
13 DE NOVEMBRO DE 2025
70ª SESSÃO SOLENE PARA DEMARCAR
O MÊS DA CONSCIÊNCIA
NEGRA ATRAVÉS DE UM DIÁLOGO COM A TEMÁTICA RAÍZES DE LUTA - UNINDO VOZES,
CONSTRUINDO EQUIDADE
Presidência: THAINARA FARIA
RESUMO
1 - THAINARA FARIA
Assume a Presidência e abre a sessão às 19h11min.
2 - MESTRE DE CERIMÔNIAS
Nomeia a Mesa e demais autoridades presentes. Convida o público para ouvir, de pé, o "Hino Nacional Brasileiro" e o "Hino da Negritude".
3 - PRESIDENTE THAINARA FARIA
Informa que a Presidência efetiva convocara a presente solenidade “Para Demarcar o Mês da Consciência Negra por meio de um diálogo com a temática Raízes de Luta - Unindo Vozes, Construindo Equidade", por solicitação desta deputada. Informa o término do Ciclo de Imersão Política de 2025.
4 - ELIANE DIAS
CEO da Boogie Naipe, faz pronunciamento.
5 - MESTRE DE CERIMÔNIAS
Anuncia apresentação musical do grupo Ilú Obá de Min - Educação, Cultura e Arte Negra.
6 - TERESA TELES
Regente do grupo Ilú Obá de Min - Educação, Cultura e Arte Negra, faz pronunciamento.
7 - PRESIDENTE THAINARA FARIA
Menciona premiação da cantora Liniker, no Grammy Latino. Lista cidades dos presentes nesta solenidade. Faz saudações gerais. Realiza o lançamento e comenta a Cartilha Étnico-Racial. Tece considerações sobre a escravidão. Defende direitos e justiça para a população negra. Clama por alterações nas leis e nos costumes. Posiciona-se a favor da democracia racial.
8 - FRED NICÁCIO
Médico, faz pronunciamento.
9 - RENATO FREITAS
Deputado estadual no Paraná, faz pronunciamento.
10 - PRESIDENTE THAINARA FARIA
Faz agradecimentos gerais. Encerra a sessão às 20h50min.
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ÍNTEGRA
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- Assume a Presidência e abre a sessão
a Sra. Thainara Faria.
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O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Senhoras e senhores,
boa noite. Sejam todos bem-vindos à Assembleia Legislativa do Estado de São
Paulo. Esta sessão solene tem a finalidade de “Demarcar o Mês da Consciência
Negra através de um Diálogo com a temática Raízes de Luta - Unindo Vozes,
Construindo Equidade”.
Comunicamos aos presentes que esta
sessão solene está sendo transmitida ao vivo pela TV Alesp, por meio do canal
da Alesp no YouTube. Convido para que componha a Mesa Diretora a deputada
estadual Thainara Faria, proponente e presidente desta solenidade.
A
SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT - Convido para
compor a Mesa junto comigo as pessoas queridas que hoje compartilham desta
celebração: Renato Freitas.
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - É natural de Sorocaba,
interior de São Paulo. Pai de Aurora, é graduado e mestre em Direito pela
Universidade Federal do Paraná - UFPR. Pesquisador na área de Direito Penal,
Criminologia e Sociologia da Violência. Ele já trabalhou na Defensoria Pública
do Paraná e atuava como professor universitário e advogado popular. Seja
bem-vindo, deputado.
A
SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT - Eliane Dias.
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Advogada, empresária,
ativista, curadora da exposição “O Quinto Elemento”. Primeira diretora
criativa, em 25 anos, do Troféu Raça Negra e palestrante, sendo referência no
mercado cultural e musical brasileiro. Fundadora CEO da Boogie Naipe, é
responsável pela gestão da carreira de nomes como Mano Brown, Racionais,
Duquesa, Danzo e Yunk Vino. Seja bem-vinda, Eliane Dias. (Palmas.)
Convido a todos presentes para, em
posição de respeito, ouvirmos o Hino Nacional Brasileiro e o Hino da Negritude.
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- É executado o Hino Nacional
Brasileiro.
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- É executado o Hino da Negritude.
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O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Gostaríamos de
agradecer a presença de todas as autoridades presentes e salientar que, devido
ao grande número de vereadores, prefeitos e representantes de diversas
instituições e movimentos, não o faremos nominalmente. Mas agradecemos mais uma
vez a gentileza da presença de todos vocês. Passo a palavra à proponente desta
sessão solene, deputada estadual Thainara Faria.
A SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT - Iniciamos os nossos trabalhos nos termos
regimentais. Senhoras e senhores, esta sessão solene foi convocada pelo
presidente desta Casa de Leis, deputado André do Prado, atendendo à minha
solicitação, com a finalidade de “Demarcar o Mês da Consciência
Negra através de um Diálogo com a temática “Raízes de Luta - Unindo Vozes,
Construindo Equidade”.
Também é o momento em que encerramos a
programação do Ciclo de Imersão Política de 2025, finalizando o importante
cronograma de formação política composto por cinco aulas que aconteceram ao
longo deste ano.
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Iniciando nossas
atividades, gostaria de convidar para fazer uso da palavra a ativista,
empresária e CEO da Boogie Naipe, Eliane Dias.
A
SRA. ELIANE DIAS - Boa noite. Boa noite a todas, a
todos, a todes. Quero, primeiramente, antes de qualquer coisa, agradecer o
tempo de vocês, a disponibilidade de vocês estarem aqui para que juntos
possamos refletir sobre esse mês de novembro.
Podemos falar um pouco sobre isso. Acho
que tem que ser falado, ainda mais com o último advento que aconteceu no Rio de
Janeiro. Então, antes de tudo, eu agradeço a presença e o tempo de todas, todos
e todes aqui. Cumprimento a Mesa, em nome da deputada. Agradeço também à
deputada pelo convite, sinto-me muito lisonjeada de ter sido lembrada por ela
neste momento.
Quem não me conhece, eu quero deixar
bem transparente aqui que eu adoro política, eu gosto de política, trabalhei
nesta Casa de Leis por dez anos. Saí em 2019 porque ficou insustentável, dado o
meu lado da história. Ficou insustentável em 2019.
Eu segui trabalhando aqui porque eu não
podia nem usar o esmalte que eu gostava, então ficou difícil. Saí, mas tenho um
grande respeito não só pelas pessoas que estão aqui trabalhando e lutando por
nós, mas também tenho um grande respeito pela trajetória de todas as pessoas
como nós, que lutam por nós. Isso é de fundamental importância.
Quando a gente fala de igualdade e de
equidade, a gente tem que refletir sobre que igualdade nós estamos falando, que
igualdade nós estamos buscando. Eu me sinto diferente em qualquer lugar em que
eu esteja de boca fechada, porque eu sou uma mulher negra e eu não preciso nem
dizer o que é ser uma mulher negra em um país ou em qualquer lugar onde tenha a
condição, tenha a necessidade, a vontade de julgar, condenar à pena de morte
pessoas por um simples ato assim de... “Não, eu quero condenar à pena de morte
mais de 120 pessoas.”
Eu fico consternada e pensando como é
para essas mais de 120 mães negras ter que conviver com o que vai ter que
conviver daqui para frente.
Então, se faz necessário que nós
estejamos aqui juntas lutando e refletindo sobre o que queremos daqui para
frente ou seguir em frente. É isso que a gente quer? É essa igualdade que a
gente quer? É essa igualdade que a gente está precisando? Eu não vou conseguir
ver essa igualdade em outro lugar. Eu não vou conseguir.
Eu faço grandes eventos, eu faço
grandes festas, eu trabalho com isso, eu gosto de lidar com... Fazer festa para
nós. Eu faço festa para nós. Aliás, eu vou sair daqui bem rapidinho, porque tem
um lançamento do livro do “Mano a Mano”, que está acontecendo ali no Sesc 14
Bis, e eu vou para lá, porque tem 600 pessoas esperando lá.
Então, eu faço festa para nós. E, no
momento em que cheguei nesse trabalho de fazer festa, eu fui muito questionada
porque eu não fazia festa na periferia. E aí eu tive que dar muita satisfação
porque eu não quis fazer festa na periferia. Porque eu acho que essa equidade
aqui, de nós estarmos aqui seguras, sem nenhum solavanco no peito ou no
coração, de que ninguém vai chegar aqui metendo o pé na porta, é um direito
nosso.
É um direito de a gente estar no lugar
onde nós estejamos, mas precisamos estar seguras em qualquer lugar. Essa é a
equidade que eu quero dizer. É sobre isso que eu quero falar.
Eu quero que o meu povo esteja em
qualquer lugar de forma segura, sem ter que sofrer, sem ter que o coração estar
acelerado, que, a qualquer momento, alguma coisa vai acontecer e alguém vai
chutar a porta do estabelecimento, vai invadir, vai acontecer qualquer coisa.
Então, eu fico muito grata de vocês
estarem aqui para viverem essa tranquilidade, porque vocês vão sair daqui
desejando que amanhã vocês estejam em um espaço como esse, em um espaço onde
você possa se sentir segura, seguro. Vocês vão desejar isso.
Porque a nossa periferia, eu moro na
periferia, a minha empresa ainda está na periferia, a nossa periferia deveria
ser assim. A gente tinha que entrar no nosso escritório, na nossa casa, ficar
lá tranquilamente. Mas, infelizmente, não é assim. A gente está sempre com o
coração saltando.
E, quando a deputada Thainara traz todo
mundo para cá, eu espero que vocês levem essa experiência. Eu sempre falo que,
nas minhas festas, eu queria fazer festa em um lugar onde tivesse um banheiro
limpo. Talvez isso seja um trauma da minha cabeça, porque as festas que a gente
tinha, tinha que ter o banheiro sujo.
E é horroroso isso. Começa a nossa
degradação ali, naquele espaço tão íntimo, tão pequeno. A equidade que a gente
tem que falar é sobre isso, o que a gente tem que refletir é sobre isso. A
igualdade a gente já fala, já discute. A equidade a gente tem que refletir
sobre isso.
Então, nesse 20 de novembro, as pessoas
falam assim: “Ah, dia 20 de novembro, mês de novembro, por que vocês ficam
batendo nessa tecla?” E a gente vai bater nessa tecla até que a gente possa
fazer um aniversário, uma festa na periferia, e a gente possa se sentir segura.
A gente vai bater nessa tecla. Vai ter
20 de novembro em janeiro, vai ter 20 de novembro em fevereiro, março, abril,
vai ter 20 de novembro o ano inteiro, até que nenhuma mãe preta tenha que
enterrar seu filho que foi assassinado de forma violenta. (Palmas.)
Eu costumo dizer que quando uma mulher
preta sorri, o mundo inteiro sorri, o sol se abre. Mas quando uma mulher preta
chora, é de arrancar o coração. Não tem como você ver uma mulher preta chorando
e você não chorar junto. Não estou dizendo que a dor das outras é diferente,
não.
Estou dizendo do que eu sinto, porque
eu sou uma mulher preta e eu tenho a paixão, a simpatia. Eu não sei, eu sou uma
mulher preta, minha mãe é preta, minha família é preta, então eu tenho essa
coisa. Então, quando a gente sorri, todos sorriem, mas quando a gente chora, é
uma eternidade chorando.
E eu estou muito consternada com tudo
isso, ficou muito longe do que a gente imaginava da questão de equidade quando
isso aconteceu. Eu queria muito que o Brasil tivesse parado. Nós somos a
maioria da população e a gente tem que entender que nós somos a maioria.
Enquanto a gente não entender que nós
somos a maioria, que a gente vai estar em uma Casa de Leis, que a gente vai
estar em todos os lugares, que em todos os lugares em que nós estamos, nós
somos maioria, a gente não vai ter o domínio da situação.
A gente só vai ter o domínio da
situação a partir do momento em que a gente entender, em que a gente deixar de
falar “nós somos a maioria”; a gente fala que nós somos a maioria. Mas a gente
tem que entender, tem que estar aqui, introjetado no nosso cérebro, que nós
somos a maioria.
Porque se a gente entender que nós
somos a maioria e qualquer tipo de injustiça acontecer, a maioria vai ter que
parar. O Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília. Se a gente não entender, se a
gente não se juntar para ser a maioria e se fazer respeitado no lugar onde a
gente estiver, a gente vai estar, para o resto da vida, chorando por 121, 120,
130, por discriminação, por isso, por isso, por isso.
Eu não gosto mais nem de falar de
racismo, e as pessoas não entendem. Por causa disso eu não vou ter muito tempo
para explicar, então eu vou falar bem rapidamente.
