13 DE ABRIL DE 2026

16ª SESSÃO SOLENE PARA OUTORGA DE COLAR DE HONRA AO MÉRITO LEGISLATIVO DO ESTADO DE SÃO PAULO A BENEDITO ROBERTO BARBOSA

        

Presidência: EDUARDO SUPLICY

        

RESUMO

        

1 - EDUARDO SUPLICY

Assume a Presidência e abre a sessão às 10h04min.

        

2 - MESTRE DE CERIMÔNIAS

Anuncia a composição da Mesa. Convida o público para ouvir, de pé, o "Hino Nacional Brasileiro".

        

3 - SIMÃO PEDRO

Ex-deputado estadual, faz pronunciamento.

        

4 - PRESIDENTE EDUARDO SUPLICY

Informa que a Presidência efetiva convocara a presente solenidade para a "Outorga do Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo a Roberto Benedito Barbosa", por solicitação deste deputado, na direção dos trabalhos. Cumprimenta as autoridades presentes. Demonstra sua emoção em presidir esta solenidade. Esclarece que o homenageado é vocacionado em ajudar o próximo, assim como superar adversidades e desigualdades. Fala sobre o início da atuação de Benedito Roberto Barbosa e como tornou-se advogado por causa de sua militância. Destaca a sua entrega de tempo, disponibilidade aos que necessitam e conhecimento. Afirma que Benedito é companheiro das lutas urbanas e que tem a habilidade de mediar conflitos, dialogando com as autoridades na busca de uma solução. Diz que o homenageado ajuda a transformar as estruturas e transformar a sociedade. Cita discurso de Martin Luther King. Discorre sobre os benefícios e a implantação da Renda Básica da Cidadania, que em seu ponto de vista, eleva o grau de dignidade de cada cidadão.

        

5 - ANTONIA MOREIRA

Membra do Fórum dos Vendedores Ambulantes, faz pronunciamento.

        

6 - LUIZ KOHARA

Pesquisador das áreas do Direito à Moradia, da Regularização Fundiária e das Políticas Públicas, faz pronunciamento.

        

7 - FÁTIMA DOS SANTOS

Coordenadora da Secretaria de Mulheres da União dos Movimentos de Moradia, faz pronunciamento.

        

8 - FRANCISCO COMARÚ

Coordenador do Laboratório Justiça Territorial da Universidade Federal do ABC, faz pronunciamento.

        

9 - MARLUCI PEREIRA DE ARAÚJO BARBOSA

Militante na luta por educação pública de qualidade e respeito aos Direitos Humanos e esposa do homenageado, faz pronunciamento.

        

10 - BEATRIZ VERDÚ

Irmã do homenageado, faz pronunciamento.

        

11 - MESTRE DE CERIMÔNIAS

Anuncia a exibição de vídeo sobre a vida de Benedito Roberto Barbosa.

        

12 - NABIL BONDUKI

Vereador por São Paulo, faz pronunciamento.

        

13 - MESTRE DE CERIMÔNIAS

Lê histórico do homenageado. Anuncia a outorga do Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo a Benedito Roberto Barbosa.

        

14 - BENEDITO ROBERTO BARBOSA

Pesquisador da área de Planejamento de Gestão de Território e homenageado, faz pronunciamento.

        

15 - PRESIDENTE EDUARDO SUPLICY

Afirma ter sido esta manhã especial e animadora, um estímulo a todos que batalham pelos movimentos de moradia. Parabeniza o homenageado. Faz agradecimentos gerais. Encerra a sessão às 11h44min.

        

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ÍNTEGRA

 

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- Assume a Presidência e abre a sessão o Sr. Eduardo Suplicy.

 

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A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Bom dia a todas, bom dia a todos. Estamos aqui hoje na Assembleia Legislativa de São Paulo para esta sessão solene, transmitida pela TV Alesp.

Eu sou Evaniza Rodrigues e estou aqui como mestre de cerimônia. Queria agradecer muito o convite do deputado Eduardo Suplicy, proponente desta sessão, proponente desta homenagem. E é uma alegria enorme estar aqui homenageando o meu irmão de luta, o Benedito Roberto Barbosa, que ninguém sabe quem é, mas o Dito todo mundo sabe quem é. (Palmas.)

Então vamos compor a Mesa: pedir para o deputado Eduardo Suplicy, o proponente que vai presidir a sessão. Convidar o nosso homenageado, o Dito, que é pesquisador da área de Planejamento de Gestão do Território, liderança da União dos Movimentos de Moradia e da Central de Movimentos Populares, e o nosso homenageado. (Palmas.)

Convidar também sua companheira de toda a vida, a Marluci Pereira de Araújo Barbosa, militante da Educação e dos Direitos Humanos. (Palmas.) Convidar o nosso companheiro Francisco Comarú, coordenador do Laboratório de Justiça Territorial da UFABC. (Palmas.)

Minha companheira Fátima dos Santos, coordenadora da Secretaria de Mulheres da União dos Movimentos de Moradia. (Palmas.) Companheiro Luiz Kohara, pesquisador das áreas de Direito à Moradia, também do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos. (Palmas.) Também a Antonia Moreira, membro do Fórum de Vendedores Ambulantes (Palmas.) Eles vão compor a Mesa desta homenagem que a gente está fazendo aqui hoje.

Pedir a todos que fiquem em pé, para ouvirmos o Hino Nacional Brasileiro.

 

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- É reproduzido o Hino Nacional Brasileiro.

 

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Podemos nos sentar. Tem algumas cadeiras ainda vazias aqui na frente, se o pessoal quiser ocupá-las, estão à disposição.

Também vamos registrar e agradecer a presença de alguns companheiros que vieram prestigiar este dia, esta homenagem, não é? Queria cumprimentar aqui o deputado Simão Pedro, sempre deputado estadual. (Palmas.) Daniella Bonilha, da Defensoria Pública de São Paulo. (Palmas.)

André Luiz Gardinal, também Defensoria Pública de São Paulo, do Núcleo de Habitação. (Palmas.) Companheiro Edilson Mineiro, chefe de gabinete do vereador Nabil Bonduki. (Palmas.) Gilson Negão, presidente da Cooperativa de Ambulantes e da Unicab. (Palmas.)

Professora Débora Sanches, coordenadora-geral do Centro Gaspar Garcia. (Palmas.) Lula Pereira, da CMP da Baixada Santista. (Palmas.) Querida dona Olga Quiroga, coordenadora do Garmic - Grupo de Articulação para Moradia de Idosos. (Palmas.) Maria Barbosa Rastelle, da Pastoral da Moradia. (Palmas.)

Mara Souza, coordenadora da Secretaria de Favelas, Ocupações e Cortiços, da UMM. (Palmas.) Nelma Silva, do Movimento de Moradia do Centro. (Palmas.) Maria Margarida de Castro, do Fórum dos Ambulantes. (Palmas.)

E o Alderon Costa, articulador de Políticas da Rede Rua. (Palmas.) Quanta gente bonita, quanta gente de luta veio para este dia de hoje, não é? Não é à toa que a gente está aqui homenageando o nosso querido Dito.

Então a gente vai pedir para todos que forem falar na mesa fazerem uma audiodescrição. Nós temos pessoas com deficiência visual também nos assistindo pela Rede Alesp.

Para começar a nossa cerimônia, então, a palavra para o deputado Eduardo Suplicy, que vai presidir a sessão. (Palmas.)

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - Muito obrigado, querida Evaniza.

Queria, primeiramente dizer que o deputado Simão Pedro, que foi meu colega tanto na Câmara Municipal, quanto aqui na Assembleia Legislativa e sempre juntos nas manifestações com o Dito. E ele está com um compromisso urgente, vai sair daqui a pouco, por isso vamos dar licença para eles. Pode dizer um alô, Simão Pedro? Um alô seu para o Benedito. (Palmas.)

 

O SR. SIMÃO PEDRO - Bom dia, pessoal. Vocês sabem que eu gosto desse local aqui, não é? De vez em quando dá saudade, mas a gente sabe que a nossa trincheira agora é apoiar e assessorar os movimentos sociais, organizar suas lutas, ajudar na construção, fortalecimento do nosso partido, do nosso projeto. Estou feliz também fazendo isso, que eu gosto muito.

Mas, querido deputado Suplicy, nosso sempre senador, é uma referência para muita gente - jovens, adultos, idosos, na política - que se inspira no Suplicy, assim como nós também fazemos, queria lhe parabenizar, Suplicy, por essa homenagem, pelo seu mandato ter essa preocupação de conceder essa medalha do Mérito Legislativo, porque aqui nesse plenário sempre os deputados homenageiam grandes figuras do mundo do Judiciário, do mundo da política, do mundo do Esporte, da Cultura.

Mas pessoas como o Dito, que hoje é um doutor do acadêmico, doutor estudioso dos problemas sociais, uma liderança assim fantástica, às vezes, passa despercebida a vida toda, a sua importância. E essa homenagem faz jus, acho que o Dito aqui representa - não é ele em si, ele representa todos vocês.

