
12 DE DEZEMBRO DE 2025
82ª SESSÃO SOLENE PARA ENTREGA DE COLAR DE HONRA AO MÉRITO LEGISLATIVO AO SR. MARCO NANINI
Presidência: GUILHERME CORTEZ
RESUMO
1 - GUILHERME CORTEZ
Assume a Presidência e abre a sessão às 10h56min. Informa que a Presidência efetiva convocou a presente solenidade, para realizar a "Entrega do Colar de Honra ao Mérito Legislativo ao Sr. Marco Nanini", por solicitação deste deputado, na direção dos trabalhos. Nomeia as autoridades presentes. Convida o público a ouvir, de pé, o "Hino Nacional Brasileiro". Destaca a justeza da presente homenagem.
2 - ALMIR NASCIMENTO
Diretor institucional da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, faz pronunciamento.
3 - GABRIELLE ARAÚJO
Vice-presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, faz pronunciamento.
4 - HELOISA ALVES
Coordenadora da Aliança Nacional LGBTI+, faz pronunciamento.
5 - EDUARDO BARBOSA
Presidente do Grupo Pela Vidda, faz pronunciamento.
6 - PRESIDENTE GUILHERME CORTEZ
Anuncia a exibição de vídeo com depoimentos em homenagem ao ator Marco Nanini.
7 - IGOR ROCHA
Amigo do homenageado, faz pronunciamento.
8 - UBIRATAN BRASIL
Jornalista, faz pronunciamento.
9 - KARIN RODRIGUES
Atriz, faz pronunciamento.
10 - FERNANDO LIBONATI
Produtor cinematográfico, faz pronunciamento.
11 - PRESIDENTE GUILHERME CORTEZ
Anuncia a exibição de um segundo vídeo com depoimentos em homenagem ao ator Marco Nanini.
12 - PAULA DA BANCADA FEMINISTA
Deputada estadual, faz pronunciamento.
13 - PRESIDENTE GUILHERME CORTEZ
Reitera a justeza desta homenagem ao ator Marco Nanini, sobre cuja trajetória discorre. Afirma que o homenageado contribuiu para a formação da identidade brasileira através dos vários papéis que representou. Tece considerações sobre a importância da arte. Anuncia a exibição de vídeo sobre a carreira de Marco Nanini, a quem outorga o Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo.
14 - MARCO NANINI
Ator, faz pronunciamento.
15 - PRESIDENTE GUILHERME CORTEZ
Anuncia apresentação musical de Renata Peron. Faz agradecimentos gerais. Encerra a sessão às 12h10min.
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ÍNTEGRA
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- Assume a Presidência e abre a sessão
o Sr. Guilherme Cortez.
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- É feita a apresentação musical.
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A
SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Uma salva de palmas
para o Quinteto Guarani. (Palmas.)
Muito obrigada. Agora vou passar para o
deputado Guilherme Cortez.
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Muito bom dia
a todas as pessoas presentes.
Para mim, é uma grande alegria a gente
ocupar este plenário, que é o principal plenário da Assembleia Legislativa,
hoje, para homenagear um dos grandes nomes da cultura brasileira, um dos maiores
atores do Brasil, que é o Marco Nanini, e receber tantos amigos, tantas pessoas
fundamentais da Cultura, da luta pelos Direitos Humanos, da diversidade.
Por isso eu quero agradecer a todo
mundo da nossa equipe na pessoa da Fabiana, e pedir uma salva de palmas para
ela, que se empenhou para que esta atividade pudesse acontecer da melhor
maneira possível. (Palmas.) Agradecer a todo mundo que está trabalhando.
Agradecer ao nosso Quinteto. Vamos ter uma belíssima sessão solene, como o
Marco Nanini merece. Agradeço muito a todo mundo que está aqui hoje.
Senhoras e senhores, bom dia. Sejam
todos bem-vindos à Assembleia Legislativa de São Paulo. Esta sessão solene tem
a finalidade de outorgar o Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de
São Paulo a Marco Nanini - ator, autor, produtor teatral e dramaturgo
brasileiro, com uma grande carreira no teatro, cinema e televisão.
Comunicamos aos presentes que esta
sessão solene está sendo transmitida ao vivo pela TV Alesp e por meio do canal
da Alesp no YouTube. E me solidarizo com os trabalhadores da Rede Alesp que
estão enfrentando uma situação muito delicada, injusta, que ainda não receberam
seu 13º salário.
Eu só tenho elogios a fazer aos
trabalhadores da Rede Alesp que sempre, de maneira impecável, nos cobrem, fazem
com que o conteúdo do que acontece nesta Casa chegue para o Brasil inteiro. São
homens e mulheres que trabalham muito bem e com muita qualidade e que é muito
injusto que estejam passando por essa situação.
Então recebam toda a nossa solidariedade
e a nossa cobrança para a Presidência desta Casa para que a situação se
normalize. Os nossos servidores da Rede Alesp não podem ser penalizados por uma
coisa que não é culpa deles. Quero pedir uma salva de palmas para todos eles em
gesto de solidariedade. (Palmas.)
Dito isso, convido para acompanhar a
Mesa Diretora junto comigo... Já está aqui ao meu lado, pedir uma calorosa
salva de palmas para o ator e homenageado da noite, Marco Nanini. (Palmas.)
Para o produtor cinematográfico Fernando Libonati - também agradecer
profundamente, Fernando, sua colaboração. (Palmas.) Quero convidar para compor
esta Mesa o Ubiratan Brasil, jornalista. (Palmas.) E a Karin Rodrigues, atriz,
uma salva de palmas. (Palmas.)
E registro as honrosas presenças da
minha amiga, mas mais do que isso, co-deputada da Bancada Feminista, Carolina
Iara, uma salva de palmas. (Palmas.) A co-vereadora da Bancada Feminista
municipal, Dafne Sena, acompanhada do Martin. (Palmas.)
A vereadora de Ituverava, também minha
amiga, Roberta Foroni. (Palmas.)
Coordenadora estadual da Aliança Nacional LGBTI, Heloisa Alves (Palmas.)
