Cildo Oliveira aplica na arte e em linguagem contemporânea sua pesquisa antropológica

Acervo Artístico - Emanuel von Lauenstein Massarani
01/10/2004 14:30


O "leitmotiv" de Cildo Oliveira é de natureza investigatória. Há anos o artista cultiva uma pesquisa antropológica aplicada à arte, seja resgatando a tradição da feitura do papel artesanal, seja se inspirando nas pinturas corporais e nas cerâmicas dos índios Kadiweu do Mato Grosso.

Revelando um forte sentimento de amor à nossa história e ao Brasil, Cildo Oliveira defende as tradições do gentio que Cabral encontrou ao chegar à Terra de Santa Cruz e o faz, aliando sua pintura a uma linguagem contemporânea.

O artesão do papel da época de Lorenzo de Medici e o artista do Novo Milênio se fundem numa só criatura. Manipulando todo o tipo de materiais naturais e de fibras até transformá-los em papel, o artista trabalha a cor com tintas acrílicas devidamente diluídas e aplicadas.

Seus ladrilhos de papel, aparentemente geométricos, se aproximam dos antigos papiros da terra dos faraós, entretanto inserem poeticamente sinais gráficos curvos, bem próximos de caracóis, dando à sua obra, especialmente da série indígena, um leve tom barroco envolvente.

Os acenos cromáticos, que claramente se formam como resultados da realização de interessantes experiências pictóricas, elaboram os dados ideais que respondem a certas e precisas exigências do homem e ao mesmo tempo conduzem os estímulos em direção a míticas visões.

Suas composições participam de cromáticas dimensões e manifestam o desejo de afrontar as misteriosas presenças de um mundo interior para gerar soluções aos abstratos problemas de nosso tempo.

A exemplo das demais obras da série, o quadro "Kadiweu", oferecido ao Acervo Artístico da Assembléia Legislativa, possui musicalidade. A cor reflete o ritmo, a melodia e a harmonia como num tabuleiro de xadrez, onde o espectador sempre dá xeque-mate.

O Artista

Desenhista, gravador, escultor e pintor, Cildo Oliveira nasceu em Recife em 1949. Formou-se em direito e a partir de 1965 iniciou-se nas artes plásticas na Escolinha de Arte de sua terra natal. Em 1966 freqüentou o atelier de Maria Carmen.

Transferiu-se para São Paulo, onde se formou em artes gráficas e gravura, na Fundação Armando Alvares Penteado. Participou ainda do curso de pintura ministrado por Antonio Cabral no Museu Lasar Segall. Em 1986, trabalhou na catalogação das obras do Palácio Bandeirante e em 1987 lecionou diagramação e programação visual no Paço das Artes. Foi ainda professor no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo e na Faculdade Santa Marcelina.

Entre 1989 e 1990, foi assessor de artes plásticas da Secretaria de Estado da Cultura, e diretor curador da Casa das Rosas. Entre 1992 e 1995 ocupou o cargo de assessor da diretoria da Pinacoteca do Estado. Em 1996 concluiu seu mestrado em artes visuais no Instituto de Artes da Unesp.

Participou de inúmeras exposições individuais e coletivas em Olinda, Recife, Londrina, Vitória, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, além de Washington, Ohio e Paris. Suas obras encontram-se em coleções oficiais e particulares no Brasil e no exterior, notadamente no Acervo Artístico da Assembléia Legislativa.