Semana Orlando Villas Bôas

Retrospectiva - 1º semestre de 2004
30/07/2004 19:33


DA REDAÇÃO

A Assembléia Legislativa realizou, no final de abril, a Semana Orlando Villas Bôas, quando também foi instalado o 4.º Fórum Nacional da Identidade Brasileira. Instituída pela Lei 364/2002, de autoria do ex-deputado Claury Alves da Silva, a Semana homenageou o sertanista Orlando Villas Bôas, que dedicou sua vida à preservação da cultura indígena, fundando o Parque Indígena do Xingu, em 1961.

A mesa da solenidade foi composta por Marina Villas Bôas, viúva de Orlando; pelo presidente da Assembléia Legislativa, deputado Sidney Beraldo; por Claury Alves da Silva, presidente do Conselho Brasileiro de Civilização e Cultura; por Guilherme Carrano, coordenador geral do Patrimônio Indígena e Meio Ambiente da Funai, representando o presidente da Funai, Mércio Pereira Gomes; pelos líderes indígenas, caciques Afukaka e Tabata, da tribo kuikuro, índio Piracumã, irmão de Aritana, líder dos Ywalapiti, e pelo pajé Sapain Kamayura; pelo diretor executivo do Instituto do Legislativo Paulista, Carlos Nunes; por Carlos Jaquieri, presidente do Centro de Estudos Orlando Villas Bôas, do ILP, e pelo médico e articulista Dráuzio Varella. Também estiveram presentes os filhos de Orlando, Noel e Orlando Filho, o Villinha, o deputado Vanderlei Macris (PSDB) e o secretário geral parlamentar da Assembléia Legislativa, Auro Augusto Caliman, entre outras autoridades.

O presidente Sidney Beraldo, na abertura dos trabalhos, salientou a necessidade de se refletir sobre a questão indígena, como forma de prevenir conflitos como os que têm acontecido ultimamente.

Depoimentos

A Semana Orlando Villas Bôas foi marcada por depoimentos de autoridades sobre a importância da realização do evento e de representantes da comunidade indígena sobre a convivência com o sertanista.

Leia a seguir um resumo dos principais depoimentos.

Claury Alves da Silva (ex-deputado estadual e presidente do Conselho Brasileiro de Cultura e Civilização, autor da lei que criou a Semana Orlando Villas Bôas) - "A criação da Semana tem o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de preservar uma das culturas fundamentais para a construção de nossa identidade enquanto nação."

Marina Villas Bôas (viúva de Orlando) - "Esta homenagem para a família Villas Bôas representa o reconhecimento do trabalho dos irmãos e um olhar com mais seriedade para a causa indígena. Precisamos avançar na política indigenista para que ela atenda de fato o interesse dos povos indígenas. O índio deve ter a opção de escolher o momento certo para se integrar e esta integração deve ocorrer sem a perda da identidade."

Noel Villas Bôas (filho de Orlando e integrante do Conselho Indigenista da Funai) - "É com satisfação que vemos esta homenagem a meu pai e aos meus tios Cláudio e Leonardo. A homologação de terras é um passo fundamental e prioritário para que a política indigenista se consolide. Sem isso, esta cultura não terá como persistir."

Dráuzio Varella (médico e articulista) - "Minha convivência com Orlando e Marina, sua esposa, foi em viagem que fizemos ao Rio Negro. As longas horas de entrevistas foram transformadas em uma série que foi exibida pelo canal Universitário."

Pajé Sapain/Kamayurá (pajé do Parque Indígena do Xingu) - "Orlando teve um papel muito importante para nós ao criar o Parque Indígena do Xingu. Eu vejo com muita tristeza o que está acontecendo com nossos parentes, como os Cintas-Largas. Era necessário que o governo agisse para que eles não sofressem."

Cacique Tabata (liderança Kuikuro do Xingu) - "Orlando e Marina me criaram. Foi ele que me ensinou a falar português e sempre disse que eu seria uma liderança, o que aconteceu. O fato de o Orlando ter lutado e conseguido a demarcação de nossas terras no Xingu fez com que não tivéssemos os conflitos que ocorrem com os nossos parentes que não têm suas áreas demarcadas."

Guilherme Carrano (coordenador-geral do Patrimônio Indígena e Meio Ambiente da Funai) - "O trabalho de Orlando foi muito importante, mas não podemos esquecer alguns problemas ambientais que estão acontecendo em várias reservas indígenas, como o parque do Xingu, onde os rios que formam o Rio Xingu já sofrem a ação das plantações de soja.

Pirakumã (liderança indígena Ywalapiti do Xingu) - "A conquista da terra para os povos do Xingu foi um feito heróico. Falta hoje uma liderança como a de Orlando para que seja garantido o direito dos índios à terra. No Xingu, ainda hoje, mantemos nossa cultura tradicional e isso se deve em grande parte ao trabalho dos irmãos Villas Bôas."

