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23/10/2013 21:56

23 de outubro Dia do Aviador

A história de Santos-Dumont a partir da invenção do 14-Bis

Antônio Sérgio Ribeiro*


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O primeiro voo do mundo: 14 Bis decola do campo de Bagatelle

Em 23 de outubro, comemora-se o Dia do Aviador, instituído pela Lei 218, de 4 de julho de 1936, aprovada pelo congresso Nacional e sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, em homenagem ao vôo do 14-Bis, realizado por Santos-Dumont no Campo de Bagatelle, na França, em 1906.

Para comemorar a data, a Agência de Notícias da Assembleia publica a vida do Pai da Aviação e Patrono da Força Aérea Brasileira.



O sonho do mais pesado que o ar

Após anos estudando e finalmente comprovando a dirigibilidade dos balões, Santos-Dumont dedicou-se à sua mais famosa invenção - o 14-Bis, (o número 14 refere-se ao balão e o Bis refere-se ao avião) que conquistou o prêmio Archdeacon, no Champ de Bagatelle, no dia 13 de setembro de 1906, que deveria ser entregue àquele que se elevando por seus próprios meios, fizesse um percurso mínimo de 25 metros, com um ângulo de descida de vinte cinco por cento, no máximo. Era a concretização de um sonho de solucionar o problema do mais pesado que o ar. Em 23 de outubro, desafiando a gravitação terrestre, voou entre 50/60 metros a 3 metros de altura, por 7 segundos para o delírio dos assistentes, que viram seu avião decolar sem ajuda externa. Essa proeza fez os jornais de todo o mundo noticiar essa façanha, marcando para sempre essa data, sendo Alberto Santos-Dumont considerado o primeiro homem a levantar voo por meios próprios em uma máquina mais pesada que o ar. Em 12 de novembro, conseguiu estabelecer o primeiro recorde de aviação no mundo, percorrendo 220 metros em pouco mais de 21 segundos. Nesse voo foram utilizados pela primeira vez os ailerons (partes móveis dos bordos de fuga das asas de aeronaves de asa fixa, que servem para controlar o movimento de rolamento da aeronave). Todas essas experiências de voos estavam sob o controle e fiscalização do Aeroclube da França.

Entre 1906, construiu o nº 15, um aeroplano biplano de madeira compensada. E do ano seguinte até 1909, fez os dirigíveis e aeroplanos de números 16 a 22. Ainda em 1907, fabricou seu segundo aeroplano, oito vezes menor que o 14-Bis, era tão delicado, com suas asas de seda, que o público o batizou de Libelule ou Demoiselle, como ficou mais conhecido, seu primeiro voo foi em 8 de agosto de 1908, e pela primeira vez o piloto podia permanecer sentado durante o voo. Dois anos depois construiu um novo avião, o de nº 20, um Demoiselle melhorado. Com o 14-Bis, Santos-Dumont passeou por toda a França. Essa aeronave considerada uma obra prima, teve uma série construída com sua autorização, sem nada cobrar por isso.

O primeiro relógio de pulso

No ano de 1909, encomendou da famosa joalheira Cartier, em Paris, o primeiro relógio de pulso. No comando de suas aeronaves era quase impossível utilizar as mãos para ver as horas através dos então relógios de bolso. Fabricados até os nossos dias, esse relógio que leva o nome do inventor é um dos mais caros.

Escreveu os livros "Meus balões" (Dans l´Air) e "O que eu vi, o que nós veremos". Foi um dos oitos primeiros aviadores brevetados no mundo, através do Aeroclube da França e, em 4 de janeiro de 1910, após um sério acidente com o segundo Demoiselle resolveu encerrar sua carreira de aviador. Era então o único aeronauta a possuir os quatro certificados de piloto: de balão livre, de dirigível, de biplano e de monoplano.

No dia 19 de outubro de 1913, o Aeroclube da França inaugurou em Saint Cloud um monumento em sua homenagem, representando o lendário Ícaro em uma estátua de bronze. Posteriormente, uma réplica foi doada pelo governo da França, que ele mandou colocar no túmulo da família Dumont que construiu no Cemitério de São João Baptista no Rio de Janeiro.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, e a entrada da França no conflito se apresentou ao ministro da Guerra francês, em agosto de 1914, colocando-se à disposição daquela autoridade e do governo francês, além de sua casa no litoral francês em Bénerville. Tentou em vão que seu invento não fosse usado como arma de guerra. No ano seguinte, a diretoria do Aeroclube da América o convidou para participar do 2º Congresso Científico Pan-americano, que foi realizado em Washington. Nesse encontro, proferiu a 4 de janeiro de 1916, uma conferência intitulada "Como o aeroplano pode facilitar as relações entre as Américas". Por convite do Aeroclube Americano foi designado para representar essa entidade no Congresso Pan-americano de Aeronáutica, que se realizou na cidade de Santiago do Chile.

