Em seu centenário, Amaral Gurgel segue celebrado por investir em uma indústria totalmente nacional
18/09/2026 12:42 | Carro brasileiro | Matheus Batista - Fotos: Estadão/Prefeitura de Rio Claro
Décadas antes dos carros elétricos importados chegarem ao Brasil e darem início a uma nova tendência no mercado automotivo, um engenheiro desenvolveu, em solo paulista, o primeiro modelo movido a eletricidade do Brasil. E não só isso. João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, que completaria 100 anos em 2026, foi o responsável pela mais avançada fabricante de automóveis nacional que o país já teve.
Fundador da Gurgel Motores, o engenheiro inspira aficionados por carros até hoje, graças à empresa criada em 1969. A ideia de um carro nacional surgiu quando Gurgel ainda era um estudante e precisou superar o ceticismo da indústria e dos consumidores da época.
A Gurgel
Nascido em Franca, no Interior de São Paulo, Amaral Gurgel apresentou seu primeiro projeto de um carro nacional ainda no curso de Engenharia da USP, no final da década de 1940. Seu professor, à época, desencorajou a ideia: ?O Brasil compra carros, não fabrica?, teria dito o docente.
Formado, o jovem engenheiro buscou experiências nos Estados Unidos, na General Motors, e no Brasil, em uma tradicional fábrica de karts. Foi na década de 1960, graças a um plano do Governo Federal para incentivar a abertura de fábricas de automóveis no Brasil, que Gurgel enxergou a possibilidade de dar vida ao seu projeto.
O sonho ousado do empresário começou com a Gurgel Indústria e Comércio de Veículos, na cidade de São Paulo. O primeiro carro fabricado foi o Ipanema, um carro sem janelas voltado para terrenos acidentados - o famoso buggy.
?Todos os carros da Gurgel tinham nomes bem brasileiros. Eles sempre referenciavam o nosso país e reforçavam que a empresa era nacional?, conta o cineasta Iberê Santos, diretor do documentário Gurgel e o Sonho da Cidade Azul (2026).
Rio Claro
Amaral Gurgel carregava a fama de ser extremamente criativo e ambicioso. O engenheiro lançava diferentes projetos, um atrás do outro, sem uma estratégia clara. Seus carros eram feitos em fibra de vidro e tinham desenhos diferentes do convencional para a época.
A proposta da Gurgel Veículos era ganhar espaço em um mercado que, até então, era restrito a marcas estrangeiras. Para expandir seus negócios, Gurgel mudou sua fábrica, em 1975, para a cidade de Rio Claro, no Interior paulista.
?Rio Claro era uma cidade do interior formada basicamente por oficinas das estradas de ferro. Quando a Gurgel chega, ela começa a formar uma mão de obra para a indústria de carros, que na época era muito avançada?, conta Iberê Santos, que cresceu em Rio Claro.
O cineasta é o curador da mostra que celebra os 100 anos de Amaral Gurgel e que está em exposição no Museu Histórico de Rio Claro.
Carro popular
Até os anos 1980, a Gurgel já havia conquistado um nome sólido no mercado de veículos fora de estrada (off-road). Apesar de desenvolvidos e fabricados no Brasil, eles usavam plataformas de outras montadoras, como a alemã Volkswagen.
?Gurgel começou como um fabricante de carros que chamamos de 'fora de série', que são carros de nicho. Ele teve um início nos veículos fora de estrada, usando mecânica Volkswagen, e teve bastante sucesso nisso?, explica o professor doutor da faculdade de Engenharia Mecânica da USP, Marcelo Alves.
Em Rio Claro, Amaral fundou a Gurgel Motores e desenvolveu o primeiro motor totalmente nacional. Esse motor equiparia o Carro Econômico Nacional (Cena), que por questões burocráticas foi lançado como BR-800, um dos modelos mais famosos da marca.

Para criar um carro popular nacional e competir com as grandes montadoras, Amaral buscou apoio de governos estaduais e federais no final dos anos 1980. A empreitada não foi bem-sucedida e o empresário optou por formas não convencionais para financiar o projeto.
?Ele tentou dar um salto muito grande para uma indústria do porte da Gurgel. Era um projeto muito difícil e o Brasil enfrentava sérias dificuldades econômicas na época?, conta Alves. ?Uma indústria automotiva demanda tempo e investimentos de longo prazo?, completa.
Apesar das dificuldades financeiras, o carro popular da Gurgel foi entregue. O motor, feito totalmente em solo brasileiro, possuía dois cilindros e 800 cilindradas. Nos anos seguintes, a fabricante lançou ainda o Supermini, uma versão atualizada do projeto.
Os carros, no entanto, não alcançaram a expectativa inicial da empresa. A proposta ambiciosa acabou se tornando o início do fim da fabricante. ?Gurgel tentou fazer algo que ainda hoje é extremamente difícil no Brasil. Faltou investimento tanto público quanto privado e as decisões de risco da empresa acabaram quebrando totalmente a fábrica?.
Carro elétrico brasileiro
Entre os diversos modelos inovadores apresentados pela empresa, o Itaipu, lançado em 1974, foi um dos mais especiais. Resultado da pesquisa de Gurgel por alternativas ao petróleo, ele foi o primeiro carro elétrico do Brasil.
O nome era uma referência direta à Usina Hidrelétrica de Itaipu, que ainda estava em construção em Foz do Iguaçu, no Paraná, quando o carro foi apresentado. O projeto de Amaral Gurgel chamou a atenção de representantes da indústria, que o convidaram para apresentá-lo no Salão do Automóvel.
?A propulsão elétrica sempre foi cogitada para os automóveis desde que eles foram inventados no século 19. Não havia primazia por conta da tecnologia?, explica Marcelo Alves. ?Gurgel foi um visionário ao tentar voltar com o projeto de um carro elétrico, ainda mais no Brasil?, afirma.

O Itaipu foi mais um dos diversos projetos ousados de Gurgel e que demonstraram o caráter inovador de sua empresa. O veículo não alcançou comercialização de larga escala, mas figurou nas ruas de São Paulo em suas versões utilitárias e de passeio. ?Ele foi usado em algumas frotas de companhias públicas, de eletricidade e telefonia?, relembra Alves.
?O carro que ele desenvolveu tinha as limitações típicas que qualquer carro elétrico teria naquele período. As baterias tinham limitações quanto à autonomia, mas isso foi 40 anos antes de termos a tecnologia dos veículos elétricos de hoje?, explica o professor da USP.
A Gurgel Motores fechou as portas em 1996, com o último projeto, o Supermini, lançado em 1995. Em cerca de 27 anos de existência, a empresa vendeu aproximadamente 40 mil automóveis e chegou a exportar suas criações para países da América Latina, Europa e Ásia. Para Iberê Santos, que mergulhou na história do empresário e de seus carros, "Gurgel foi alguém que acreditou nas próprias ideias e que executou elas. Era extremamente criativo e deixou um história de coragem para o Brasil."
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