Estado de São Paulo Transparência ALESP
20/01/2015 20:03

Professores defendem mudança de cultura na CPI do Trote Universitário

Na reunião de 21/1, espera-se a presença do reitor da USP, Marco Antonio Zago

Da Redação: Monica Ferrero Fotos: Roberto Navarro e Marco Antonio Cardelino


Download
Luiz Fernando Tofoli, Marco Aurélio de Souza, Adriano Diogo, Heloisa Buarque de Almeida e Maria Fernanda Peres

A Comissão Parlamentar de Inquérito que está investigando denúncias de violações aos direitos humanos nas universidades realizou na terça-feira, 20/1, sua 11ª reunião, quando foi realizada a oitiva de professores. Para a próxima reunião, na tarde de 21/1, é aguardada a presença do reitor da Universidade de São Paulo, professor Marco Antonio Zago.

O presidente da CPI, deputado Adriano Diogo (PT), lembrou que o reitor é formado em medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, o que dá peso a seu depoimento. Sua vinda mostrará ainda que a CPI não tem como objetivo desmoralizar a universidade.

Professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), Heloísa Buarque de Almeida contou que quando começou a lecionar na área de teoria de gênero, há cerca de três anos atrás, passou a ouvir relatos de violência sexual na universidade, ligada ao cotidiano acadêmico. Isso a fez se aproximar do programa USP Diversidade, do qual se tornou coordenadora no início de 2014.

A partir daí a professora Heloísa começou a receber denúncias de casos de estupro, de abuso físico e psicológico ocorridos no cotidiano das faculdades, nas repúblicas, festas e trotes. Então realizou uma pesquisa anônima entre os alunos, que confirmou que os casos ocorrem em todos os cursos e atingem alunos de ambos os sexos.

No casos de estupro, a situação é complicada, pois há tentativa de amenizar o ocorrido, culpando a vítima que teria se colocado em posição vulnerável por ter bebido, por exemplo. A vítima também se sente culpada, o que faz com que as denúncias não aconteçam.

Nos casos de violências em trotes, ela é "naturalizada" por ser "tradicional", e por vezes a vítima acaba sendo algoz no ano seguinte. "É preciso disseminar a educação sobre a cultura do consentimento, do valor do não, ", disse.

Para a professora Heloísa, falta à USP mecanismos para apoiar as vítimas. A apuração fica restrita às faculdades, e as comissões de sindicância são ineficazes, e não há um código de ética claro. É necessário o estabelecimento de uma ouvidoria externa aos cursos, especializada e autônoma, defendeu.

Projeto Quara

Professora de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, campus São Paulo, e coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Maria Fernanda Tourinho Peres falou da pesquisa, chamada Projeto Quara (Qualidade das Relações no Ambiente), que coordenou sobre a violência no ambiente universitário na Faculdade de Medicina da USP/São Paulo, que tinha como objetivo detectar os danos à saúde dos estudantes.

A premissa da pesquisa, feita online e de forma anônima, foram dados internacionais que apontam que os estudantes de medicina são mais propensos a terem problemas mentais como depressão e síndrome de burnout por conta das pressões do curso. Responderam ao questionário 30% dos alunos, sendo que 92% afirmaram ter sofrido pelo menos um episódio de violência física ou verbal na faculdade, de humilhação a violência sexual, e destes, 30% consideraram que o fato foi grave. A pedido do deputado Marco Aurélio de Souza (PT), a professora Maria Fernanda comprometeu-se a retornar à CPI para expor os detalhes da pesquisa.

Violência paulista

"A psiquiatria, infelizmente, não tem grandes explicações. Nesses casos a antropologia é mais útil", afirmou o professor de psiquiatria da Unicamp Luís Fernando Tófoli. Formado pela FMUSP, onde entrou em 1990, ele narrou sua breve participação no Show Medicina, por ter interesse na parte cultural, relatando ter sido vítima de violência.

Quanto estava no terceiro ano, Tófoli participou do centro acadêmico, quando começaram a ser veiculadas, nos jornais publicados pela entidade, críticas a tradições violentas e corporativas da faculdade, assim como o sexismo existente, o que levou a problemas com alunos do Show Medicina.

Em sua experiência, Tófoli constatou que em nível mundial ou nacional "não há tantos problemas de violência e hierarquização das relações como os existentes nas faculdades de medicina do Estado de São Paulo, embora esses mecanismos sejam os mesmos no mundo todo". No caso da Intermed, a realidade violenta dos jogos entre as faculdades de medicina paulistas não encontra eco no Brasil.

Para Tófoli, é possível mudar a cultura de violência que existe em São Paulo, e é muito bom o papel de denúncia dos coletivos. Outra mudança necessária é nas atitudes do corpo docente, que deve servir de exemplo.

Esperança de mudança

Também professor da Faculdade de Medicina, atualmente licenciado, e ex-participante da Congregação da USP, Paulo Saldiva também defendeu uma mudança institucional na universidade, ainda que demore anos para ser implementada totalmente. Para ele, as denúncias de violência na Faculdade de Medicina mostraram que ela "estava mais doente do que pensávamos", e deu-lhe o sentimento de fracasso enquanto professor, pois falhou no sentido de formação humana dos alunos.

Apesar disso, Saldiva acredita que a divulgação dos casos é uma oportunidade para que a faculdade melhore, pois na verdade é uma minoria que causa problemas, que não ficará mais impune. Outra mudança necessária é a diminuição das distorções que levam ao endeusamento de professores, alunos e da instituição. Espera que, a partir de 2015, essa mudança comece.

Para o deputado Marco Aurélio, os depoimentos mostraram que a CPI pode mudar a cultura de violência nas universidades. Mas considerou que também tem poder para que se mude a cultura da Assembleia Legislativa, que não cumpre seu papel de fiscalizar o Executivo.

Marco Aurélio de Souza e Adriano Diogo Luiz Fernando Tofoli, professor de psiquiatria da Unicamp Heloisa Buarque de Almeida, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) Maria Fernanda Peres, coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP Paulo Saldiva,professor da Faculdade de Medicina da USP Público presente na reunião