60 ANOS DO FIM DA II GRANDE GUERRA MUNDIAL

O Brasil na Guerra - Parte 2
09/05/2005 19:21


Passados 60 anos do término do maior conflito mundial, trazemos aos leitores a história dessa verdadeira tragédia que destruiu paises e fez o maior número de vítimas na história da humanidade.





Cumprindo as ameaças feitas por seus embaixadores, a Alemanha e a Itália iniciaram as represálias à atitude do governo brasileiro de romper as relações diplomáticas com os paises do Eixo.

A Marinha Mercante do Brasil foi a maior vítima da sanha dos nazi-fascistas, durante a II Segunda Guerra. Sucessivamente, as agressões aos navios brasileiros foram acontecendo. Os primeiros ataques ocorreram na costa do Estados Unidos, quando as embarcações navegavam entre os dois países. Em 16 de fevereiro de 1942, o navio Buarque foi atacado pelo submarino alemão U-432, a cerca de 60 milhas do Cabo Hatteras, na Carolina do Norte. Levava a bordo 85 pessoas, entre passageiros e tripulantes; um passageiro de origem portuguesa acabou falecendo. Dois dias depois, o cargueiro Olinda foi atacado pelo mesmo U-432, apesar da perda do navio, todos os seus 46 ocupantes conseguiram se salvar. O Brasil formulou protesto oficial, junto ao governo do Reich, por intermédio de Portugal, pelos atos praticados.

Mas não tiveram a mesma sorte todos os tripulantes do cargueiro Cadedello. Ele havia partido no dia 14 de fevereiro do porto de Filadélfia/EUA, com destino ao Brasil, transportando carga de carvão. Dias depois, simplesmente desapareceu com seus 54 tripulantes. Apesar das buscas efetuadas pelas autoridades americanas, nenhum vestígio foi encontrado do navio. Somente após o término da guerra, é que se soube que ele havia sido atingido pelo submarino italiano Da Vinci, no dia 25 de fevereiro de 1942.

No dia 7 de março de 1942, a vítima foi Arabutan, afundado pelo U-155, também ao largo do Cabo Hatteras, morrendo um tripulante. No dia seguinte, o U-94 torpedeou navio misto Cayrú, ao largo de New York, matando todos os 53 tripulantes. O governo brasileiro reclamou aos Estados Unidos da falta de proteção às suas embarcações.

Descontentamento

A violência praticada contra as embarcações brasileiras criou um grave problema e causou descontentamento dentro do governo do Brasil, que aguardava a tão prometida remessa dos armamentos pelos Estados Unidos. O próprio presidente Getúlio Vargas, após pressão dos militares, telegrafou diretamente para Washington cobrando o envio urgente do material bélico e reclamando da falta de garantias para os navios mercantes que faziam o tráfego entra o as duas nações.

No dia 11 de março, Getúlio Vargas assinou decreto-lei que determinava indenizações devidas por atos de agressão contra bens do estado brasileiro ou contra a vida e bens de brasileiros ou de residentes no Brasil.

Atendendo a solicitação do Brasil, o governo norte-americano enviou a Força-Tarefa nº 3 com diversos navios de guerra, incluindo cruzadores sob o comando do almirante Jonas H. Ingram. Este, em 23 de abril, reuniu-se, pela primeira vez, com Getúlio. Dois dias depois, o comandante americano escreveu ao presidente Vargas informando as providências que tomava para a proteção da Marinha Mercante brasileira.

No dia do trabalho de 1942, o Parnahyba, quando navegava nas proximidades da Ilha de Trindad, foi afundado pelo U-162, vitimando 7 tripulantes. Em 18 de maio, a tragédia chegou às águas brasileiras, quando o Comandante Lyra foi atingido pelo submarino italiano Barbarigo, ao largo de Fortaleza/CE, falecendo 2 tripulantes. Mas conseguiu socorro e foi rebocado até a capital cearense. Seis dias depois, o Gonçalves Dias recebeu os torpedos do U-502, quando se encontrava ao sul do Haiti, matando 6 tripulantes.

Em 22 de maio, um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) ataca pela primeira vez um submarino inimigo em águas brasileiras.

Navegando no Caribe, próximo à ilha de Santa Lúcia, o Alegrete fazia a viagem de Belém para New York, com carga de café, cacau, castanho e óleo de mamona, quando, em 1º de junho, foi afundado pelo U-156, não fazendo vítimas. No dia 26, o Pedrinhas, ao largo de Nassau, foi atacado pelo U-203, também não havendo vítimas a lamentar.

