Era Vargas é marcada pela industrialização e por avanços nas legislações Eleitoral e Trabalhista

80 anos da revolução de mudou o Brasil
13/10/2010 21:09

Getúlio Vargas é homenageado por grupo de mulheres em sua chegada no Rio <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/10-2010/REVOLUCAOde30getuliovargasNOrioEM31-10.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Julio Prestes <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/10-2010/REVOLUCAOde30julioprestesEvitalsoares.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Getúlio Vargas (3º à esquerda) no momento da posse <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/10-2010/13 - 2 - getulio vargas assume o poder.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Navio Alcântara que levou Washington Luiz ao exílio <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/10-2010/REVOLUCAOde30alcantara.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Washington Luiz deixa o Forte de Copacabana rumo ao exílio <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/10-2010/13 - 3 - REVOLUCAOde30washingtonParteParaExilio.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Tropas gaúchas amarram seus cavalos no obeslisco da avenida Rio Branco <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/10-2010/REVOLUCAOde30obelisco.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

A chegada do novo chefe da nação foi precedida das tropas gaúchas que resolveram amarrar seus cavalos no obelisco localizado no início da avenida Rio Branco, simbolizando assim a triunfal tomada do poder. Após trocar vários telegramas com a Junta Militar, e o envio de Oswaldo Aranha como emissário para negociar sua posse, Getúlio Vargas chegou de trem à capital federal, com seu alto comando e mais tropas, no dia 31 de outubro, e exatamente um mês depois do início da revolução, ficando hospedado na ala residencial do Palácio do Catete, e em 3 de novembro, tomou posse como chefe do governo provisório.

Antonio Carlos Ribeiro de Andrada afirmou na ocasião ao novo ministro das Relações Exteriores, Afrânio de Melo Franco, que "talvez, dentro de dez anos, deveriam os mineiros fazer outra revolução, desta vez para arrancar Getúlio do poder". Na realidade seriam cinco anos a mais, no total de quinze anos.



O exílio de Washington Luis



A decisão de mandar para o exílio vários políticos do antigo regime entre eles Washington Luis, já havia sido tomada pelos próprios integrantes da junta, e, ao assumir o poder, Getúlio Vargas referendou a medida. O ex-presidente deixou o Forte de Copacabana às 12h45 de 20 de novembro de 1930, chegando ao Forte de São João, localizado na Urca, quinze minutos depois, onde aguardou em companhia do ex-ministro da Guerra, general Nestor Sezefredo Passos, e o antigo prefeito do Distrito Federal, Antonio Prado Júnior, a lancha Alfredo Pinto, da Polícia Marítima, que os levaria ao encontro do luxuoso transatlântico britânico Alcântara, da The Royal Mail Steam Packet Company, mais conhecida no Brasil como Mala Real Inglesa. Sua esposa Sofia embarcaria no porto, e seus filhos Caio Luis, acompanhado da esposa, Victor Luis, Maria, com seu marido Firmino Pires de Melo, e Jorge Prado, pela lateral do navio, que ainda estava atracado, descendo de uma lancha que os levaria do centro da cidade pela baía da Guanabara.

Na outra lancha que iria levar os exilados ao encontro com o navio inglês estava o delegado auxiliar Joaquim Pedro de Salgado Filho, que posteriormente seria o primeiro ministro da Aeronáutica do Brasil e senador da República, acompanhando de dois investigadores e do subinspetor da Policia Marítima, Agostinho José Marques Porto, renomado autor teatral, compositor, e parceiro de Ari Barroso e Luiz Peixoto.

Deveriam também embarcar o ex-diretor do Banco do Brasil, Carvalho Brito, com sua esposa, e o ex-presidente da República, Fernando de Melo Viana, mas não o fizeram. Mas escoltado por dois agentes da polícia, foi conduzido a bordo o ex-deputado federal por Pernambuco José Pessoa de Queiroz.