Ele representa as lideranças dos ambulantes, dos movimentos de moradia, ele representa aqueles cidadãos e cidadãs que estão sendo ameaçados por despejo. E quando isso acontece, sempre podemos ter certeza da presença solidária, com seus conhecimentos jurídicos, do Dr. Dito Barbosa. É ou não é?

E o Dito sempre solidário aos mais pobres, aos mais simples, como os ambulantes ali do Brás, da 25, do centro de São Paulo, que são perseguidos, atormentados o tempo inteiro no seu direito a trabalhar tranquilamente, decentemente. E sem regulamentação, porque o Poder Público às vezes é pressionado e não quer regulamentar, e o Dito está ali os defendendo pelo seu direito a trabalhar. Então, o Dito é essa pessoa solidária, essa pessoa que dedicou a sua vida às causas sociais.

E eu fiz questão de vir Dito, além de estar aqui para prestigiar, para acompanhar essa justa homenagem que você recebe desse Parlamento, cumprimentar as lideranças, rever vocês, mas dizer que eu também sou um uma pessoa, assim, que admiro e me inspiro muito no Dito, não é?

O Dito é aquela pessoa, quando te liga, você tem que prestar atenção, dizer: “Olha, o Dito está trazendo uma orientação e uma... Está chamando atenção para um problema que eu preciso dar atenção”. E eu conheço o Dito há quase 40 anos ou talvez isso, porque estudamos juntos lá na FAI, hoje PUC, não é? Fizemos Filosofia, Teologia juntos e, desde ali, eu já percebi esse moço atento aos problemas sociais e tudo mais.

Então, Dito, eu queria dizer da minha felicidade, da minha satisfação de estar aqui prestigiando... Desculpa, presenciando esse ato da entrega dessa medalha, é você que inspira também, porque quantas vezes aqui nessa Assembleia nós fizemos projetos de lei, embora você não sendo um parlamentar, mas você inspira a gente a ações legislativas.

Por exemplo, quando nós fizemos aqui um projeto de lei para criar uma Comissão Especial de Análise dos Despejos, que eu fui autor, que hoje se transformou no Gaorp, por exemplo, que é um órgão importante para analisar melhor uma decretação de despejo a uma comunidade, a um grupo.

Então, a sua luta inspira a gente aqui. Por isso que eu acho que essa homenagem tem tudo a ver com você, está certo? Não sendo um parlamentar, mas recebendo essa medalha da Ordem Legislativa de São Paulo.

Então, pessoal, para vocês um grande abraço, parabéns pelo Dito, por essa figura maravilhosa que nós temos presente na nossa luta, no nosso coração, no nosso lado, não é? E parabéns ao nosso querido Eduardo Suplicy, pela sua sempre sensibilidade de ter esse olhar às pessoas que lutam por um mundo mais justo, mais humano, mais solidário, que é a luta eterna do nosso querido deputado Suplicy.

Muito obrigado. Parabéns, Dito. Parabéns, Suplicy. Parabéns a todos vocês, que junto com o Dito recebem essa grande homenagem aqui do Parlamento paulista. Vou ter que sair por conta de uma audiência às dez e meia no Tribunal de Justiça, mas vou ficar acompanhando, certamente, com o meu coração aqui essa homenagem até o final. Um bom dia, boa semana, parabéns a todos vocês.

Muito obrigado. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, deputado Simão Pedro, pelas suas palavras, sua presença, não é? Também citar mais algumas pessoas que estão aqui conosco. A Mariana Fix, do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da FAU-USP. (Palmas.)

O Douglas Samoel, assessor do deputado federal Alencar Santana. (Palmas.) E a Irene Maestro, do movimento Luta Popular e Campanha Despejo Zero, campanha essa também que a gente vai celebrar aqui hoje. (Pausa.)

Então, agora, eu devolvo a palavra para o deputado Eduardo Suplicy.

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - Muito obrigado, Evaniza. Quero agradecer as palavras do deputado Simão Pedro, que sempre estará conosco nesses movimentos.

E eu quero transmitir que esta, abrindo os trabalhos de nossa sessão, esta sessão solene foi convocada pelo presidente desta Casa, deputado André do Prado, atendendo à minha solicitação, com a finalidade de outorgar o Colar de Honra ao Mérito a Benedito Rui Barbosa... Benedito Roberto Barbosa, desculpe. É que existe esse Rui Barbosa, mas agradecemos o...

E quero cumprimentar os membros da Mesa: Antonia Moreira, do Fórum dos Vendedores Ambulantes e vendedor ambulante de roupas de personagem infantil há 44 anos. Também o Luiz Kohara, pós-doutor pela USP e pela Universidade Federal do ABC, pesquisador das áreas do Direito à Moradia, da Regularização Fundiária e das Políticas Públicas Urbanas, que há décadas trabalha no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, aonde assessora comunidades ameaçadas de despejo, pessoas em situação de rua, cortiços, ocupações e movimentos de habitação.

Fátima dos Santos, bacharel em Direito, coordenadora da Secretaria das Mulheres da União dos Movimentos de Moradia, coordenadora da Associação dos Movimentos de Moradia da Região Sudeste e conselheira municipal de Política para as Mulheres de São Paulo.

Francisco Comarú, aqui à minha esquerda, coordenador do Laboratório da Justiça Territorial da Universidade Federal do ABC. Engenheiro civil com doutorado em Saúde Pública pela USP. Integra o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos há mais de 25 anos. É professor de Planejamento Urbano e Ambiental, Urbanização Insurgente, Riscos no Ambiente Urbano e Saúde Ambiental.

Também a Marluci Pereira de Araújo Barbosa, militante na luta por Educação Pública de qualidade e respeito aos Direitos Humanos. Foi operária, coordenadora de projetos sociais em Educação - Mova, Osem -, diretora do Centro de Convivência, mediadora de conflitos e, por 35 anos, professora em escolas públicas estaduais e municipais.

Queridas amigas, queridos amigos, com profunda emoção dou início a esta sessão solene da Assembleia Legislativa de São Paulo dedicada à entrega do Colar de Honra ao Mérito ao Dr. Benedito Roberto Barbosa, ao nosso lado, o nosso Dito, símbolo de luta pela vida, pelos Direitos Humanos e, sobretudo, pelo direito à moradia digna.

Desde o início de sua história, Dito se mostrou vocacionado em ajudar o próximo e lutar pela superação das desigualdades em nosso país. Saiu do interior do estado para a Capital. De qual cidade você saiu?

 

O SR. BENEDITO ROBERTO BARBOSA - Eu nasci em Sales Oliveira, mas cresci em São Joaquim da Barra.

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - São Joaquim da Barra. Então, desde o início de sua história, Dito se mostrou vocacionado em ajudar o próximo e lutar pela superação das desigualdades em nosso país. Saiu do interior do estado para a Capital, local de intensa desigualdade socioespacial, com coragem para enfrentar os diversos conflitos fundiários.

Iniciou sua atuação militante atrelado à Pastoral da Moradia da Igreja Católica, que atua junto às famílias em situação de vulnerabilidade, especialmente aquelas sem acesso à moradia digna, organização, comunidades, apoiando ocupações, dialogando com o Poder Público para garantir direitos.

Inspirada pelos princípios da doutrina social da Igreja e pela Teologia da Libertação, essa pastoral busca promover a consciência crítica, a participação popular e a luta por políticas habitacionais justas, reconhecendo a moradia como direito fundamental e condição indispensável para a dignidade humana.

Casou-se com Marluci Araújo, que aqui está com a gente, em 1987. Esse casal querido tem dois filhos: o Felipe, que nasceu em 1988, e o Lucas, em 1990. Ambos estão com atividades de trabalho profissional, mas estão aqui conosco de coração e carinho com o pai.

Dito se formou em Direito em 1996. Em 2016, tornou-se mestre e, agora, em 2026, tornou-se doutor. Nosso querido Dr. Dito Barbosa. Destaca-se que o Dito não foi um advogado que se envolveu na militância. Ele sempre foi um militante e, pela militância, tornou-se advogado, um advogado extremamente comprometido, competente e dedicado às pessoas que necessitam da sua ajuda.

Embora o Dito tenha abdicado da carreira de padre... Sacerdote, né?

 

O SR. BENEDITO ROBERTO BARBOSA - Quase padre.

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - É nítido como sua história é marcada pela entrega: entrega de seu tempo às comunidades, entrega de sua disponibilidade aos que mais necessitam, entrega do seu conhecimento das leis e de sua habilidade em mediar conflitos, de sua competência como educador popular que dissemina ideias de modo bastante freiriano.

Seguindo os métodos de Paulo Freire, educa os indivíduos e comunidades estimulando a consciência crítica, para que compreendam as estruturas de opressão e assim desenvolvam ferramentas para a transformação do mundo.

