FuncionAL - Com vocês, Gaspar


13/08/2018 16:34 | Entrevista | Marina Mendes - Fotos: José Antonio Teixeira

Gaspar Bissolotti<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-08-2018/fg226624.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Gaspar Bissolotti<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-08-2018/fg226625.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Gaspar Bissolotti<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-08-2018/fg226626.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

Impressionantes 46 anos: Gaspar Bissolotti Neto vive no Parlamento desde a mocidade. Conheceu sua esposa, cursou jornalismo, realizou sonhos, criou seus filhos, aposentou-se e continuou. A vida de Gaspar confunde-se em tempo e espaço com a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Não é à toa: sua determinação vinha desde a infância. "Quando era aluno do primário e as professoras perguntavam o que queria ser quando crescesse, sempre respondia: funcionário público. Era a profissão do meu pai, José Bissolotti", conta.

Quando entrou por meio de concurso público na Alesp, em 1972, Gaspar estava terminando o colegial. Dois anos depois, iniciou a faculdade de jornalismo, e quando se formou, em 1977, "já estava até casado".

"Em 1976 comecei a fazer um estágio em A Gazeta da Zona Norte, onde fiquei até 1981. Trabalhava lá de manhã, à tarde na Alesp e à noite tinha a faculdade. Depois atuei como revisor na Imprensa Oficial, na época da Constituinte", recorda-se.

Ele também trabalhou em jornais de bairro por muito tempo, como O Patriota, no Ipiranga. "Até tive um: chamava-se "Portal Notícias " Zona Leste", e circulava no Brás e na Mooca. Além disso, fiz o jornal da Associação dos Funcionários da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Afalesp) por mais de 20 anos", lembra.

Gaspar milita na defesa dos direitos dos servidores desde os anos 1970, quando foi conselheiro da União dos Servidores Públicos do Estado de São Paulo (Uspesp) e envolvido com a Federação Nacional dos Servidores dos Poderes Legislativos Federal, Estaduais e do Distrito Federal (Fenale) já desde sua criação.

Assembleia Legislativa

"Comecei como escriturário, que mais tarde voltou a ser o cargo de oficial legislativo. Hoje sou analista legislativo." Gaspar presenciou momentos históricos do Estado de São Paulo. "Quando entrei, em 12 de dezembro 1972, a Alesp estava convocada para criar uma empresa chamada Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo]. Na época era denominada de Saec [Superintendência de Água e Esgoto]".

Segundo conta, naquele tempo um funcionário demorava até três meses para começar a receber seu salário, devido aos trâmites burocráticos entre a administração e o banco. "Vinha da Secretaria da Saúde, da Divisão de Exercício Profissional, onde também fui contratado por concurso. Trabalhei um ano lá, mas depois passei na Alesp e preferi vir", diz.

Logo em seu primeiro ano de trabalho, Gaspar foi chamado pelo chefe de gabinete da Diretoria Geral (DG; na época não existia a Secretaria Geral de Administração) e recebeu a notícia de que seria lotado para trabalhar em gabinetes parlamentares. "À primeira vista não me agradou, pois já tinha amizade com as pessoas do setor onde estava, trabalhando com os avulsos de proposituras. Mas depois me acostumei. Estive sempre em gabinetes de deputados", relata.

Gaspar lembra-se de diferenças em relação à estrutura atual: "Comecei a trabalhar com um deputado do MDB " só havia Arena e MDB. Eram apenas dois funcionários em cada gabinete, não existiam funcionários comissionados, e esses dois funcionários assinavam no relógio".

Dentre os diversos deputados com quem trabalhou, um deles, Ary Silva, também foi seu chefe no jornalismo. "Trabalhei com ele até o término de seu mandato e, depois, continuei trabalhando na Gazeta da Zona Norte, que era o seu jornal."

Nos últimos anos da carreira, Gaspar já militava na área de defesa dos direitos dos servidores. "Eu fazia parte da diretoria da Afalesp, então passei a ser afastado, e fiquei até aposentar, em 1998."

A decisão sobre a aposentadoria foi tomada com base em perspectivas de alterações legislativas. "Aposentei-me ainda novo, para evitar mais reformas da Previdência. Como ia muito a Brasília representando os servidores, sabia que haveria uma segunda reforma. Isso era comentado livremente por lá", relembra.

Gaspar diverte-se sobre um engano: "Quando me aposentei, pensei que fosse ficar descansando em casa! [risos]". Mas decidiu continuar. "Acabei ficando mais um pouquinho, até que em 2004 tivemos a ideia de fundar a Associação dos Servidores Aposentados da Assembleia Legislativa (Aspal). O primeiro presidente foi o saudoso Nélio Mazutti, que dirigiu a entidade até seu falecimento em 2011, quando eu assumi a presidência por ser seu vice", relata.

