Agosto de 1954 - A verdade da carta-testamento

(*) Antônio Sérgio Ribeiro
27/08/2004 18:07

Presidente Getúlio Vargas - foto oficial <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/hist/PresGetulio-fotooficial.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Clique para baixar a imagem" alt="O manuscrito a lápis tinha os seguintes dizeres: "À Sanha dos meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo a mágoa de não ter podido fazer pelos humildes tudo o que desejava"Clique para baixar a imagem"> Carta-testamento <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/hist/cartatestamentooriginal_1.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Presidente Getúlio Vargas com sua filha Alzira<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/hist/getulioalzira.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

Especial Getúlio Vargas - Agosto de 1954: 50 anos de uma tragédia brasileira

Ao finalizar a série de artigos, que retratou a seqüência de eventos ocorridos em agosto de 1954, o autor e o Diário da Assembléia esperam que os leitores tenham apreciado nossa contribuição à rememoração dos 50 anos da morte do presidente Getúlio Vargas, contando os fatos marcantes e tristes da história do Brasil e homenageando o maior estadista do século XX.

A VERDADE DA CARTA TESTAMENTO

Na noite da sexta-feira, 13 de agosto de 1954, após o regresso de Belo Horizonte, no Palácio do Catete, o ajudante de ordens de Getúlio Vargas, major da Aeronáutica Hernani Fittipaldi, ao cumprir suas obrigações de encaminhar os documentos já despachados pelo chefe da nação, encontrou sobre a mesa de trabalho no gabinete presidencial um bilhete escrito em um bloco de papel de memorando timbrado da Presidência da República, que pareceu ser a premissa de um pensamento. O manuscrito a lápis tinha os seguintes dizeres: "À Sanha dos meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo a mágoa de não ter podido fazer pelos humildes tudo o que desejava".

Preocupado com o achado, o major Fittipaldi levou ao conhecimento do major do Exército José Henrique Silva Acioli, seu colega na Casa Militar, que, ao ler, não teve dúvida em dizer que "era o bilhete de um suicida". À noite, quando chegou ao Palácio para acompanhar os desdobramentos do atentado ao jornalista Carlos Lacerda, que havia culminado com a morte do major Rubens Vaz, no dia 5 de agosto de 1954, dª. Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha do presidente, tomou conhecimento do bilhete.

Alzira, ao ler, olhou para o major e perguntou:

"Você está pensando a mesma coisa que estou pensando?"

A resposta do major:

"Dª Alzira, além de estar pensando a mesma coisa que a senhora está pensando, tenho a certeza de que aquilo que estamos pensado vai acontecer..."

D. Alzira, em companhia do major Fittipaldi, foi aos aposentos do presidente no 3º andar, que naquele momento dormia, para procurar algum outro documento. Dª Alzira tirou os sapatos para não fazer barulho, mexeu nas gavetas da mesinha de cabeceira e no armário, acordando seu pai Getulio Vargas, que indagou:

"O que estão fazendo aqui no meu quarto?"

Ele sentou na cama e ela mostrou o bilhete. Ao tomar conhecimento do que se tratava, o presidente ficou em pé e indagou:

"Que você tem de andar bisbilhotando nos meus papéis?"

E Alzira respondeu entregando a ele a folha do memorando manuscrita:

"Quem tem filha bisbilhoteira não deixa essas coisas soltas no escritório..."

Ao tomar conhecimento do que se tratava, o presidente levantou-se e, colocando a mão no ombro de sua filha, falou:

"Olha aqui, rapariguinha (batendo o dedo na testa da filha, carinhosamente), se você estiver pensando em suicídio, risque isso de sua cabecinha, (batendo novamente o dedo na testa de sua filha) porque o suicídio é uma covardia e a minha morte tem que representar algo superior a uma covardia".

E, finalmente, Alzira disse:

"Então, meu pai, vá descansar..."

E se retirou do quarto.