Ao queridíssimo Paulo Iotti, diretor-presidente do Grupo de Advogados para a
Diversidade Sexual. (Palmas.) Ao Almir Vieira, diretor de Relações
Institucionais da Parada de São Paulo. (Palmas.) E o Luiz Fernando Nanini,
sobrinho. (Palmas.)
Agora convido a todos os presentes
para, em posição de respeito, ouvirmos o Hino Nacional Brasileiro.
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* *
- É reproduzido o Hino Nacional
Brasileiro.
*
* *
O SR. PRESIDENTE -
GUILHERME CORTEZ - PSOL - O objetivo
desta sessão solene é a gente reconhecer e homenagear com a mais alta honraria
do estado de São Paulo, o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, o ator Marco
Nanini.
Na semana
passada, essa mesma homenagem foi conferida ao Carlos Bolsonaro e o Mario
Frias. Então acho que hoje nós estamos retomando a dignidade dessa medalha,
homenageando quem merece ser homenageado pelos serviços que prestou à Cultura
do nosso país. (Palmas.)
Temos pessoas e
amigos muito especiais que vieram aqui deixar seu testemunho, sua saudação das
memórias. Se a gente tem tantas pessoas aqui, Marco, é porque você tocou a cada
uma delas com o seu talento, com a sua história, com a sua amizade, com o que você
significa até hoje para o estado de São Paulo e o povo brasileiro. Algumas
pessoas muito especiais fizeram questão de estar aqui e a gente queria ouvi-las
sobre a sua participação na vida delas.
Então eu
gostaria de começar chamando o Almir Nascimento, que é diretor institucional da
Parada do Orgulho LGBT de São Paulo - a maior parada do Orgulho LGBT do mundo -
e que, este ano, trouxe o pertinente tema sobre as velhices LGBTs e contou com
a participação do nosso homenageado. Uma salva de palmas para o Almir.
(Palmas.) E enquanto isso, registrar a presença do Ananias Andrade, vereador de
São Bernardo do Campo, pedindo uma salva de palmas para ele. (Palmas.)
Com você,
Almir.
O SR. ALMIR NASCIMENTO
- Bom dia a todas as pessoas aqui presentes.
Primeiramente, quero agradecer, em nome da Parada LGBT de São Paulo, o convite
feito pelo deputado Guilherme Cortez e pela prezadíssima Renata Peron, que é
nossa parceira de longa data. E agradecer, Marco, por você ter, mais uma vez,
se disponibilizado a estar presente aqui. É uma honra muito grande, para a
gente, poder te homenagear, sabe?
Essa honraria,
a mais alta honraria do estado, você e todos nós aqui temos certeza: você é o
grande merecedor desta homenagem. Como eu não sou ator e eu não consigo
memorizar texto, ainda mais porque eu sou mais de 60, eu escrevi algumas
palavras e eu vou ler aqui. Se me permite, me dê essa licença.
A entrega do
Colar de Honra ao Mérito ao Nanini não é apenas um reconhecimento
institucional, é um gesto simbólico que carrega potência política, é o estado
dizendo que nossas trajetórias LGBT+ importam, que nossos corpos, nossas
memórias e nossas velhices merecem ser vistos, respeitados e celebrados.
Na última
Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, escolhemos como tema o “Envelhecimento LGBT”,
tema este que até hoje é falado, é discutido e é publicado nas mais diversas
mídias, nos mais diversos grupos, nos mais diversos
seminários.
Falamos
porque sabemos que envelhecer, para a nossa comunidade, ainda é um ato de
resistência. Falamos de solidão, de lares que nem sempre nos acolhem, de
políticas públicas que ainda não nos complementam, mas falamos sobretudo de
legado, do que construímos e do que deixamos para quem vem depois.
E
se existe alguém que simboliza esse legado, é você, Marco Nanini, um artista
que nos ensinou com leveza e profundidade que humor também é crítica, que palco
também é política e que viver a própria verdade é, por si só, um gesto
transformador. Nanini abriu caminhos para que muitos e muitos de nós pudéssemos
existir com mais dignidade.
Que esta homenagem não seja apenas um
ponto alto da carreira de um grande ator, mas também um convite para que toda a
sociedade reconheça o valor da longevidade LGBT+, porque envelhecer deve ser um
direito e nunca um privilégio.
Em nome da Parada de São Paulo,
agradeço ao mandato, mais uma vez, do Guilherme Cortez, que nos honrou com esse
convite, e por essa iniciativa. Marco Nanini, muito obrigado mais uma vez e que
sua arte continue iluminando o Brasil e inspirando futuras gerações.
Muito obrigado. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Obrigado, meu
querido Almir.
Gostaria de passar a palavra e convidar
para usar a tribuna a vice-presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos de
São Paulo, Gabrielle Araújo. Uma salva de palmas, leques e tudo o que vocês
tiverem à disposição. (Palmas.) Seja bem-vinda, minha querida. É um orgulho
receber o Sated aqui.
A
SRA. GABRIELLE ARAÚJO - Bom dia a todos e a todas.
Primeiramente, queria agradecer ao mandato do deputado Guilherme Cortez pelo
convite. É uma honra, para a gente, estar em uma solenidade para homenagear um
ator que é uma referência para tantas e tantas gerações.
Para quem não conhece o Sated, o Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões, eles são estaduais, e aqui
em São Paulo completou, no último ano, 90 anos. Olha só. Em 90 anos, a gente...
Por exemplo, agora na gestão, estou aqui representando a nossa presidenta, que
é a Rita Teles, que é a primeira mulher negra a ocupar esse lugar no Sindicato
dos Artistas em 90 anos.
Então a gente tem uma gestão
majoritariamente de mulheres jovens, o que é uma coisa bem atípica no Brasil
para gestões de sindicatos de artistas, e para nós é uma honra, porque a gente,
primeiro, ocupa esse lugar saudando quem veio antes.
