O Suicídio de Getúlio Vargas


23/08/2002 18:05

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RE REDAÇÃO

Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro no peito na madrugada de 24 de agosto de 1954, após ter sido informado de que os Altos Comandos Militares exigiam o seu licenciamento do cargo de presidente da República como condição para a solução da crise política em que seu governo se viu envolvido nos últimos anos de seu segundo mandato.

Essa crise fora agravada com o atentado do dia 5 de agosto, na rua Toneleiros, na capital do Rio de Janeiro. Perpetrado contra o jornalista Carlos Lacerda, nele morreu o major da Aeronáutica Rubens Vaz. Mas teve a participação de membros da guarda pessoal de Vargas.

A perplexidade com o suicídio tomou conta do Brasil. Escolas liberaram os alunos, o comércio fechou e as fábricas desligaram as máquinas. As pessoas caminhavam tontas pelas ruas. Getúlio Vargas estava morto.

Era o desfecho sangrento do drama que o país acompanhava pelo rádio e diante das bancas de jornais. Impotentes para reagir, as multidões dispersas pelas ameaças voltavam a se formar a alguns metros adiante para chorar.

A auto-imolação do presidente impediu que os conspiradores da direita completassem o golpe.

O dia 24 de agosto passou a ser data de luto popular e também dia significativo do nacionalismo brasileiro, profetizado pela Carta Testamento. A mensagem final de Vargas sinalizava caminhos para o Brasil encontrar-se com sua soberania, com o desenvolvimento e com o equilíbrio social.

Getúlio foi, pelo tempo que governou (19 anos) e pela obra deixada (legislação trabalhista, montagem do Estado Nacional, indústria de base...), um dos mais importantes estadistas brasileiros. Foi chamado de Pai dos Pobres, O Chefe, O Homem. Sua carta-testamento, na qual dá suas razões para o gesto extremo, é um dos mais conhecidos documentos históricos. Leia abaixo.

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Carta-testamento

"Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço de seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história."