Racismo para mim agora é dinheiro. As
pessoas só têm atitude racista porque elas querem que eu saia do espaço para
elas entrarem. Se a pessoa for racista comigo, ela vai ter que ter muita
disposição, porque eu vou querer ocupar o espaço dela de uma forma ou de outra.
(Palmas.)
É basicamente esse recado que eu quero
deixar, que a gente tem direito a isso aqui, que a gente tem direito de ter
lugar seguro, a gente tem direito de ser tratado desta forma aqui. Porque a
gente tem direito e nós somos a maioria. Só que a gente tem que entender isso.
Só isso. A gente só precisa aceitar isso. Só precisamos aceitar isso, mais
nada. Quando a gente aceitar isso, as coisas vão mudar.
Por ora, infelizmente, eu nos vejo
aqui. Nós estamos lutando aqui. Eu espero que você, na sua casa, no seu
quintal, com a sua vizinha, na sua rua, você consiga juntar a sua maioria e
trazer para esta discussão aqui. As eleições estão acontecendo. Elas vão
acontecer. Olhe o que aconteceu, porque nós não somos a maioria. Se a gente for
a maioria, a gente vai conseguir mudar esse jogo. E a gente...
Estou vendo aqui que nós somos a
maioria de mulheres. E a gente, nós, mulheres, a gente sabe que juntas somos
mais fortes. Então, vamos refletir sobre isso. Eu gostei muito aqui, eu gostei
muito de receber essa cartilha. Eu já dei uma olhada aqui e é importante que a
gente entenda o que está escrito aqui, entenda quais são as leis que estão
colocadas aqui.
Está colocada a introdução da lei, mas
eu acho que é muito importante que todo mundo tenha curiosidade de ir lá e dar
uma pesquisada de forma mais aprofundada no que significa cada lei que está
aqui. Mas eu estou falando para dar uma olhada, não é para discutir com uma
pessoa no meio da rua, não. É para, na hora que vocês quiserem discutir sobre
os direitos de vocês, vocês terem uma base para saber do que está acontecendo.
Enquanto a gente ficar só olhando aqui
o que está se passando na tela e rolando a tela, porque dá endorfina, é legal,
é gostoso, a gente relaxa, esquece dos problemas. Não precisa ir para ver uma
partida de futebol para desopilar o cérebro. Enquanto a gente ficar só na tela
do celular, a gente vai perdendo a noção das coisas.
E as coisas vão acontecendo de forma
abrupta, e a gente vai vendo as mulheres negras perdendo seus filhos de forma
violenta. Então, eu acho que vale a pena todo mundo dar uma olhada. Não sei se
vai de carro, se vai de ônibus, se vai de metrô. Mas aí está no carro, está no
ônibus, está no metrô, está no aplicativo, dá uma olhada e depois dá uma
vasculhada.
Parabéns, deputada, pelo trabalho.
Muito obrigada, gente.
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Muito obrigado pela
participação, Eliane. Agora, vamos assistir uma apresentação do grupo Ilú Obá
De Min - Educação, Cultura e Arte Negra, que promove a cultura afro-brasileira
e ações para o fortalecimento das mulheres negras. O bloco foi fundado por Beth
Beli, Girlei Miranda, Adriana Aragão e Nega Duda, em novembro de 2004.
A
SRA. - Ilú Obá De Min, mãos femininas que tocam tambor para
o rei Xangô. Laroyê Exu!
TODOS
- Laroyê!
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- É feita a apresentação musical.
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A
SRA. - Boa noite, gente! Espero que todos
estejam gostando. Essa é a Ilú Obá De Min. Essa é a nossa primeira parte: o
xirê para os orixás. E agora nós vamos cantar as composições que as próprias
integrantes compuseram ao longo desses 21 anos de carnaval. (Palmas.)
“Mulheres Negras”.
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- É feita a apresentação musical.
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A
SRA. - “Vozes de Alakan”.
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- É feita a apresentação musical.
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A
SRA. - Muito obrigada, gente.
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- É feita a apresentação musical.
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A
SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT - Eu gostaria
imensamente de agradecer o grupo e chamar a regente Teresa Teles, que quer
fazer um agradecimento.
A
SRA. TERESA TELES - Boa noite a todas as pessoas
aqui presentes. Eu saúdo as minhas ancestrais, as ancestrais de cada um de nós,
as nossas mais velhas, as nossas mais novas.
Estamos aqui, um grupo bem pequeno, da
grandiosidade do que é a Ilú Obá de Min. A Ilú Obá de Min integra 450 mulheres,
e nós somos uma instituição de cultura e de educação, cultura e arte negra, que
promove o fortalecimento da mulher negra e honra a história das nossas e dos
nossos ancestrais.
A Ilú abre o Carnaval de São Paulo, um
dos grandes, e tem vários projetos, tem várias ações na área da educação e
cultura e arte negra. Mas, o que nos mostra para o mundo é também o nosso bloco
de Carnaval, que é o nosso maior projeto que abrimos. Durante um processo de
seis meses de oficinas de rua, celebra a abertura do Carnaval da cidade de São
Paulo. Então é onde nós mostramos para o mundo uma ópera negra. E a cada
Carnaval nós “femenageamos” uma celebridade, uma mulher.
Com isso, também resgatamos histórias
que não são contadas. Então quero muito, muito, agradecer à deputada Thainara
Faria, pelo convite de poder estar nesta Casa, agradecer ao assessor Lucas
Marcelino, que nos recebeu com muito carinho, e a toda a equipe do gabinete.
E dizer que as nossas ações também são
possíveis através de pautas de parlamentares, que também, para além dos nossos
esforços, somam com financiamentos e com a devolução do dinheiro público para
ações como a da instituição Ilú Obá de Min.
Então acho que esse é o momento de luta
e de fortalecimento das pautas parlamentares do movimento negro. E também
celebração. Porque a gente luta, luta, luta, mas também a gente precisa
celebrar. A nossa luta tem que ser celebrada sempre. Então saúdo essa
iniciativa e desejo um bom evento para todos, todas e todes. (Palmas.)
A gente vai fazer uma última, pode?
Ainda dá tempo de a gente poder sacolejar um pouco? E essa tem que dançar.
Porque essa traz, assim, carrega uma ancestralidade. Todo mundo que está
conosco, atrás, a gente traz para cá. “Raízes”.
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* *
- É feita a apresentação musical.
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* *
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Agradecemos ao grupo
Ilú Obá de Min pela apresentação maravilhosa.
