
DECRETO N. 9.078, DE 1º DE ABRIL DE 1938
Cria uma comissão especial para o estudo
do suprimento de combustivel á viação férra do
Estado.
O DOUTOR JOSÉ JOAQUIM CARDOZO DE MELLO
NETO, interventor federal no Estado de São Paulo,
usando das atribuições que lhe são conferidas por lei e
atendendo ao que lhe representou o Secretário de Estado
dos Negócios da viação e obras Publicas.
Decreta:
Artigo 1.º - Fica criada na Secretaria de viação e
Obras Publicas, sob a presidência do respetivo titular,
uma comissão compostas dos engenheiros Francisco Emygdio
da Fonseca Telles, Joviano Pacheco, Luiz Flóres de Moraes
Rego e Mario Salles Souto e do quimico Francisco
João Maffei, para estudar o problema do suprimento de
combústivel á viação férrea do Estado e á qual incumbirá:
a) - Promovver nesse sentido o intercambio de relações
entre os departamentos especializados do
Estado e as férrovias;
b)Superintender as trabalhos que diretamente lhe
forem atribuidos;
c) Propôr soluções imediatas para as questões mais
importantes e urgentes, sem descurar do exame
e da indicação de providências referentes a outros
aasuntos de menor interesse ou oportunidade,
procurando tanto nestes como naquelles, dar
preferência ás formulas de realização prática.
Paragrafo Unico - Ao Secretario da Viação e Obras
Publicas cade destacar de sua Secretaria o pessoal necessário
ao expediente, sem prejuizo de suas funções efetivas,
criterios este que será extensivo aos membros da comissão
que dorem funcionarios ou empregados do Estado.
Artigo 2.º - O secretário da viação e Obras Publicas
Expedirá instruções especiais regulando o funcionamento
da comissão, podendo ainda, altera-la em sua composição,
para reduzi-la ou ampia-la quando julgar necessário.
Artigo 3.º - O presente decreto entrará em vigor na
data de suapublicação, revogadas as disposições em contrário.
Palacio do Governo do Estado de São Paulo, em 1.º de
abril de 1938.
J. J. CARDOZO DE MELLO NETO
Ary f torres.
Publicado na Secretaria de Estado dos Negocios da
Viação e Obras Publicas em 1 de abril de 1938.
Mario da Veiga
Servindo de Diretor Geral.
EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS APRESENTADA AO SENHOR
INTERVENTOR FEDERAL PELO SENHOR
SECRETARIO DA VIAÇÃO DE OBRAS PUBLICAS
E REFERENRE AO DECRETO N.º 9.078 , DE 1.º DE
ABRIL DE 1938
São Paulo, 28 de março de 1938.
N.º s/125
Senhor Interventor,
O Problema do combústivel é de revelante importancia
para a economia de Estado, merecendo, sem tardança,
solução adequada, para satisfazer necessidades
prementer e evitar a avasão de capitais. Além disso, não
se devem perder de vista as dificuldades que poderão
surgir da instabilidade politica internacional, causa possivel
de restrições no comércio muncial de combústiveis.
Vulto todo especial toma a questão para as ferrovias,
cuja despesa com combustivel em 1932 ultrapassou a cifra
de 100.000:000$000, da qual cérca de 50% foi empregada
para cobrir a impotação estrangeira. Se sugestivos
são ésses algarismos que se referem ao conjunto ferroviário
brasileiro, ainda mais deverão chamar nossa atenção
os dados relativos á Estado atindiu a.................
12.600:000$000 em 1932 e chegou a 24.770:000$000 e, 1936
- cifra esta quasi o dóbro da anterior, representando
30% da despessa de custelo.
E tradicional a afirmação sobre a existencia de
grandes, reservas de combustivel, principalmente minerais,
em nosso pais. Sempre se divulgou êsse fáto como
uma demonstração de riqueza e de abundancia; entretanto,
como seria de mistér, não se fizeram até hoje investigações
coordenadas no sentido de apurar exatamente
a extensão e a capacidade dessas reservas no Estado
de São Paulo, de verificar as suas condições técnicas de
aproveitamento para utilização industrial ou comercial,
imediata ou mesmo remota, de modo a caracterizar o seu
valor e a sua influência na economia pública, perculiares
ao seu preparo para futuro emprego.
E' preciso situar bem os pontos cardiais, dessa tradição,
aproveita-la utilmente, evitando que esmoreça ou
que permaneça simplesmente nos arquicos cíentificos sem
uma aplicação prática em beneficio da coletividade. Ha
necessidade de uma sistematização no encaminhamento
do assunto, de modo a resultar o aproveitamento real
da utilidades emanentes dessas fontes de riqueza pública.
No que diz respeito ao Estado de São Paulo, tendo em vista as suas
condições naturais, bastante complexa se apresenta a solução do
problema de suprimento de combustivel ás estradas de ferro. Ainda mais
acentuada se torna essa complexidade com o emprêgo sempre crescente que
as companhias ferroviárias vêm dando aos combustiveis fluidos, quer
pelo uso cada vez mais frequente de veiculos automotores nas suas
linhas, quer pela anexação de serviços rodoviários.
Só um estudo acurado poderá indicar quais as medidas aconselhaveis a
serem tomadas para incrementar a lavra das jazidas de combustiveis
minerais, racionalizar a exploração das florestas e adatar os
respectivos produtos ao consumo das via férreas. Afim de orientar os
interessados no sentido que a técnica demonstrar o mais conveniente,
cumpre ao Estado promover esses estudos, procurar centralizar e
coordenar os que, oriundos de iniciativas particulares ou oficiais, se
achem dispersos e inaproveitados.
