasileira a marcha de autoria do médico, compositor e pianista Joubert de Carvalho, intitulada "Pra Você Gostar de Mim", mais conhecida como "Taí". A venda desse disco atingiu o estratosférico número de 35 mil cópias, colocado nos dias de hoje seriam mais de 4 milhões de discos vendidos.

Com esse sucesso, realizou entre 1931 e 1938 oito viagens a Buenos Aires, atuando nas importantes emissoras radiofônicas portenhas Belgrano e El Mundo. Na sua primeira viagem à capital da Argentina, em companhia de Mario Reis e Francisco Alves, cantou no cine teatro Broadway, tendo em um dos recitais a participação especial de Carlos Gardel. Ainda em 1937, cantou em Montevidéu, no Uruguai.

Pelo Brasil, esteve em 1932 cantando em Salvador, São Felix (Cachoeira) e Alagoinhas, na Bahia, e em Recife, onde cantou no famoso teatro Santa Isabel e na rádio Clube de Pernambuco.

Atuou ainda em rádios, teatros e cassinos de Belo Horizonte, Poços de Caldas, São Lourenço, Campos, Niterói, Porto Alegre (em 1935 inaugurou a Rádio Farroupilha), e Pelotas.

Carmen Miranda em São Paulo

A primeira vinda de Carmen Miranda a São Paulo ocorreu em agosto de 1930, quando veio gravar seus discos no estúdio da Victor, localizado na Praça da República, 44, 5º andar, no Palacete Campinas. O estúdio de gravação da Victor no Rio de Janeiro estava em reforma, então, os artistas contratados foram obrigados a vir a capital paulista para fazer as suas gravações para os suplementos mensais da empresa, inclusive para o Carnaval.

Nessa visita a São Paulo, foi recepcionada pelo gerente da Victor, Barão Lothar Von Ziegesar, no Clube Germânia (hoje Pinheiros), com toda a pompa de estrela. Ela voltaria novamente entre 11 e 17 de dezembro de 1930, também para gravar discos para a Victor.

Somente em 1934, viria cantar na capital paulista, quando foi contratada por Paulo Machado de Carvalho, para a Radio Record, atuando também no Teatro Santana, situado na Rua 24 de Maio, em companhia de sua irmã Aurora Miranda, João Petra de Barros, Jorge Murad e Custódio Mesquita.Os artistas chegaram de trem na estação do Norte (hoje Roosevelt, localizada no bairro do Brás), na manhã do dia 17 de julho, retornando ao Rio de Janeiro no dia 26.

Voltou em 1º de fevereiro de 1935, pela Central do Brasil, para cantar na Rádio Record e no Teatro Santana, entre os dias 4 e 10. Nos dias 12 e 14, atuou em Santos, na Rádio Atlântica e no Cine-Teatro Colyseu. Nessa viagem participaram Aurora Miranda, João Petra de Barros, Barbosa Junior e Custódio Mesquita. Em 15 de fevereiro, Carmen Miranda embarcou por via marítima para o Rio.

Pouco antes do Carnaval de 1936, retornou a São Paulo, tendo desembarcado em 2 de fevereiro, na Estação do Norte. Cantou na Rádio Record e no Teatro República, em companhia de Aurora Miranda, Custódio Mesquita e dos artistas paulistas Vassourinha (jovem cantor de apenas 12 anos de idade) e Nho Totico. Com esse grupo seguiu para a cidade de Santos, onde cantaram na Rádio Atlântica e no Cine-Teatro Colyseu, entre os dias 10 e 12, partindo no dia seguinte, de navio, para a Cidade Maravilhosa.

Chegando por ferrovia a São Paulo, em 17 de janeiro de 1937, ficou até o dia 24, em companhia de Aurora Miranda, Jorge Murad, Bando da Lua, Sylvio Caldas e Vassourinha. Participou de programas na Rádio Record e Teatro Santana, e após o espetáculo foi carregada em triunfo da Rua 24 de Maio, onde se situava o teatro, até a sacada da Record, na Praça da República, de onde cantou para uma multidão. Em Santos, em 25 e 27 de janeiro, cantou no Teatro Colyseu, e no dia 26, na Rádio Atlântica. Seguindo para a cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais.

Exatamente um ano depois, no dia 17 de janeiro de 1938, retornava a São Paulo, e pela primeira vez chegou por via área, voando por um avião Junkers - JU 52, da Vasp, desembarcando no então longínquo aeroporto de Congonhas, ainda com pista de terra batida. Cantou na Rádio Record e Teatro Colyseu, na capital, seguindo para a cidade de Campinas, onde se apresentou nos dias 25 e 26 na Rádio Educadora e no Teatro Municipal. Entre 23 e 31, atuou em Poços de Caldas. Em 1º de fevereiro, cantou no Teatro Santa Maria e na Rádio Hertz em Franca, seguiu para a cidade de Ribeirão Preto cantando na Rádio Clube e no Teatro Pedro II. Retornando para a capital, cantou em um recital de despedida no Teatro Colyseu, embarcando no dia 7 de fevereiro, pela Vasp, para o Rio de Janeiro. Nessa viagem participaram os artistas Aurora Miranda, Sylvio Caldas, Almirante e o violonista Geraldo Mendonça.