Em uma reunião de cúpula do III Reich, Adolf Hitler, no dia 15 de junho de 1942, determinou a operação submarina contra o Brasil. A idéia inicial era realizar ataques simultâneos contra os navios e instalações portuárias de Santos, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Mas o almirante Urich Raeder, comandante-chefe da Marinha de Guerra alemã, conseguiu convencer Hitler de que tal operação seria difícil e arriscada. Mas os submarinos assassinos foram mandados para a costa brasileira.

Navios afundados

O submarino alemão U-66, entre os dias 26 e 28, foi responsável pelo afundamento de dois navios brasileiros, o Tamandaré e o Barbacena, nas águas do Caribe, matando 4 e 6 tripulantes, respectivamente. Ainda no mesmo dia 28, o petroleiro Piave, também navegando no Caribe, foi atacado pelo U-155, deixando um morto.

O mês de agosto de 1942 foi o mais negro para a Marinha Mercante e para a história da participação do Brasil na Guerra. Nada menos que 7 embarcações foram torpedeadas no nordeste brasileiro, entre Sergipe e a Bahia, totalizando 587 vítimas fatais, incluindo mulheres e crianças. O responsável por esse verdadeiro crime foi o U-507, tendo como comandante Harro Schacht. Ele e mais 53 tripulantes morreram em 13 de janeiro de 1943, quando seu submarino foi afundado a noroeste de Natal/RN, por cargas de profundidade lançadas por um avião Catalina, do Esquadrão VP-83/P-10 da Marinha dos Estados Unidos.

As vítimas foram os navios de passageiros Baependy e o Araraquara, 130 mortos, ambos no dia 15; Annibal Benévolo, 150 mortos, dia 16; Itagiba, 36 mortos, e o cargueiro Arará, ambos no dia 17; o Arará foi afundado quando estava socorrendo as vítimas do Itagiba, ocasionando a morte de 20 pessoas; a barcaça Jacira, dia 19, sem vítimas; além de um não identificado, presumivelmente um pesqueiro, que por ter visto o submarino, foi posto à pique para que os tripulantes não avisassem as autoridades.

O Baependy fazia a linha Rio-Manaus, com 246 passageiros e 74 tripulantes, incluindo um contingente do Grupo de Artilharia do Exército, que se dirigia para Fernando de Noronha. Do torpedeamento apenas 28 pessoas conseguiram se salvar. Foi a maior tragédia dentre as que afetaram os navios brasileiros. Esse ato criminoso levou para as ruas de todo o Brasil milhares de pessoas, que, revoltadas pelos torpedeamentos, invadiram e depredaram estabelecimentos ligados aos paises do Eixo.

Em 30 de julho, o presidente Vargas escreveu ao seu colega norte-americano relatando as perdas da nossa marinha mercante e reforçando o pedido de remessa de navios de guerra já encomendados. No mês seguinte, Roosevelt respondeu lamentando o afundamento dos cinco navios brasileiros.

Ânimos exaltados

A população brasileira estava indignada com a covardia dos ataques. Com os ânimos exaltados, foram organizadas passeatas que percorriam as ruas com bandeiras, faixas, protestando com palavras de ordem contra os afundamentos e a morte de inocentes. No Rio de Janeiro, então capital federal, o protesto tomou maior vulto. Inconformados exigiram uma pronta ação do governo. O presidente Getúlio Vargas reuniu todo o ministério no dia 22 de agosto de 1942 para estudar a grave situação, e ao término da reunião decretou o estado de beligerância. No dia 31, foi declarada guerra à Alemanha e a Itália. O general Pedro Aurélio de Góes Monteiro, notório germanófilo, alegando motivo de saúde, afastou-se da chefia do Estado Maior do Exército.

Em conseqüência de decisão presidencial, diversas firmas e clubes tiveram que alterar seus nomes, como a empresa de aviação "Sindicato Condor", que se tornou "S.A. Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul"; em São Paulo. O "Clube Germânia" mudou seu nome para "Clube Pinheiros" e o "Palestra Itália", para "Sociedade Esportiva Palmeiras".

Em setembro, no dia 12, a Marinha brasileira foi colocada sob o comando do almirante Jonas Ingram e, em 27, o U-514 afundou dois navios cargueiros, o Ozório, com 5 vítimas fatais, e o Lajes, com 3 mortos. Ambos navegavam de Belém do Pará para New York. No dia seguinte, o Antonico, que navegava ao largo da Guiana Francesa, foi posto a pique pelo U-516, morrendo 16 membros da tripulação. No final desse mês, no dia 30, chegou ao Brasil o secretário (ministro) da Marinha dos Estados Unidos, Frank Knox, para uma visita de inspeção e para se reunir com as autoridades brasileiras.