Após o término do Congresso viajou para Buenos Aires, e por um vapor foi visitar as Cataratas de Iguaçu, aonde chegou a cavalo, depois foi com destino a Guarapuava, e de carro até Ponta Grossa, e de trem à Curitiba onde se encontrou com o governador do Paraná, dando assim os primeiros passos na criação do Parque Nacional do Iguaçu.

Com a Europa conflagrada, permaneceu no Brasil por alguns anos, tendo viajado algumas vezes a Argentina, para participar de Congressos e homenagens. O governo brasileiro no ano de 1918 doou ao inventor a casa de Cabangu onde nasceu, no município que hoje leva seu nome, em Minas Gerais. Em 1919, foi aos Estados Unidos e no ano seguinte realizou uma viagem pela América do Sul. Somente em 1922 é que retornou à França, tendo regressado no mesmo ano para o Brasil para participar dos festejos do Centenário da Independência.

Era um obstinado, mas muito supersticioso, e assim se explica a ausência do nº 8, e também na casa que construiu na cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, - hoje um museu -, denominada de A Encantada, o visitante tanto para subir ou descer sua escada obrigatoriamente tem que pisar incialmente sempre com o pé direito. O lado esquerdo do degrau simplesmente não existe!

Em maio de 1927, chegou a ser convidado pelo Aeroclube da França para presidir o banquete em homenagem a Charles Lindbergh, pela travessia do Atlântico, por ele realizada, mas declinou do convite devido a seu estado de saúde. Passou algum tempo em convalescença em Glion, na Suíça e depois retornou à França.

Quando de sua volta ao Brasil, no transatlântico alemão Cap Arcona, em 3 de dezembro de 1928, a cidade do Rio de Janeiro recebê-lo-ia festivamente, mas uma tragédia ocorreu, quando o hidroavião da empresa aérea Sindicato Condor, batizado com seu nome, que ia fazer a recepção sobrevoando o navio, sofreu um grave acidente ao realizar uma manobra evasiva para evitar um choque com outra aeronave da mesma companhia. O aparelho precipitou-se na baia da Guanabara, matando todos os seus ocupantes. O avião levava pessoas de projeção - grandes nomes da engenharia e da intelectualidade brasileira. Foi o maior acidente aéreo até então no mundo. Abatido, ele suspende as festividades e não se demorando muito no país, retornou a Paris. Em junho de 1930, foi condecorado pelo governo da França com o grau de Grande Oficial da Legião de Honra.

Imortal

No fim da vida, em 4 de junho de 1931, foi eleito imortal para a cadeira 38, da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Graça Aranha, mas por não se julgar merecedor não tomou posse. Ainda em 1931, esteve internado em casas de saúde em Biarritz, e em Ortez no sul da França. Seu amigo Antônio Prado Júnior, ex-prefeito do Rio de Janeiro (então capital do Brasil), exilado pela revolução de 1930 e fora para a França, encontrou Santos-Dumont em delicado estado de saúde, o que o levou a entrar em contato com sua família e a pedir ao seu sobrinho Jorge Dumont Villares que fosse buscá-lo na França. De volta ao Brasil, passaram por Araxá, em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, e finalmente instalaram-se em maio de 1932, no Grand Hôtel La Plage, no Guarujá, então pertencente ao município de Santos.

No dia 9 de julho de 1932 irrompeu a Revolução Constitucionalista em São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas, e em 14 de julho Alberto Santos-Dumont divulgou uma proclamação aos seus patrícios, no qual aplaudia o movimento e concitava os brasileiros, e no final escreveu: "... somente dentro da lei magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa Pátria a superior finalidade dos seus altos destinos. Viva o Brasil unido!"

O escritor e historiador Raimundo de Menezes, que na ocasião era comissário de polícia em Santos, por volta das 17h30, de 23 de julho de 1932, recebeu um pedido que fosse urgente até o hotel no Guarujá, porque o inventor trancara-se no banheiro e não respondia aos chamados. Em companhia de alguns guardas-civis se dirigiu ao local. Depois de verificar completo silêncio no interior do banheiro, ordenou que um dos seus subordinados observasse o que estava ocorrendo, através de uma pequena claraboia. E veio a terrível constatação: o corpo de Santos-Dumont pendia enforcado, no cano do chuveiro.

