Do interior paulista para o palco global: a genialidade de Candido Portinari nas paredes da ONU
11/09/2026 17:57 | Memória | Davi Molinari | Imagens cedidas pelo Museu Casa de Portinari | Divulgação Projeto Portinari | ONU
Há 70 anos, Candido Portinari e Cyro de Freitas-Valle, o então embaixador brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU), discutiam como seriam transportados com segurança dois painéis de cerca de 14 metros de altura por 10 de largura. As obras sairiam do ateliê do artista no Rio de Janeiro para a sede da ONU, em Nova Iorque, nos Estados Unidos.
Os painéis ficaram prontos em fevereiro de 1956 e tiveram uma curta exposição no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. De lá, as obras foram embarcadas em um cargueiro para Nova York, onde foram inaugurados em 6 de setembro de 1957.
Descrita pelo então secretário-geral da instituição, Dag Hammarskjöld, como a mais relevante obra de arte monumental doada à organização internacional, a criação em óleo sobre madeira compensada naval, dividida em duas peças, tem o peso total de duas toneladas e está exposta com os painéis um de frente para o outro, nas laterais do salão de acesso à Assembleia Geral da ONU.
A pintura exigiu do artista nove meses de intenso trabalho e uma entrega física e emocional sem precedentes, transformando-se no testamento visual definitivo de sua maturidade estética e de seu engajamento humanista.
Para dar forma a essa síntese colossal sobre os dilemas universais da humanidade, Candido Portinari desafiou deliberadamente recomendações médicas severas e restrições impostas por sua condição de saúde debilitada. O artista se dedicou de corpo e alma à empreitada, ignorando os alertas médicos repetidos sobre o avanço perigoso e irreversível do envenenamento causado pelo chumbo presente nas tintas que manipulava há décadas em seu ateliê.
O painel Guerra traduz com crueza dramática o desespero, o luto, a desolação, o sofrimento e o caos absoluto dos conflitos armados, estruturando-se por meio de uma paleta fria dominada por tons de azul-escuro e cinzas profundos que envolvem figuras de mães com crianças mortas, refugiados e símbolos da devastação humana, sem recorrer a representações de exércitos específicos ou cenas convencionais de vitórias militares.
Em contrapartida, o painel Paz exalta a harmonia coletiva, a infância, a fartura do campo, o trabalho digno, a música, a dança e a esperança na coexistência fraterna entre os povos. Na obra predominam tons luminosos, como amarelos dourados e ocres acolhedores.
Por ironia profunda da geopolítica e do clima político tenso da época, marcado vigorosamente pelo macartismo e pela paranoia anticomunista nos Estados Unidos, o artista acabou por ser impedido de viajar para a cerimônia solene de inauguração em solo americano devido à recusa arbitrária de concessão de visto político pelas autoridades locais.
Portinari jamais pôde contemplar presencialmente o resultado definitivo de sua obra-prima monumental no saguão principal da diplomacia mundial, carregando consigo a frustração de não ver sua mensagem de paz pisar o solo onde foi instalada.
A exigência tóxica e o desgaste físico extremo daquela produção colossal cobraram seu preço fatal anos mais tarde, culminando em seu falecimento precoce no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1962, aos 58 anos, vítima das complicações da intoxicação pelo chumbo.
Raízes em Brodowski, interior paulista
Para compreender a gênese profunda dessa alma universal, é necessário retornar às raízes modestas fincadas no interior do estado de São Paulo. Filho de imigrantes italianos humildes (Giovan Battista Portinari e Dominga Torquato Portinari), Candido nasceu em 1903 e passou sua infância em uma fazenda de café localizada no município de Brodowski.
Foi a partir desse cenário rústico, marcado pela poeira vermelha, pela aspereza e beleza das lavouras cafeeiras, pelo suor dos trabalhadores braçais e pela simplicidade das pequenas comunidades do interior paulista, que o jovem Portinari partiu ainda na adolescência rumo à capital paulista. Posteriormente, ele foi para a Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em busca do sonho de se consagrar na pintura.
A distância geográfica e o sucesso nos grandes centros urbanos jamais romperam o cordão que o ligava à sua terra natal. Ao contrário, todo o veio temático de sua pintura permaneceu eternamente ancorado àquelas experiências provincianas.
Museu Casa de Portinari
Essa ponte íntima entre o menino de Brodowski e o pintor de projeção universal encontra-se preservada de maneira visceral e tocante no Museu Casa de Portinari, instalado na antiga residência onde o artista passou sua juventude.
Logo na entrada do Museu, o visitante depara-se com um ambiente que resistiu ao passar das décadas. A disposição original dos cômodos da Casa foi rigorosamente mantida, revelando a modéstia, a sobriedade e o ritmo compassado da vida doméstica de uma família trabalhadora no início do século XX.
Ali estão conservados móveis de época originais, utensílios rústicos de cozinha, panelas de ferro, lamparinas a querosene e objetos pessoais que estruturavam o cotidiano íntimo daquela comunidade de imigrantes italianos.
As roupas simples e os pertences do dia a dia ajudam a desenhar o perfil humano de Portinari, um homem que manteve hábitos simples e uma conexão marcante com suas origens populares, mesmo quando já era reconhecido internacionalmente.
Mais do que funcionar como uma cápsula do tempo da residência em que Portinari viveu, as paredes, portas e divisórias de pau a pique e tijolo cru da própria construção transformaram-se no laboratório de experimentação estética e técnica do jovem pintor.
Portinari usava as paredes para testar livremente técnicas inovadoras de pintura mural, têmperas e afrescos. Mais tarde, essa experiência definiu a linguagem modernista inconfundível dos seus traços.
O Museu Casa de Portinari é um ponto turístico obrigatório para os amantes das artes. O espaço traduz o paradoxo perfeito entre a simplicidade do interior rural e a grandeza humana do artista cosmopolita.
Serviço
O Museu Casa de Portinari
Local: Praça Candido Portinari, nº 298, Centro, em Brodowski - São Paulo
Dias e horário de funcionamento: de terça-feira a domingo, das 9h às 18h; às quartas-feiras, o horário é estendido até às 20h
Entrada gratuita
Informações: (16) 3664-4284 ou museu@casadeportinari.com.br
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