O ABISMO DIGITAL - OPINIÃO

Arnaldo Jardim*
26/09/2001 14:37


Há um estudo, realizado por Jeffrey Sachs, que procura explicar o avanço dos países do hemisfério norte, de clima predominantemente temperado, em relação ao subdesenvolvimento das nações do hemisfério sul, de clima tropical. Basicamente a teoria diz que o desnível social entre os dois hemisférios existe devido ao avanço tecnológico que os países de zona temperada alcançaram no combate às pragas e pestes de suas lavouras. Este know how rapidamente difundiu-se nos países de mesmo clima, que desenvolveram inovações tecnológicas beneficiando os seus sistemas agrícolas e de saúde, enquanto as nações de clima tropical ficaram para trás no campo tecnológico, o que trouxe como conseqüência uma enorme defasagem econômica e social.

Não adianta, porém, ficar lamentando o atraso ou atribuir todos os nossos problemas a esse fato. O momento é de olhar atentamente para o futuro, pois hoje vivemos uma situação parecida com aquela que nos distanciou dos países de primeiro mundo. Refiro-me à questão da "exclusão digital", à qual a mídia ainda não tem dado o devido destaque.

O assunto é sério e tem merecido a atenção de estudiosos, como é o caso do sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira que lançou recentemente o livro "Exclusão Digital - A miséria na era da informação". Estamos na "era do conhecimento", onde o "saber" é fundamental para o crescimento das pessoas e se não garantirmos o acesso à informação será praticamente impossível galgarmos posições. Estrategicamente, neste quesito, o Brasil mais uma vez está atrasado.

No mundo, segundo dados da OIT - Organização Internacional do Trabalho, apenas 6% da população mundial navega na Internet e 88% destas pessoas vivem em países desenvolvidos. No Brasil, esta exclusão atinge cerca de 95% da população, segundo o Ministério de Ciência e Tecnologia. Dos 5% de brasileiros com acesso à rede, 80% pertencem às classes ''A'' e ''B'', o que é grave se considerarmos a Internet como um veículo que se transformou numa fonte de pesquisas e informações. Enquanto isso, considerando toda a população mundial, os EUA e o Canadá concentram 57% dos usuários de Internet. Portanto, temos uma distância gritante que precisa ser reduzida. Caso contrário, o fosso da desigualdade social no País certamente ficará mais profundo.

Está na hora de livrarmo-nos do estigma de nação conhecida por não planejar e ter quase sempre que remediar. Para reverter o atual quadro de "exclusão digital" cabem ações emergenciais em duas linhas: instalação de computadores conectados à Internet em locais públicos para facilitar o acesso à população associado ao oferecimento de cursos comunitários para que o povo possa fazer o uso correto e monitorado das máquinas, garantindo capacitação ao usuário; inclusão do tema na agenda do Governo Federal - a Lei do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) ainda não tem apresentado resultados suficientes -, com o estabelecimento de um cronograma com metas claras e objetivas focadas no desnivelamento social. Desta forma estaremos democratizando a informação, abrindo um leque de oportunidades à população.

A largada foi dada e temos que correr contra o tempo. Precisamos investir pesadamente em tecnologia para não subirmos as escadas do desenvolvimento feito pagadores de promessa: lentamente e de joelhos. Não sugiro atalhos mas um caminho seguro com forte ação conjunta de governos, organizações não governamentais e iniciativa privada. Desta forma o Brasil poderá ser competitivo e navegar em harmonia na "era do conhecimento".

Arnaldo Jardim é deputado estadual, engenheiro civil, relator geral do Fórum São Paulo Século XXI e presidente estadual do PPS.