Neste momento, convidamos para fazer
uso da palavra a deputada Thainara Faria, para que realize o lançamento da
cartilha étnico-racial elaborada pelo mandato. (Palmas.)
Neste momento, eu quero também
agradecer a presença do Dr. Fred Nicácio e também da Tamísia, neta da primeira
deputada negra desta Casa, Theodosina. (Palmas.)
A
SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT - E avisar aqui,
em primeira mão, que a Dani trouxe para nós: Liniker vence Grammy Latino de Melhor
Canção em Língua Portuguesa, com “Veludo Marrom”. (Palmas.) Filipa Brunelli
trouxe para nós essa informação. Obrigada, Bê.
Muito boa noite, pessoal.
TODOS
- Boa noite.
A
SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT -
Ó, a comida estava fraca, não tem água,
não tem café. O pessoal está chateado, viu, Renato? Boa noite, pessoal!
TODOS
- Boa noite!
A
SRA. PRESIDENTE - THAINARA FARIA - PT -
Nós estamos ocupando o plenário
principal do maior parlamento da América Latina, a Assembleia Legislativa aqui
do estado de São Paulo. Então esse é o nosso lugar. (Palmas.)
Quero iniciar minha fala saudando a
cada um, a cada uma, todas as pessoas presentes. Eu não vou nominar as
autoridades, mas vou falar rapidamente as cidades. São Paulo, Araraquara,
Rincão, Barretos, Campinas, Paulínia, Ourinhos, Ituverava, Salto, Itapevi,
Tabatinga, Gavião Peixoto, Monte Mor, Américo Brasiliense, Jundiaí, Dobrada,
Serrana, São Simão, Santa Rosa de Viterbo, Itaquaquecetuba, Limeira, Trabiju,
Guaraci, São Carlos, Peruíbe, Rio Claro, Ibaté, Pradópolis e Santa Cruz do Rio
Pardo. São 29 cidades presentes aqui hoje, 30 cidades com Matão, com a nossa
vereadora Fabiana Scardoelli, aqui presente. (Palmas.)
Tem Assis! Pessoas de Angola presentes
também. Olímpia. Botucatu. A senhora também é representante do Brasil, pode
parar. Americana. Quem mais esqueci, pessoal? (Vozes fora do microfone.)
Aramina. Jaboticabal. Chegou em 40 cidades aqui. (Vozes fora do microfone.)
Capivari. Perdoem-me as cidades que eu esqueci, gente.
Vou fazer uma quebra de protocolo, de
amizade, na verdade. Como a Eliane Dias teve que se retirar porque ela vai para
o lançamento do livro do “Mano a Mano”, o podcast - a gente está muito chique
hoje, né? Liniker vence o Grammy e tudo mais -, quero chamar o meu amigo que
veio me prestigiar e me apoiar, Dr. Fred Nicácio, para compor a Mesa. (Palmas.)
Me prestigiar é demais, não é? Aí eu
estou me achando. Para prestigiar o nosso evento. Não precisa falar nada, mas
sente-se ali para a gente ficar admirando a sua beleza, ao lado do nosso
querido Renato Freitas.
Quero agradecer a cada uma das pessoas
que aceitou o nosso convite de estar aqui nesta noite. Como saudei Eliane Dias,
saudei também Renato Freitas, quero saudar imensamente a Black Sauce, de
Araraquara, que esteve aqui conosco. O grupo Ilú Obá também, que estava aqui.
E dizer a vocês que preciso registrar o
meu agradecimento a todos os funcionários da Assembleia Legislativa, que dão a
estrutura para este evento, em nome do presidente André do Prado, que cedeu
este espaço, que normalmente é reservado para as sessões plenárias dos
deputados.
Quero dizer a vocês que a nossa
assessoria também se empenhou muito em construir este evento. Então, em nome do
Lucas Marcelino, agradecer a cada um, a cada uma de vocês que colocaram este
evento de pé. E o roxinho da Carina Jardim também, que foi muito importante
para este momento.
Vou fazer um lançamento rápido agora da
nossa cartilha étnico-racial, que foi desenvolvida pela coordenação do Núcleo Antirracista
do nosso mandato. Não gosto muito de um monte de imagem minha, mas é necessário
o povo saber quem está trabalhando. Então eu peço desculpas. Um monte de foto
minha, eu não gosto disso não. Então está aí.
É uma cartilha que fala sobre os nossos
direitos, as leis existentes no nosso estado, as leis que criei em Araraquara
enquanto vereadora e tudo aquilo que nós podemos projetar. Porque, para além de
um pacto antirracista, nós precisamos falar do pacto da branquitude também, de
abrir mão de privilégios.
As pessoas não negras têm que ser
nossas aliadas nesse processo de combate ao racismo. Então todos e todas
ganharam o exemplar, mas este é o exemplar online, que o link já vai estar
disponível para vocês na bio do meu Instagram, beleza? Muito obrigada.
(Palmas.)
Eu quero fazer uma fala muito rápida,
mas, para mim, é muito importante, porque nós estamos no momento de
encerramento da nossa imersão política. E tem duas pessoas que, se não
existissem, eu não estaria aqui, que é a minha mãe, dona Rita, que está aqui na
frente, e a minha avó, dona Cleide.
Levanta aí, gente, para mostrar que
vocês são bonitonas. (Palmas.) Ninguém acredita que elas são mãe e avó, mas
elas estão aqui e, para mim, é motivo de muito orgulho saber que eu venho de mulheres
tão fortes, resilientes, maravilhosas e com qualidade. (Palmas.)
Para não ser uma fala cansativa, eu
tenho estudado muito e estudar adoece a gente, porque quanto mais a gente sabe
mais a gente vê o quanto o nosso povo foi explorado. Existe uma frase, que não
é minha, mas eu não sei de quem é, que diz o seguinte: “A sorte deles é que nós
queremos justiça e não vingança”.
A justiça racial passa por lembrar que
o Brasil foi o último país da América Latina a abolir a escravização do povo
preto. Eu sempre digo isso e repito, porque isso significa que as leis que
regem as nossas vidas não foram feitas por nós, foram feitas para nos
exterminar.
Eu trago para vocês alguns casos que
tive aqui de problemas na Alesp, porque existe um regimento legal de como os homens
têm que se vestir, mas não existe de como as mulheres têm que se vestir.
