Medo, a triste realidade da PM

OPINIÃO - Afanasio Jazadji*
07/07/2004 17:00


Em mais de 30 anos de trabalho na defesa de justiça contra o crime, tenho mostrado a necessidade de os policiais serem pagos com salários dignos e contarem com comando firme, capaz de orientá-los e incentivá-los. No Estado de São Paulo, apesar de muitos esforços em superar deficiências surgidas no âmbito das polícias Civil e Militar na segunda metade da década de 90, existem seqüelas que limitam a ação contra assaltantes, traficantes de drogas, seqüestradores e assassinos.

Vejam bem: um soldado da Polícia Militar paulista, em início de carreira, recebe apenas R$ 1.150,00 mensais para se expor na luta contra bandidos, sem saber se sobreviverá. Esse salário é bem inferior, por exemplo, aos R$ 1.600,00 que empresas de segurança pagam a seus motoristas de carro-forte. Pior: cada um dos 39 presos recolhidos ao Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes, o presídio de maior segurança no País, custa aos cofres públicos ? ou seja, ao povo paulista, por meio de impostos tomados pelo Governo ? exatos R$ 3.200,00 por mês, quase o triplo do salário de um jovem PM. Não é o caso de se pensar em mudanças concretas, em benefício dos policiais e da população?

Nos últimos anos, inúmeros policiais militares passaram a ocultar sua verdadeira profissão. Até se escondem. Ameaçados por traficantes e por seqüestradores, eles temem pela própria vida e pela segurança de seus familiares. Isso em troca do salário do medo, uma recompensa às avessas.



As exceções positivas são raras. Entre os 80 mil PMs do Estado de São Paulo, a maioria vive em condições precárias. O salário baixo no Governo do Estado obriga muitos profissionais a buscar trabalho em bicos que ajudam esses PMs a complementar a renda necessária para manter a família. Portanto, são usadas as horas de folga, sem a farda, para esse trabalho-extra que acaba sendo perigoso: são freqüentes os casos de policiais que, na função de vigilantes de lojas ou mercadinhos, acabam sendo assassinados por bandidos.

Não bastasse essa situação, os PMs são vítimas de pressões de traficantes de drogas. Um cabo da Polícia Militar que morava na região do Pico do Jaraguá, na Zona Oeste da cidade de São Paulo, costumava sair de casa fardado para ir a missões de sua corporação. Acabou sendo alvo de quadrilhas e preferiu mudar de residência para evitar maiores problemas para ele, para sua mulher e para os dois filhos do casal. Policial mal-pago e, além de tudo, com vida ameaçada.

Em minha atuação como deputado estadual, exerço firme a função do Poder Legislativo de fiscalizar e apontar erros do Poder Executivo para que as pessoas sejam beneficiadas. Quando da mega-rebelião comandada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em quase 30 cadeias do Estado, em 18 de fevereiro de 2001, aconselhei o governador Alckmin a ser mais duro com presos de alta periculosidade. Ele seguiu a sugestão, a situação ficou menos grave nos presídios. Agora é hora de pagar melhor os policiais!