Sua excelência, "vereador" Cacareco

Antônio Sérgio Ribeiro*
28/09/2004 17:12


Há exatos 45 anos, os eleitores da capital de São Paulo, cansados do descaso e da incompetência dos governantes, resolveram mandar um recado aos políticos e votaram em um rinoceronte, na verdade uma fêmea, para a cadeira de vereador à Câmara Municipal de São Paulo.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu no Brasil. Nas eleições de 1955, na cidade pernambucana de Jaboatão, a população votou em um bode malhado, de nome "Cheiroso"; no ano de 1988, a população carioca sufragou o macaco "Tião", do fictício Partido Bananista Brasileiro; e em 1996, no município de Pilar, Estado de Alagoas, o votado foi o bode "Frederico", que infelizmente acabou envenenado por algum inimigo político.

Rinoceronte emprestado

Em 1957, o governador do Estado, Jânio Quadros, criou por sugestão do jornalista Adherbal Figueiredo um grande atrativo para o povo da capital, o Zoológico de São Paulo, que seria instalado no bairro da Água Funda. Para abrilhantar o novo parque, o governo paulista solicitou ao prefeito do Distrito Federal, Francisco de Sá Freire e Alvim, o empréstimo de um rinoceronte. Em 1954, no zoológico carioca havia nascido o primeiro rinoceronte em cativeiro da América do Sul, que recebeu o nome de Cacareco.

O zoológico foi inaugurado solenemente no dia 16 de março de 1958, com a presença do chefe do executivo paulista, de secretários, de autoridades civis e militares, e da população paulistana, que demonstrou muita curiosidade e interesse pelos animais, notadamente por Cacareco. O governador Jânio Quadros, não perdendo a oportunidade, declarou: "que o povo só não o recebe de braços abertos por motivos óbvios..."

O jornalista Itaboraí Martins do "O Estado de S. Paulo", em companhia de alguns amigos e colegas do jornal e da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, durante uma "rodada" em uma mesa de bar, resolveu lançar a candidatura de Cacareco para o cargo de vereador à edilidade paulistana para as eleições que se realizariam em 4 de outubro de 1959.

A tática foi pichar muros com o nome do rinoceronte e divulgá-lo também em programas de debates na televisão. Algumas gráficas aderiram e resolveram imprimir "santinhos", apoiando o nome de Cacareco para vereador. Até uma quadrinha de apoio foi feita: "Cansados de tanto sofrer / E de levar peteleco / Vamos agora responder / Votando no CACARECO". Foi como um rastilho de pólvora.

A população do então bairro paulistano de Osasco tentou conseguir sua emancipação política e administrativa da capital, mas a pretensão terminou no Supremo Tribunal Federal, que negou o pedido. Decepcionados, os moradores em protesto aderiram à "candidatura" de Cacareco.

Força da campanha

Quando se iniciou a apuração, foi confirmada a força da campanha "pró" Cacareco; em cada urna havia de 20 a 30 votos para o quadrúpede em todos os bairros paulistanos, sem exceção. Ao final do pleito, a votação não deixou dúvidas quanto ao prestígio eleitoral do "visitante carioca". Dos 1.120.000 eleitores da capital, compareceram às urnas 934.794, que depositaram seus A abstenção foi pouco mais de 16,5%. 828.778 votos foram considerados válidos, sendo 49.586 em branco, 124 em separado, que a Justiça Eleitoral decidiu que eram nulos, e 105.892 votos nulos. Apesar do Tribunal Regional Eleitoral não ter divulgado oficialmente o número de votos recebidos, por tê-los considerados nulos, o certo é que, ao término da apuração, Cacareco havia recebido quase 100 mil votos.

Diversos votos apareceram também em urnas de diversas cidades do interior do Estado de São Paulo, como em Marília: em uma única urna, 102 de 300 cédulas depositadas foram para Cacareco.

Quinhentos e quarenta candidatados disputaram as 45 cadeiras da Câmara Municipal de São Paulo, sendo os vereadores mais votados de cada partido: Manoel de Figueiredo Ferraz com 10.214, do PSP (genro do então prefeito Adhemar de Barros); Valério Giuli com 9.550, do PDC; o radialista do programa "Clube do Papai Noel", Homero Silva, com 8.746, da UDN; o presidente da Câmara Municipal e ex-prefeito, William Sallem, com 8.512, também do PSP; Rio Branco Paranhos com 7.362, do PTB; o radialista da "Hora da Virgem Maria", Pedro Geraldo Costa, com 7.178, do PST; Januário Mantelli Neto com 6.245, do PRT; o médico Scalamandré Júnior com 6.113, do PTN; Herotildes Carvalho de Araújo com 5.310, do PR; a irmã do deputado Ulysses Guimarães, Ruth Guimarães, com 4.642, do PSD; José Molina Junior com 4.042, do PSB; Antonio Lamanna Júnior com 3.887, do PRP e João Batista da Silva Azevedo com 3.617, do PL.

Grande votação

A votação recebida por Cacareco daria para eleger todos os 15 vereadores mais votados, exatamente 1/3 da totalidade de cadeiras da Câmara de São Paulo. O partido que recebeu mais votos, com todos seus 45 candidatos, totalizou pouco mais de 94 mil sufrágios. A inusitada "eleição" mereceu matérias em rádio, televisão, revistas e jornais, inclusive um longo editorial em importante matutino da capital, que analisou a reação da população de São Paulo em conseqüência da "consagradora vitória" do rinoceronte. A escritora Rachel de Queiroz também escreveu, na mais importante revista da época, uma crônica intitulada "O bicho". Até um filme foi feito, "Cacareco vem aí", dirigido por Carlos Manga e protagonizado pelo maior cômico da história do Brasil, Oscarito. O jornalista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) comentou em sua coluna no jornal "Ùltima Hora" que "diversos membros da cúpula do PSP andaram rondando a jaula de Cacareco para o colocarem no lugar de Adhemar de Barros...". Adhemar, na ocasião, era prefeito de São Paulo.

O secretário da Agricultura do governo do Estado, José Bonifácio Coutinho Nogueira, tentou comprar Cacareco, mas o zoológico carioca recusou a proposta. Dois dias antes do pleito municipal, acreditando talvez que o povo de São Paulo fizesse empossar o rinoceronte no Palácio "Conde Prates", sede da Câmara Municipal paulistana, as autoridades resolveram devolvê-lo e, assim, de caminhão, na calada da noite, retornou à "Cidade Maravilhosa".

Instado pela imprensa sobre o ocorrido em São Paulo, o presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, como bom mineiro respondeu: "Não sou intérprete de acontecimentos sociais e políticos. Aguardo as interpretações do próprio povo".

Atualmente, apesar das urnas eletrônicas impossibilitarem esse tipo de votação, outros Cacarecos continuam a aparecer e até a serem eleitos...

*Antônio Sérgio Ribeiro, advogado, pesquisador e funcionário da Secretaria Geral Parlamentar