Não porque a gente possa vir vestida da
maneira que quisermos, mas exatamente porque não previam que mulheres ocupariam
esse espaço. Até pouco tempo, as mulheres não podiam trabalhar sem autorização
do marido, até muito pouco tempo nós erámos impedidas de votar e construir a
nossa própria história.
Nós fomos colonizados, não só pela
ideia europeia de beleza, de estética, de padrão de corpo, mas norte-americana
também nos costumes, no pop, na música e isso impede, cada dia mais, que cada
um e cada uma de nós acessemos os espaços que são nossos por direito.
E existe uma questão religiosa também
que fez com que cada uma das pessoas acreditasse que, se ela não vai bem no
emprego, ou se ela não atinge aquilo que o capitalismo acha importante, é
porque é o mau agouro, o mal olhado do vizinho e não por uma questão social que
a tirou da escola quando ela deveria estar estudando, que não deu alimentação
quando ela precisou ter alimentação, que não deu acesso à saúde, à educação.
E eu digo sempre que esse projeto de
encarceramento em massa e de genocídio da população negra é ligado ao
encarceramento que diz: “Todas as políticas públicas falharam e nós colocamos
mais um cidadão, mais uma cidadã atrás das grades”.
O nosso mandato se posiciona sempre a
favor dos direitos civis, dos direitos humanos e da cidadania, entendendo que
não há democracia sem democracia racial. Por isso ocupar este espaço, que é
ocupado tantas vezes por pessoas que têm que estar aqui, sim, na medida em que
elas existem na sociedade e não na maioria, trazendo, sim, as suas religiões e
seus costumes, mas não tirando nós dos nossos espaços.
É porque a população branca, não negra,
organizada, da extrema-direita tem conseguido tudo aquilo que nos destrói, que
é nos colocar uns contra os outros. Como podemos ser a maioria da população e
ser a minoria em absolutamente todos os espaços de poder?
A gente só não é minoria na cadeia e no
cemitério, porque existe um pacto social no Brasil de embranquecimento. “Ah,
estamos trazendo muito africano para cá, vamos trazer os europeus para dar uma ‘embranquecidinha’
na galera”. Todo mundo conhece essa história, só que a gente precisa lutar
contra ela, ou pelo menos reescrever nossa história daqui para a frente.
O que a Eliane Dias colocou é nítido no
nosso dia a dia, é exaustivo para a mulher estar em qualquer espaço de poder.
Para a mulher negra é quase impossível porque a gente realmente não pode usar o
batom que quer, a roupa que quer, muito menos pintar a unha da cor que quer.
Quem somos nós para querer alguma
coisa? Se você sorrir demais, você é arreganhada, agora se você não sorrir...
“Ah, neguinha metida.” Essas questões do dia a dia estão adoecendo e quebrando
nossas mulheres pretas.
Nesse processo, onde nós falamos das
dores das mulheres pretas, nós esquecemos de falar também do homem negro na
sociedade. A violência obstétrica, a violência médica, todas são questões que
precisam ser discutidas a fundo, e não há como mudar esse cenário se nós não
mudarmos as leis deste País e os costumes. E só tem como a gente mudar as leis
e os costumes do nosso país se nós tivermos maioria nos espaços de poder.
Eu espero que vocês aproveitem a noite
de hoje, eu espero que vocês aproveitem a fala do nosso querido Renato Freitas,
e se o Fred resolver falar eu vou ficar muito feliz, agora se não resolver
também eu vou respeitar. Você fala? Vocês querem ouvir ele, gente? (Manifestação
das galerias.) Muito bom, então ele vai falar, aí fica com o Cerimonial quem
ele chama primeiro.
Mas nós precisamos construir políticas
públicas juntos e sermos irredutíveis em dizer que a democracia é algo
inegociável, mas que não existe democracia real sem democracia racial.
Muito obrigada e bom evento a todos.
(Palmas.)
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigado pela
iniciativa, deputada Thainara Faria. E agora convido para fazer o uso da
palavra o Dr. Fred Nicácio. (Palmas.)
O
SR. FRED NICÁCIO - Boa noite todo mundo que está
aqui. Que bom, gente, que vocês estão aqui também. Eu vim, olha... Não preparei
nada, nenhuma fala assim preparada, mas eu acho que vai sair uma coisa bem do
coração aqui que eu acho que é o que interessa, né? Quero agradecer o convite,
deputada. Muito obrigado por esta honra de poder subir aqui e poder me
comunicar com os meus.
Eu sou do Rio de Janeiro, mas moro aqui
em São Paulo, e São Paulo me abraçou, me absorveu de uma maneira muito potente,
muito bonita. Aqui eu pude florescer de maneiras que eu não tinha florescido
ainda, então eu tenho uma gratidão e um carinho pela cidade de São Paulo.
Foi no interior do estado de São Paulo
que eu conheci o amor da minha vida, o meu esposo. Ele é de Bauru, e se ele
estivesse aqui iria gritar naquela hora: “Bauru!” Então vivi parte da minha
vida lá, e ainda temos família lá, então estou sempre por lá. Então São Paulo
está muito mesclado na minha história atual como homem adulto casado.
Quando eu vim do Rio para cá, me
surpreendi muito com muitas coisas que São Paulo tem e que eu ficava assim:
“nossa, como as pessoas no Rio vivem sem isso?” Por exemplo, eu trabalhava em
uma UPA no Rio - uma UPA qualquer, como todo mundo conhece e como tem no Brasil
inteiro - e era uma precariedade ao ponto de um dia eu precisar ter que diluir
morfina porque a dipirona tinha acabado.
Aí paciente que chegava com dor,
geralmente pacientes pretos, e não tinha medicação, então eu tinha que fazer um
jeito, alguma coisa para poder sanar aquela dor daquelas pessoas.
E quando eu cheguei em uma UPA daqui de
São Paulo tinha até tomógrafo, aí eu fiquei assim: “meu Deus, mas o tomógrafo
era só no hospital particular”. Se eu precisasse para um paciente que estivesse
no SUS era uma enrolação, eram meses, eram semanas e às vezes nem precisava
mais.
Então eu entendi que São Paulo tem uma
estrutura pensada e isso me animou muito, porque isso é gratificante, você se
esforçar e conseguir ver isso sendo devolvido para a população de alguma forma.