Para a gente, é muito importante essa
ancestralidade que vem dos artistas e técnicos profissionais da Cultura, porque
muitos, como Marco Nanini, abriram caminho para outros estarem aqui. Então a
gente sabe a dificuldade que a gente tem no Brasil, enquanto sociedade,
enquanto comportamento, enquanto estrutura, enquanto acesso.
Muitos artistas, como o Nanini,
começaram, vieram de Recife, fizeram carreira no Rio de Janeiro, mas têm uma
carreira teatral belíssima aqui e em outros estados também. Eles ocuparam
lugares que hoje podem ser ocupados por outras pessoas, porque eles abriram
esses caminhos.
Então, para nós, é uma honra poder
estar aqui representando a classe artística e técnica do estado de São Paulo,
mas também do Brasil, porque a gente entende que esse lugar que o Nanini ocupa,
ele expande nacionalmente como uma referência.
E pensar na dignidade do nosso trabalho
na área cultural. Muitos estão ainda no anonimato, começam como figurantes, vão
ralando. A gente tem uma dificuldade ainda de sobreviver desta carreira. A
gente precisa mais do que sobreviver, a gente precisa viver, a gente precisa
ter dignidade para que todos e todas consigam esse acesso, consigam ter uma
carreira digna e possam construir uma história que, lá na frente, possa ser
homenageada, como a do Nanini.
Então a gente está aqui muito feliz. Muito
gratos e gratas por estar aqui falando com vocês, por estar aqui neste momento
histórico, para, novamente, trazer dignidade para essa homenagem, para a gente
de fato olhar quem são os nossos mestres e mestras. Parabéns, viu, Nanini? Para
a gente é uma honra estar aqui. A gente quer muito te convidar um dia para você
nos visitar no sindicato também e dizer que você, sim, é uma voz muito
representativa para a gente, que você dignifica a nossa carreira.
Então, como profissional, como atriz,
antes de ser vice-presidente do sindicato, fico muito feliz de a gente ter um
ator que, além do seu extremo talento, da sua extrema dedicação, entende a
importância desse lugar que ocupa, com uma representação em múltiplas frentes,
do seu compromisso com a carreira, com a política, com o seu discurso e como
isso tudo, como esse poder construído ao longo dos anos pode influenciar muita
gente.
É uma responsabilidade muito grande e a
gente fica muito feliz que você tenha essa noção e esse compromisso, não só com
os nossos profissionais da Cultura, mas com a sociedade brasileira.
Então vida longa, sucesso, prosperidade
e muito obrigada por existir e por fazer da sua trajetória uma trajetória que a
gente sabe que é de luta, principalmente nos bastidores, porque a gente sabe
muito bem como o universo cultural funciona e as dificuldades que a gente tem
de se colocar, de construir uma carreira digna, com dignidade não só na questão
financeira, mas na questão de ter os profissionais ali conectados com a nossa
luta diária, com a dedicação que a gente coloca artisticamente nas coisas, com
o tanto que a gente empresta para os nossos personagens, para os nossos
trabalhos.
Então é muito bonito ver essa
trajetória construída dessa forma para chegar até aqui. Então vida longa,
parabéns! E o Sindicato dos Artistas e Técnicos está aqui para falar que,
apesar de você não ser de São Paulo, a sua carreira é brilhante aqui no estado.
Então faz muito sentido que, nesta homenagem aqui na Alesp, a gente esteja e
que a gente saúde a sua carreira, a sua história, a sua trajetória.
Obrigada!
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Muito
obrigado, Gabrielle! Um salve ao Sated, de todos os artistas do estado de São
Paulo!
Quero chamar agora a Heloisa Alves,
coordenadora estadual da Aliança Nacional LGBT. Uma salva de palmas! (Palmas.)
A
SRA. HELOISA ALVES - Bom dia a todas as
pessoas aqui presentes! Primeiramente, saudar o nosso grande homenageado da
manhã, o ator Marco Nanini. Eu confesso que estou muito emocionada, Marco
Nanini, porque você é um ícone para mim.
Você é uma pessoa que sempre me
inspirou nos seus personagens, na sua forma de atuar, na sua discrição, também
na forma de você ser uma referência política, mas com discrição, não precisar
fazer um grande alarde com relação aos seus posicionamentos.
Mas aqui estou na qualidade de
representante da Aliança Nacional LGBTI+, que é uma rede nacional que luta
pelos direitos da população LGBTI+. E eu estou tão emocionada que eu quis até
escrever para não dar nenhuma gafe maior. Então, em nome da Aliança, é uma
honra estar aqui representando a Aliança Nacional LGBTI+, para homenagear um
dos artistas mais completos, sensíveis e corajosos da nossa Cultura, Marco
Nanini.
Nanini sempre foi mais do que um grande
ator. Ele é um criador de mundos, um intérprete que atravessou gerações, palcos
e telas com uma entrega rara, dando vida a personagens que marcaram a história
do teatro e da televisão brasileira. Mas sua contribuição vai além da arte.
Marco Nanini abriu caminhos, muitas
vezes de forma silenciosa, elegante e firme, para que pessoas pudessem existir
com mais liberdade e dignidade neste país. Ao celebrarmos sua trajetória, celebramos
também a força e a importância de cada artista que ousa ser verdadeiro. Marco,
obrigada por sua arte, por sua coragem e pelo legado que deixa para o Brasil.
Muito obrigada. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Muito
obrigado, Heloisa.
E, para concluir este nosso primeiro
bloco, queria chamar o meu querido amigo, presidente do Grupo Pela Vidda,
Eduardo Barbosa. Uma salva de palmas! (Palmas.) No Dezembro Vermelho, de
conscientização e de luta contra o HIV/Aids, o Grupo Pela Vidda tem sido
imprescindível, uma das minhas grandes referências. E o Eduardo, um ícone para
todos nós também.
O
SR. EDUARDO BARBOSA - Bom dia a todas as
pessoas presentes. Eu não estava esperando aqui falar, mas vim exatamente nesta
solenidade porque tenho em você, Marco Nanini, uma referência desde a minha
juventude, quando eu estava em um seminário, lá em Marília, estudando na Unesp,
e eu tinha uma foto sua com o Ney Latorraca no meu quarto.
