Viaduto Santa Ifigênia


13/10/2008 17:54


Quem acha que São Paulo é uma cidade que não guarda referências do passado tem um bom exemplo de conservação de sua história urbana ao passar pelo Viaduto Santa Ifigênia, ligação entre o Largo São Bento, onde está o Mosteiro de São Bento, local onde ficou hospedado o papa Bento XVI em sua recente visita ao Brasil; e a rua Santa Ifigênia, paraíso dos eletro-eletrônicos.

Inaugurado em 1913, o viaduto Santa Ifigênia teve sua estrutura metálica, já moldada, trazida da Bélgica. Em 1978, o viaduto foi recuperado com peças da mesma empresa que havia fornecido as estruturas originais e, em 1982, foi pintado com as cores do arco-íris.

A inauguração do Viaduto do Chá em 1892 facilitou a travessia do Vale do Anhangabaú e impulsionou o crescimento da cidade para além do centro histórico, no sentido oeste. Nos primeiros anos do século 20, outro ponto de transposição do vale era necessário, desta vez para estabelecer a ligação em nível entre os largos São Bento e Santa Ifigênia. A construção de um viaduto pouparia os bondes da íngreme ladeira de São João e comunicaria o centro com os bairros da Luz e Santa Ifigênia, muito prósperos à época beneficiados pela proximidade da Estação da Luz.



A história desse viaduto se inicia por volta de 1890. Consta ter sido idealizado por Francisco da Cunha Bueno e Jayme Serra, que obtiveram naquele ano, a licença do Conselho de Intendentes, para a sua construção. A obra não foi iniciada e o contrato foi cancelado.

Em março de 1893, a Câmara autorizou a desapropriação do terreno entre o Mosteiro de São Bento e a Cia. Paulista de Vias Férreas e Fluviais, mas por divergências políticas mais uma vez o projeto foi suspenso. Depois de várias idas e vindas, finalmente o prefeito interino em exercício, Raymundo Duprat, conseguiu dar andamento ao processo. Em 1908, a prefeitura obteve um financiamento de 700 mil libras junto ao governo da Inglaterra, fato esse pioneiro na municipalidade. A última parcela do empréstimo foi paga somente nos anos 70.

Projetado pelo escritório Micheli e Chiappori, o Viaduto Santa Ifigênia foi inaugurado em 26 de setembro de 1913 pelo prefeito Raymundo Duprat. Sua estrutura metálica tem 225 metros de extensão e três arcos. As grades do guarda-corpo são em ferro forjado, em estilo Art Nouveau. A via de trânsito foi pavimentada com blocos de granito (paralelepípedos) e incluía duas vias de trilhos para bondes elétricos.

Com a construção do Viaduto Santa Ifigênia, o largo de mesmo nome transformou-se rapidamente e viu surgir vários edifícios no seu entorno.

Apenas em 1975 a estrutura passou a ser protegida por lei municipal de zoneamento. Em 1978, houve nova restauração, desta vez pela Emurb. Foram acrescentadas luminárias em estilo antigo, misturadas com holofotes, e calçamento em pastilhas coloridas, Nesse trabalho também foi acrescentada uma escada metálica de acesso à av. Prestes Maia.



Retrato de um período



Entre meados do século 19 e o começo do século 20, o Brasil importou grande número de edifícios e de complementos arquitetônicos em ferro fundido, peças pré-fabricadas na França, Bélgica, Alemanha e Grã-Bretanha, e vendidas a países de todo o mundo através de catálogos. Bem recebida a princípio, a arquitetura em ferro fundido tornou-se alvo de críticas na Europa, por sua produção em série e pela adoção de padrões decorativos ecléticos, inspirados em vários estilos de época. No Brasil e em países em crescimento, no entanto, a arquitetura de importação foi recebida como sinônimo de progresso. As peças pré-fabricadas representavam a possibilidade de construir edifícios públicos de grande porte e duráveis, de forma rápida e a baixo custo. Com o tempo, muitas obras se perderam em operações de desmontagem, substituídas por outras técnicas construtivas. Nas últimas décadas do século 20, um movimento mundial de reavaliação, identificação e recuperação desses monumentos teve início. Ao lado da Estação da Luz, o Viaduto Santa Ifigênia é um dos remanescentes mais importantes da arquitetura de ferro em São Paulo. É tombado pelo Conpresp.

Sites consultados: metalica.com.br, Sampa Art e o do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo.