Povos de Avaí, considerado município 'mais indígena' do estado, lutam para manter cultura viva
03/07/2026 18:00 | Povos indígenas | Gabriel Eid - Fotos: Acervo Chicão Terena, Gleidson Marcolino, Creiles Marcolino e Daniela Machado
Os Terena e Kaingang começaram a chegar no território apenas a partir dos anos 1930, por ação do SPI. Com a pandemia da Gripe Espanhola, grande parte da população da Terra Indígena, pertencente aos Guarani, foi dizimada pela doença. Isso fez com que o território ficasse despovoado e vulnerável a invasores.
"Na época o governo trouxe as primeiras famílias [vindas do Mato Grosso do Sul] no sentido de fixar um povo indígena para segurar o território que estava sendo invadido por sitiantes e posseiros", afirma o cacique Chicão Terena, da Aldeia Kopenoti. Os povos que chegaram também estavam familiarizados com as novas formas de trabalho impostas pelo SPI, como derrubada de madeira, plantação de café e mandioca.
Dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), como parte do Censo de 2022, revelaram que um município de 4.483 habitantes do Interior é a cidade, proporcionalmente, com mais indígenas do estado de São Paulo. 15,1% da população de Avaí, da região de Bauru, se declara indígena, totalizando 677 pessoas.
A zona rural da cidade abriga a Terra Indígena Araribá, que foi demarcada no ano de 1910 pelo extinto Serviço de Apoio aos Índios (SPI), que décadas depois se transformou na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Três etnias predominam na T.I. Araribá: os Terena, os Kaingang e os Guarani.
O cacique conta que, nos primeiros anos, as diferentes etnias viviam no mesmo aldeamento e tiveram que lidar com diferenças culturais e religiosas. "Cada grupo se organizava com os cânticos, danças e tradições de cada povo. Cada um respeitava sua cultura." Segundo ele, foi nos anos 1980 que as aldeias se dividiram na Aldeia Nimuendaju, concentrando os Guarani, e na Aldeia Kopenoti, concentrando os Terena e os Kaingang.
Pouco depois se dividiram em mais duas: Ekeruá, predominantemente Terena, e Tereguá, unindo Terena e Guarani. Atualmente, os povos realizam integrações que reúnem as quatro aldeias. Um exemplo são os campeonatos de futebol amador que são realizados nos finais de semana, quando os times das modalidades feminina e masculina de toda a Terra Indígena têm a oportunidade de competir.

Cultura e tecnologia
Coordenador pedagógico da escola da Aldeia Nimuendaju, Gleidson Marcolino, defende que as atividades de integração são muito importantes, dentro ou fora da escola, respeitando as diferenças mútuas. "Cada aldeia se organiza fazendo as suas atividades. A escola é muito forte nessa questão de trazer os conhecimentos tradicionais", afirma.
O cacique Chicão explica que grande parte da vida da comunidade acontece dentro da Terra Indígena, desde lazer, esportes, saúde, educação e subsistência. "A nossa relação com a cidade é um pouco distante. A não ser quando os parentes indígenas vão à cidade para comprar alguma coisa ou receber um benefício. Mas a concentração e permanência quase todo o tempo é dentro da aldeia", destaca.
Apesar desta relação distante, o líder indígena aponta que a convivência com os demais habitantes de Avaí é pacífica e livre de conflitos por territórios. Segundo ele, a principal dificuldade está em manter viva as tradições em meio às rápidas mudanças do mundo digital. "Atualmente a tecnologia está atraindo bastante não só as crianças, mas a comunidade como um todo", explica Gleidson Marcolino.
Cacique Chicão defende que a principal preocupação é fazer com que o mundo conectado não anule as atividades tradicionais. "Com os avanços da tecnologia, a gente acaba tendo uma preocupação no sentido de como será a aldeia daqui 20 anos e qual a perspectiva principalmente com relação à cultura", afirma.
Por outro lado, a diretora da escola da Aldeia Kopenoti, Daniela Machado, aponta que, se usada de maneira correta, a tecnologia pode ser uma aliada na propagação da cultura indígena. "Lutar contra algo que é gigante é bem complicado. A gente busca trazer isso a nosso favor", defende.
A professora ressalta que o uso correto das plataformas digitais precisa ser ensinado nas escolas indígenas, da mesma forma como em outras escolas. "Para que eles entendam que a internet também não é uma terra sem lei e que nós - indígenas ou não - podemos ter consequências por usar a tecnologia mal", pontua.

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