Opinião - Saneamento: vergonha básica num ranking negativo
Em questão de saneamento, o Brasil convive com uma vergonha básica: no ritmo atual, segundo estudo publicado na revista Veja, edição da segunda semana de dezembro último, por Otto Von Sothen, presidente do Conselho Curador do Instituto Trata Brasil ¿ nosso país só conseguirá oferecer água potável e tratamento de esgoto na metade do século 21, vinte anos depois da meta assumida com a ONU (Organização das Nações Unidas) em 2015. É o triste retrato de um país gigante, com mais de 207 milhões de habitantes, no qual metade da população não tem esgoto e somente 42% dos esgotos existentes recebem algum tipo de tratamento, com mais de 34 milhões de cidadãos sequer tendo acesso à água tratada. Pior ainda: no ranking global do Banco Mundial, em termos de saneamento, ocupamos a vergonhosa 102ª colocação.
Por esse estudo ficamos sabendo que, segundo o Plano Nacional de Saneamento Básico ¿ conhecido pela sigla Plansab ¿ o Brasil precisaria de cerca de R$ 300 bilhões para universalizar, em 20 anos, a água e o esgoto. Ao contrário, porém, do que seria óbvio, a tendência de crescimento das despesas públicas com saneamento (envolvendo União, Estados e munícipios) foi brutalmente revertida a partir de 2013. Em 2016, por exemplo, o pior ano desde 2007, os gastos ficaram apenas em R$ 18 bilhões. Já para este ano de 2018 o orçamento federal prevê um gasto com saneamento da ordem de R$ 941 milhões. Considerando-se o período de 2007 a 2016, só 69,3% das despesas foram empenhadas e apenas 49,7% efetivamente realizadas. Gasta-se assim, cada vez menos em saneamento, deixando o Brasil parado no século passado.
Ao tornar-se signatário dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, em 2015 ¿ envolvendo, entre outros, a erradicação da pobreza, segurança alimentar, água e saneamento ¿ o Brasil comprometeu-se a ¿assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável de água e saneamento para todos¿ até 2030. Em outras palavras: prometeu oferecer, em 15 anos, acesso universal e equitativo a água e esgoto para todos os brasileiros.
Uma meta ¿ avalia o Instituto Trata Brasil ¿ improbabilíssima se nada for feito. Os números das 100 maiores cidades brasileiras mostram que elas avançaram, nos últimos 10 anos, menos de um ponto porcentual nos indicadores de água e esgoto tratados. Nessa marcha, o Brasil levará mais de 40 anos para universalizar o saneamento ¿ com sorte, 20 anos após o prazo assumido com a ONU. O país caminha, portanto, para chegar à metade do século 21 com parte de sua população sem acesso a itens tão básicos como água e esgoto.
Para quem acha saneamento caro, é importante constatar: a erradicação do problema traria ganhos sociais e econômicos para a saúde. Teríamos, segundo esse estudo, 700 mil pessoas a menos internadas por doenças provocadas pelo esgoto não coletado e cerca de 2 mil óbitos anuais a menos por doenças relacionadas à falta de saneamento básico. Os cálculos vão ainda além ao projetarem que, no período de 2015 a 2035, a cada R$ 1 mil investidos em saneamento haveria um retorno para a sociedade da ordem de R$ 1,7 mil. Ou seja: os benefícios compensariam, amplamente, os investimentos efetuados.
Saneamento básico, assim, representa não apenas saúde, mas igualmente economia para o próprio contribuinte.
Welson Gasparini é deputado pelo PSDB e ex-prefeito de Ribeirão Preto.
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