Tendo o Alcântara chegado ao Rio de Janeiro com atraso, acabou deixando o porto somente as 18h05. O navio logo depois parou suas máquinas na altura do morro do Pão de Açúcar. Já era noite quando o antigo presidente embarcou, às 18h20, por uma escada colocada no lado boreste (direito), no primeiro deck (andar) da embarcação, a sua disposição estava uma cabine, de nº 11, considerada de "meio luxo", provida de banheiro, de uma saleta para escritório e até um rádio.

O general Nestor Passos acabou causando um problema ao embarcar, quando se deram conta que ele não tinha passagem e quanto menos passaporte. Salgado Filho se viu obrigado a afiançar ao comandante do navio da Mala Real, que o governo se comprometia em pagar a passagem do militar e que a embaixada brasileira em Lisboa, providenciaria o passaporte.

A bordo, Washington Luis negou-se a dar entrevista aos jornalistas que seguiam junto, e dedicou-se seu tempo à leitura de um livro sobre os santos da igreja Católica. Somente uma semana depois é que o correspondente do jornal A Noite, conseguiu umas poucas palavras do ex-presidente, que afirmou: "o senhor compreende a minha situação". Depois de um silencio, prosseguiu: "Eu não posso, eu não posso falar."

Ao tomar conhe­cimento através do jornal de bordo sobre decisão do novo governo em mandar também para o exílio o ex-futuro presidente eleito Julio Prestes, Washington Luis ficou transtornado, permanecendo recluso em sua cabine, e à noite, com uma fisionomia visivelmente abatida, acabou se retirando no meio do jantar.

Em 30 de novembro, quando o navio chegou a Funchal, capital da Ilha da Madeira, o ex-presidente brasileiro fez entregar aos jornalistas que o aguardavam uma declaração escrita na qual agradecia as mensagens de saudação que os principais jornais de Portugal haviam lhe enviado. Informou que desde sua destituição, ficara detido e posteriormente fora embarcado diretamente no navio, que não havia recebido qualquer noticia do Brasil e que, por enquanto, não faria qualquer declaração à imprensa.

Em 5 de dezembro, o Alcântara atracou no porto frances de Cherburgo, sendo Washington Luis e sua família recebidos por um pequeno grupo de amigos, partindo em seguida com destino a Paris.



Julio Prestes e a revolução



Julio Prestes não tinha mais residência na capital paulista. Homem do interior, tinha sua propriedade na cidade de Itapetininga, e com a sua posse no cargo de presidente da República marcada para 15 de novembro, estava hospedado nos Campos Elíseos.

O presidente eleito acompanhou os acontecimentos em São Paulo, e quando chegou a notícia da destituição de Washington Luis pela chamada Junta Pacificadora, estava no palácio dos Campos Elíseos, em companhia do vice-presidente no exercício do cargo, Heitor Teixeira Penteado, do secretariado, de políticos e alguns amigos.

Após varias horas de conversação ficou resolvido que seria lógico entregar o governo estadual para o general Hastinfilo de Moura, comandante da 2ª Região Militar, sediada em São Paulo. Chamado à sede do Executivo, ele ouviu de Julio Prestes e de Heitor Penteado o entendimento que tinham em virtude dos fatos ocorridos no Rio de Janeiro naquele mesmo dia. A princípio ele recusou a proposta, entendendo que não cabia a ele esse encargo, mas após ponderações dos presentes, o militar solicitou que fosse elaborado um documento, que foi feito em uma papel timbrado do Gabinete do Presidente do Estado de São Paulo, datado de 24 de outubro de 1930, com o seguinte teor, mantendo-se a grafia original:



Exmo. Sr. General Hastimphilo de Moura,

M.D.Commandante da 2ª.Região Militar,



Desde o inicio da revolução que vem conflagrando o país puz á disposição de V. Excia., por intermedio do Governo da União, para della fazer uso, segundo as conveniências militares que melhor entendesse, a Força Pública do Estado.

Esta, por sua vez, em face dos recentes acontecimentos verificados no Rio, se promptificou a collaborar com o exercito Nacional, nesta Região Militar, na manutenção da paz, da ordem publica e na garantia da propriedade, direitos e interesse de todos.