Dito é um velho companheiro das lutas urbanas. Sempre nos encontramos em diversos seminários, reuniões, atos, reintegrações de posse e posso afirmar que sua destreza para lidar e mediar conflitos e também articular movimentos muito me nutre e inspira. Temos muito colaborado um com o outro, logo ao chegarem situações de dificuldades, às vezes com a Polícia Militar, a Polícia Civil e os movimentos por moradia.

Então, sempre estamos dialogando, falando com as autoridades para assegurar, mediar alguma solução adequada para aquele movimento social. Dito, que nasceu dentro do movimento de moradia, não foge do embate com a polícia, não abandona ninguém sem atendimento, oferecendo sempre sua ilustre presença aos que tanto necessitam.

Neste mundo, vivendo sob o sistema capitalista, uma máquina de moer gente, segundo o grande líder indígena Ailton Krenak, que transforma a vida em mercadoria e submete as pessoas à natureza lógica da exploração e do lucro, produzindo desigualdades profundas, destruindo territórios e rompendo os vínculos entre os seres humanos e a Terra, Dito ajuda a criar novos mundos contra-hegemônicos, produzindo, em contraposição, uma máquina de fazer gente, fazer gente que luta, fazer gente que transforma as estruturas e trabalha pela justiça social.

Ao concedermos a mais alta honraria desta Casa Legislativa ao Dito, reafirmamos a importância destes líderes populares que transformam profundamente a sociedade, atuam pela construção de uma sociedade justa, igualitária, solidária e fraterna. Sabe, Dito, eu gostaria de colocar na homenagem a você algumas palavras de uma das pessoas que - eu tenho a convicção - constituem para você um grande guia.

Eu me refiro, por exemplo, que são muitos, poderíamos citar desde Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e tudo, mas eu quero aqui citar alguém que também te inspira muito e que fala do seu grande sonho.

Você sabe que quando nos Estados Unidos da América se comemorava os 100 anos da abolição da escravidão, assinada pelo presidente Abraham Lincoln, e os Estados Unidos naquele período, eram os anos 60, viviam um tempo de conflitos. Chicago, Los Angeles, São Francisco, Detroit estavam com quarteirões incendiados, surgiram os Black Panthers e um movimento muito forte. E um jovem pastor protestante resolveu visitar a Índia para saber dos passos dados por aquele que conseguiu, Mahatma Gandhi, conquistar a independência da Índia por meio da não violência.

Então, ele resolveu convidar a todos os que lutavam por direitos iguais de pessoas de todas as raças e credos, etc., para virem comemorar o aniversário da abolição da escravidão, em Washington, D.C., diante do memorial de Abraham Lincoln, que havia assinado aquela abolição. E eis que o presidente John Kennedy o chamou na Casa Branca: “não faça isso, esse pessoal vem aqui e vai destruir a Capital”.

“Pode estar certo de que vai ser uma demonstração pacífica”. E aí, 250 mil pessoas compareceram. Primeiramente, se apresentaram os artistas como Bob Dylan; Nina Simone; Peter, Paul and Mary; Joan Baez e tantos outros, sempre com lutas por liberdade, igualdade e democracia.

E, ao final, Martin Luther King falou, fazendo um dos mais belos discursos da história da humanidade: “Eu tenho um sonho de que um dia, nos morros vermelhos da Geórgia, os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-donos de escravos serão capazes de se sentar juntos na mesa da fraternidade”.

Então, eu tenho outra afinidade com Martin Luther King, Jr., porque ele, no livro “Para Onde Nós Vamos Daqui para Frente?”, ele diz que está na hora de aplicar aquilo que agora se sabe que é a forma mais eficaz de se erradicar a pobreza, que é a renda garantida.

Ou seja, Martin Luther King, Jr. foi um dos grandes defensores da renda básica universal. E, para todos que estão aqui, se alguém não pegou, ali tem uma caixa que o Rafael está administrando. Quem quiser saber mais da Renda Básica da Cidadania como um direito inalienável de todos, e eu posso lhe dizer, querido Dito, que eu estou tendo boas notícias.

Sabe que nesses últimos dois, três meses, antes de sair do Ministério da Fazenda, Fernando Haddad mencionou que está considerando, por exemplo, a soma do “Bolsa Família”, com benefícios de prestação continuada, seguro-desemprego e diversas outras formas de políticas sociais, juntá-las todas, quem sabe, e fazer uma realidade daquilo que já é lei, aprovada por todos os partidos, um projeto de lei de minha iniciativa, aprovada por todos os partidos no Senado Federal.

Houve apenas poucas abstenções de senadores, bem como de deputados. Foi sancionada em uma linda cerimônia, em oito de janeiro de 2004, faz 22 anos. Você sabe que naquele dia, aquele que eu e muitos consideramos o maior economista brasileiro, convidado para a cerimônia, ele estava dando aulas na Sorbonne, mandou uma mensagem ao presidente Lula, que foi lida na cerimônia em que ele fala:

“Neste momento em que V. Exa. sanciona a lei da Renda Básica de Cidadania, quero expressar-lhe minha convicção de que, com essa medida, nosso país coloca-se na vanguarda daqueles que lutam pela construção de uma sociedade mais solidária.

Com frequência, o Brasil foi referido como um dos últimos países a abolir o trabalho escravo. Agora, com este ato, que é fruto do civismo e da ampla visão social do senador Eduardo Matarazzo, o Brasil será referido como o primeiro que institui um sistema de solidariedade tão abrangente, e, ademais, aprovado pelos representantes de seu povo. Aproveito a oportunidade para almejar a V. Exa., que continua a ter êxito na importante missão que lhe foi cometida cordialmente.

Celso Furtado, Paris, 8 de janeiro de 2006.”

Portanto, vejam, e sabe, ainda no dia que o presidente Lula anunciou uma nova forma de financiamento da casa própria, na cerimônia, ele, a hora que me viu, ele falou: “Eduardo, está chegando a hora da renda básica, e eu estou avaliando que isso vai acontecer”.

Eu, nesses últimos tempos, tenho sugerido ao presidente Lula a formação de um grupo de trabalho para estudar como será a implantação prevista na lei da renda básica universal. Então, que consequências haverá? Para aquela mãe que me convidou um dia para ir conversar, junto com uma freira dedicada a uma ordem italiana, dedicada às prostitutas, vieram me convidar para conversar com elas ali no Parque da Luz.

Eis que eu fui até lá, ouvi o depoimento lá, tomando um chá na Casa de Chá do Parque da Luz. A certa altura, uma mãe me disse: “Olha, eu não estava com dinheiro para dar de comer para as minhas crianças e vim aqui vender meu corpo, me prostituir no Parque da Luz e outros”.

Você conhece muito melhor do que eu também aquele jovem personagem do Mano Brown, dos Racionais MC’s, o “homem na estrada”, que recomeça a sua vida, a sua dignidade, a sua liberdade, que foi perdida, subtraída, quer mostrar a si mesmo que realmente mudou, que se recuperou, quer viver em paz e dizer ao crime “nunca mais”.

O dia que houver, para si e cada membro da sua família, uma renda básica como um direito à cidadania suficiente para atender as suas necessidades vitais e de cada pessoa na sua família, essa pessoa, aquela mãe, esse rapaz vão poder dizer: “Não, agora eu não preciso aceitar essa única alternativa que me surge pela frente, mas que vai ferir a minha dignidade, colocar a minha saúde e vida em risco. Agora eu vou poder aguardar um tempo, quem sabe fazer um curso aqui na minha cidade com o professor Benedito, até que surja uma oportunidade mais de acordo com a minha vocação”.

É nesse sentido, pois, que a renda básica vai elevar o grau de dignidade e liberdade para cada ser humano na sociedade. É por isso que eu acredito tanto nessa proposta que está prestes a se tornar uma realidade no Brasil. Eu tenho a convicção de que você vai muito poder me ajudar, junto ao presidente Lula e ao ministro Fernando Haddad, e o atual...

Nossa, agora eu esqueci o nome do atual, que entrou no lugar... (Vozes fora do microfone.) Como? (Vozes fora do microfone.) Da Fazenda. Também não... Quem lembra? (Vozes fora do microfone.) Fala direito, que eu não... (Vozes fora do microfone.) Dario, muito bem. Então, junto ao Dario, que estamos prontos para ajudá-lo.

Eu tenho a certeza de que todos os movimentos populares em favor da habitação digna estarão juntos na defesa da Renda Básica da Cidadania, tão bem defendida com clareza em “Desenvolvimento como Liberdade”, pelo Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, que diz que desenvolvimento, se for para valer, precisa significar maior grau de liberdade para todas as pessoas na sociedade.

Parabéns, Dito.

Parabéns a todos vocês. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, deputado Suplicy, por essas palavras fortes aí que nos lembram de toda a trajetória do Dito, e também lembrando que a Renda Básica da Cidadania a gente também está construindo em mutirão. Assim como a gente constrói as casas em mutirão, construímos essa proposta, que é uma proposta para um país novo, para um mundo novo.

Então, agora a gente vai passar a palavra para os membros da Mesa. A primeira a falar vai ser a Antonia Moreira, que é membro do Fórum de Vendedores Ambulantes e vendedora ambulante há 44 anos. Antonia, você tem sete minutos.