E era muito expressiva, porque, ao
longo da minha vida, a tua trajetória artística, nesses 60 anos, representa
muitas das pessoas que vivem com HIV/Aids, como eu, que, durante muito tempo,
olharam para pessoas expressivas da sociedade e se espelhavam, não em um
ativismo louco, desenfreado, mas exatamente na forma de viver, de trabalhar
cada questão.
Cada um dos papéis que você representou
trazia para a minha história também um significado, um significado de... A
princípio, eu vivi na invisibilidade LGBT até 1994, quando eu recebi o meu
diagnóstico. Mas por que isso? Por conta de toda uma sociedade que nos causava
e ainda causa medo, medo da rejeição, medo da expulsão.
Personagens como os que você
desempenhou ao longo da vida me davam uma sustentação para continuar resistindo
e vivendo, independentemente da sorologia, independentemente da orientação
sexual.
Então eu quero aqui expressar, em nome
de toda a comunidade mesmo LGBT, da qual eu faço parte, esse agradecimento
mesmo pela tua trajetória, e dentro do teu trabalho, sem alardes, trazer para a
gente possibilidades de sonhar, de buscar e de envelhecer.
Fico muito feliz com a associação da
Parada, que esse ano colocou lá a temática do “Envelhecer LGBT”. Era um tema
que estava aí esquecido quase. E a gente, envelhecendo, tem um monte de outras
coisas, mas continuamos vivos. E agradecer também a Carolina Iara, o Guilherme
Cortez, principalmente nesta Casa, por terem nos dado vários espaços, vários
momentos de debate.
Então não dá para a gente esquecer que,
para a sociedade poder enfrentar vários desafios, a gente precisa ter
apoiadores: apoiadores aqui nesta Casa, apoiadores como você, Marco Nanini, que
é uma referência, mesmo a gente não fazendo tantos alardes, para muitas pessoas
que, no silêncio, continuam vivendo com grandes dificuldades.
Parabéns pela homenagem e está
convidado a fazer uma visita lá na nossa instituição. A gente está iniciando
agora um trabalho, um grupo lá LGBT vivendo com HIV 60+. Uma hora a gente faz
um convite para você estar com o nosso grupo lá.
Muito obrigado. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Obrigado, Eduardo. Eu gosto ainda mais
de você agora, depois de saber que você é unespiano também. Parabéns por tudo o
que o Grupo Pela Vidda tem feito por nós.
E agora, algumas pessoas muito
especiais não puderam estar aqui presentes, por isso nos mandaram vídeos. E eu
queria pedir a atenção de vocês para ouvir alguns recados de pessoas muito
especiais para São Paulo, para o Brasil e para o nosso homenageado. Pessoal da Técnica
pode exibir.
*
* *
- É exibido o vídeo.
*
* *
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - E tem mais
emoção, porque agora nós vamos ouvir algumas pessoas que foram muito especiais
na trajetória pessoal do Nanini, começando pelo Igor Rocha, que é um amigo,
colaborador e uma pessoa que foi imprescindível para que esta sessão
acontecesse. Igor? Onde ele está? Ali? Fique à vontade.
O
SR. IGOR ROCHA - Olha, é um prazer estar aqui
homenageando este amigo querido. Falar do legado que ele tem para a arte e a Cultura,
que ele deixou para o País, isso todo mundo já sabe. Mas, como amigo
pessoal que acompanhou, agora tenho algo para dizer sobre como ele age na
vida dele. Coisas que ninguém sabe. No Rio de Janeiro mesmo, ele sempre
manteve, em certo tempo, um espaço no galpão, social, onde muitas crianças
da comunidade do Morro da Providência eram atendidas.
Então ele sempre ligado a essa questão
social, um homem muito ligado a todos os sistemas importantes. Está sempre
com os animais, como nosso amigo e querido disse, é um cara muito
sensível. Acompanhá-lo todo dia e ver essa sensibilidade que ele tem para com o
mundo mesmo.
Na nossa vinda para cá mesmo, no
aeroporto, preocupado com o que estava acontecendo lá no Congresso, com
Glauber, fazendo vídeo. Então está sempre ligado às redes sociais com essas
questões importantes, progressistas do País. Então é um amigo de que só tenho
orgulho, merece toda a homenagem que estão fazendo aqui para ele. É um
cara, um cidadão muito importante, realmente, para o Brasil. É isso.
(Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Obrigado,
querido Igor.
E agora quero chamar o
jornalista, meu amigo muito especial, Ubiratan Brasil.
O
SR. UBIRATAN BRASIL - Obrigado pelo convite.
Parabéns, Guilherme, pela ideia, pela execução. Nós não estamos homenageando um
ator apenas, estamos homenageando uma pessoa que representa uma parte
importante da história da arte brasileira.
Todo mundo falou aqui do homem Marco
Nanini. Eu tinha o privilégio de acompanhar o Marco há vários anos como
jornalista, na sua concepção de ator, na sua criação de ator. O Marco
é um exemplo que me deixava sempre muito surpreso com o trabalho
dele. Quando a gente está lendo um livro, está vendo uma peça, está vendo
um filme, é um prazer muito grande você ir descobrindo como aquele
personagem vai se revelando aos poucos, vai te surpreendendo até. Devagarzinho
isso acontece.
Para quem fizer isso, é necessário ter
uma qualidade técnica muito grande. E o Marco é muito surpreendente. Você
começa a vê-lo em qualquer papel, em qualquer meio de comunicação e, aos
poucos, aquele personagem vai crescendo, vai aparecendo para
você. Tem vários exemplos de trabalho dele. Eu gosto muito, acho que
a peça que eu mais gosto que ele fez se chama “Pterodátilos”. Não sei quem teve
a chance de ver aqui, 2010, 2011. Ele fazia dois papéis, um pai e uma filha.
