Opinião: Uber: o lado perverso da crise


14/03/2017 14:57 | *Campos Machado


A crise econômica que o Brasil atravessa coloca em xeque a todos. Não há quem não sofra ao ver os números crescentes do desemprego, de empresas fechadas e de famílias inteiras morando nas ruas. Não podemos cruzar os braços diante desta realidade cruel. Neste exato momento que você lê este artigo, cerca de 13 milhões de brasileiros estão à procura de um trabalho. Nessa brecha da necessidade e da urgência, qualquer coisa serve. É aí que mora o perigo.

Empresas se aproveitam dessa fragilidade momentânea para explorar a quem mais precisa na hora do aperto. Eu me refiro especificamente a uma empresa multinacional, que se utiliza de um aplicativo para transporte de passageiros de forma ilegal, numa clara intenção de explorar trabalhadores, sem nenhuma garantia dos direitos trabalhistas, conquistados há tanto tempo e com tanto esforço pelo povo brasileiro.

A CLT e as principais conquistas do trabalhador são frutos do partido que eu, com muito orgulho, presido em São Paulo e do qual sou o secretário-geral da Executiva Nacional, o PTB. Não posso me calar diante do que tenho assistido. Uma empresa chega aqui, explora os trabalhadores e, pior, aniquila toda uma categoria profissional, que possui uma longa história e que é regulamentada. São cerca de 200 mil taxistas no Brasil que estão sendo desrespeitados. Ora, eles têm alvará, carteira de motorista profissional e respeitam a uma regulamentação da prefeitura de suas cidades para que possam ir às ruas. Quem se utiliza dos serviços deste aplicativo ilegal, não sabe que está contribuindo para um sistema perverso, que enriquece - e muito - os donos do negócio e explora o trabalhador, que usa seu próprio carro e não tem nenhuma garantia de seus direitos.

Outro fato que me preocupa é quanto à segurança das pessoas que entram num carro estranho, que não tem nenhuma identificação de que está prestando este serviço. Quem é esse motorista? E os antecedentes criminais deste suposto profissional? Falo isso, porque um motorista do Uber foi preso no último mês de janeiro, em Goiânia, acusado de estuprar passageiras dentro do carro. O jornal americano The New York Times publicou, no último dia 3/3, uma reportagem mostrando que o Uber usou, em diversos países, ferramentas para os seus motoristas fugirem de blitzes policiais e evitar, assim, que fossem fiscalizados. Isso é uma empresa séria?

Vejo com preocupação que, em Campinas, o executivo municipal está buscando regulamentar os serviços desses aplicativos. Os taxistas estão mobilizados junto aos vereadores, para barrar esta ação nefasta de liberar um aplicativo multinacional, que arrecada o nosso dinheiro e leva pra fora, sem deixar praticamente nada para investir na nossa gente. Em São José do Rio Preto, mesmo com uma lei municipal proibindo os serviços do Uber, a empresa começou as atividades, num claro ato de desrespeito às leis. A justificativa de dar trabalho a quem está desempregado, é apenas uma desculpa, não é a solução dos problemas. Precisamos cuidar mais da nossa gente.

Sou autor do Projeto de Lei 1.090/2015, que proíbe esses aplicativos em todo o Estado de São Paulo. Hoje se faz necessário que as câmaras de vereadores discutam este assunto, e busquem uma solução definitiva, não, apenas, por protecionismo dos táxis, mas por algo maior: o controle do serviço que é uma concessão pública e a necessidade de valorizar o que é nosso. É preciso que os usuários destes aplicativos se conscientizem de que não é o mais barato que eles estão usando. É o mais perverso que está sendo privilegiado.

* Campos Machado é deputado estadual e líder do PTB