Obrigada. (Palmas.)

 

A SRA. ANTONIA MOREIRA - Bom dia a todos. Bom dia, Suplicy, Dito, a todos da Mesa. É um prazer e uma honra estar aqui para homenagear esse advogado maravilhoso, o Dr. Benedito - o nosso Dito. Assim, o Suplicy já falou muito dele. Assim, eu conheço o Dito desde 2014, e eu o admiro muito, porque esse ser humano tão humilde, tão...

Eu, como deficiente, chegavam advogados, todos arrogantes, e o dia que eu conheci o Dito foi na Ouvidoria. Eu nem acreditei, porque... Eu falei: “Gente, uma pessoa tão importante, como é que pode ser tão humilde”. Assim, só coisas boas para me lembrar dele.

Na pandemia, que a gente não podia trabalhar, e aí o Dito: “Vamos fazer reunião online”. E eu: “Dito, eu não consigo”. “Você consegue.” Entrava na reunião, eu caí e ele: “Antonia, entra de novo”.

Então, assim, muitas coisas boas, muitas batalhas, algumas vitórias, mas só tenho que pedir a Deus, Dito, para que ele continue te abençoando e te protegendo. Assim, o Brasil, São Paulo, o mundo precisa de mais Ditos, com esse coração tão grande, com esse ser humano, assim, tão humilde, tão grande, tão parceiro.

Dito, parabéns. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, Antonia.

Aqui a gente pode dizer que é uma reunião de grandes lutadores, de muitas organizações que fazem a luta pelo direito à moradia e à cidade, mas também uma grande reunião de amigos do Dito, que estamos aqui para essa homenagem.

Então eu vou pedir agora para o Luiz Kohara, que é pós-doutor pela USP e pela UFABC, pesquisador da área do Direito à Moradia, de Relação Fundiária, Políticas Urbanas, trabalha no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, especialmente com a população em situação de rua, ameaçada por despejos, cortiços, ocupações, movimentos de moradia e parceiro do Dito em muitas dessas brigas aí. Luiz.

 

O SR. LUIZ KOHARA - Bom dia a todos, a todas e a todes. Primeiro, me apresentar: eu tenho o cabelo meio grisalho, os olhos puxados, sou descendente de japonês e estou com uma camisa verde, esverdeada.

Então, primeiro, Suplicy, dizer que eu acho que essa homenagem é uma homenagem valiosa e talvez uma das maiores homenagens necessárias que se faz nessa Câmara, porque fazer homenagem para o Dito é reconhecer a luta popular de toda a cidade de São Paulo, a luta contra a injustiça, a luta contra tantas pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade.

Eu conheço, convivo com o Dito acho que já há mais de 40 e poucos anos aí. A gente se encontrou nessa caminhada. Eu posso dizer com muita convicção, Dito, que você é o meu irmão e tenho gratidão à vida por você estar no meu caminho aqui e a gente poder conviver. Porque conviver com o Dito é um aprendizado de todos os dias, é uma força de alguém que acredita...

Também dizer uma coisa, que neste tempo de tantos ódios, de tantas pessoas que desqualificam o outro, tantas questões. Nós temos o Dito aí, que faz muita diferença. Porque, nesse mundo aqui, nesse momento, o Dito é de uma gratuidade, que eu acredito que a gratuidade é a coisa mais revolucionária nesse mundo e necessária.

O Dito, outro dia: “Sheila, tem um catador ali que está com um problema, alguém vai correndo lá”. Aí o Dito liga, os advogados falam: “pelo amor de Deus, o Dito ligou, alguma coisa vai ter”.

São os ambulantes, que aconteceu a violência, assassinato, tantas situações, e o Dito está sempre ali na frente, ajudando a puxar, e sempre com o espírito de solidariedade, e também reforçando que esse espírito de gratuidade, “eu estou porque eu quero bem, eu acredito, e sem nenhum interesse”. E que faz muita diferença o Dito.

Então, queria só dizer aí que, nesse sentido, acho que é importante essa homenagem aqui, porque precisamos valorizar aqueles que lutam. Muitas vezes são esquecidos e se perdem tantas coisas assim.

E, também, acho que você tem um privilégio de ter muitas habilidades, uma habilidade política, às vezes, nos conflitos dos mais difíceis, o Dito sempre está atento e consegue agregar onde, muitas vezes, tem muitas tensões.

Tanto no nível institucional, como na luta popular, o Dito está sempre atento com cada pessoa também, mesmo no trabalho de equipe, ele está preocupado com um, “olha, você observou, tem tal pessoa, aquela que está trabalhando”. Então, não é uma atenção só dizendo com os vulnerabilizados, mas com todos que trabalham junto ali, ele está sempre atento ali.

Então, eu queria dizer que acho que homenagear o Dito também, o Dito deve estar no coração, que é homenagear, Suplicy, todas as nossas lutas. As lutas dos idosos, olhando a dona Olga, a luta contra o racismo, a luta contra a aporofobia. Então, todas as lutas estão juntas aí.

E é impressionante também o Dito, com toda essa correria, ele ainda está atento com cada pessoa, ele pensa, vou visitar tal pessoa, vou fazer isso, é preciso estar atento aí com a família também.

Então, eu acho que o teu coração está sempre funcionando no 220, com atenção a todas as pessoas. Então, acho que essa homenagem, como disse o Suplicy, lembra tantos lutadores do mundo, como Martin Luther King, tantas outras pessoas aí que o Suplicy citou, e tantas pessoas valiosas. Nós precisamos ter muitos Ditos nessa sociedade. Dito, para que o mundo seja melhor, o mundo seja “bendito”.

Muito obrigado, Dito, e muita alegria de estar com você, ser meu amigo. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, Luiz. Obrigada, Luiz. E que tenhamos muitos Ditos pelo nosso mundo afora. Estamos precisando de mais Ditos. Queria também agora convidar a companheira Fátima, que é da Sudeste, que é da Secretaria de Mulheres da União dos Movimentos de Moradia.

Queria destacar uma coisa, não é sempre que essa Assembleia Legislativa está tão colorida assim, né? Geralmente, tem um monte de homens de terno escuro e cara fechada, e hoje está um dia bonito aqui, bem colorido e bem bonito. E Fátima, traz essa alegria para nós também.

 

A SRA. FÁTIMA DOS SANTOS - Bom dia aqui ao deputado Suplicy, bom dia a todos aqui que estão presentes na Mesa, Antonia, Luiz Kohara, Francisco Comarú, Marluci, nossa querida Marluci, esposa do Dito, e a todos aqui, todos que estão aqui, dos movimentos de moradia, que estão aqui prestigiando, e os companheiros do Dito, que estão aqui nessa plenária hoje.

Em nome da Associação dos Movimentos de Moradia da região Sudeste, é um prazer enorme estar aqui hoje nessa homenagem linda ao amigo, ao irmão, para muitos Ditinho, para nós, Dito, e hoje Dr. Benedito Roberto Barbosa. Sem palavras para expressar a nossa gratidão, admiração por você, Dito.

Desde o primeiro momento, na região do Ipiranga, o Dito sempre atuou e, nisso, Pastoral da Favela, depois Pastoral da Moradia, foi um dos componentes do Movimento de Moradia da região Sudeste, da União dos Movimentos de Moradia, também do estado de São Paulo, e sempre esteve à frente, na luta pela moradia digna para todos.

Sua dedicação, Dito, é um compromisso, a causa da Moradia, são inspiradas em sua contribuição para a nossa associação. É um orgulho tê-lo em nossa entidade, andando com a gente dia a dia, passo a passo, e na luta de todos aqui, que, muitas vezes ligam de madrugada, duas, três horas da manhã, quatro horas, cinco horas, e o Dito está lá.

E a gente sempre, como movimento, como irmão, presente junto com ele, e a preocupação nos deixa também, assim como a família dele, que está aqui também, presente nessa luta, e a gente se preocupa com ele, que é um irmão.

Então, Dito, quero colocar aqui, em nome de todos os movimentos que estão aqui presentes, e no Movimento de Moradia da região Sudeste, a você, um verdadeiro herói da luta por Moradia. Parabéns, Dr. Benedito Roberto Barbosa.

Obrigada. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, Fátima. E vamos dar sequência aqui, ao ouvir os companheiros de luta, de organização, mas também da universidade, que praticamente carregou o Dito para fazer o doutorado, não é, Chico? Puxou pela orelha, sim, não é?

E o Francisco Comarú, que é coordenador do LabJuta, da UFABC. Engenheiro civil, com doutorado em saúde pública pela USP, é do Gaspar Garcia há mais de 25 anos, é professor de planejamento urbano, ambiental, urbanização insurgente, riscos no ambiente urbano e saúde ambiental.

Por favor, Chico.

 

O SR. FRANCISCO COMARÚ - Bom dia para todas e todos, é uma alegria. Bom dia, pessoal.

 

TODOS - Bom dia.

