Comissão de Direitos Humanos denuncia ameaça a padre Júlio Lanccelloti


17/02/2005 22:06


O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia, deputado Renato Simões (PT) e seu companheiro de partido Adriano Diogo, com a anuência do padre Júlio Lanccelloti, resolveram trazer a conhecimento público as ameaças que o sacerdote afirma estar recebendo por parte da Polícia Militar. Em entrevista, Simões declarou que Lanccelloti está sendo ameaçado porque interveio em um caso de reintegração de posse de uma fábrica da Moóca. "O padre Júlio é figura central de vários movimentos pelos direitos humanos, atuando em defesa de crianças e adolescentes carentes, dos portadores do HIV e nas Pastorais do Povo de Rua e do Menor. Por sua luta pela justiça social, tem recebido periodicamente 'recados' semelhantes dos descontentes com sua atuação."

Sobre sua decisão de denunciar o acontecimento, Simões disse que "no atual contexto, com o crescimento da violência, não podemos nos omitir". Quando perguntado se vê relação entre o caso Lanccelloti e o recente assassinato da missionária Dorothy Stamp, o deputado afirmou: "Há uma onda de movimentos reacionários com a intenção de coibir a qualquer custo as lutas populares". Citou com exemplo a denúncia da Comissão Pastoral da Terra da existência de 160 trabalhadores rurais e lideranças ligadas à luta pela terra jurados de morte.

Moldura de Terror

No Salão Nobre da Presidência, o padre Júlio Lanccelloti descreveu detalhadamente o que vem ocorrendo. Segundo ele, há uma ocupação de famílias carentes numa fábrica abandonada no bairro da Moóca, antes sede da falida Metalúrgica Rio. "O prédio transformou-se num bairro com condições de vida subumanas", disse ele. "Foi feito um pedido de reintegração de posse e a Polícia Militar estava pronta para cumprir a ordem judicial no dia 15/2, mas conseguimos entrar na Justiça com um pedido de adiamento da decisão e a reintegração foi transferida para 90 dias após a data prevista".

O padre afirma que, após o adiamento da reintegração de posse, um carro da Força Tática da PM seguiu uma moradora da fábrica pelas ruas do bairro, e assim que foi possível, disseram à senhora: "Vocês ganharam mais 90 dias, mas avisem ao padre que ele vai sofrer um acidente".

Segundo Lanccelloti, sua preocupação não é com sua própria segurança, mas com a população carente, que depende da contribuição dos dispostos a ajudá-los a sobreviver. Apesar de assustado, importa-se com o destino das cerca de 100 famílias que habitam o local. "Mais do que a mim, a ameaça é contra aquela população carente, sofrida, que morre de medo da polícia - já ouviram dizer que serão tirados de seus abrigos por mil PMs".

O que eles precisam é de proteção, não de albergues ou voltar para as ruas, mas de locais onde possam viver dignamente". A expressão "moldura de terror", dita pelo clérigo, revela, segundo ele, "a insegurança das comunidades carentes diante dos recentes acontecimentos em Goiânia, no Pará, e pela truculência da segurança pública, que, ao contrário de defender a população, a amedontra."

Finalizou apelando ao prefeito de São Paulo, José Serra, que, como sinal de sua disposição de ser um bom governante, dê uma solução ao problema e que defenda a dignidade da vida das comunidades pobres. " Não adianta tirá-los de lá - a pergunta é: para onde irão?"

Em plenário, os deputados Ana Martins (PCdoB), Enio Tatto (PT), Padre Afonso Lobato (PV) e Edson Aparecido (PSDB) manifestaram-se solidários ao padre Lanccelloti, assim como às famílias que residem na fábrica, desejando que o caso se encerre de forma a garantir uma melhoria de suas condições de vida.