Sendo necessário, para o completo êxito desse objetivo, que uma única direcção oriente as duas forças militares, e desejando cooperar nesse elevado propósito, para a felicidade e a tranqüilidade da terra paulista, venho pedir a V.Excia. para assumir o Governo do Estado, já que o momento não comporta um solução constitucional em face do movimento revolucionario, victorioso no Rio de Janeiro.

Certo de sua V.Excia. não se recusará prestar a São Paulo e ao paiz mais esse relevante serviço, tenho a honra de subscrever-me,

Heitor Penteado

Fabio de Sá Barreto, secretário do Interior

Fernando Costa, secretário da Agricultura

Antonio Carlos de Salles Junior, secretário da Fazenda e do Thesouro

Jose de Oliveira de Barros, secretário da Viação e Obras Públicas

Mario Bastos Cruz, secretário da Justiça e Segurança Pública



Assumindo o governo estadual o general Hastinfilo, preocupou-se com a sorte de Julio Prestes, principalmente no tocante a sua integridade física. Grande parte das tropas da Força Pública haviam aderido aos revolucionários, e a cidade tinha sido tomada por uma turba que empastelou vários jornais, como A Gazeta, Correio Paulistano, A Fanfulla. O clube Republicano, do Partido Republicano Paulista (PRP), que se localizava no prédio Martinelli, teve sua instalações destruídas, sendo os móveis e documentos jogados na rua e incendiados, sem que houvesse qualquer atitude das autoridades policiais em coibir os abusos.

Hastinfilo queria que Julio Prestes estivesse em segurança. À noite resolveu entrar em contato com o cônsul da Inglaterra em São Paulo, Arthur Abbott, que prontificou-se em receber o presidente eleito do Brasil em sua residência, localizada no Jardim América, na condição de asilado, com todas as garantias da coroa britânica, e ainda a buscá-lo pessoalmente no palácio do governo.

A espera foi angustiante, a autoridade inglesa não chegava e as horas iam passando. Várias ligações foram feitas para a casa do representante do coroa britânica, e sua esposa informava que ele já havia saído. Já se aproximava o alvorecer e o cônsul não havia aparecido, então o general resolveu levar Julio Prestes em seu automóvel escoltado por outro veiculo com soldados do Exército.

Logo após chegarem a residência de Abbot, tomaram conhecimento de que o veículo do cônsul havia tido problemas mecânicos e, no adiantado da hora, não havia conseguido socorro. Julio Prestes permaneceu na residência do representante inglês em São Paulo por um mês, quando, no final da tarde de 24 de novembro, em um comboio de três veículos, seguiu pela rua Bela Cintra, rumo da estação de Guayauna " a mesma que em 1924 seu antecessor no governo de São Paulo, Carlos de Campos, se refugiou durante a revolução de 5 de julho ", onde embarcou em um vagão reservado, anexado ao noturno das 19 horas da Estrada de Ferro Central do Brasil, com destino ao Rio de Janeiro, em companhia do cônsul, de seu filho Fernando Prestes Neto, de um oficial do Exército, e de uma escolta policial, para receber seu passaporte e seguir para o exílio.

Às 8h da manhã, o trem chegou à estação D. Pedro 2º, na capital federal, onde foi recebido por jornalistas e curiosos, entre eles um grupo de garotos que pronunciavam jocosamente a letra da música de autoria do compositor, pianista e autor teatral Francisco José Freire Júnior "Seu Julinho vem...", gravada no ano anterior por Francisco Alves. A marchinha de grande sucesso, inclusive no carnaval, havia sido composta para enaltecer o "futuro" presidente da República, e fazia uma crítica bem-humorada ao presidente de Minas Gerais, Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, o Toninho, pretenso candidato a presidência também.