Em 18 de janeiro de 1939, também por via aérea, através da Vasp, desembarcou em São Paulo, com Aurora Miranda, Sylvio Caldas, Almirante e Geraldo Mendonça, para cantar na Rádio Record e Teatro Colyseu, entre 19 e 24. Nos dias 26 e 27, esteve em Santos atuando na Rádio Atlântica e Teatro Colyseu, seguindo para Campinas para cantar no Tênis Clube, Rádio Educadora e no Teatro Municipal. À tarde, se envolveu em um acidente automobilístico, o carro que dirigia se chocou com outro no cruzamento das ruas Saldanha Marinho e Benjamim Constant, no centro da cidade, e apesar do ferimento em seu joelho participou do espetáculo à noite no Municipal, sem que o público percebesse o seu estado. Entre 28 e 1º de fevereiro, esteve em Poços de Caldas, retornando a São Paulo, de onde se despediu cantando na Record, na noite do dia 2 de fevereiro, e na tarde seguinte voando pela Vasp retornou ao Rio.

Ganhando a Amércia

Carmen Miranda foi contratada pelo empresário Lee Shubert e embarcou em maio de 1939 para os Estados Unidos, para cantar na revista teatral Streets of Paris (Ruas de Paris), na Broadway, em New York. O sucesso foi imediato, sendo tema de matérias de jornais e revistas norte-americanas, inclusive participando de um longa metragem colorido na Fox, com suas cenas musicais filmadas em New York, por ela não poder ir até Hollywood. É cognominada pelos americanos de Brazilian Bombshell.

Suas roupas, sapatos e turbantes foram copiados pelos maiores magazines dos Estados Unidos, tornando-se uma das dez melhores e mais famosas da América. Em julho de 1940, retornou ao Brasil, e em carro aberto, teve uma triunfal acolhida pelas ruas do Rio de Janeiro, na maior manifestação popular recebida por uma única pessoa na história da cidade.

Dias depois, em um show beneficente patrocinado pela esposa do presidente Vargas, Darcy Vargas, em prol de meninas pobres, no Cassino da Urca, teve fria recepção, acusada de se ter americanizado. Respondeu, meses depois, cantando músicas como: "Disseram que voltei Americanizada", "Diz que Tem", "Voltei pro Morro", entre outras.

Deixou o Brasil com um contrato firmado com a Twenty Century Fox, indo diretamente para Hollywood, tendo realizado nessa empresa cinematográfica 10 filmes, na sua maioria em tecnicolor, de grande sucesso de bilheteria em todo o mundo.

Em 24 de março de 1941, foi a primeira latino-americana e até hoje a sul-americana a receber a honra de colocar suas mãos e sapatos no cimento da calçada do Teatro Chinês de Los Angeles.

Realizando shows por todo os Estados Unidos, atuando no cinema e em emissoras de rádios, foi a mulher que mais ganhou dinheiro naquele país, no ano de 1945. No ano seguinte, não se interessando em renovar seu contrato, fez seu último filme na Fox. Atuando em cassinos de Las Vegas e, posteriormente, em um novo veículo de comunicação, a televisão realizaria apenas mais quatro filmes, sendo dois na Metro Goldwin Mayer. Contracenou com os maiores artistas de sua época: Don Ameche, Betty Grable, Alice Faye, John Payne, César Romero (o famoso Coringa da serie da tv Batman), Phil Silvers, Groucho Marx, Elizabeth Taylor, Jane Powell, Wallace Berry, Robert Stack e a dupla Jerry Lewis e Dean Martin.

Em 1948, foi contratada para uma turnê na Inglaterra, pelo prazo de quatro semanas, mas foi obrigada, devido ao grande sucesso, a ficar seis. Realizou em 1951 uma temporada ao Havaí, sendo recebida no aeroporto por quase dez mil pessoas. Dois anos depois, fez uma excursão artística pela Europa, percorrendo desde a Itália até os países escandinavos.

Último regresso a São Paulo

Em 3 de dezembro de 1954, depois de 14 anos de ausência e para a surpresa de todos, Carmen Miranda retornou ao Brasil, na escala técnica do avião DC- da Braniff International Airways, que a trouxe dos Estados Unidos. No aeroporto de Congonhas foi recebida com carinho pelos amigos e pelo povo paulista. Seus companheiros de rádio foram abraçá-la, ao descer a escada do avião, ao vê-los, emocionada, não conseguiu falar, o choro embargou sua voz.

