Muito além do futebol: várzea forma atletas, cidadãos e sonhos em São Paulo
30/06/2026 00:01 | Esporte e Comunidade | Talis Mauricio - Fotos: Divulgação
Em meio ao clima de Copa do Mundo, quando a atenção se volta para estádios grandiosos e estrelas do futebol internacional, milhares de campos espalhados pelos bairros paulistas seguem desempenhando papel fundamental longe dos holofotes. É na várzea que crianças dão os primeiros chutes na bola, jovens encontram oportunidades de desenvolvimento e comunidades fortalecem laços de convivência e pertencimento.
A importância desse patrimônio esportivo e cultural é reconhecida oficialmente no Estado de São Paulo pela Lei 17.464/2021, aprovada pela Assembleia Legislativa, que instituiu o "Dia do Futebol Varzeano", celebrado em 30 de junho. A data busca valorizar uma tradição que atravessa gerações e que permanece como uma das principais portas de entrada para a prática esportiva no país.
"O futebol de várzea vai muito além da prática esportiva. Ele representa pertencimento, união comunitária e oportunidade. Em cada campo de bairro, encontramos histórias de superação, formação de valores e desenvolvimento de talentos. Valorizar o esporte é fortalecer nossas comunidades e oferecer perspectivas para as novas gerações", afirma o deputado Altair Moraes (Republicanos), um dos defensores do futebol varzeano na Alesp.
E se engana quem acredita que a várzea apenas revela talentos para o futebol. Quem convive no meio diz que ela forma cidadãos, afastando crianças e adolescentes da criminalidade, fortalecendo o senso de pertencimento, promovendo a convivência entre gerações, contribuindo para o combate ao racismo e mantendo vivas tradições da cultura popular brasileira. Além disso, são espaços de formação de árbitros, treinadores e lideranças comunitárias, funcionando como pontos de encontro e integração social.
Essa realidade pode ser vista no Clube da Comunidade (CDC) São Januário, no Campo Limpo (Zona Sul de SP). Ali, o ex-jogador profissional Evandro Rocha utiliza o futebol como ferramenta de transformação social para cerca de 70 crianças e adolescentes, entre 6 e 15 anos, atendidos gratuitamente.
Com passagens pela categoria de base do São Paulo e carreira profissional até 2010, Evandro decidiu levar para a comunidade os ensinamentos acumulados dentro dos gramados. Há dez anos atuando como professor no CDC, ele calcula já ter treinado e influenciado mais de mil jovens.
"Por ter sido jogador, consigo ter uma visão melhor do que é ser atleta. E sabemos que é difícil, nem todos conseguem. Então, pego minha experiência e passo para eles. Digo que é legal sonhar ser jogador, mas o nosso intuito mesmo é mostrar que, se o futebol não der certo, há outros caminhos possíveis e que a educação e o estudo também podem realizar sonhos", explica.
Os treinos acontecem três vezes por semana e também são abertos às mulheres. "O futebol de várzea ensina mais do que esporte. Ensina a cumprir horários, ter disciplina e respeito. Vejo o futebol de várzea como um espaço de inclusão, que mostra caminhos para esses meninos e meninas", afirma.
Mantido principalmente por doações de equipamentos esportivos, alimentos e contribuições esporádicas, o projeto busca ampliar sua atuação. O sonho de Evandro é oferecer novas oportunidades aos jovens da comunidade.
"Meu sonho mesmo era não ficar refém só do futebol. Queria ensinar outros esportes, como capoeira e jiu-jitsu, além de investir em oficinas e formação profissional. Mas para isso precisamos de apoio e patrocínio", ressaltou.

Desafios da várzea
A falta de investimentos é um dos principais desafios enfrentados pelo futebol de várzea em São Paulo. Muitos espaços convivem com problemas de infraestrutura e ausência de políticas públicas permanentes.