Ó Seu Toninho

Da terra do leite grosso

Bota cerca no caminho

Que o paulista é um colosso

Puxa a garrucha

Finca o pé firme na estrada

Se começa o puxa-puxa

Faz do seu leite coalhada

Seu Julinho vem, Seu Julinho vem

Se o mineiro lá de cima descuidar

Seu Julinho vem, Seu Julinho vem

Vem, mas custa, muita gente há de chorar

Ó Seu Julinho, tua terra é do café

Fique lá sossegadinho

Creia em Deus e tenha fé

Pois o mineiro

Não conhece a malandragem

Cá no Rio de Janeiro

Ele não leva vantagem



Da Central do Brasil, foram todos para a sede da embaixada britânica, localizada na rua do Curvelo, no bairro de Santa Tereza. Lá chegando Julio Prestes foi identificado pelas autoridades da Polícia Marítima e de Fronteiras para a concessão de seu passaporte, e no mesmo dia, 24 de novembro de 1930, pouco antes das 13h, dirigiram-se para a Polícia Portuária, no centro do Rio, onde embarcaram na lancha Alfredo Pinto, a mesma que havia conduzido Washington Luis, dias antes, para o navio que o levou à Europa. A lancha encostou na lateral do transatlântico Highland Princess, pertencente a Nelson Line, mas administrado pela Mala Real Inglesa, que o aguardava atracado no armazém nº 10 do cais do porto.

Ele deixou a pequena embarcação e entrou pela escada lateral do navio, evitando assim qualquer contato com as pessoas que o aguardavam na estação de passageiros do Touring Club do Brasil. Sua bagagem, em número de sete volumes, havia sido embarcada antes. Minutos depois das 13h, o navio inglês deixou o Rio de Janeiro com destino a Lisboa, levando Julio Prestes, seu filho Fernando e o adido naval da legação inglesa. Aos fotógrafos que conseguiram bater algumas chapas a bordo, ele disse em tom de pilheria: "Eu vou, mas volto logo..."

O navio chegaria à capital portuguesa em 8 de dezembro, quando Julio Prestes hospedou-se no hotel Avenida. Lá, o presidente exilado informou à imprensa que pouco tempo permaneceria em Lisboa, pois iria a Paris, mas que retornaria oportunamente para fixar residência.

Getúlio Vargas permaneceria no poder por 15 longos anos, primeiro como chefe do governo provisório, até 1934, quando foi eleito pelo Congresso Nacional presidente constitucional, com mandato até 1938, mas pouco antes em 10 de novembro de 1937, daria um golpe, implantando no Brasil, o Estado Novo, permanecendo como ditador até outubro de 1945, quando foi deposto pelos militares.

Voltaria ao poder pelo voto direto do povo brasileiro em 1951, permanecendo como presidente da República até o dia 24 de agosto de 1954, quando, em virtude de uma séria crise político-militar, suicidou-se com um tiro no coração.

Vargas foi o grande artífice da mudança radical na estrutura do país, que deixou de ser essencialmente agrícola e tornando-se industrializado, com a implantação da siderurgia no Brasil. No campo político, foi responsável pela criação da Justiça Eleitoral e do voto secreto. Outra grande obra de Vargas foi a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituída em 1943, e em vigor até os nossos dias, instituída em defesa da classe trabalhadora.

Washington Luis permaneceria exilado na Europa até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, passando a residir nos Estados Unidos, na cidade de Nova York. Retornaria ao Brasil somente em 1947, após a redemocratização. Faleceu na cidade de São Paulo, em 4 de agosto de 1957. Sua esposa Sofia havia morrido na Suíça no ano de 1934.

Julio Prestes ficou exilado na Europa até a promulgação da Constituição Federal de 1934. Regressando ao país, passou a dedicar-se exclusivamente à iniciativa privada em sua cidade, Itapetininga. Em 1945, apoiou a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes à presidência da República, participando inclusive do comício realizado no estádio do Pacaembu em seu apoio. Morreu na capital paulista em 9 de fevereiro de 1946.



* Antônio Sérgio Ribeiro, advogado, pesquisador e diretor do Departamento de Documentação e Informação da Assembleia.