 

O SR. FRANCISCO COMARÚ - Muito bom. É uma alegria estar aqui, eu quero me apresentar. Eu sou Francisco Comarú, sou um homem pardo, negro, tenho cabelos também que já estão ficando grisalhos, estou vestindo uma blusa, uma camisa verde e estou muito emocionado também de estar aqui partilhando esse momento.

Eu tentei pôr algumas coisas no papel para não esquecer, mas é muito difícil, são tantos anos e tantas histórias. Eu lembro quando uma vez o Dito, encontrei com ele no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e ele me provocou perguntando se a UFABC, a pós-graduação da UFABC estava aberta para as pessoas, advogados populares do povo, pessoas negras. Foi uma convocação, foi quase um puxão de orelha que ele me deu.

E eu, obviamente, olhei para ele e falei, ajeitei-me na cadeira, deu-me um frio na espinha e falei: “Eita, agora o negócio, agora é chumbo grosso.” Vamos que vamos, com certeza, Dito. Vamos lá, você tem que se preparar, prestar, né, o processo seletivo para o mestrado e eu topo estar junto com você se você entrar.

E o Dito entrou, escreveu um projeto de pesquisa que foi aprovado pela Fapesp, ele preferiu não ter a bolsa da Fapesp naquela ocasião, o que é uma coisa muito difícil de conseguir, mas ele tinha outros compromissos de trabalho, ele preferiu abrir mão da bolsa.

Mais ou menos naquela época, ele fez uma outra provocação importante, na qual ele disse: “Chico, ó, a UFABC precisaria ter um espaço de interlocução com a periferia, com os segmentos populares, com as favelas, os cortiços, as ocupações... um laboratório, mas um laboratório que fosse com uma cara um pouco mais, um pouco diferente, Chico, um laboratório”, como ele mesmo disse, “em que o povo não fosse nunca somente um objeto da pesquisa, que o povo fosse protagonista da pesquisa, que a gente pudesse incluir o povo como pesquisador, pesquisadoras e pesquisadores.”

Que os pesquisadores também, no LabJuta, se envolvessem de coração na relação com o povo e que ajudasse também a democratizar a própria universidade e aproximá-la da periferia. E foi uma provocação superimportante também, difícil e, junto com o Moretti, que está aqui, a Talita, o Kohara, tanta gente, a gente criou o Laboratório Justiça Territorial, em 2014.

O Dito tem uma contribuição acadêmica fundamental, também. Eu achava que eu precisava falar isso aqui, né, porque todas as pessoas, muita gente vai falar do papel dele como militante, como advogado popular, como educador, como mobilizador.

E eu tinha, se eu não falar, talvez ninguém falasse, eu tenho que falar um pouco. O Dito tem uma contribuição acadêmica incrível que ele nem escreveu ainda, que não é a tese de doutorado dele, quer dizer, ele tem coisas, eu agora, né, também o estou convocando para escrever, né, sobre a metodologia da pesquisa inserida na luta.

Que é uma metodologia que ele liderou o seu desenvolvimento de forma empírica, nas trincheiras das resistências, das lutas, por exemplo, contra os despejos, defendendo as comunidades, mobilizando ferramenta do direito à cidade, do direito à moradia, da educação popular, da mobilização, da advocacia popular, engajando parlamentares, fazendo ato com o povo na porta da prefeitura, engajando jornalistas alternativos, quer dizer, um campo completamente transdisciplinar que ele consegue transitar com muita habilidade e com muita facilidade, também, e que vai muito além dos métodos de pesquisa participante ou pesquisa-ação do que a gente conhece convencionalmente.

Então, Dito, eu queria te fazer essa provocação hoje, também. Eu sei que é o dia te homenagear, mas também a gente se homenageia, como a gente se adora e se ama, a gente também se provoca para a luta avançar. E aí eu queria finalizar dizendo que o Dito consegue fazer todas essas coisas sem nunca perder a ternura e nem a humanidade.

Isso eu acho que é um aspecto fundamental, porque, lidando com temas tão difíceis e tão pesados, não é difícil você um dia acordar de mau humor, você não estar mais aguentando, você falar: “Cara, eu, né?” e aí você ser um pouco ríspido, ser um pouco...

Mas eu nunca presenciei isso, o Dito sempre com doçura, com afeto e com paciência, que é um exemplo para a gente, que a gente fala assim: “Nossa! Eu não tenho o que reclamar de nada da minha vida porque olha o exemplo que eu tenho aqui do meu lado, né?”.

Então, como disse uma professora da UFABC, “o Dito luta com alegria.” É um cara, ela via as fotos, a Carolina Pinho, e falava: “Nossa! Olha como o Dito luta sorrindo. Ele está na luta, tem gente com a cara fechada e ele está sorrindo, no meio da luta, né?”.

Essa alegria tem a ver com a gratuidade que o Luiz falou, né? A gratuidade do amor, como o Luiz também já disse uma certa vez para mim, é uma espécie, a gente tem alguns profetas, né? Profetas urbanos.

E eu acho que também, ao mesmo tempo, isso é uma homenagem coletiva porque o Dito é a pessoa do Dito, mas é tudo o que ele representa também, todas as lideranças, as comunidades, a luta pela libertação de um povo inteiro, um povo que, até hoje, os efeitos da escravidão a gente sente de um jeito muito pesado no dia a dia.

Então obrigado, Dito, por você ajudar a democratizar a universidade. E obrigado por você dar tanto ensinamento para a gente e ter salvado tantas vidas.

Muito obrigado e parabéns, Dito.

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, Chico.

E que lembra a gente quanta coisa a gente ainda tem, que a universidade ainda precisa saber, além de produzir saber, ela precisa saber de tanta coisa ainda, né? E agora eu vou convidar a pessoa que mais convive com o Dito.

Porque a gente convive ali, durante o dia, na luta, na rua, mas agora eu vou pedir para a Marluci, companheira do Dito, militante na Educação, na luta dos Direitos Humanos, foi operária, coordenadora de projetos sociais de Educação, foi diretora de centro de convivência, mediadora de conflitos e, por 35 anos, professora de escolas públicas estaduais e municipais e que é, a gente sabe, quem está lado a lado nos bons e nos difíceis dias.

Marluci, querida, por favor.

 

A SRA. MARLUCI PEREIRA DE ARAÚJO BARBOSA - Bom dia. Apresentando-me, eu sou uma mulher de terceira idade, sou branca, mas estou com cabelos castanhos, curtos e lisos, estou vestida com uma blusa azul marinho e utilizando um colar colorido. Estou sentada entre o Luiz Kohara e o Dito.

Bom, muito emocionada aqui com as palavras. Quero, assim, cumprimentar com um imenso respeito e uma imensa ternura o nosso querido deputado Suplicy e, com o mesmo carinho, todas as amigas e os amigos aqui presentes, o pessoal da organização, nossa MC querida, todos os servidores, todos os que prepararam esse evento e todas as companheiras e os companheiros, aqui, de luta.

Bom, não tenho tanto o que falar depois de tantas palavras que emocionam, de pessoas que são guerreiras, que são lutadoras, assim como o Dito. Mas me veio aqui, enquanto ouvia alguns fatos, dois fatos que me comovem. Eu, as palavras justiça e injustiça sempre fizeram parte do vocabulário da família. Então, muito cedo, no vocabulário dos meus filhos.

O meu filho mais velho, por exemplo, quando às vezes eu estava chamando a atenção do mais novo, ele interferia, dizendo: “Olha, você tem que me escutar, porque acho que você não está sendo justa com o meu irmão”. Então já tinha o advogado, que às vezes ficava de castigo junto, o advogado e quem fez.

Mas, certo dia, o meu filho mais novo chegou em casa, contou que um colega que entrou na escola, um outro menininho, não tinha sido aceito. Por algumas formas de ele falar, de ele agir, ele não tinha sido aceito, tinha sido rejeitado pelos colegas. Ninguém ficava com ele, ninguém passava atividade.

Ele falou: “Nossa mãe, que injustiça. Então agora ele vai ser um dos meus melhores amigos, eu vou ficar do lado dele, vou proteger e também vou ajudar ele a saber falar.” E assim foi, isso não era muita novidade para a gente, os nossos filhos já agirem assim.

Mas, depois de algum tempo, alguns meses, o meu filho chegou muito bravo em casa, chutando as coisas, jogou a mochila e disse... “O que aconteceu?” - eu perguntei. E ele disse: “Mãe, eu estou com muita raiva, mas com muita raiva, porque eu sempre protegi o Fulano, sempre estive do lado dele, e ele me fez uma traição, ele cometeu uma injustiça comigo que não dá para eu esquecer, eu estou com muita, mas muita, muita raiva, e eu nunca mais vou ajudar ninguém. Nunca mais eu vou me preocupar, sabe? Porque isso que ele fez não está legal”.