Murilo Vilela - "Orlando Villas Bôas foi um grande contador de casos". Essa frase, dita pelo médico e amigo de 50 anos, Murilo, definiu um dos aspectos marcantes da personalidade de Orlando Villas Bôas. Orlando era um aluno atento, que aprendeu como medir a pressão, utilizar o estetoscópio, aplicar injeções e realizar pequenas suturas. No Hospital Santa Catarina, em São Paulo, "assimilou de tal modo os ensinamentos que muitas vezes era tratado pelas freiras do hospital, como doutor Orlando".

Segundo dia

Tabata (liderança Kuikuro do Xingu) - "Graças ao trabalho dos irmãos Villas Bôas podemos comemorar o aumento da população indígena no Xingu. Eles foram responsáveis pela preservação de várias etnias que formam hoje a população do Xingu."

Sapain/Kamayurá (pajé do parque Indígena do Xingu) - "Orlando me possibilitou trabalhar junto com médicos brancos no atendimento do meu povo. Eu como pajé fui formado pelos espíritos que me treinaram para ver os espíritos e sentir a energia das pessoas. Orlando e seus irmãos tinham esta energia boa."

Roberto Baruzzi (médico responsável pela implantação da parceria entre o Parque Xingu e a Escola Paulista de Medicina) - "Quando Orlando me pediu em 1965 para implantar um serviço de atendimento aos índios do parque eu não pude resistir, e este programa existe até hoje, inclusive com jovens índios como auxiliares de enfermagem na linha de frente do atendimento às aldeias. Orlando nos ensinou o respeito pela medicina tradicional praticada pelos pajés e ainda hoje seguimos a máxima desta grande homem: 'Os médicos atendem, os pajés curam!'"

Terceiro dia

Paie Kayabi (administrador regional do Parque Indígena do Xingu) - "Meu contato com os irmãos Cláudio e Orlando data da década de 1970. Eles me ensinaram muitas coisas que ainda hoje são importantes para mim. Alertaram-me sobre os perigos que estariam rondando a reserva, como a pressão pelas terras."

Jorge Ferreira (jornalista) - "Para mim, Orlando foi um gênio, assim como Assis Chateaubriant. Convivi com ele e seus irmãos por mais de 50 anos. Meu primeiro contato foi decorrente de uma matéria que fiz com Leonardo para a revista O Cruzeiro. No Rio de Janeiro, a redação da revista já se preparava para publicar uma matéria crucificando os irmãos Villas Bôas. Quando soube desta armação, conversei com o chefe de redação e posteriormente com o dono dos Diários Associados e da revista, Assis Chateaubriant, para que fosse dada a oportunidade para os irmãos apresentarem a sua versão sobre o que se comentava. Chateau concordou e voei para o Xingu. Lá chegando, encontrei Leonardo e, posteriormente, Cláudio e Orlando, e relatei tudo o que sabia da intenção de se criar uma comoção com a revelação de que Leonardo tivera uma filha com uma índia. Convenci a todos que o mais certo a fazer era Leonardo conceder uma entrevista para a revista revelando o fato antes que outros o fizessem, e assim foi feito. O irmão de Orlando foi fotografado com a filha nos braços e revelou sua intenção de se casar com a mãe da menina. A partir daí nos tornarmos amigos."

Leonardo, que faleceu jovem em 1954, era entre os três o mais realista. Cláudio, um homem culto, mas ensimesmado. E Orlando, um gênio, a maneira como via a vida era poética, nunca o vi de mau humor."

Renato Soares (fotógrafo etnográfico responsável pelo acervo de imagens da família Villas Bôas com trabalho voltado para a cultura brasileira ) - "Meu contato com Orlando Villas Bôas é mais recente, o conheci pessoalmente em 1991. Mas, desde a minha infância, a cultura indígena e o trabalho dos Villas Bôas me fascinaram. Tinha seis anos de idade quando, num porão na casa de meus avós, folheando uma edição da revista Cruzeiro, reconheci "esse herói - Orlando Villas Bôas. A principal lição que aprendi com ele foi a que ensina que o homem não é dono da história, e tem a obrigação de repassar os conhecimentos adquiridos, porque só assim eles fazem sentido. É o que procuro fazer em meu ofício."

Identidade brasileira

A identidade nacional, formada da soma das culturas indígena, negra e européia, foi o tema em debate no encerramento da Semana Orlando Villas Bôas e do IV Fórum Nacional da Identidade Brasileira, no dia 30 de abril. "O Fórum Nacional da Identidade Brasileira serve para definir como esta identidade se constrói e em que ela se constitui, levando-se em consideração todos os momentos históricos", explicou o secretário do Conselho Brasileiro de Cultura e Civilização, Carlos Jacchieri, numa autêntica aula sobre a formação da identidade de uma nação.

Jacchieri mostrou como, no Brasil, o intenso processo de sincretismo - caracterizado pela soma da cultura indígena, negra e européia - leva a uma síntese que torna nossa civilização completa, com identidade marcada. "E quem segue construindo nossa identidade são aqueles que hoje estão se preparando para levar o Brasil para mais um século de existência", concluiu, dirigindo-se aos jovens presentes ao evento.