E OS ROTOS FALAM! - OPINIÃO

Milton Flávio*
03/09/2001 17:04


Não é tarefa das mais fáceis saber se um sujeito faz certas afirmações porque é incompetente ou movido por má-fé. Essa é a sensação que tive ao ler o artigo A (in) competência dos tucanos, do líder do PT na Assembléia Legislativa, deputado Carlinhos de Almeida. Até o mais idiota dos seres é capaz de compreender que só os levianos costumam prometer o céu na terra - ou, então, só enxergar defeitos onde há virtudes evidentes, ou só ver virtudes onde o caos é regra. Mas os rotos, como os tolos, falam, carentes que são de espelho e senso crítico.

Para o deputado acima citado, o governo do PSDB no Estado de São Paulo é uma verdadeira tragédia: faliu a Febem, sobrecarregou os municípios que passaram a ter que investir em Ensino Fundamental (coisa, aliás, que a sua prefeita não faz, visto que, por madame, se sente acima das leis), sucateou a pesquisa voltada para a agricultura, introduziu os pedágios nas estradas, promoveu privatizações, não concluiu as obras da Fernão Dias... Bem, na visão marota do líder petista, o PSDB é uma lástima. É impressionante a empáfia da juventude - a imaturidade nos dá sempre a sensação de que é possível mudar o mundo de uma hora para outra, de que existe parto sem dor, de que basta querer para fazer omelete sem quebrar ovos. Ocorre que, embora jovem, o nobre parlamentar pouco tem de imaturo. É maroto.

Diante de tantas bobagens, seria fácil pinçar o último parágrafo de seu artigo e rotulá-lo de desinformado. O que já seria suficiente para, digamos assim, desqualificar boa parte de suas críticas. Segundo o deputado, "os candidatos tucanos ao governo estadual tiveram apenas 17% dos votos no primeiro turno da eleição de 1996, terminando por ganhar no segundo turno porque a população queria se livrar de Paulo Maluf". É verdade que a maioria da população quis se livrar de Maluf. O problema é que, em 1996, não houve eleição para o governo do Estado. Houve em 1994 e em 1998, e o PSDB venceu nas duas. Venceu o PT - o PT que ora diz sim, ora diz não, o PT que sempre vende ilusões.

O governo do PSDB demitiu, sim, milhares de funcionários. E não o fez por prazer, mas porque a máquina estava inchada e as estatais repletas de funcionários indicados pelos ex-governadores Quércia e Fleury. O primeiro, aliás, hoje muito amigo do PT paulistano. O PSDB demitiu porque tinha gente demais, porque era preciso conceder reajustes aos servidores que, de fato, trabalhavam, porque o Estado não existe para empregar pessoas amigas. O governo de Marta Suplicy também demitiu. Mas tratou logo de criar muitos cargos de confiança (da prefeita), cerca de mil, e de conceder generoso aumento de 40% para os protegidos da única dama, posto que é a titular do cargo. Para os demais, "aquele abraço" e 4% no holerite.

O PSDB, de fato, fez concessões de rodovias e ampliou o número de praças de pedágio. Primeiro, porque está convencido de que é mais justo cobrar de quem usa as estradas do que apenar os que nem carro têm. Segundo, porque dinheiro não cai do céu e era impossível dar à malha rodoviária do Estado a qualidade de que hoje ela dispõe, sem a parceria com a iniciativa privada. De olho nos eventuais votos da classe média, o PT afina o discurso, ameniza as propostas - e compra leite e açúcar mais caro, investe na educação menos que o Pitta, aplica nos projetos sociais menos de 10% do que poderia e praticamente o mesmo que gasta para divulgar tais projetos. É um escárnio. Até agora, dona Marta & cia. gastaram R$ 2,6 milhões com os planos sociais e R$ 2,4 milhões com sua divulgação.

O resumo da ópera é o seguinte: o papel aceita quaisquer tolices e, no mundo político, por oportunismo, não falta quem queira expressá-las. Mas o povo não é tolo. Sabe que entre prometer e fazer há uma enorme distância - uma distância que passa pela capacidade de gerenciar, pela consistência das propostas e pelas possibilidades orçamentárias. Seria desperdício de tempo insistir na diferença entre os métodos de governar do PSDB paulista e do PT paulistano. Seria desqualificar ainda mais alguém - a senhora prefeita - que já demonstrou não ter qualificação administrativa para governar, nem equilíbrio emocional para aceitar críticas e rever posições. O resto é teatro barato, suposta dinâmica de grupo coletiva.

*Milton Flávio é deputado estadual pelo PSDB e presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da Assembléia Legislativa de São Paulo