Entre o livro e a tela: o que explica sucesso da Bienal de SP em um país que lê menos

Maior evento literário da América Latina registra público recorde em 2026, mas formação de leitores brasileiros segue dinâmica diferente; pesquisas indicam queda no interesse de leitura no país e mudanças na forma de consumir livros por meio do digital
15/09/2026 19:11 | Comportamento e cultura | Fernanda Franco - Fotos: Fernanda Franco

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28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367394.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Encontro dos integrantes do Clube da Austen <a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367395.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo, maior evento literário da América Latina, encerrou sua 28ª edição neste domingo com recorde histórico de público, cerca de 760 mil visitantes, consagrando sua maior edição até o momento.

Realizada entre 4 e 13 de setembro no Distrito Anhembi, a edição atraiu multidões de diversas partes do país, lotou o espaço e destacou a força da Bienal do Livro de SP como um grande encontro entre leitores, livros e autores. No entanto, pesquisas revelam um cenário preocupante e de profundas transformações sobre o comportamento literário do brasileiro. 

Dados da 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura, apontam que apenas 47% da população brasileira pode ser considerada leitora (quem leu pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa), o que corresponde a 93,4 milhões de pessoas. O índice representa uma retração de oito pontos percentuais em comparação a 2007, quando o patamar era de 55%.

A queda também se reflete no uso da plena cidadania. O estudo aponta uma diminuição da capacidade de concentração e compreensão dos brasileiros, acendendo um alerta sobre o avanço do analfabetismo funcional em um país com mais de 200 milhões de habitantes. A condição de analfabetismo funcional abrange pessoas que até reconhecem letras e números, mas não conseguem interpretar textos simples e usar a leitura e a escrita no cotidiano. 

?A leitura é uma espécie de estratégia de sobrevivência no mundo cada vez mais mais complexo.  Ela te dá mecanismos para você atuar, pensar e conhecer a realidade do mundo. É o instrumental mais qualificado para situar-se como sujeito crítico do mundo?, defende Edson Gabriel Garcia, educador e autor de livros de literatura infantojuvenil, cidadania e política.

Edson separa o hábito do gosto da leitura. Para ele, é preciso não só aprimorar o hábito de ler, mas também qualificar e manter o gosto pela leitura. ?A leitura da literatura é muito importante. Dada a característica da literatura como um produto de arte, ela sempre permite a multiplicidade de interpretações, envolvendo o seu intelecto com o seu emocional, repertório de entendimentos e de compreensão do mundo?, reflete. 

Ainda de acordo com a pesquisa, a parcela dos que "gostam muito" está em queda, de 31% em 2019 para 26% em 2024. Já o número de pessoas que afirmam não gostar do hábito cresceu de 22% para 29%. Os principais motivos dos entrevistados para distanciamento dos livros é a falta de tempo (46%), cansaço para ler (15%), preferem outras atividade ou não gostam de ler (13%), preços altos ou não têm dinheiro (12%), não têm biblioteca por perto ou local apropriado para leitura (10%), dificuldades para ler ou problemas de saúde/visão (4%). 

Pesquisas apontam que uma das explicações para o declínio da leitura é o avanço das redes sociais e do acesso à informação de forma instantânea.  

Leitura digital

Quando questionados sobre suas atividades preferidas no tempo livre, os brasileiros apontam o uso da internet e das redes sociais entre as opções mais frequentes.

Se por um lado o formato tradicional de livro impresso enfrenta desafios em meio à concorrência com as telas e as demandas da vida moderna no cotidiano, por outro a tecnologia pode ser aliada para democratizar o acesso ao conhecimento. 

A recente pesquisa Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro ? realizada pela Nielsen BookData, multinacional especializada em pesquisas sobre o mercado editorial ? mostra que aproximadamente 94 milhões de brasileiros leem por meio de dispositivos eletrônicos. O celular desponta como a principal porta de entrada para essa nova dinâmica, facilitando o consumo não apenas de e-books, mas também de notícias, quadrinhos e audiolivros.

Esse é o caso de Pamela Desireé, youtuber e criadora de conteúdo digital literário. ?Eu prefiro livros físicos para cheirar as páginas, mas no momento o que me facilita muito no transporte é o digital, que também me ajuda bastante a não carregar peso?, conta. 

O que a levou à Bienal foi a oportunidade de comprar livros com bons preços, conhecer autores independentes e, principalmente, conhecer presencialmente os integrantes de seu clube do livro virtual (Clube da Austen), que atualmente conta com mais de 100 pessoas de todo o Brasil e até do Chile. ?A literatura nos conecta. A gente lê de tudo um pouco e vamos nos incentivando?, afirma Pamela. 

Entre o espetáculo e a formação de leitores

O contraste entre o recorde de público da Bienal e os indicadores de queda da leitura no país pode parecer contraditório à primeira vista. Mas para o escritor Edson, os dois fenômenos não necessariamente caminham juntos.

A Bienal cumpre um papel importante de visibilidade para os livros, mas não deve ser confundida com um espaço de formação de leitores, afirma ele. "A Bienal é um evento, um espetáculo, um show. Já a formação de leitores é um processo mais lento, cuidadoso e educacional".

Segundo o escritor, enquanto a Bienal mobiliza multidões, promove encontros com autores e movimenta o mercado editorial, o desenvolvimento do gosto pela leitura depende de ações contínuas, realizadas principalmente em escolas, bibliotecas, famílias e grupos de mediação de leitura. "A Bienal é um evento importante, mas eventual. Ela não se sustentaria por meses, por anos a fio", pondera, ainda mais no contexto atual. 

Nesse sentido, o sucesso de público da Bienal ajuda a demonstrar que o interesse pelos livros não desapareceu. O evento evidencia que o livro continua despertando interesse e mobilizando experiências coletivas, enquanto o desafio apontado pelas pesquisas é transformar o entusiasmo gerado por eventos de grande porte em uma prática regular de leitura a longo prazo. 

Além disso, o crescimento da leitura em dispositivos digitais sugere que parte desse interesse pode estar migrando para novos formatos, sem representar necessariamente um abandono completo da leitura.

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