Morando aqui, você vai vendo como o
racismo atravessa esse lugar, como que São Paulo, o estado de São Paulo é a
terra de muitas possibilidades, mas as oportunidades continuam sendo para os
mesmos grupos, para as mesmas cores, para as mesmas pessoas e isso é em
qualquer lugar do país; por mais desenvolvido que São Paulo seja, o racismo
consegue atravessar.
Então a minha fala aqui é para poder
dizer que não importa o lugar que estejamos, nós não estamos blindados, nós não
estamos, não importa se sou médico, se sou apresentador, se estou na televisão,
na propaganda. Não interessa.
Eu continuo sendo atravessado pelo
racismo, igualzinho a todo mundo que está aqui; pessoas pretas, pessoas
indígenas também vivem e vivenciam racismo de maneiras terríveis, inimagináveis
de apagamentos.
Então nós todos aqui estamos sentindo
as mesmas dores e, como a Eliane Dias falou mais cedo, nós precisamos entender
que essa dor é da maioria, nós somos a maioria.
Se nós entendermos, de fato, que nós
somos a maioria e essa maioria é capaz de gerar mudanças estruturais e gerar
transformações para os nossos, honrando aqueles que vieram antes e projetando o
futuro para aqueles que ainda virão, nós vamos conseguir mudar, não só o estado
de São Paulo, colocando pessoas como a deputada Thainara aqui, como tantas
outras e tantos outros.
Essa é a minha fala.
Muito obrigado, axé. (Palmas.)
O
SR. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Muito obrigado, Dr.
Fred. Neste momento, convido para fazer o uso da palavra o deputado estadual
pelo Paraná, Renato Freitas. (Palmas.)
O
SR. RENATO FREITAS - Boa noite.
TODOS
- Boa noite.
O
SR. RENATO FREITAS - Para mim é uma
satisfação, uma honra fazer parte deste momento histórico e agradeço a todas as
pessoas presentes e principalmente a nossa deputada Thainara que me honra com
este convite e com essa responsabilidade de falar entre nós, para os nossos,
sobre os problemas que nos afligem, sobretudo em tempos tão difíceis como esses
em que estamos vivendo, tempos do fascismo à brasileira e que, portanto,
carrega uma característica muito peculiar do nosso País, que é o racismo
histórico, estrutural, intersubjetivo que informa as relações mais simples,
mais cotidianas, mais triviais, mas também as relações institucionais
significativas de poder.
A história escrita no nosso País foi
escrita com as mãos do opressor, com as mãos brancas. Que interessante, porque
se chamava Mão Branca um dos primeiros grupos de extermínio do nosso País,
Esquadrão Le Cocq, os Mãos Brancas.
Eu diria que o genocídio... Diria não,
digo, afirmo, porque está sobejamente comprovado que o genocídio, o assassinato
da população negra se dá pelas armas, pelos grupos de extermínio, pelo braço
armado do estado quando em trabalho ou fora do trabalho.
Mas, também - e esse genocídio é pouco
falado -, se dá quando eles, com o poder de escrever a história, nos apagam da
história, distorcem a história, pintam o quadro da história sempre da mesma
forma, como se fôssemos os vilões e eles os heróis, quando não os salvadores; e
nós com a mão estendida para receber a ajuda benemérita de pessoas como, por
exemplo, Rui Barbosa.
Trouxe o exemplo do Rui Barbosa, porque, já
hoje, vi no Instagram alguém feliz porque um descendente do Rui Barbosa estava
curtindo, seguindo, comentando, engajando e essa pessoa tinha 40 milhões de
seguidores. Nada contra a pessoa, não conheço, não é do meu convívio, não é pessoal.
O fato é que Rui Barbosa é um autor do genocídio negro brasileiro.
Ele apagou a nossa história, queimou os
arquivos que eram provas dos crimes que eles cometeram e quando queimou os
arquivos, apagando a nossa história, retirou também de nós a possibilidade da
reparação, da individualização da culpa dos escravocratas, da impossibilidade
de que os filhos, os tataranetos...
Nós somos a continuação de um sonho,
mas não conseguimos saber de qual fazenda, quem eram os feitores, os coronéis,
os escravocratas que hoje desfilam por aí sob o céu, sob o sol, em praça
pública e se elegem, como os Dorias, os Caiados e assim por diante. E seus
bustos enfeitam as praças, de forma cínica e ultrajante para nós, provocando
ações, como a ação do Borba Gato, contra a estátua do Borba Gato.
Outro indivíduo desprezível que lota a
lata de lixo da história, eu me deparei recentemente. Fui à Faculdade de
Medicina a convite - veja que bonito - do primeiro coletivo negro de estudantes
de Medicina da USP. Quinze, dezesseis, vinte jovenzinhos em um universo de, sei
lá, quase 200 estudantes.
E eles me disseram que aquele busto na
entrada da Faculdade de Medicina da USP era de Arnaldo Vieira de Carvalho,
fundador da faculdade. Dá nome, inclusive, à rua, à avenida. E o cidadão, escravocrata
da pior qualidade, se é que existem alguns que têm alguma qualidade, era da
escola eugenista paulista, assim como o Renato Kehl.
Assim como o Monteiro Lobato que, em
cartas a Renato Kehl, falava que praticava o eugenismo a partir da sua literatura.
As nossas crianças, até ontem, eram educadas em sala de aula por um eugenista.
“Mas não pode misturar a pessoa e suas obras”, que papo de louco é esse? A
pessoa é as suas obras. Que loucura. Isso é a necessidade da branquitude de
preservar a sua memória histórica e absolver a si próprio no tribunal da
história.
Arnaldo Vieira de Carvalho dizia que a
miscigenação deixou a população brasileira mais feia. E eles usavam uma
categoria que chamava “fealdade”, que reunia, segundo eles, a feiura estética
mais uma certa preguiça, uma certa falha de caráter. Englobava todos os vícios
nessa categoria.
Por isso a necessidade de a gente
contar a nossa própria história, como estamos fazendo aqui hoje. E quando a
gente percebe a nossa história, nós desmontamos os mitos que fundam a ordem
democrática da branquitude.
O Direito, que é a vértebra dessa
ordem, quando entramos... E eu tive essa oportunidade - com muito orgulho, sou
fruto das políticas de ações afirmativas, das cotas raciais na universidade
pública -, fiz cinco anos de graduação, dois de mestrado. E percebi o óbvio, na
verdade, que não precisava nem de uma semana na faculdade. É que eles mentiam
cotidianamente. Os professores de introdução ao direito mentiam.
