TERRA DE PAPAGAIOS - OPINIÃO

MILTON FLÁVIO*
28/09/2001 10:20


Não se constrói um país com mentiras. Também não se avança na superação dos problemas com meias-verdades, versões marotas dos fatos. Repetidas inúmeras vezes, as palavras de ordem talvez contribuam para que um determinado partido chegue ao poder. Essa, porém, é outra questão. Até porque chegar lá, apoiado em inverdades, compromissos irrealizáveis no curto prazo, implica o não-cumprimento das promessas de campanha - primeiro passo para a quebra de confiança na classe política e, por extensão, na própria democracia.

É raro encontrar um parlamentar de oposição que não repita à exaustão a velha máxima, segundo a qual o "governo neoliberal de FHC está sucateando as universidades federais", já que se revela interessado em favorecer as instituições privadas. Tal afirmação ganha generosos espaços na mídia, posto que criticar, com ou sem argumentos, pouco importa, é um dos afazeres nacionais prediletos, ao lado do futebol, do papo no botequim e da roda de pagode. Diante de uma greve prolongada de professores e funcionários, então, a coisa desanda. E uma mentira muitas vezes dita tem o dom de adquirir ares de verdade e de fazer com que o número de papagaios cresça de forma exponencial.

Mas estará de fato, como tanto se ouve dizer, o governo empenhado em enfraquecer as universidades federais para que as privadas encham suas burras? Dados oficiais mostram justamente o contrário. De 1980 a 1994, o número de matrículas na graduação nas 39 universidades federais cresceu 12,7%. De 1995 a 2000, nos cinco primeiros anos do governo FHC, ele apresentou uma expansão de 31,2%. De 1980 a 1994, os números de vagas e concluintes aumentaram, respectivamente, 23% e 10,7%. No período subseqüente, o crescimento foi de 38% e 38,3%.

Vale lembrar que processo semelhante ocorreu nos cursos de pós-graduação. Em 1994, cerca de oito mil alunos obtiveram sua titulação. Em 2000, foram aproximadamente dezoito mil. O que revela que o governo, ao contrário do que dizem os repetidores de slogans, não se preocupou apenas em aumentar a oferta de cursos e vagas, mas também com a melhor qualificação dos professores de graduação. Muitos deles, ressalte-se, atuam em instituições privadas, contribuindo, com sua qualificação, para a melhoria do ensino particular.

Em 1994, 60% dos professores das universidades federais tinham o título de mestres ou doutores. No ano passado, eles já representavam 75% do total do corpo docente. De 1995 até agora, foram realizados concursos para a contratação de cerca de onze mil professores. Hoje, nas universidades federais, em média, a relação é de 10,8 alunos para cada professor. O problema, como se percebe, não está na falta de mestres, mas na imperfeição da distribuição entre professores e alunos e dentro das instituições. Algo que, evidentemente, deve ser corrigido.

Não se pretende aqui dizer que está tudo resolvido. Muito pelo contrário. Professores e funcionários continuam mal remunerados, embora tenham recebido, ao longo dos últimos anos, aumentos e gratificações. Diante da expansão do ensino médio - em 2000, o número de concluintes chegou a dois milhões, contra oitocentos mil em 1994 -, fica claro que, por mais esforços que sejam feitos, não há como ter a ilusão de que a rede pública superior dará conta da demanda, que tende a crescer ainda mais. E o aumento do número de instituições privadas nada tem que ver com o propalado sucateamento das universidades públicas, até porque, como se viu, ele não existe, exceto nas mentes obcecadas dos desinformadas ou dos que agem de má-fé.

Em síntese: se não se tem a honestidade de reconhecer os avanços obtidos e a maturidade para buscar o aprimoramento do que deve ser melhorado, é difícil acreditar que se possa avançar muito além das palavras de ordem.

* Milton Flávio é deputado estadual pelo PSDB, presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da Assembléia Legislativa de São Paulo e professor da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu

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