Fazia uma menina que estava ali
vivendo, a família toda desconjuntada, e ele apenas com um vestido, sem
maquiagem, sem peruca, sem nada. Você olhava ele interpretando, você via uma
menina de 15 anos. Pelos gestos, pela maneira como ele trabalhava a voz e,
ao mesmo tempo, um pai já vendo a família em decadência completa. Também
você via um homem ali sentindo o fim da vida se aproximar. Então, em cena,
apareciam dois atores e era um só, e sem quase nenhuma máscara, para
proteger apenas com o seu talento.
A gente está habituado muito a falar e
vê-lo como Lineu, de “A Grande Família”. E esse é um dos grandes
exemplos do Marco, porque ele é um colecionador de histórias, ele é um
observador das pessoas. De repente, a gente está aqui, a gente não está
sacando, ele está olhando para a gente, já está pegando informação para um
próximo papel. E o Lineu é muito até uma observação dele do próprio pai, se não
me engano, não é, Marco? Especialmente na correção de vida e também naquele
cinto avantajado, assim, acima do umbigo.
Então é um prazer muito grande
acompanhar a obra do Marco, saber como ele realmente transita muito bem por
todas essas formas de comunicação. É um cara que já tem mais de 100 produções
de teatro, pensando em televisão também, e deixa uma marca muito grande. A
gente vai lembrar sempre, continua sabendo do trabalho dele. O Marco ainda está
atuando, está ali no “Traidor”, na peça do Gerald Thomas. Então é um ator que
não deixa nunca de surpreender.
A Mariana Filgueiras estava no vídeo
falando, ela é a biógrafa dele, e eu recomendo até a leitura desse livro, “O
Avesso do Bordado”. Olha como o título fala muito, “O Avesso do Bordado”. O
bordado é uma coisa bonita, você olha atrás, você descobre ali como aquele
bordado foi feito. Ali que está o segredo da beleza daquele trabalho. Então
esse livro mostra como o Marco criou tantos personagens importantes, vitais
para a nossa história.
Então parabéns de novo, Guilherme. Você
está aqui dando um colar para o Lineu, para um Odorico Paraguaçu, que, aliás,
podia estar muito bem representado aqui. Ultimamente, o Odorico é mais presente
na nossa política do que nunca. Então são vários personagens marcantes e, por
sorte nossa, temos aqui o Marco Nanini. Parabéns pela execução, por essa ideia.
(Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Muito
obrigado, Ubiratan.
Agora vamos ouvir a atriz, grande
amiga, Karin Rodrigues.
A
SRA. KARIN RODRIGUES - Está certo. Olha, na
minha opinião, para ser um grande ator, ele precisa de várias qualidades: em
primeiro lugar, e evidente, o talento; depois, a vocação, que às vezes não vem
junto com o talento; uma inteligência cênica, que é uma inteligência especial;
e cultura. Eu acho que o Nanini tem tudo isso.
Então só podia dar nessa coisa que é esse grande
ator. E outra coisa, uma carreira maravilhosa, uma carreira que passou por
todos os meios de comunicação, como a televisão, que até hoje ele está no ar. O
cinema, os seriados, principalmente o teatro.
Agora, eu acho que as peças que o
Nanini produz têm uma característica especial. É que tudo é da melhor
qualidade. Tudo é perfeito. Ele não faz economia de nada. O cenário é o melhor
que existe, é o melhor cenógrafo. A luz? É o melhor iluminador. O contrarregra?
É o melhor que existe. O microfone também é muito importante. O microfone é o
melhor que existe também.
E ele ainda tem a sorte, olha que
sorte, de ter o melhor produtor de teatro do nosso país, que é o Fernando
Libonati. (Palmas.) Por tudo isso, e ainda por cima, além de ser ator, esse
ator maravilhoso, ele dirige. Eu fui dirigida em duas peças com ele. Uma peça
do Noël Coward, com a Glória Menezes e o Paulo Autran.
Eu vi a delicadeza com que ele trata os
atores, porque às vezes o ator não consegue sair do lugar, não sabe como
solucionar aquele problema. E o Nanini, com maior delicadeza, encaminha a gente
para a solução daquele problema. Uma coisa maravilhosa. Mas tem outra coisa: não
pode “chanchar”. Se a gente começa a exagerar, como em “O Médico e o Monstro”,
não pode. Não é, Nanini? É isso.
Então o que mais eu posso dizer sobre
ele? Uma vez eu perguntei para o Nanini: “Por que nós, atores, passamos por
emoções que a maioria das pessoas não passam? Por exemplo, o pavor da estreia”.
Você já levanta com o coração aqui dentro, você só pensa nisso, você responde
coisas que não têm nexo.
E eu perguntei para o Nanini: “Nanini,
como é você em uma estreia?” E ele fez a definição perfeita para esse momento:
“Karin, a gente está na beira de um precipício e tem que pular”. Eu acho que é
a definição maravilhosa. Bom, Nanini, parabéns por esse prêmio.
Agora, como eu só fiz elogios, eu
gostaria de ter a permissão para falar dos defeitos dele. Ele muda de humor de
uma hora para outra. Você está com ele e, de repente, ele está incomunicável.
Bom, como a gente o adora, a gente vai para casa e volta no dia seguinte e já
passou. E é o defeito mais grave.
Ele é de uma generosidade. Eu nunca
consegui pagar um jantar saindo com ele. Ele paga a conta de todo mundo. Ele
ajuda os atores. Ele ajuda a gente que está em crise. Ele fez um trabalho
maravilhoso em uma favela no Rio de Janeiro, perto, vizinha da casa dele.
Então o Nanini dá presente sem parar.
Para mim, deu um chapéu com um desenho de dálmata. Não sei se é bom, mas gostei.
Vive dando presente para as pessoas. Nanini, pelo amor de Deus, pare de gastar
teu dinheiro. Nós estamos ficando velhos. Eu posso falar por experiência
própria, e velhice custa caro.
Nanini, nessa carreira maravilhosa,
estou aqui para agradecer por você existir. Agradecer esse prêmio maravilhoso
que vocês fizeram, Guilherme. E vá embora com teu Colar de Mérito, e vamos para
frente, porque atrás vem gente. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Com vocês, o
maior produtor de teatro do País, Fernando Libonati. (Palmas.)