Para a Federação Paulista de Futebol Varzeano (FPFV), o caminho para fortalecer a modalidade passa pela criação de condições que garantam sua continuidade e valorização sem descaracterização da essência popular.
"O futuro da várzea não está em deixá-la profissional, mas em torná-la digna, protegida e organizada sem deixar de ser do povo", afirma Márcio Cabral, diretor de Relações Institucionais da FPFV.
Entre as medidas consideradas prioritárias, ele aponta a proteção dos campos históricos, a ampliação de parcerias entre poder público e comunidades para a manutenção dos espaços esportivos, a criação de mecanismos de proteção aos atletas amadores e o fortalecimento institucional da Federação como entidade responsável por organizar e representar o setor.
Um avanço ideal, segundo Cabral, se daria com a criação de um Programa Municipal e Estadual de Proteção dos Campos de Várzea, prevendo o tombamento de áreas históricas, contratos de uso de longo prazo para ligas e clubes e parcerias público-comunitárias para a manutenção de gramados, vestiários e iluminação dos campos e espaços de convivência.
A preservação dos campos é apontada como uma questão urgente, já que, com o avanço da expansão urbana e da especulação imobiliária, diversos espaços tradicionais da várzea desapareceram nas últimas décadas.
"Quando um campo de várzea desaparece para dar lugar a um empreendimento imobiliário, não se perde apenas um espaço esportivo. Perde-se um ponto de encontro, uma memória coletiva e uma rede social construída ao longo de gerações", destaca Cabral.
Outro desafio é estruturar o ambiente da várzea. A proposta defendida pela Federação inclui a organização de calendários, a digitalização de cadastros de atletas e equipes e programas voltados à formação de árbitros, dirigentes e lideranças comunitárias.
"O futebol de várzea salva vidas e é, comprovadamente, um instrumento de transformação social. Mas não apenas porque tira crianças e jovens das ruas. Ele cria pertencimento, identidade, redes de apoio, oportunidades e fortalece comunidades inteiras", conclui o porta-voz da federação.
História centenária
Enquanto um estádio pode reunir milhares de pessoas por algumas horas, os campos de várzea reúnem famílias inteiras durante décadas. Mais do que uma modalidade esportiva, a várzea se consolidou como um dos principais espaços de convivência, identidade e pertencimento das comunidades brasileiras.
O futebol de várzea surgiu no final do século XIX, quando trabalhadores, imigrantes, negros, operários e moradores das periferias passaram a ocupar terrenos livres, margens de rios e áreas urbanas ainda não planejadas para praticar o esporte.
Em São Paulo, segundo a Federação Paulista de Futebol Varzeano, um dos marcos históricos ocorreu na antiga Várzea do Carmo, região central da capital, onde foram disputadas algumas das primeiras partidas de futebol registradas no país. O próprio termo "várzea" tem origem nesses espaços localizados em áreas alagáveis dos rios, especialmente às margens do Tietê e do Tamanduateí.
Com o passar do tempo, a palavra deixou de designar apenas uma característica geográfica e passou a representar uma manifestação cultural profundamente ligada à história do futebol brasileiro.
"Enquanto o futebol profissional seleciona poucos vencedores, a várzea acolhe milhares de pessoas. Em um time de várzea convivem crianças e idosos, trabalhadores e estudantes, homens e mulheres, diferentes religiões e origens, moradores de um mesmo território. Essa convivência cria laços sociais que dificilmente seriam construídos em outros ambientes", aponta Márcio Cabral.
A várzea também ocupa lugar na história da população negra no futebol brasileiro. Muito antes de os clubes profissionais abrirem espaço de forma ampla para atletas negros, os campos de bairro já funcionavam como territórios de inclusão, protagonismo e resistência, destaca a FPFV.
Em tempos de Copa do Mundo, quando o país volta seus olhos para o futebol, os campos de várzea seguem lembrando que a força do esporte também nasce nos bairros, nas comunidades e nas pessoas que fazem do futebol uma ferramenta de cidadania.
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