“Que acusação grave, Renato. Explique.”
Pois explico. Eles diziam o seguinte, que o Direito se fundava a partir do que
eles chamam “poder constituinte”. Poder constituinte originário e poder
constituinte derivado. O poder constituinte originário... E isso é uma teoria,
não poderia deixar se ser, obviamente, europeia.
O poder constituinte originário é um
momento em que os vários setores, agrupamentos, classes, estamentos da
sociedade de algum modo se reuniam ou a partir de seus representantes e
chancelavam as linhas programáticas, principiológicas e operacionais do Estado:
a Constituição. Então ela tinha legitimidade popular. E essa legitimidade
popular é que confere um nome de Constituição democrática.
A história é bonita contando assim, não
é? Dá até para... É história para boi dormir. A “playboyzada” dorme e fala
“Essa história é boa”. É historinha de ninar. Acalma a consciência pesada de
quem sabe que tem as mãos sujas de sangue. E eu logo comecei a questionar.
Falei: “Nossa, talvez na França, em
1789, no processo da revolução em que representantes do campo, da burguesia
incipiente, ascendente e alguns outros representantes da aristocracia decadente
de fato tiveram que entrar em uma composição de interesses porque era um
momento de conflito aberto”. Algum sentido tem.
Mas e para nós? Como nós, negros, como
os povos originários foram inseridos na ordem jurídica? Primeiro, como coisas.
Coisas. Animal semovente. Coisa. Não é sujeito de direitos, com direitos e
deveres, não. Coisa.
Se foi inserido como coisa, não me
parece que a gente manifestou alguma vontade. Porque a nossa voz não é ouvida.
Porque nós não tínhamos a possibilidade de organização política. Nós não
tínhamos liberdade e não éramos vistos como seres humanos, o fundamento de
qualquer relação digna possível, jurídica ou não.
Então não houve o tal do poder
constituinte. Me parece que é balela. Balela da braba. O que houve foi uma
imposição violenta de um ordenamento jurídico, das normas. Ordenação afonsina,
ordenação manuelina, “blablablá blablablá”, que era de Portugal, até que houve
a Constituição Brasileira.
Sendo assim, o que seria, então, a
ordem pública? O que tem de ordem na categoria “ordem pública”? E mais, na paz
jurídica? Porque uma decorrência, uma consequência do poder constituinte, da
Constituição, da organização, do contrato social. É o quê? O estabelecimento da
paz.
Já dizia lá o Hobbes: “Todo mundo
aceita votar no cara, um soberano, porque assim garante paz e segurança”. Mas
se a gente não aceitou nada, não fez parte do contrato e não assinou nada, e
não falou e não se expressou, e a gente foi incluído à força, na base das
armas, da escravização, do genocídio negro e indígena, então o que seria essa
paz jurídica? Tem paz? Não tem.
E jurídica é o quê? Imposição violenta.
Então a paz jurídica me parece ser uma espoliação incessante, permanente,
daqueles que foram, por um momento histórico, subjugados. Sabe o que é
“espólio”?
Espólio é o que ocorre hoje, quando vai
lá o soldado israelense na Faixa de Gaza, mata, rouba e estupra, e depois de
estuprar é homenageado no centro do poder, no parlamento, como está acontecendo
neste momento.
O que a sociedade israelense está
dizendo para aquele soldado? Que ele tem o direito ao espólio, tendo em vista
que ele é um guerreiro que representa aquele país. Então ele pode não só
prender, como também matar, como também roubar, como também estuprar.
Essa palavra vem do exército romano, em
que os imperadores romanos davam esse direito para os seus soldados. “Vão até
os bárbaros e conquiste o território. Tudo que você conseguir, gado, sei lá o
quê, riquezas, o estupro, as mulheres e tal, é teu.”
Então, o que a gente vive no nosso país
é uma espoliação incessante. A realidade dessa ordem jurídica foi a garantia da
desigualdade racial, a partir do direito de herança, da ausência de reparação,
com a digital do Rui Barbosa nesse crime específico, e da organização, da
superexploração e da criminalização do nosso povo.
Não devemos nunca esquecer que o
direito penal é fundado para nos vigiar, controlar e punir, para citar aquela
obra. Quais são os primeiros crimes que se tem no Brasil? Vadiagem,
vagabundagem, capoeiragem, se encontrar em bandos, em grupos, em territórios
urbanos. O acesso à cidade nesse capitalismo incipiente é negado à população
negra, de todos os modos.
A criminalização das drogas, o pito de
pango, iniciou da seguinte forma: criminalizava o usuário, o negro, que está
escrito assim na lei, o negro que estiver fazendo uso, é pena de multa mais
prisão celular. O boticário, ou sei lá quem estiver vendendo, pena apenas de
multa. Então a lógica é evidente: controle populacional, a guerra às drogas.
Tem um documentário que foi feito pela
Kátia Lund, Kátia Lund que também foi diretora de um videoclipe da Nega Gizza -
quem gosta de rap, vá atrás depois -, um clipe dela que se chama “Prostituta”,
que ela denunciava justamente a exploração em relação às mulheres prostituídas,
abusadas, exploradas, violentadas. E esse clipe tem uma sensibilidade muito
grande.
Kátia Lund, nesse documentário que se
chama “Notícias de uma Guerra Particular”, lá pelas tantas, um traficante - eu
acho que até é o Marcinho VP, um traficante famoso até, se não me engano - fala
o seguinte, e a fala dele é reforçada, porque eles pegam entrevistas dos
policiais, mas também dos bandidos.
Eles dizem assim, a tantas: “Isso aqui
já é uma guerra particular. Tanto faz quem vai ser o governador da vez, o
presidente da vez, ou o presidente do Tribunal de Justiça. Já morreu tanta
gente aqui que para a gente é Faixa de Gaza, eles e nós, independentemente de
qualquer orientação política ou econômica”.
Do outro lado também. Se é promovida
uma guerra não declarada insolúvel, isso não é abrigado pelo direito. Isso, na
verdade, é um estado de exceção. Sabe essa coisa? Declara a garantia de lei e
ordem. Eles não falam, a direita extrema, racista, que tem que ser como estava
sendo em El Salvador, o Bukele? Justamente, não foi assim o AI-5 aqui no
Brasil? É justamente o quê? Exceção, um estado de exceção, onde os direitos
fundamentais... (Fala fora do microfone.)
Então, vamos me acelerar. Três minutos?