E eu falei para ele: “olha, filho, eu acho que você tem que pôr para fora tudo o que você está sentindo, pode ter raiva, pode xingar, mas aí, meu querido, eu sinto muito te dizer, mas você vai voltar a ajudar quem precisa, você vai voltar a fazer essa ação que você fez por esse amigo, por ele e por outros, porque, meu filho, você já foi picado por um bichinho chamado senso de justiça, e eu sinto muito, não tem cura.

Vocês vão, você e seu irmão vão entender isso.” E, realmente, esse senso de justiça já fazia parte da nossa família, ele veio pela observação de vida com o Dito e os seus pais, seus irmãos, com os meus pais, com os meus irmãos, com a nossa família.

E sobre isso me vem também essa questão, a necessidade de multiplicar esse senso de justiça em uma sociedade que hoje vive absurdos, absurdos de se legalizar e se justificar até genocídios.

Então eu penso nesta homenagem, neste evento de se homenagear uma liderança pelo trabalho que tem nos movimentos sociais, pela sua vida dedicada, penso em todas aquelas pessoas, e aqui eu penso também, na maioria mulheres, que em nossas comunidades, em cada canto da nossa cidade, do mundo por aí afora, em pequenas atitudes fazem nascer, fazem despertar, ou mesmo acordar em algumas pessoas esse senso de justiça, que é ele que vai garantir um apoio à luta, um apoio ao companheiro que está com problemas, a denúncia das violências, a denúncia das injustiças, dos fechamentos de escola, dos fechamentos de postos de Saúde.

Pequenas coisas que vão transformar e que trazem para a gente um sonho.

Eu tenho um sonho, Suplicy, de que um dia a gente possa ter uma epidemia desse senso de justiça para poder mudar essa sociedade. E penso também, e isso me lembrou principalmente a Ana Lídia, a muito querida Ana Lídia, quando eu agradeci pela força enquanto o Dito estava doente, pela força que deram para que esse doutorado fosse completado no seu tempo certo. Ela disse: “O Dito, Marluci, abre caminhos, nos ensina.” Como o Luiz Kohara disse, ele vai abrindo caminhos.

E a gente tem tantas pessoas anônimas abrindo caminhos com pequenas atitudes. E temos aqui, homenageando o Dito, que doou a sua vida nessa luta, doou junto a nossa vida, a vida da família, dos amigos, aqui estão primos, aqui está a irmã do Dito, que doou toda a sua energia para, além de ser um pai, um marido, um filho, um irmão, um parente, ser essa pessoa em que a vida do outro importa, importa muito.

E para dizer também que ser uma pessoa que dedica sua vida, que correu perigos, agressões, vários momentos de violência, para dizer que o medo, alguém um dia, um jovem, num evento onde se prestava solidariedade ao Dito, que tinha sido agredido pela polícia, ele disse: “Nós não temos medo de defender a justiça e os direitos humanos.”

E eu digo, o medo faz parte, faz parte da vida de muitas famílias, como fez da nossa. O medo, a preocupação, a incerteza, horas da madrugada esperando um telefonema para ver o que aconteceu na ocupação, onde será que o Dito está, a preocupação nossa, dos nossos filhos.

Aí a gente diz, repetindo o samba enredo, que nesse momento é porque o amor vence o medo, o amor à Justiça, o amor ao próximo, o amor à paz verdadeira, que vem da igualdade, do respeito aos Direitos Humanos.

Obrigada a todos.

Bom dia. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Que bonito, Marluci! Parece que não é à toa que são 40 anos juntos, não é, gente? Parece que não é à toa, não. Mas agora eu quero chamar a pessoa que conhece o Dito há mais tempo, que é a Beatriz Verdú, a irmã do Dito. (Palmas.)

 

A SRA. BEATRIZ VERDÚ - Primeiramente, bom dia a todos, a todas. Eu sou a Bia. Ninguém me chama de Beatriz, tá? É Bia. Sou negra, cabelos cacheados, estou vestindo uma blusa laranja para colorir este auditório. Vim lá da cidade de São Joaquim da Barra, onde está grande parte da nossa família. Aqui estão os nossos primos, sobrinhos, pessoas que a gente ama e que a gente está muito feliz de ver aqui, e os companheiros de guerra e de luta com o Dito.

Agradecer ao Comarú, ao Kohara, ao Suplicy, a Fátima, pela força que sempre dão ao meu irmão. A gente acompanha de longe essa luta de vocês. E tenha certeza de que nós estamos lá torcendo sempre para que tudo dê certo. Mas antes de iniciar o que eu escrevi aqui para o meu irmão, eu quero lembrar que dias atrás eu estava falando, relembrando meus pais.

Hoje nós não os temos mais aqui. Mas, vendo o Dito ali sentado, e meus primos são testemunhas disso: papai sempre ensinava, nossos pais sempre nos ensinaram que a gente tinha que estudar, que a gente tinha que ir para a escola, que a gente tinha que se esforçar.

Não que os meus pais - chamavam meu pai de Sr. Roberto, e a minha mãe se chamava Albertina - fossem pessoas estudadas. Não. Meu pai tinha o terceiro ano do ensino fundamental, e minha mãe aprendeu a ler e escrever pelo Movimento Brasileiro de Alfabetização, que acho que vocês não sabem o que é. Mas a gente sabe, né, Dito? Hoje é o EJA. Mas antigamente era o “Mobral”. E a gente acompanhava minha mãe à escola todo dia, no grupo da Lapa, onde nós estudamos, para que ela aprendesse a ler e escrever.

E ali ela ensinou, junto com meu pai, o caminho para a gente; construiu pontes para que a gente caminhasse e estivesse onde cada um hoje está. E se nós estamos aqui hoje - incluo meus primos, incluo minha sobrinha, a Marluci, o Dito -, é graças a eles. Se eles estivessem vivos, com certeza eles estariam aqui também. E é muito bom nos lembrar deles dessa forma.

O legado que eles nos deixaram foi esse - foi o estudo, a vontade de aprender, a vontade de crescer, a vontade de caminhar, a vontade de ajudar o próximo, o senso de justiça. Isso vem desde lá do papai e da minha mãe, que eram pessoas que não mediam esforços para ajudar o próximo.

Meu irmão, hoje é um dia de muita honra e gratidão. Um verdadeiro guerreiro, daqueles que lutam pelo próximo, sem sequer pensar em si mesmo. Sua vida é prova de amor, coragem e entrega.

Hoje, ao receber esse prêmio aqui na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, indicado pelo nosso querido deputado Eduardo Suplicy, você não está sozinho: estou aqui representando nossos pais, que hoje estão na memória e no nosso coração, e também a todos os nossos irmãos - o Marquinho, a Márcia, o Donizete, o Zé Paulo.

Esse reconhecimento não é apenas por aquilo que você faz, mas por quem você é: um homem de coração gigante, como todos aqui falaram, que escolheu servir, ajudar e fazer a diferença na vida das pessoas e na sociedade.

Temos muito orgulho de você. Esse prêmio é mais do que merecido, é justo. Que Deus continue te abençoando na sua caminhada, te dando força e sabedoria para continuar sendo luz na vida de tantos necessitados, de tantas pessoas que estão por aí precisando, não só aqui em São Paulo, mas pelo Brasil afora.

Lá na minha cidade de São Joaquim da Barra, nossa querida São Joaquim da Barra. Que não te falte sabedoria para continuar sendo luz na vida dessas pessoas.

Parabéns, meu irmão; você honra nossa família. Muito obrigada, Suplicy e a todos que caminham junto com você nessa luta. Vou deixar uma passagem bíblica de que gosto muito, que está lá em Números 6: “Que o Senhor te abençoe e te guarde, e faça resplandecer sobre ti, sobre cada um de vocês, a Sua paz e a Sua luz”. Que vocês continuem aí na luta, na caminhada, que mesmo de longe nós estamos aí torcendo e orando para que tudo dê certo. Eu tenho certeza: Jesus era jus, nós somos jus, e nós vamos sempre vencer, a justiça vai sempre prevalecer.

Obrigada.

Gratidão.

Te amo, meu irmão. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Obrigada, Bia. Trazer a família do Dito aqui hoje presente com a gente, né. Também agradecer a presença da Tereza Lara, do Movimento Estrela Guia, que está aqui com a gente hoje. (Palmas.)

E a gente vai agora assistir a um videozinho com alguns momentos especiais da vida do Dito, né. E com certeza muitos dos que estão aqui hoje participaram desses momentos de luta, desses dias junto com a vida que o Dito constrói também junto com a gente.

Vamos lá.

 

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- É exibido o vídeo.

 

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A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - E acho que faltaram umas cinco ou seis vezes mais em que o Dito foi parar na delegacia, né? Mas então a gente está chegando aqui em mais um próximo momento da nossa celebração, mas queria também pedir para o vereador Nabil Bonduki, que também veio participar desta sessão com a gente, dar uma palavrinha aqui nesta sessão em homenagem ao Dito. (Palmas.)