O
SR. FERNANDO LIBONATI - Bom, agradecer ao
Guilherme por esta possibilidade de fazer esta homenagem merecida ao Nanini,
por tudo que ele representa para a cultura do nosso país e toda a questão dele
humanitária e social, que já foi tão bem colocada aqui. Agradecer a Karin
também por puxar a sardinha aqui para o meu lado, que foi muito bom.
Mas o que eu tenho para falar é do
Nanini que eu conheço há 39 anos. Estou até com essa camiseta, que é o símbolo
dessa data, que é o ano de 1986, e de tudo que ele provocou e provoca ainda em
mim e nas pessoas que estão ao redor dele, que é o desafio de poder sonhar, de
realizar, é uma loucura.
Nesses 39 anos nós já fizemos muitas
peças, algumas produções de audiovisual e investimos em espaços no Rio de
Janeiro para receber artistas LGBTQIA+, jovens artistas, e isso tudo é muito
gratificante. Esse trabalho que a gente faz também, fez bastante, por muito
tempo, agora está encerrado, na área do Morro da Providência, no Rio de
Janeiro, no Galpão Gamboa. Foi uma coisa muito forte, porque onde a gente mora
no Rio estava tendo uma série de assaltos.
E aí nós tivemos que ter algumas
medidas de segurança. A pessoa que cuidava da segurança para a gente falou:
“Olhem, vocês têm que aumentar o muro.” E aumentamos o muro da casa. Aí o
Nanini falou: “Então vamos agora quebrar os muros, vamos achar um lugar onde a
gente possa ter uma sala de ensaio que seja próximo a uma comunidade.”
E assim fizemos. Chegamos ao Galpão
Gamboa, e de lá essa relação com as pessoas do local foi muito gratificante,
foi muito boa. Então eu só posso agradecer os convites que o Nanini me fez para
o sonho, para o empreendimento na área da Cultura e na área social. É isso, eu
o adoro. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Obrigado,
Fernando.
Agora eu queria passar mais uma série
de recados de pessoas muito especiais que não puderam estar aqui junto conosco
no dia de hoje.
*
* *
- É exibido o vídeo.
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* *
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Queria
convidar agora para utilizar esta tribuna a minha amiga, colega de lutas aqui,
deputada Paula Nunes, da Bancada Feminista. (Palmas.)
E que se, nessa semana, a gente
assistiu ao Congresso Nacional tentar cassar o nosso colega Glauber e não
conseguir, aqui nesta Casa também o mandato combativo da Bancada Feminista está
sendo ameaçado de cassação por denunciar a violência contra a mulher. Nós não
podemos admitir isso. Toda a nossa solidariedade. Bancada Feminista fica!
(Palmas.)
A
SRA. PAULA DA BANCADA FEMINISTA - PSOL - Muito
obrigada, Gui. Eu quero, antes de tudo, te parabenizar pela iniciativa. O
Guilherme, mais do que colega de Casa, é um amigo querido.
Quando eu fiquei sabendo desta
homenagem, eu fiquei muito emocionada, porque quem de nós não cresceu - na
minha geração, que é a geração dos 30 anos - assistindo assiduamente “A Grande
Família”? Assim, foi muito legal. Eu acho que a gente viveu coisas muito
importantes, muito emocionantes.
Mas, conforme a gente cresce também,
acho que ver a importância que o Marco Nanini tem na nossa história é
importante, é fundamental. Pensar que esta Casa Legislativa, que insiste em
homenagear pessoas que não têm contribuições relevantes para a nossa história,
hoje faz exatamente o que um Parlamento tem que fazer: reconhece a altura e a
grandeza de um artista que deve ser reconhecido com a maior honraria do estado
de São Paulo.
Então, para nós, aqui no Parlamento do
estado de São Paulo, te reconhecer, Marco Nanini, com a maior honraria deste
estado, que é o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, é algo muito importante.
Então muito obrigada. Muito obrigada por estar aqui. Muito obrigada por tudo o
que você fez por nós, o que faz por nós, pela nossa história. Para a gente é
fundamental que este estado te reconheça com a grandeza que você tem. E mais,
eu quero dizer que nós precisamos cada vez mais homenagear os nossos artistas
em vida. Poder fazer isso com você aqui é algo importantíssimo.
Então obrigada. Parabéns. Parabéns ao
Guilherme. Parabéns para todo mundo também que veio até aqui reconhecer a
grandeza que o Marco Nanini tem. (Palmas.)
A
SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Agora vamos chamar
ele, que é um representante da comunidade LGBT também, deputado Guilherme
Cortez. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Bom, mais uma
vez, bom dia - quase hora do almoço - a todo mundo que está aqui. Acho que,
para muitas pessoas, é a primeira vez que ocupam o plenário da Assembleia
Legislativa.
A Assembleia Legislativa do Estado de
São Paulo, infelizmente, não é um ambiente muito convidativo. A maior parte das
pessoas ou não conhece, ou quando vem para cá é para reivindicar um direito - e
ser muito mal recebido dessa maneira. As minhas experiências pregressas com
esta Assembleia, antes de ser deputado, sempre foram vindo aqui em greve, em
movimento. Geralmente, a gente é recebido muito mal, com porrada.
Este plenário aqui, para quem não está
acostumado, costuma ser palco de coisas muito negativas para a população do
estado de São Paulo. Foi aqui que se retirou dinheiro da educação pública. Foi
aqui que se privatizou a água que a gente bebe. Foi aqui que muita coisa ruim
aconteceu. As companhias aqui nem sempre são as mais agradáveis. A exceção são
mandatos parceiros, como o mandato da Bancada Feminista, e que, justamente por
isso, são aqueles que estão sempre na linha da cassação, da ameaça.
Então vocês não sabem, para a gente...
Não é, Paula? A alegria que é quando a gente pode ver este plenário com uma
outra cara, com outras tonalidades, com outras pessoas, com artistas, e poder
receber vocês bem, porque essa deveria ser a Casa do povo, que deveria receber
toda a diversidade do nosso povo.
