Opinião - A responsabilidade do governo na crise
"Plante que o João garante". O slogan é do último general-presidente do Brasil, durante a ditadura militar, João Figueiredo (1979-85), para incentivar a política agrícola do governo, que resultou num imenso fracasso.
Muitos outros bordões foram cunhados pelo marketing político de nossos presidentes. Outros se caracterizam pelo modo como os nossos mandatários se dirigem à nação, em determinados momentos, como o atual "nunca na história desse país", que invariavelmente cai na boca de nosso atual presidente, quando quer auto-elogiar seus feitos.
O presidente talvez tenha mudado de redator ou algum assessor o aconselhou a não repetir a frase que já começava a se tornar motivo de chacota. Mais recentemente, ao aconselhar os brasileiros sobre como enfrentar a crise economia mundial, Lula nos disse que deveríamos continuar a consumir. Talvez, em uma livre adaptação do lema do João, um "marqueteiro" poderia ter sugerido algo como "endivide-se que o Lula garante".
Seja a intenção do nosso presidente passar uma imagem otimista, talvez, a recomendação mais sensata seria a precaução num momento delicado da economia. Nem tanta marola, nem tanto tsunami, o fato é que, no espaço de apenas um mês, 654 mil empregos desapareceram (média de 28 mil vagas por dia).
Na verdade, medidas preventivas nunca foram o forte do governo que desde o início incentivou o endividamento da população, e dos aposentados em particular, colocando os assalariados a mercê dos juros extorsivos praticados pelo mercado, incluindo os das próprias instituições governamentais, como o INSS. Verdadeira fábula da formiga e da cigarra.
Com o povo endividado e sob o risco de perder o emprego, nenhuma política de caráter estrutural foi adotada. Um presidente eleito com o apoio popular e com tanta esperança depositada por milhões de brasileiros, simplesmente, levou adiante a política econômica de seu antecessor, sem utilizar do cacife que ainda detém, de 80% de aprovação, para ousar soluções mais avançadas, que pudessem de fato levar o país a um cenário efetivamente seguro de desenvolvimento econômico sustentável, sem grandes turbulências.
Nosso crescimento continua limitado por armadilhas que submeteram o desenvolvimento econômico do país e o condicionaram a taxas de crescimento, ainda que positivas, inferiores ao de outros países emergentes, também beneficiados pela conjuntura internacional econômica favorável, que ruiu.
Assim mesmo, o presidente Lula construiu uma base popular com o programa Bolsa Família, cujo principal mérito foi demonstrar ao país a importância de incorporar à economia setores da população que até então se mostravam marginalizados. Apesar de positivo, é preciso compreender que o benefício tem caráter emergencial e que havia necessidade de preparar o país para substituí-lo por políticas sociais consistentes incorporadas à legislação, com o país em pleno desenvolvimento econômico, livre das amarras que o impedem de crescer, como a inflação do passado e a atual política de juros.
Algumas medidas foram tomadas, mas no fundamental pouca coisa se fez para reduzir a enorme concentração de renda da economia, que continua privilegiando a elite econômica nacional, que, tradicionalmente, não cede um espaço sequer em seus privilégios.
Escreveu recentemente um economista que os empresários temem uma forte recessão no futuro, daí o volume recorde de demissões verificado em dezembro. O fato é que a primeira providência que adotaram foram as demissões indiscriminadas, muitas delas unilateralmente sem consulta aos sindicatos de trabalhadores, que tiveram de correr atrás do prejuízo, com mobilizações e tentativas de negociação com o patronato.
As empresas foram surpreendidas com a redução das exportações e com a escassez de crédito externo, mas a margem de lucro de alguns segmentos econômicos não se altera jamais. Quanto aos trabalhadores, sob a ameaça do desemprego, são obrigados a aceitar a redução de horas de trabalho com a adequação dos salários à jornada reduzida. Terminado o ciclo de crise, porém, o empresariado não oferece nenhuma contrapartida aos empregados que se sacrificaram.
Há muito os trabalhadores propõem a redução da jornada de trabalho semanal (sem prejuízo dos salários, é obvio), saída viável para manter os postos de trabalho, diante de fatores como o avanço da tecnologia. A última redução ocorreu há mais de 20 anos, em 1988, com a mudança da Constituição, quando a jornada foi reduzida de 48 para 44 horas semanais, uma situação anacrônica, que o empresariado se recusa a discutir.
Ainda é cedo para avaliar a extensão dessa crise inoportuna, originada de fora para dentro, que chegou após um período de conjuntura internacional favorável, justo quando experimentávamos algum tempo de prosperidade.
Nessa ocasião, Lula atribuiu a responsabilidade da crise ao governo Bush e disse que cabia a ele e aos países desenvolvidos reverter a situação. Sua reação foi sintomática de um governo que subestimou a situação e perdeu a oportunidade de adotar iniciativas, como a revisão da estrutura da carga tributária, a política de juros e os investimentos do PAC, que foram anunciados com a pompa do "nunca antes nesse país", mas que pouco saíram do papel.
*Davi Zaia é deputado (PPS) na Assembleia Legislativa de São Paulo
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