 

O SR. NABIL BONDUKI - Cheguei atrasado, mas cheguei, Dito. Eu estava com um evento na Câmara, então... Mas eu não podia deixar de estar presente aqui neste dia. Conheço o Dito há quantos anos? Uns 40 anos, né? E uma liderança, assim, fundamental do Movimento Moradia, uma pessoa, assim, realmente fantástica em todos os aspectos. Eu não vou me exceder, porque cheguei atrasado e falar muito fica até feio.

Queria cumprimentar todos os amigos que estão na Mesa, queria cumprimentar o nosso querido, sempre senador, deputado Eduardo Suplicy, por esta justa homenagem ao Dito. Eu quero dizer que nós apresentamos também na Câmara uma moção de aplauso ao Dito, por conta do título de doutor pela Universidade Federal do ABC, e, assim, é muito importante para nós que somos da universidade.

Eu comecei a minha vida profissional na universidade trabalhando com o movimento social, com as comunidades eclesiais de base e com o Movimento Moradia. Foi nesse período que eu conheci o Dito, e depois no governo da Luiza Erundina tivemos, assim, quatro anos de intensa atividade em conjunto, ele no movimento e eu no Poder Público. Mas é muito bonito ver alguém que veio do movimento e vai se qualificando, vai ganhando espaço na universidade.

Então eu queria dar aqui... Reforçar essa moção de aplauso que nós apresentamos na Câmara para o Dito, e dizer que ele recebeu em 2008 uma honraria da Câmara também, que é o Título de Cidadão Paulistano. Então o Dito é uma pessoa fundamental para São Paulo, para o Brasil, para o movimento de habitação e para todos nós que defendemos a democracia, a inclusão social e o direito à cidade.

Então parabéns, Dito.

Parabéns, Suplicy. Tamo junto aí nesta homenagem.

Obrigado. (Palmas.)

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Queremos também aqui agradecer a presença e cumprimentar a companheira Vanilda, representando a deputada federal Juliana Cardoso. (Palmas.)

Bom, agora a gente está em um certo momento solene desta sessão, que é a outorga do Colar de Honra ao Mérito Legislativo ao Benedito Roberto Barbosa. Dito é doutor em Planejamento e Gestão do Território pela UFABC, onde atua como pesquisador no LabJuta e colaborador no Observatório de Remoções.

É defensor de Direitos Humanos, advogado do Centro Gaspar Garcia e da União dos Movimentos de Moradia de São Paulo e participa da Campanha Despejo Zero. Possui formação em Filosofia, Teologia e Direito. Atua na defesa de famílias sem teto afetadas por conflitos fundiários, com longa trajetória em movimentos sociais urbanos.

Participou das mobilizações pela reforma urbana na constituinte, em 1987, e foi fundador de importantes organizações, como o Movimento de Moradia da Região Sudeste, o Movimento Unificado de Favelas - essa é velha, gente, MUF -, a União dos Movimentos de Moradia de São Paulo, e a União Nacional por Moradia Popular. É dirigente estadual da Central de Movimentos Populares desde sua fundação.

Contribuiu para a criação do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, integra o Fórum Nacional da Reforma Urbana e foi conselheiro nacional das cidades. Atuou na gestão pública como coordenador de regularização fundiária em Diadema e na Secretaria de Habitação de São Paulo.

Participou também do Comitê Popular da Copa, defendendo famílias afetadas pelas obras da Copa de 2014, e teve atuação internacional na Coalizão Internacional do Habitat e na Secretaría LatinoAmericana de la Vivienda Popular.

Foi conselheiro municipal de Habitação e de Política Urbana em diferentes mandatos. Recebeu o Título de Cidadão Paulistano, em 2008, foi indicado ao Prêmio Zumbi dos Palmares, em 2014, e recebeu a Medalha Nacional de Acesso à Justiça e o Prêmio da Paz de Aachen em reconhecimento à sua atuação em direitos humanos e direito à moradia.

Então agora a gente vai convidar o deputado Suplicy, para a gente fazer a concessão do Colar de Honra ao Mérito Legislativo. O Colar de Honra ao Mérito Legislativo é a mais alta honraria conferida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Foi criado em 2015 e é concedido a pessoas naturais ou jurídicas, brasileiras ou estrangeiras, civis ou militares que tenham atuado de maneira a contribuir para o desenvolvimento social, cultural e econômico do nosso Estado, como forma de prestar-lhes, pública e solenemente, uma justa homenagem.

 

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- É feita a outorga do Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo.

 

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TODOS - Dito, guerreiro do povo brasileiro.

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Pedir que todos voltem a sentar. E agora a gente vai escutar, obviamente, o nosso homenageado do dia, vamos escutar as palavras do Dito. Por favor, Dito. O Dito, medalhado agora, veio falar aqui com a gente.

 

O SR. BENEDITO ROBERTO BARBOSA - Bom, pessoal, queria recomeçar a minha fala, só tenho, neste momento, a agradecer. Está aqui uma parte da minha família, minhas primas e primos, também lá de Cotia, a Ana, o Nério, Eliseu, Iracema, a minha cunhada Célia, que também está aqui.

A gente caminha tantos anos, não é, Célia, na luta da Educação também? Minha sobrinha Nathalia também aqui presente, advogada, negra aqui em São Paulo; minha companheira do dia a dia, a Marluci.

O meu filho, o Felipe, estava com problema de saúde e não pôde vir, e o Lucas é médico, o meu filho está no hospital, no plantão, também não pôde participar com a gente, e a minha irmã, Beatriz, que veio do interior, veio lá de São Joaquim da Barra, também representando os meus outros irmãos e também a minha família lá de São Joaquim da Barra. Meu coração está dividido nessas duas cidades, em muitos lugares.

Eu falei uma vez para a Rafaela, ela ficou um pouco brava comigo, mas “quando eu morrer, quero ser cremado, aí você pega as minhas cinzas e espalha um pouco em cada lugar, assim, porque...”.

Ela falou: “Dito, que coisa horrorosa.” Mas é porque, de fato, o meu coração está em muitos lugares, mas de uma forma muito especial em São Joaquim da Barra, onde cresci e aqui a Beatriz já contou a história da nossa família.

E também, aqui na cidade de São Paulo, quando eu cheguei, no início dos anos 80, em 1981. Final de 1981, começo de 1982. E entrei diretamente na luta das favelas, na luta do direito à moradia.

Mas queria, antes disso, também agradecer a meus companheiros e companheiras que estão aqui nesta Mesa, a Antonia, que está aqui representando os trabalhadores e trabalhadoras ambulantes.

Mas tem alguns desses companheiros e companheiras também que estão aqui neste plenário, neste dia desta homenagem, a minha irmã também de luta que está representando aqui um movimento de moradia, a companheira Fátima, a associação em que eu comecei a minha luta e estou lá até hoje, mais de 40 anos, não é, Fátima, junto nessa luta.

Meu querido companheiro Chico Comarú, parceiro lá da universidade. Eu vi a Talita aqui e também tantos parceiros nossos da universidade, do dia a dia, da pesquisa do nosso trabalho.

A minha querida Marluci; o Luiz Kohara também aqui nesta Mesa. E agradecer demais ao meu irmão e companheiro Suplicy. A gente se emociona toda vez que ouve ele falar dessa luta pela renda básica, pelo direito que todas as famílias no Brasil, todas as famílias no mundo, os pobres possam ter uma renda básica para viver com dignidade, e essa luta incansável, utópica que o Suplicy nos anima o tempo inteiro por essa luta.

Todos os meus companheiros e companheiras que estão aqui participando neste plenário, não vou nominar, porque são tantas pessoas que estão aqui, tantas que não vieram, mas que certamente estão com a gente de coração neste momento.

Mas queria deixar um abraço especial para os meus companheiros e companheiras da Defensoria Pública, que estão aqui vários defensores e defensoras públicas, em especial o meu querido irmão, Carlos Loureiro. Queria pedir uma salva de palmas para ele. (Palmas.)

Foi ele quem me falou: “Eu não acredito em processo e justiça. Se vocês não fizerem a luta, não forem para a rua, nós não vamos mudar nada, não é?” Por isso que depois o Chico e várias pessoas falaram isso e depois, inclusive, no vídeo aparece eu falando: “Olhe, o processo precisa ser disputado na rua, não é lá na mesa na frente do juiz”. Essa é uma parte, mas é a rua, é a mobilização popular.

No sábado eu falei isso, nós participamos de uma audiência em uma plenária de uma assembleia na Ocupação Jorge Hereda, 800 famílias ameaçadas de despejo, no Gaspar Garcia. A União de Moradias lá acompanhando, a ULCM também, que está acompanhando, na zona leste, acho que está até aqui o pessoal da ocupação, Toninho está ali, da liderança da Ocupação Jorge Hereda, que está ameaçada de reintegração de posse e nós estamos tentando.

E a gente falou isso para eles: “Olhe, pessoal, nós vamos fazer uma parte, os advogados e tudo mais. Mas 90% dessa luta é vocês fazendo a luta em processo de resistência”.

A gente também está acompanhando, estou aqui também com a minha outra companheira, amiga, advogada popular, a Irene. E a gente tem acompanhado, não é, Irene? A situação da Favela do Moinho, e nós estamos com algumas lideranças do movimento que estão presas neste momento, especialmente a companheira Alessandra, que está presa.