E hoje nós podemos fazer isso, na
pessoa do Marco Nanini. Mas uma homenagem a toda a cultura brasileira e a cultura
do estado de São Paulo. Porque eu disse para vocês que, na semana passada, essa
mesma homenagem foi entregue para pessoas que não deveriam ser homenageadas, na
minha humilde opinião, e que nada de bom fizeram para o nosso país. Hoje a
gente está fazendo uma reparação à cultura brasileira e do estado de São Paulo,
devolvendo a maior honraria do estado de São Paulo para o pescoço, para uma
trajetória que merece muito.
Essa semana foi uma semana muito
difícil no Congresso Nacional. Vocês viram, uma semana quase no Natal, que a
gente ficou tão nervoso, mas a gente viu mais uma vez, e quantas vezes a gente
tem sido relembrado disso ao longo dos últimos anos, o quanto que aquela sombra
do autoritarismo, da ditadura segue tão presente no dia a dia.
O quão fácil que os “Odoricos
Paraguaçus” da vida, na calada da noite, não se sentem confortáveis para
anistiar criminosos, passar pano para pessoas que tentaram dar um golpe no
nosso país, expulsar a imprensa de uma Casa Legislativa e retirar à força um
deputado federal eleito de dentro do plenário, que tentaram cassar, mas não
conseguiram. Não são imagens da ditadura civil militar de 64, são imagens de
2025, que mostra como a gente ainda tem grandes desafios.
E no momento em que o nosso país está
em disputa, eu me peguei pensando: o que define a identidade de um país? Um
país é um território? Uma porção de terra? Um país é uma língua comum? Uma
paixão comum? O futebol? Tem coisa mais brasileira do que o futebol, que hoje
está dando um pouco de decepção para a gente? Mas, em um país tão conturbado,
tão desigual e tão polarizado, no começo deste ano, todo mundo se sentiu
brasileiro, quando torceu pela Fernanda Torres e quando pôde celebrar a
grandeza do cinema brasileiro.
Fazia tempo que a gente não sentia
alguma coisa que nos conectava como pessoas, que parecem que se desumanizaram,
que pensam tão diferente da gente. O nosso homenageado de hoje, sem medo de
exagerar, é uma pessoa que ajudou a construir a identidade de um país, identidade
nacional; que fez, dentre os vários personagens, os vários brasileiros que ele
interpretou, um deles foi um dos personagens mais populares, de um dos produtos
culturais mais populares do nosso país.
Eu, como a Paula, cresci na minha casa
assistindo “A Grande Família”, que é só uma dessas obras, mas quantas famílias
brasileiras - e hoje se fala tanto de família -, quantas famílias brasileiras
não se viram representadas, descritas, na família Lineu Silva? Quantos
“Agostinhos” hoje não acham que são “Lineus”, cidadãos de bem, com todos os
seus vícios e suas contradições para debaixo do tapete?
Em um país onde o teatro é tão
descredibilizado e, ainda, o seu acesso é tão restrito, o que é passar 11 anos
em cartaz, como foi o caso de “Irma Vap”? Hoje, mais cedo, antes de vir para
cá, eu estava assistindo ao final do “Auto da Compadecida”, àquela hora em que
todos eles são julgados pelos seus pecados, e pensando que lição bonita aquilo
ali dá para a gente sobre religião, sobre fé, sobre vida.
Enquanto hoje a religião está sendo tão
utilizada para outros meios, quantos “Odoricos Paraguaçus” ainda existem na
nossa política, em casas como esta? Demagogos, hipócritas, colocando seus
interesses particulares à frente do interesse da coletividade.
Outro dia... Não é todo dia que a gente
recebe uma figura como você aqui nesta Casa, e isso mexeu um pouco com as
pessoas aqui, com os servidores aqui, não só do nosso mandato. Outro dia, eu
estava passando por uma servidora, e ela falou assim: “Nossa, eu vi que você
vai homenagear o Marco Nanini. Eu sou tão apaixonada por ele. Ele fez um
personagem que é tão lindo, o professor Pancrácio”.
E eu pensei: “Que beleza é a arte. Como
que a arte é capaz de, com personagens tão diferentes, representando coisas tão
diferentes, representar, dialogar e tocar pessoas tão diferentes?” Cada pessoa
aqui tem um personagem favorito, com uma carreira tão grande como essa.
Tem um momento que marcou a Fabi, que
foi uma pessoa imprescindível para a realização desta sessão. Sem ela, nenhum
deles, nenhum de nós estaria aqui. Estava falando que ela descobriu o teatro na
vida adulta através do Marco Nanini. A primeira peça que ela assistiu foi uma
peça sua.
Que poder tem a arte, de fazer a gente
se sentir representado! Que poder tem a comédia, e eu admiro muito quem tem o
dom da comédia, porque a comédia é a coisa mais contestadora possível. A
comédia, ao mesmo tempo, é capaz de nos fazer rir das dificuldades do nosso dia
a dia, questionar essas dificuldades e ridicularizar quem nos coloca nessas
dificuldades.
Por isso que a ditadura, os
autoritários, os preconceituosos detestam a arte, porque a arte nos gera
empatia. A arte nos permite ver além da nossa visão limitada. A arte nos
permite questionar e, questionando, nos permite mudar as coisas ao nosso redor.
Então que bonito é hoje a gente poder
prestar uma homenagem não só ao Marco Nanini, a todos os brasileiros a que o
Marco Nanini deu vida e a todas as pessoas que se emocionaram, riram com essas
histórias que ele nos ajudou a contar, mas prestar esta homenagem para a arte
brasileira.
Neste momento específico, em que os
artistas e os políticos somos todos influencers, influenciadores, e que alguns
não influenciam nada, de tanto medo que têm de se expressar, por medo de perder
seguidor, por medo de perder contrato, por medo de perder prestígio, como é bom
poder celebrar um ator, uma pessoa dessa estatura, que sempre utilizou o seu
prestígio ao lado do povo brasileiro.