Então me dá, por favor, cinco, que eu vou acelerar. Ela me avisou em cima do
lance.
Os direitos fundamentais, os nossos
direitos fundamentais, são suspensos. E, a partir daí, vale busca e apreensão
coletiva no território da favela, vale chacina, vale condenação com base em
fotografia de álbum de delegacia, reconhecimento a partir de tecnologias que
reproduzem o racismo de quem criou essas tecnologias, notadamente as
tecnologias de reconhecimento facial.
E esse estado de exceção, que é a
ilegalidade imperando e tendo a legitimidade do Estado, não é novidade.
Lembremos, a escravização no Brasil foi um ato legal, de acordo com a lei. O
nazismo na Alemanha foi legal, de acordo com a lei. O AI-5, nosso aqui, foi
legal, financiado e incentivado. Esse é o estado de exceção.
A gente não pode achar que ele é uma
anomalia no estado brasileiro. Pelo contrário, ele é a regra no estado
brasileiro, ele é uma técnica de governabilidade, que se realiza a partir da
biopolítica, ou da política de morte, da necropolítica, do medo, porque o medo
é o maior afeto de todos.
Com o medo, a pessoa é capaz de fazer qualquer
coisa e o grande medo que ronda este país e sempre rondou como um espectro foi
o medo haitiano, um medo de que no Brasil houvesse uma rebelião como a Rebelião
Haitiana, em que se declarasse independência e se livrasse do jugo dos
colonizadores.
E esse medo construiu o nosso estado, esse medo
mostra o direito como ele é, violência, que fundou o estado a partir de ser
infundada, porque o direito não foi uma manifestação e uma construção
democrática e sim uma imposição violenta.
Para terminar, vou tirar tudo... A Bíblia é grande,
mas para terminar, veja, e para confirmar um pouco do que a gente falou, que
parece um pouco abstrato, mas vamos trazer pra realidade: o Brasil, nas últimas
cinco décadas - então estamos falando de meio século - foi o país mais violento
do mundo em números absolutos; matou-se mais aqui, no passado, civis, do que na
guerra da Ucrânia.
Então você pensa, então é um caos. Se é um país que
promove tantas mortes, é um caos. Se é um caos, como o nome diz, não tem ordem,
não dá para planejar a vida, as instituições estão fragilizadas. Todo o
contrário, todo o contrário. Há uma ordem, sim, eles estão organizados. Sabe
por quê? Porque as mortes não são aleatórias e democráticas.
As mortes têm perfil: homem, jovem, negro, pobre,
morador de periferias de grandes centros urbanos e com ensino fundamental
incompleto, ou seja, sabotados pelo estado no seu direito de exercer o mínimo
de cidadania, porque não foi devidamente alfabetizado.
Há uma marca do crime de estado nos corpos desses
jovens. E por que não há uma política de prevenção aos homicídios? Justamente
por isso, porque é estrita essa violência, restrita aos campos de concentração
modernos, onde nossas vidas não têm valor, onde a gente não exerce direitos,
onde a gente não tem direito à soberania.
Em um espaço como esse é necessária a nossa
atuação, a exemplo do que fez - e estava aqui a Eliane Dias - o Racionais. O
que fez o Racionais? O disco mais famoso do Racionais, 1997, “Sobrevivendo no
Inferno”, é um postulado ético de sobrevivência construído por intelectuais
orgânicos, que não tiveram a oportunidade de terminar o ensino formal e, mesmo
assim, captaram, como faz todo artista, o sentimento de uma comunidade.
No caso do Brown, Ice Blue, do Capão Redondo,
comunidade negra sobretudo e decodificou, expressou, traduziu esse sentimento
na arte, que é nossa, porque a gente é descendente dos griôs e a oralidade é a
nossa grande cultura, a nossa grande tradição, que nos traz aqui, que nos dá a
força da palavra e, a partir dessa palavra, organizou todas as comunidades.
“Ah, foi a criminalidade organizada que diminuiu os
homicídios em São Paulo”, mentira, porque o fundamento ético dos que se
envolveram na vida do crime - mas também dos que não se envolveram, de toda a
comunidade - vem do rap, vem das nossas tradições, que vem do samba, que vem da
capoeira, que vem da nossa tradição de resistência.
Por isso - e agora, de verdade, para terminar -,
quando eles aqui, Ruy Barbosa, Arnaldo Vieira de Carvalho e os seus
descendentes vencem a batalha, eles não vencem só a nós, eles vencem também os
nossos ancestrais, porque apagam eles da história, porque reescrevem a
história.
Por outro lado, quando nós vencemos, quando nós aqui
nos reunimos, quando nós aqui nos vemos e falamos: "Caramba, mano,
Thainara, você é deputada, eu sou deputado, olha que bagulho louco!”, quando a
gente vence, a gente deixa o nosso ancestral descansar em paz, com o sentimento
de dever cumprido. Como diz o BK: “Eu sou o sonho dos nossos ancestrais, nós
somos os sonhos dos nossos ancestrais e a nossa luta é urgente, porque queremos
tudo para ontem”.
Satisfação. (Palmas.)
O SR. MESTRE
DE CERIMÔNIAS - Que aula. Obrigado pelas palavras, deputado
Renato. Informo que a nossa cartilha está disponível na versão digital no
perfil do Instagram da deputada @thainarafaria13.
Esse conteúdo foi produzido pela Comissão de
Promoção da Igualdade Racial e Combate ao Racismo do mandato da deputada
estadual Thainara Faria, com o objetivo de combater o racismo, promover a
igualdade racial e ampliar o acesso à informação no estado de São Paulo.
Convido agora a deputada Thainara Faria para que, enquanto presidenta desta
sessão, proceda ao encerramento da solenidade.
A SRA. PRESIDENTE
- THAINARA FARIA - PT - Muito obrigada. Com vocês, mais
uma vez, Vossa Majestade, Renato Freitas merece uma salva de palmas. (Palmas.)
Eu sabia que ele tinha que estar aqui nesta noite e que ele tenha tirado todo
mundo da zona de conforto e que leve a perturbação para a casa, com essa carga
de informação, lembrando que conhecimento liberta.
Esgotado o objeto da presente sessão, agradeço a
todos os envolvidos na realização desta solenidade, assim como agradeço a
presença de todos vocês.
Está encerrada esta sessão solene.
* * *
- Encerra-se
a sessão às 20 horas e 50 minutos.
* * *