A versão conhecida e a manuscrita

A história conta que na manhã do dia 24 de agosto de 1954, após o suicídio do presidente Getúlio Vargas, seu genro, o governador do estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto, encontrou um envelope ao lado da cabeceira da cama. Ao abri-lo verificou se tratar de uma carta de despedida. Osvaldo Aranha, que retornava ao Palácio do Catete, ao saber da morte do presidente e receber a carta, por telefone, começou a lê-la para a rádio Nacional, mas, muito emocionado e chorando, não pôde concluir, tendo a leitura ficado a cargo de seu filho Euclides. E, assim, o Brasil inteiro tomou conhecimento desse verdadeiro testamento político.

Uma carta idêntica à encontrada por Amaral Peixoto foi entregue pelo próprio Getúlio ao presidente nacional do PTB, João Goulart, pouco antes do suicídio e foi lida por ele à beira do túmulo do presidente Vargas, quando do sepultamento no cemitério de São Borja. Dª Alzira, tempos depois, achou, nos guardados que foram retirados do cofre do pai, a versão original manuscrita, uma versão da Carta Testamento com erros de datilografia, ambas assinadas pelo presidente, e uma terceira, esta uma cópia sem assinatura.

Deve-se ressaltar que Getúlio Vargas, ao escrever em cinco folhas de papel de memorando da Presidência, deixou a idéia básica, um roteiro de sua carta-testamento. O presidente da República incumbiu seu amigo e conselheiro informal, o jornalista José Soares Maciel Filho, então superintendente do BNDE e também da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), de passar para o papel, dar a redação final e, posteriormente, datilografar o seu pensamento político, surgindo a versão conhecida da Carta Testamento.

A versão original, manuscrita, só foi divulgada pela imprensa, quando Alzira Vargas do Amaral Peixoto concedeu uma entrevista exclusiva para a revista O Cruzeiro, em 1967, para rebater mais uma aleivosia de Carlos Lacerda, que contestou a autoria da Carta Testamento. O teor é o seguinte:

"Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte.

Levo o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro, e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia.

A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos, numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.

Acrescente-se a fraqueza de amigos que não defenderam nas posições que ocupavam à felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês, à insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.

Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranqüilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria. Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me. Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas. Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes. Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos. Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.

Agradeço aos que de certo ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade.

A resposta do povo virá mais tarde..."

Getúlio Vargas

(*) Antônio Sérgio Ribeiro, advogado, pesquisador e funcionário da Secretaria Geral Parlamentar.

O autor agradece publicamente a inestimável colaboração da colega Sandra Sciulli Vital, da Divisão de Biblioteca e Documentação do DDI da Alesp, na finalização desse trabalho.

Aos funcionários da Divisão de Imprensa da Alesp, que ajudaram nessa publicação, o meu muito obrigado.

Bibliografia:

Coleções do acervo do autor:

Jornal A Noite - Rio de Janeiro

Jornal Tribuna da Imprensa - Rio de Janeiro

Revista O Cruzeiro - Rio de Janeiro

Revista O Mundo Ilustrado - Rio de Janeiro

Revista Manchete - Rio de Janeiro



Livros:

Artes da Política - Diálogo com Amaral Peixoto. Ed. Nova Fronteira - Rio - 1986 - 2ª edição

Carlos Lacerda - Depoimento. Ed. Nova Fronteira - Rio - 1978 - 2ª edição

Marechal J.B. Mascarenhas de Moraes: Memórias. Biblioteca do Exército Editora - Rio - 1984 - 2 vols.

Getúlio: Uma história oral. Coordenação de Valentina da Rocha Lima. Editora Record - Rio - 1986

Os últimos dias do governo de Vargas, F. Azenha Machado. Editora Lux Ltda - Rio - 1955

Juarez Távora: Uma vida e muitas lutas/Memórias. Livraria José Olympio Editora - Rio - 1974 - 2 vols.

Café Filho: Do sindicato ao Catete. Livraria José Olympio Editora - Rio - 1966 - 2 vols.

Tancredo fala de Getúlio (depoimento). Valentina da Rocha Lima e Plínio de Abreu Ramos. L&PM Editores - Porto Alegre - 1986

Mataram o presidente! Memórias do pistoleiro que mudou a história do Brasil. Alcino João do Nascimento e outros. Editora Alfa-Omega - São Paulo - 1978

Agosto de 1954. José Sette Câmara. Editora Siciliano - São Paulo - 1994