Porque, em 2011, quando eu ainda era um
pré-adolescente, um ano que foi muito difícil para a comunidade LGBT, em que a
comunidade LGBT foi vítima de muitos ataques, qual foi o significado do pai do
Brasil falar abertamente sobre a sua sexualidade?
Eu tenho absoluta convicção de que se
eu estou aqui hoje, e que se hoje a gente pode ter um deputado abertamente
bissexual, carregando as nossas cores, as nossas bandeiras, em uma posição de
autoridade, podendo realizar tudo isso, é graças às pessoas que abriram essas
portas para a gente.
Algumas na linha de frente, algumas nos
bastidores, algumas discretas, algumas muito exibidas, mas todas elas foram
abrindo portas e derrubando muros para que a gente pudesse estar aqui. Entre elas,
Marco Nanini. Quero pedir uma calorosa salva de palmas. (Palmas.)
E dizer que hoje nós vivemos um momento
muito difícil no mundo. Nós vivemos tempos em que é muito fácil perder a
esperança no futuro, em que esse sistema tão desordenado ameaça o nosso futuro,
os nossos sonhos, só sabe concentrar renda, reforçar estigmas recentemente. A
minha geração não sabe até onde vai, até quando que a gente vai ter planeta.
Neste mundo sem esperança, ganham espaço vendedores de ilusão, que aprenderam a
vender sonhos, sonhos mórbidos, mas sonhos.
A cultura nos ensina há milênios como
contestar, como rir, como indignar e como mobilizar as pessoas através do
canto, da dança, do teatro, das artes plásticas. Que a gente seja capaz de
reaprender com a cultura, com a irreverência da arte, como comunicar com o
nosso povo, como refazer pontos, como construir uma grande tenda, uma grande
coalizão, onde caiba todo mundo.
Que a gente possa reapresentar para as
pessoas, reencantar as pessoas com um sonho de um outro mundo, muito melhor do
que este que está aqui, que nos garanta um futuro, mas, acima de tudo, nos
garanta uma vida muito melhor. Eu tenho certeza de que a arte e a cultura vão
ser imprescindíveis nessa luta.
Hoje nós homenageamos o Marco Nanini,
entregamos a ele a mais alta honraria do estado de São Paulo para reconhecer a
grandiosa contribuição que ele deu para o imaginário, para os sonhos, para a
alegria, também para as lágrimas de milhões de pessoas no estado de São Paulo.
Tenho muito orgulho de poder te entregar essa homenagem.
Mais do que um reconhecimento para um
grande brasileiro, nós temos que aprender a celebrar e falar para as pessoas o
quanto elas são importantes para a gente quando elas estão junto com a gente, e
o Marco vai continuar junto com a gente por mais muito, muito, muito, muito
tempo, colecionando muitas outras homenagens. Mas que isso sirva para toda uma
nova geração de artistas, de lutadores, de contestadores, de admiradores
visualizarem um exemplo, que é o que você é para cada um de nós.
Muito obrigado. E receba esta homenagem,
com todo o carinho, do estado de São Paulo. E que, com esta homenagem, a
Cultura possa se sentir um pouco mais valorizada pela grandeza que a Cultura
cumpre no nosso estado. Muito obrigado, pessoal. (Palmas.)
Queria pedir para a Técnica passar um último
vídeo de homenagem para o Marco antes do nosso momento solene.
*
* *
- É exibido o vídeo.
*
* *
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - E agora queria
pedir o auxílio da Fabiana para entregar o Colar de Honra ao Mérito ao Marco
Nanini, debaixo de uma calorosa salva de aplausos de todos vocês. (Palmas.)
*
* *
- É feita a outorga do Colar de
Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo.
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* *
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Com vocês,
Marco Nanini. (Palmas.)
O
SR. MARCO NANINI - É uma covardia, porque,
depois de tanta emoção, como é que eu vou falar para vocês o quanto eu fiquei
emocionado, não é verdade? Mas eu agradeço a cada um de vocês e a cada uma
daquelas pessoas que apareceram ali para falar sobre o meu trabalho.
Eu agradeço demais também, viu,
Guilherme? A você e a esta Casa, porque é importante esta medalha para mim, por
causa de tantos anos trabalhando no teatro, e agora ser agraciado por isso
mesmo. Então, gente, muito agradecido a vocês. Eu estou muito emocionado. E não
sei mais o que falar. (Palmas.)
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - E agora, para
encerrar nossa sessão solene, Renata Peron.
A
SRA. RENATA PERON - Muito bom dia a todos
e a todas as pessoas. Eu sou cantora de samba e achei superpertinente trazer um
repertório gostoso para animar esse evento maravilhoso e para cantar
especialmente para o Marco Nanini. Gente, que orgulho, uma travesti de 48 anos
vai cantar para você e para todos aqui. (Palmas.) Pode soltar.
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* *
- É feita a
apresentação musical.
*
* *
O
SR. PRESIDENTE - GUILHERME CORTEZ - PSOL - Quero pedir
uma salva de palmas para a Renata Peron. (Palmas.) Pedir uma salva de palmas
para a equipe do Cerimonial. (Palmas.) Uma salva de palmas para a Técnica e
para toda a Rede Alesp. (Palmas.) Para toda a equipe do meu mandato, que
possibilitou. (Palmas.) E pedir para a Fabi vir aqui na frente. A Fabi. Fabi,
maravilhosa. E uma ovação para a Fabiana. (Palmas.)
E agradecer do fundo do meu coração a
cada pessoa que esteve aqui possibilitando esta manhã linda, mudando a cara da
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e que, um dia, se Deus quiser e a
nossa luta permitir, vai ter muito mais essa cara aqui do que essa cara cafona
que tem hoje.
Agradecer à pessoa que foi responsável
por juntar todos nós aqui e que, com a sua trajetória, inspira todos nós: Marco
Nanini. (Palmas.)
Está encerrada esta sessão solene.
(Palmas.)
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* *
- Encerra-se a sessão às 12 horas e dez
minutos.
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