A esse respeito é indicado instituir-se uma comissão composta de
elementos competentes e animados de espirito publico, a qual servirá de
elemento de ligação entre o Govêrno e as ferrovias, articulará um
trabalho de conjunto, promoverá dirétamente o estudo das questões mais
importantes e urgentes, sugerirá ao Govêrno programas de ação, dando
sempre preferências aos casos de solução prática mais imediata, sem
descurar, no entanto, dos que ofereçam possibilidades mais remotas.
3. Bastante vasto é o campo de ação onde a comissão poderá escolher os
temas a se estudarem e um apanhado esquemático dos casos de
combustiveis minerais e vegetais óra existentes auxiliará ó julgamento
da amplitude dos horisontes em que se têm de desenvolver os seus
trabalhos.
No caso dos combustiveis minerais a comissão, pondo de lado a
questão
da existência de petróleo no sub-sólo de São
Paulo, assunto que, por
sua magnitude não deverá entrar no ambito de sua
atividade, poderá
apreciar o mérito das jazidas de hulha e de linhito e a
possibilidade
da distilação de rochas piro-oleiferas para a
produção de óleo. Quanto á hulha, tem-se
conhecimento de sua ocorrência das camadas
inferiores do sistêma de Santa Catarina em São Paulo;
pouco se sabe,
porém, do valôr indutrial das jazidas. As camadas de hulha
desenvolvem-se em áreas limitadas, bacias compreendidas entre as
formações glaciais de série inferior, das quais
duas despertam maior
interesse: a bacia do Paranapanema, entre esse rio o Taquari e o Verde,
e a bacia do Tietê, denunciada por diversos afloramentos,
possivelmente
continuos, que se extendem desde o norte do Municipio de Tatui
até o
vale do Capivari, para terminar talvez no Municipio de
Monte-Mór. De
grande interesse seria o conhecimento do valor económico dessas
bacias,
que se recomendam pela sua localização; para isso faz-se
mistér a
aquisição dos dados relativos á espessura,
profundidade e extensão das
camadas, á composição do carvão e aos
possiveis meios de adução do
combustivel ás vias férreas. Desses dados, cuja
obtenção exige a
execução de levantamentos geológicos e de
sondagem, decorrerá o
conhecimento da aproveitabilldade económica das Jazidas.
Resolvida
afirmativamente essa questão, restaria discutir a
conveniência de
beneficiar o carvão, estudar os respectivos processos e a
adaptação dos
aparelhos á queima dêsse combustivel. Os estudos assim
feitos mostrarão
se é ou não aconselhavel a mineração da
hulha em São Paulo. Em caso
negativo, haveria ainda a considerar as bacias hulheiras do norte do
Paraná, nos arredores de Wenceslau Braz e no vale do rio do
Peixe.
Quanto ao linhito terciário só se conhece a ocorrência na bacia do
Caçapava. Tudo indica a conveniência de utilização desse combustivel a
industrias locais, pois sua naturesa e localisação parecem torná-lo
menos interessante sob o ponto de vista do suprimento das ferrovias do
Estado.
Relativamente ás rochas piro-olei feras existem em São Paulo
ocorrencias de folhelhos betuminósos no terciário do vale do Paraiba e
no andar Iratti do sistêma de Santa Catarina, além de arenitos
betuminósos presentes em assentadas superiores do mesmo sistema. O
assunto merece acurado estudo, embora não seja possivel garantir de
antemão que a lndustria de extração de óleo dessas rochas possa se
tornar vantajosa em concorrencia com os petróleos naturais importados.
Conviria, mediante levantamentos geológicos, localizar as ocorrências
mais interessantes sob o ponto de vista de transporte. Essas
ocorrências seriam sujeitas a estudos detalhados para certificar a
reserva disponivel, a composição do material e as condições de lavra.
Estudos de laboratório e em escala semi-industrial esclareceriam quais
os processos de tratamento mais adequados e a produção unitária
possivel de ser obtida. Não se deverá perder de vista a composição do
produto, os processos de refino e os rendimentos.
Não convirá pôr de lado o estudo do enobrecimento dos combustíveis
pobres, cujos processos, com o emprego da hidrogenação, cada vez mais
os aperfeiçôam, adotado correntemente na prátida industrial de muitos
pal'ses. Quanto aos combustíveis vegetais, a parte relativa á questão
florestal já está sendo focalizada por várias organizações
especializadas, cabendo apenas á Comissão incentivar o reflorestamento.
Digno de estudo da Comissão será, sobretudo, o problema do racional
aproveitamento das florestas como lenha, quer utilizadas dirétamente,
quer depois da carbonização ou gasei'ficação prévias.
Dentro dessa ampla esfera de atividade, a Comissão solicitará a
colaboração dos departamentos técnicos estaduais e poderá mesmo
empreender dirétamente tarefas de caracter mais especializado e
premente, de acôrdo com programas que submeterá á aprovação do Govêrno.
De sua ação coordenadora concluirá medidas tendentes a melhorar as
atuais condições do suprimento de combustível ã viação férrea do
Estado, para sugeri-las ao Estado.
São estas, em despretensiósa si'ntese, Senhor Interventor, as razões
justificativas do projéto de decreto que tenho a honra de submeter á
alta decisão de Vossa Excelência, creando uma Comissão especial para o
estudo do suprimento de combustível á viação férrea do Estado, medida
essa que, por certo, Vossa Excelência amparará com o descortino que tem
revelado no trato dos negócios da administração, visando sempre o bem
pu'blico.
Reitero a Vossa Excelência os protestos de minha elevada consideração e aprêço.
Ary Frederico Torres.
A' Sua Excelência o Senhor Doutor José Joaquim Cardozo de
Mello Neto, Interventor Federal no Estado de São Paulo.