Queria pedir uma salva de palmas para a Alessandra Moja e pedir liberdade já para a Alê. (Palmas.) Liberdade para a Alessandra, que foi presa na resistência ao despejo da Favela do Moinho. E a gente precisa fazer justiça e precisa libertá-la.

Como foi o que aconteceu em 2018, depois do incêndio do Wilton Paes de Almeida, do edifício ali no Largo do Paissandú que desabou, matou mais de 12 pessoas e deixou quase 300 pessoas desabrigadas por meses ali no Largo do Paissandú.

Na sequência desse processo todo, a gente viu dezenas de lideranças ameaçadas de prisão aqui na cidade de São Paulo, inclusive algumas foram presas e algumas, inclusive lideranças, viraram símbolo dessa luta, como a Carmen Silva, a Preta Ferreira.

O que a gente viveu naquele momento, essa situação, a companheira Jô Marina que está aqui, que foi ameaçada de prisão, foi processada e depois esses processos acabaram sendo arquivados.

Mas nesse processo de criminalização das lutas populares, das lutas sociais esse tem sido o nosso cotidiano, o cotidiano que a gente tem convivido, com todos nós aqui, defensores, advogados populares, lideranças sociais, pessoas que estão aqui, professores e professoras da universidade, parceiros do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, nossa querida coordenadora que está aqui, a professora Débora, a Sheila que está ali também, Marcolino e tantas pessoas que vêm conosco fazendo essa luta.

E essa construção histórica de transformação e de luta social não é feita por uma única pessoa, não é realizada sozinha. Aliás, a gente que vem da Igreja, que vem das pastorais sociais, eu, a Evaniza e tantas companheiras que estão aqui, que vêm dessa luta das comunidades de base, das pastorais da moradia, como a Fátima fez referência...

Tem uma música que fala assim, que sozinho e isolado ninguém é capaz. A gente só é capaz quando a gente faz o processo junto. E eu ouvi o Edilson, também, há um tempo, falar de um sonho, que está também na música da Teologia da Libertação, que fala que, quando a gente sonha só, é só um sonho. Mas, quando a gente sonha junto, é sinal de transformação, é sinal de mudança.

Então é esse sonho de uma cidade solidária, esse sonho que o Suplicy tem, para que todo mundo tenha um acesso a uma renda básica, uma renda que dê dignidade para a tua vida. Sonho para que todas as pessoas tenham acesso à moradia digna, para que as pessoas não sejam presas, que não sejam ameaçadas, não sejam mortas porque lutam pelos direitos humanos.

 E, no Brasil, infelizmente... Centenas de defensores e defensoras de direitos humanos, no Brasil, neste momento, estão ameaçadas de morte, estão mortas, são assassinadas. Vamos lembrar de Chico Mendes, de Dorothy Stang, tantas, tantos lutadores, defensores e defensoras de direitos humanos.

O Ngange Mbaye, o senegalês que foi executado, no ano passado, no Largo da Concórdia, no dia 11 de abril, e, infelizmente... Inclusive, a Defensoria Pública está nos ajudando nesse caso. Infelizmente, a polícia executou às duas horas da tarde o Ngange, no Largo da Concórdia, e o Ministério Público pediu o arquivamento, e o processo foi arquivado, alegando legítima defesa. E a gente precisa se indignar com isso.

Semana passada, inclusive, teve uma reunião lá no Ministério Público, o procurador-geral, Gaspar Garcia, participou, diversas entidades participaram para denunciar essa violência, essa execução e esse processo de justiça.

Nós acompanhamos, semana passada, aquela jovem policial militar, de 21 anos, com arma na mão. Como é que pode dar uma arma, um revólver na mão de uma moça de 21 anos, sem qualquer experiência? Que executou a Thawanna, lá na Cidade Tiradentes. Foi na semana, um guarda GCM, aqui, que atirou também em um outro rapaz, também, em um motoboy.

Então, essa violência, essa agenda de morte e de violência que nós temos que ir criando processos, como já foi dito aqui e falado também, contra-hegemônico. Criar também essa contranarrativa aos processos de violência da extrema-direita, que ataca, todos os dias, em todo momento, os nossos direitos, os direitos humanos e toda a nossa luta por políticas públicas.

Nós lutamos muito neste país para conquistar muitos direitos. Nós conquistamos a Constituição Federal, em um período que a gente viveu de luta. Eu participei diretamente, acompanhamos, eu e a Marluci, lá na Praça da Sé, não é, Lu? Em 1984, acompanhando a luta pelas “Diretas”. Depois, lutamos e ajudamos nessa luta também para enterrar a ditadura no nosso país.

Lutamos por uma Constituição. Lutamos para ver também o nosso país mais democratizado, para o Lula chegar à Presidência da República. E a gente viu tudo o que aconteceu e temos visto o que tem acontecido no Brasil neste momento. A todo momento, a nossa Constituição sendo rasgada, sendo, vamos dizer assim, jogada, muitas vezes - ou ameaçada de ser jogada - na lata do lixo.

E nós aqui somos essa frente. Cada um de nós é essa frente de resistência, em defesa da democracia, em defesa dos direitos humanos, em defesa da unidade popular. Por isso que eu sempre digo, muitas vezes nós temos muitas bandeiras. Cada movimento tem a sua bandeira. Nós temos muitas concepções. Mas a gente não pode colocar cercas.

Eu fiz um texto recentemente, mandei para bastante gente. Só porque nós temos concepções, só porque nós temos bandeiras, colocar cercas entre nós. Nós temos que derrubar as cercas. A nossa vida tem que ser o tempo inteiro para derrubar os muros e derrubar as cercas.

E nós temos que ser exemplo, nós temos que ser os primeiros a fazer isso na nossa família, no nosso partido, no nosso movimento social, nas nossas organizações, na nossa entidade, na Defensoria, nas nossas instituições.

Porque aí, a partir dessas cercas derrubadas, nós vamos juntos, unidos e unidas, derrubando todas as cercas e todos os muros para construir uma sociedade mais justa, uma cidade mais inclusiva, com direitos humanos, com direito à cidade e com reforma urbana.

Então viva nossa resistência popular. Este prêmio, esta homenagem, ela não é do Dito, do Benedito, mas ela é, vamos assim dizer, de todos nós, de todas nós, que lutamos todos os dias para ver um estado melhor, para ver uma cidade melhor, para termos um país melhor, mais justo e mais inclusivo para todos os brasileiros e brasileiras, para todas as pessoas das nossas cidades, em cada cidade, em cada bairro, em cada território que nós estamos fazendo essa luta.

Então, viva a resistência popular (Palmas.). Viva a nossa luta pelos direitos humanos e pelo fim de todas as cercas para construirmos a justiça de verdade. Um grande abraço a todos e todas. Um abraço a toda a minha família.

Um abraço aos meus amigos e irmãos da luta. Abraço a todos os meus irmãos do dia a dia. E, Chico, eu aceito o desafio, tá bom? Já está lá na tese, né, colocado, mas a gente segue também aceitando esse desafio.

Um abraço a todos, seguimos juntos na luta.

Beijo, Mara, querida, também.

Tchau. (Palmas.)

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - Prezado Dito, quero fazer uma sugestão com respeito a senhora Alessandra Moja. Quem sabe, possamos escrever uma carta ao juiz que está cuidando da situação, descrevendo o caso. Uma carta que assinemos juntos, dizendo a importância de que essa pessoa possa estar em liberdade o quanto antes.

 

O SR. BENEDITO BARBOSA - Com certeza, Suplicy. (Palmas.)

A Irene tem um grupo de advogados que vai fazer uma visita para ela. Quem sabe pode levar essa carta, inclusive, depois.

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - Uma cópia da mesma. Então...

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Pedir ao Suplicy, então, que faça seu pronunciamento final para encerrar essa nossa cerimônia.

 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - Esta aqui foi uma manhã, assim, muito especial, animadora, de todos aqueles que têm lutado por um Brasil justo, igualitário, aonde cada pessoa possa viver com dignidade, com liberdade.

Então, um estímulo a todos que batalham pelos movimentos de moradia, de trabalhadores que estão nas ruas de São Paulo e do Brasil reivindicando os seus direitos a viver com dignidade.

Parabéns, Benedito, e a todos vocês que estão aqui, solidários ao Benedito. (Palmas.) Falta ainda...

 

A SRA. MESTRE DE CERIMÔNIAS - Queria pedir, então, a todo mundo, agora, que a gente viesse à frente, fazer uma foto com o Dito e com o Suplicy. 

O SR. PRESIDENTE - EDUARDO SUPLICY - PT - Eu quero agradecer a todos que tornaram possível este momento, cada servidor, cada autoridade presente e cada cidadão que prestigiou este momento tão bonito.

Parabéns a todos.

Muito obrigado.

 

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- Encerra-se a sessão às 11 horas e 44 minutos.

 

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