Segundo Menezes o inventor estava vestido com um roupão de banho, estava pálido e magérrimo pesando, não mais de 35 quilos. Não se sabe direito se ele utilizou para o laço uma gravata ou o cinto desse roupão. O corpo foi transportado para Santos, e logo depois chegaram os integrantes da família Dumont. Eles solicitaram que se evitasse alarde para a imprensa, e que a policia dissesse que a morte fora natural. Esse pedido seria ratificado pelo próprio chefe de Policia de São Paulo, Thirso Martins. O país não deveria saber pelo menos enquanto durasse a luta armada, que Santos-Dumont se suicidara. O médico legista Roberto Catunda que assinou seu atestado de óbito registrou a causa da morte como colapso cardíaco.

Na manhã daquele 23 de julho, passeando pela praia com seu amigo Edu Chaves, assistiu ao sobrevoo de uma esquadrilha de aviões do governo federal, os chamados vermelhinhos, em face da sua pintura, sobre a barra. Eles iam bombardear novamente o Forte de Itaipu. A visão das aeronaves em combate pode ter causado uma angústia profunda em Santos-Dumont, que naquela ocasião vivia uma crise de grande depressão, às doze horas, aproveitando-se da ausência de seu sobrinho, suicidou-se, três dias após completar 59 anos de idade. Segundo especialistas o diagnóstico atual da doença do inventor seria Transtorno Bipolar. Não deixou descendência ou nota de suicídio

A nação brasileira ao ser divulgado o triste fato entrou em comoção, e a notícia correu o mundo. O governo federal decretou luto nacional de três dias em sua memória, e o governo paulista determinou que seu funeral fosse realizado as expensas do estado e que fossem concedidas honras de chefe de Estado. Seu corpo temporariamente foi depositado na cripta da catedral da Sé na capital paulista. Com o fim do movimento revolucionário, foi em dezembro de 1932, transladado por via ferroviária para o Rio de Janeiro, sendo velado com guarda de honra das forças armadas na então catedral da Candelária, contando inclusive com a presença do presidente Getúlio Vargas, de todo o ministério, e homenagens da população carioca. No dia 21, decretado feriado nacional, foi sepultado com honras de ministro de Estado no túmulo de sua família no Cemitério de São João Baptista, com grande multidão apesar da forte chuva que caiu.

Marechal do Ar

O médico responsável por embalsamar o cadáver do inventor, Walther Haberfield removeu secretamente o coração de Santos-Dumont e o preservou em formol. Depois de manter em segredo durante doze anos, quis devolver o coração à família Dumont que não o aceitou. Haberfield então doou o coração primeiramente à Panair do Brasil, e esta, anos depois, para o governo brasileiro. Hoje o coração está exposto no museu da Força Aérea no Campo dos Afonsos na cidade do Rio de Janeiro.

Desde 5 de dezembro 1947, quando foi sancionada a Lei 165, seu nome encabeça anualmente a lista de oficiais-aviadores, no Almanaque da Aeronáutica, e por essa mesma norma legal foi promovido na Força Aérea Brasileira ao posto de Tenente-Brigadeiro. Pela Lei 3636 de 1959, foi concedido a Santos-Dumont o posto honorífico de Marechal-do-Ar, e também por lei aprovada pelo Congresso Nacional, 5716, de 19 de outubro de 1971, foi proclamado Patrono da FAB.

Curiosamente na data de seu aniversário, em 20 de julho de 1969, o astronauta Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar na Lua, seguido de outro tripulante da Apolo 11, Edwin Aldrin. Michael Collins piloto do módulo de comando ficou em órbita do satélite

Sobre o propalado "crédito" para os irmãos norte-americanos Orville e Wilbur Wright, da invenção do avião, Santos-Dumont escreveu ironicamente em seu livro "O que eu vi, o que nós veremos": "O que diriam Edson, Graham Bell ou Marconi se, depois que apresentaram em público a lâmpada elétrica, o telefone e o telégrafo sem fios, um outro inventor se apresentasse com uma melhor lâmpada elétrica, telefone ou um aparelho de telegrafia sem fios dizendo que os tinha construído antes deles?

A quem a humanidade deve a navegação aérea pelo mais pesado que o ar? As experiências dos irmãos Wright, feitas às escondidas (eles são os próprios a dizer que fizeram todo o possível para não transpirasse nada dos resultados de suas experiências) e que estavam tão ignorados no mundo, que vemos todos qualificarem os meus 250 metros de minuto memorável na história da aviação", ou é aos Farman, Blériot e a mim que fizemos todas as nossas demonstrações diante de comissões científicas e em plena luz do sol?".

Antônio Sérgio Ribeiro, advogado e pesquisador. É diretor do Departamento de Documentação e Informação da ALESP.

 Ao lado do monumento erigido na França em Saint Cloud em sua homenagem  Sua casa, A Encantada em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro Voando no Demoiselle, na França A última imagem Guarujá em 1932, seu amigo João Fonseca, sobrinho Jorge Dumont Villares e o inventor