Ele recorda-se de uma comissão de aposentados que se reunia na Alesp no dia do pagamento, com respaldo da Afalesp. "Nós percebemos que o aposentado aqui na Casa sentia-se um estranho no ninho. Ele chegava à antiga sala de trabalho e sua mesa estava ocupada, o pessoal era outro e estava trabalhando. Então ficava cinco minutos lá e saía, não tinha para onde ir. Assim, fomos criando aos poucos um espaço para acolhê-lo", explica. E completa: "Não viemos dividir categoria, apenas dar apoio aos aposentados".

Gaspar afirma que hoje o maior problema dos aposentados é a perda do auxílio alimentação. "Foi retirado por decisão do Superior Tribunal Federal (STF). Foi uma confusão: a manifestação deveria ter sido sobre o vale refeição, não o auxílio alimentação", diz.

Artes

Mas o "não parar" de Gaspar não ficou restrito ao Palácio 9 de Julho. Livros, teatro, pedras pintadas... Gaspar inventa e produz.

O "Gordo de A a Z - pequeno dicionário politicamente incorreto do gordo" foi publicado em 2011. "São brincadeiras com relação à nossa condição de gordo. Na época eu tinha um blog e comecei a fazer isso: escrever em um papel de pão algumas palavras relativas a gordo. Quando vi, já tinha mais de 30 ou 40 vocábulos. Aí fui pensando e, quando percebi, já tinha um livro em mãos". O livro traz o prefácio escrito pelo amigo Caio Silveira Ramos, outro funcionário querido da Casa.

As figuras que ilustram a capa são pedras pintadas por Gaspar: essa é outra de suas peripécias cômicas. "Pintei pedras acho que por uns 10 anos. É gostoso! Faz falta, mas estou sem espaço em casa e também na agenda. As pedras apareceram por acaso. Coleciono corujas e também casinhas; uma vez estava em Florianópolis e vi umas casinhas que eram pintadas em pedras de calçada portuguesa. Achei aquilo bonitinho e comecei a pintar. Depois passei a fazer com outros tipos de pedra, desenhando rostos, mas é muito primitivo. Eu não sei desenhar, isso é uma brincadeira. Dava de presente pros amigos, coisas assim, nada profissional", confessa.

Após a aposentadoria, Gaspar também passou pelo teatro. "Quando me aposentei, fui para grupos de teatro. Participei de um lá na Oficina Cultural Amácio Mazzaropi, no Brás, fizemos várias peças. Trabalhei como ator e dramaturgo, só não como diretor. Fiz cursos com o Chico de Assis, com o Alberto Soffredini, o Luiz Baccelli - pessoal muito bom", orgulha-se.

Nesse meio, escreveu três peças: "Anchieta na Terra dos Papagaios", em parceria com Santiago Dias, "Socorro, minha filha está grávida!" e "Brás Amore Nostro ou A Saga do Velho Pepe".

Gaspar também escreveu, em parceria com Sylvio Micelli, o livro 85 Anos de Afpesp, comemorativo do aniversário da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo.

Pois não parou, e não para: "Sempre fui de criar, tenho muita coisa na gaveta. Tenho outro livro que talvez lance logo, é o Idoso de A a Z. Só que esse tem outro enfoque, com o gordo dá para brincar mais. A questão dos idosos hoje é complicada, pelo abandono, pelas famílias que algumas vezes os exploram... Entra-se em alguns vocábulos complexos, como abandono e asilo. Mas dá para brincar com algumas coisas - bengala, dentadura". E ri...

O que é a Alesp para Gaspar?

"A Alesp é a alma da democracia. Foi meu ganha pão a vida inteira. Institucionalmente, é uma Casa muito importante para a população. Quem viveu a época da ditadura não quer voltar - nem de direita e nem de esquerda. Ditadura nenhuma. Quer é ter o direito de se manifestar, de ter opinião, de ir e vir, sem medo", defende.

"Acho que a Alesp deveria ter mais autonomia, e infelizmente nenhum Parlamento no país tem. Estão muito atrelados ao Executivo, isso é prejudicial", comenta.

Para ele, a relação dos funcionários com a Alesp não é mais como antigamente. "Nós tínhamos grupos de amigos aqui que eram como uma família. Tínhamos uma relação estreita, até com os deputados. Hoje há uma separação maior entre os servidores e os parlamentares."

Entre os prós e contras, Gaspar encerra a conversa com uma declaração: "A Alesp foi o lugar em que mais vivi. Estou desde 1972. Aqui me formei na faculdade, conheci minha esposa (Ivete), que também se aposentou aqui, meus filhos (Rogério, Renato e Carina) estudaram na creche. Para mim a Assembleia é muita coisa, muito mesmo".