Depois de um intervalo, em 3 de novembro, quando se encontrava ao largo da África do Sul, o Porto Alegre foi atacado pelo U-504, falecendo um tripulante. Ainda em novembro, no dia 22, o Apalóide foi torpedeado ao largo de Cuba, pelo U-163, morrendo 16 tripulantes.

O embaixador Carlos Martins Pereira de Sousa, em 4 de janeiro de 1943, relatou a reunião que tivera com o presidente Roosevelt na Casa Branca, na qual este havia sugerido um encontro com Getúlio Vargas, em Trinidad. No dia 29, os dois presidentes se encontraram em Natal, Rio Grande do Norte, quando Roosevelt retornava da conferência de Casablanca no Marrocos, onde palestrou com Winston Churchill.

Mais perdas

Nos dias 12 e 16 de fevereiro, o governo dos Estados Unidos entregou à Marinha do Brasil cinco caças-submarinos. Em 18 de fevereiro, os submarinos inimigos voltavam a agir, o cargueiro Brasilóide foi atacado ao largo de Garcia D´Ávila, ao norte da Bahia, pelo U-518. Apesar da perda material não houve vitimas. Mas essa sorte não teve o navio de passageiros Affonso Penna. Quando navegava na altura de Porto Seguro na Bahia, foi torpedeado pelo submarino italiano Barbarigo, causando a morte de 125 pessoas. O U-513 afundou, em 1º de julho, o Tutóya perto da ponta da Juréia, litoral sul de São Paulo, morrendo 7 tripulantes.

A Força-Tarefa nº 3, norte-americana, que vigiava as águas brasileiras, passou a intitular-se, em 1º de março, de 4ª Esquadra, assumindo o controle do tráfego marítimo dos comboios. A 17 de março, o Jaguaribe, da Marinha de Guerra do Brasil, em serviço de comboio, atacou e avariou um submarino alemão, que a tripulação em seguida afundou.

No dia 4 de julho, o Pelotaslóide foi a pique no Pará, vitimado pelo U-590 matando 5 tripulantes. O pesqueiro Shangri-lá, quando navegava perto do Cabo Frio, foi afundado pelo U-199 em 22 de julho, causando 10 mortes.

Em 14 de julho de 1943, em documento reservado e secreto, o ministro da Marinha do Brasil, almirante Aristides Guillem, informou ao presidente Getúlio Vargas que navios mercantes argentinos faziam manobras de espionagem pró-nazista. Não seria a primeira vez que autoridades brasileiras denunciavam a atitude de embarcações do país vizinho. Antes, aviões da FAB já haviam observado navios argentinos abastecendo submarinos alemães no sul do país. Em 15 de outubro, o próprio presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt acusou a Argentina de "métodos característicos do regime nazista".

Em 31 de julho, perto de Rio Real no Sergipe, o U-185 torpedeou o Bagé, morrendo 26 pessoas. O submarino U-161 afundou, em 26 de setembro, o Itapagé quando navegava ao sul de Maceió, vitimando 27 pessoas. No dia 23 de outubro, o cargueiro Campos foi afundado no litoral paulista, próximo a ilha de Alcatrazes. Uma dupla tragédia ocorreu quando uma baleeira de salvamento foi colhida pela pá da hélice do navio, matando sete tripulantes. No total morreram 12 homens nesse naufrágio.

O jornal "The New York Times", em sua edição de 16 de fevereiro de 1944, anunciou o afundamento de 18 submarinos do Eixo em águas brasileiras, por forças aeronavais brasileiras e norte-americanas.

Cota de Sacrifício

A Marinha de Guerra do Brasil também teve também a sua cota de sacrifício, três embarcações afundaram: duas por acidente e uma por ação de um submarino. Em 19 de julho de 1944, o navio auxiliar Vital de Oliveira, quando se encontrava a 25 milhas ao sul do Farol de São Tomé, no Estado do Rio de Janeiro, foi atingido por um torpedo do submarino U-861. O navio afundou em apenas 6 minutos, matando 99 homens. Os outros dois acidentes envolveram a corveta Camaquã, que em 21 de julho de 1944, naufragou em meio a uma tempestade a 12 milhas de Recife, morrendo 33 tripulantes. E o último foi com o cruzador Bahia, quando realizava missão de apoio às tropas norte-americanas que retornavam à sua pátria, quando explodiu matando 340 homens, inclusive o seu comandante, capitão-de-fragata Garcia D´Ávila Pires de Albuquerque. Apenas 36 tripulantes sobreviveram à tragédia.

A resposta do Brasil viria com a formação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que cobriu de glórias o nosso país, nos campos da Itália.