Do interior paulista para a história aviação: 100 anos da travessia de João de Barros

Jauense comandou a primeira travessia aérea do Atlântico sem escalas quando a aviação ainda dava seus primeiros passos e projetou o Brasil ao mundo
16/10/2026 18:32 | História de São Paulo | Louisa Harryman - Fotos: Tom Oliveira, Acervo Museu de Jaú e JCMA

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Hidroavião Jahu<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-10-2026/fg367480.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Monumento em homenagem ao aviador em Jaú<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-10-2026/fg367467.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Comandante João Ribeiro de Barros<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-10-2026/fg367469.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

Há cem anos, o paulista João Ribeiro de Barros decolou a bordo do hidroavião Jahu para realizar a primeira travessia aérea do Oceano Atlântico sem escalas, em um feito pioneiro para a aviação mundial. A conquista colocou São Paulo em destaque na história da aviação e marcou a participação brasileira em um dos grandes desafios tecnológicos da época.

O hidroavião de modelo Savoia-Marchetti modelo S-55 foi nomeado em homenagem à cidade em que o piloto nasceu, Jaú, no interior paulista. De família rica ligada à cafeicultura,  João Ribeiro de Barros usou parte da sua herança para adquirir a aeronave, que precisou passar por muitas reformas até estar pronta para a travessia.

Com os conhecimentos técnicos sobre voo e mecânica aeronáutica aprendidos na França e Estados Unidos, o piloto decolou de Gênova, no litoral da Itália, em 18 de outubro de 1926. Além de Ribeiro, a tripulação era formada por outras três pessoas: o copiloto Arthur Cunha, o mecânico Vasco Cinquini e o navegador Newton Braga.

Rumo às terras brasileiras

Logo no começo do percurso, a equipe enfrentou uma série de dificuldades que colocou em risco o sucesso da missão. Ocorreram falhas nos motores e suspeitas de sabotagem na aeronave, com relatos de substâncias como sabão, terra e água encontradas no combustível.

Os contratempos obrigaram à interrupção da viagem em alguns pontos durante o primeiro mês. A pausa mais longa foi na ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde João de Barros contraiu malária, o Jahu passou por um longo conserto e conflitos internos levaram à troca do copiloto, com João Negrão assumindo o posto.  

Foi apenas em 28 de abril de 1927, após mais de cinco meses na ilha africana, que a tripulação saiu de Cabo Verde rumo às terras brasileiras. Após 12 horas de viagem, João de Barros pousa em Fernando de Noronha, marcando o trajeto oficial da primeira travessia do Atlântico pelos ares, sem navios de apoio ou escalas.

Nos meses seguintes, o Jahu ainda fez escalas em Natal, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos, antes do pouso final em São Paulo, no dia 1º de agosto. A tripulação foi recebida com festa, especialmente na Capital paulista e em Santos, marcada por grandes manifestações de entusiasmo de civis e militares.

Repercussão nas mídias

Na década de 1920, a aviação despertava atenção mundial e simboliza um grande progresso tecnológico. As expectativas antes da travessia de João de Barros, assim como os preparativos da viagem, eram acompanhadas pela imprensa brasileira. Apesar da torcida e da oportunidade de projetar o nome do Brasil internacionalmente, a mídia demonstrava dúvidas sobre o sucesso da viagem devido aos problemas técnicos e à falta de apoio oficial.

Após o sucesso da travessia, a imprensa ampliou a divulgação do feito, e os aviadores receberam homenagens e manifestações populares em diferentes cidades brasileiras. A recepção da tripulação na Força Pública (atual Polícia Militar do Estado de São Paulo) foi capa do jornal Estado de S. Paulo em 7 de agosto de 1927, que a descreveu como "carinhosa manifestação".

Para Murilo Ronchesel, Secretário de Cultura e Turismo de Jaú, o feito tornou-se também um símbolo de identidade e orgulho municipal. "A conquista despertou orgulho cívico, pois um cidadão jauense havia alcançado destaque na história da aviação", diz.

Marco histórico

Realizada em um período de início e desafios para a aviação, a travessia de João de Barros representou um marco importante para o desenvolvimento das viagens aéreas de longa distância. O primeiro voo comercial no Brasil ocorreu apenas algumas semanas antes da chegada do Jahu, em 3 de fevereiro de 1927, ligando as cidades gaúchas Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande com um hidroavião Dornier Wal.

O Secretário explica que o feito colocou o país no centro do mundo e evidenciou a capacidade dos brasileiros em empreender. "A conquista projetou internacionalmente o nome do Brasil em um período no qual a aviação simbolizava progresso, inovação e desenvolvimento tecnológico", completa.

Hoje, o hidroavião Jahu integra o acervo do Museu da TAM, em São Carlos. O museu fechou em 2016, e parte dos itens será transferida para o Centro Cultural São Pedro, em Itu, para ficar em exposição.

No Museu Municipal José Raphael Toscano de Jahu estão expostos itens pessoais do aviador, como maleta de viagens, luvas e móveis de sua infância. Sobre a travessia, o acervo inclui uma hélice suplementar de madeira do Jahu, publicações da época e documentos históricos. "Esses objetos são testemunhos materiais da história e contribuem para a pesquisa, a educação e a valorização do patrimônio histórico e cultural do município", destaca Ronchesel.

Em homenagem ao aviador, um trecho da rodovia SP-225, que liga Jaú a Bauru, recebeu o nome de Comandante João Ribeiro de Barros.

Curta carreira política

Em 1936, o jauense foi eleito vereador da cidade de São Paulo pela Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento nacionalista, autoritário e de inspiração fascista liderado por Plínio Salgado. No entanto, o aviador não decolou na política - renunciou ao cargo em julho do mesmo ano, menos de um mês após assumir a posse.

Antes de concorrer ao cargo político, João de Barros havia participado ativamente da Revolução Constitucionalista de 1932. O aviador doou para a causa todas as honrarias em ouro que recebeu pela travessia do Atlântico.
 

alesp