Naquela sexta-feira, estavam seus amigos Paulo Machado de Carvalho, o homem de rádio Almirante, a cantora Aracy de Almeida, a jornalista e correspondente dos Diários Associados em Los Angeles Dulce Damasceno de Brito. Enquanto o aparelho era reabastecido, a fim de seguir viagem para o Rio de Janeiro, Carmen Miranda falou com a imprensa paulistana, e contou um pouco de sua volta e de sua vida. Com um profundo esgotamento nervoso, foi aconselhada a voltar ao seu país, e matou as saudades da família, dos amigos e do país. Durante quatro meses, compareceu a teatros e festas, sendo muito homenageada por onde ia.

Retornando aos Estados Unidos, apresentou-se na cidade de Las Vegas e em Havana, em Cuba. Na noite de 4 de agosto de 1955, participou, em companhia de cômico Jimmy Durante, da gravação de um programa de televisão, durante o qual teve uma súbita e rápida falta de ar, caindo sobre os seus calcanhares, mas amparada por Durante, brincaram e seguiu o script até o fim.

Com amigos, deixou os estúdios da Desilu (onde era gravada a serie I Love Lucy), e seguiu para sua casa, onde conversaram, beberam e rememoram algumas coisas do Brasil. Após a saída dos convidados, subiu para os seus aposentos e quando se dirigia ao banheiro com um espelho na mão foi vítima de um fulminante ataque cardíaco. Eram 3:45 da madrugada daquela sexta feira, dia 5 de agosto de 1955.

A notícia saiu no Brasil somente por volta das 18 horas, quando o povo retornava para suas casas, depois de um dia de trabalho, e as donas de casa acompanhavam pelo rádio o programa "A Hora da Virgem Maria". Todas as emissoras interromperam suas programações para darem em edição extra, o triste acontecimento.

Edições extras de jornais ainda circularam no próprio dia 5, no sábado era manchete em todos os jornais do país e do mundo. O choque foi grande para a população brasileira. Somente na manhã do dia 12 de agosto, o avião Douglas DC-4 Skymaster da Real-Aerovias Brasil, em vôo especial, pousava no Aeroporto do Galeão, no Rio trazendo o corpo de Carmen Miranda.

Em um caminhão aberto do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal e envolto com a Bandeira Nacional, o ataúde de bronze, foi levado para o centro da cidade escoltado por batedores da Policia Especial em motocicletas, com sirenes abertas. Por todo o trajeto milhares de pessoas se despediram de sua "Pequena Notável". A primeira parada foi no edifício A Noite, sede do vespertino e da Rádio Nacional, localizado na Praça Mauá. Em sua marquise (hoje não mais existente) seu velho amigo e companheiro de rádio, Almirante, tentou ler sua mensagem de Adeus, mas as lágrimas embaraçaram o emocionado discurso do veterano cantor e radialista, sendo amparado pelo compositor "Dorival Caymmi", autor de um dos maiores sucessos de Carmen, "O que é que a Bahiana tem?".

Duas quadras depois, o cortejo parou em frente à Rádio Mayrink Veiga, onde o radialista César Ladeira, seu amigo e companheiro desde de 1933, e autor do cognome "A Pequena Notável", já que Carmen Miranda tinha apenas 1.53 cm de altura, em um longo e comovente discurso, relembrou desde sua chegada à emissora em 1933, logo após a Revolução Constitucionalista de São Paulo, da qual foi o seu maior locutor, e a sua amizade com a cantora.

Seguindo, pela Avenida Rio Branco, até a praça Marechal Floriano, na Cinelândia, o corpo foi levado para o hall do Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara Municipal do Distrito Federal, para o velório. Perto de 100 mil pessoas visitaram o esquife, após várias horas de filas que se formaram em torno do Legislativo, durante a noite e madrugada.

No dia seguinte, 13 de agosto, após missa de corpo presente, foi formado um novo cortejo para levar até o cemitério de São João Batista, em Botafogo, para o enterro. A multidão que já era enorme tornou-se maior ainda. Com muita dificuldade a carreta dos Bombeiros seguiu o seu trajeto, onde o povo cantava e chorava. Ao chegar ao cemitério outra multidão já aguardava a chegada do corpo, e sem condições de ser descido na entrada do cemitério, o caminhão entrou, sendo fechado o portão, em seguida, para evitar uma invasão.

Milhares de pessoas assistiram quando o caixão foi colocado no jazigo, doado pelo provedor da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ministro Lafaiete de Andrada. A emoção tomou conta de todos. O insuspeito jornal The New York Times calculou um milhão de pessoas nas ruas da então capital federal. Perto de metade da população carioca participou das últimas homenagens a Carmen Miranda. Foi a maior manifestação popular feita no Rio de Janeiro até hoje.

Depois de 50 anos, a Pequena Notável ainda é um ícone mundial e, como tão bem afirmou a deputada Conceição da Costa Neves, ela era o Brasil.