5 DE JULHO DE 1924: 80 ANOS DE UMA REVOLUÇÃO

Antônio Sérgio Ribeiro
02/07/2004 18:12


Eram 4:30 da madrugada, quando o general Abílio do Noronha, comandante da 2ª Região Militar, sediada na capital paulista, recolhia-se à sua residência, no bairro de Perdizes, vindo do Hotel Esplanada (hoje sede das Indústrias Votorantim), localizado atrás do Teatro Municipal. Havia participado de um sarau organizado para comemorar a data da independência dos Estados Unidos. Pelo capitão Grimualdo Favilla, do 4º Batalhão de Caçadores, foi comunicado que oficiais haviam determinado a movimentação de tropas federais em São Paulo.

Naquele 5 de julho de 1924, data do segundo aniversário da revolta conhecida como Os 18 do Forte, quando um grupo de jovens militares e civis se insurgiu contra o governo federal, pleiteando mais democracia no Brasil. Poucos foram os sobreviventes dessa epopéia, que manchou de sangue as areias da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.

De imediato, o general Abílio de Noronha partiu para o Quartel General do Comando Militar, que se localizava na rua Conselheiro Crispiniano. Por telefone, entrou em contato com o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo estadual e residência oficial, mais especificamente com o major Marcílio Franco da Casa Militar do presidente do Estado (hoje governador), e relatou o que ocorria, pedindo que fosse avisado o chefe do Poder Executivo, Carlos de Campos, e dada ordem para que as tropas da Força Pública (hoje Polícia Militar) ficassem de sobreaviso.

O comandante geral da Força Pública, coronel Quirino Ferreira, não pôde ser avisado a tempo e foi preso ainda em sua cama pelos revoltosos, que invadiram a sua residência.

Os oficiais que serviam no QG da 2ª Região Militar foram convocados com urgência. O general Abílio, acompanhado pelos capitães Euclydes Espíndola do Nascimento, chefe do serviço de Estado-Maior da 2ª R.M. e Favilla, partiu em direção ao 4º Batalhão de Caçadores, localizado em Santana. No QG, o tenente Inimá Siqueira ficou incumbido de pedir ligação telefônica para o Rio de Janeiro e comunicar ao ministro da Guerra, marechal Setembrino de Carvalho, todo o ocorrido em São Paulo.

Por volta das 5h da manhã, o comandante da 2ª R.M. e seus oficiais se encontraram, no quartel de Santana, com o coronel Martins Cruz, comandante do Batalhão, e foram informados pelo tenente Amílcar Salgado de que 80 praças haviam saído, equipados, armados e municiados, com o 2º tenente Asdrúbal Gayer de Azevedo, 1º tenente Luiz Cordeiro de Castro e os capitães Joaquim e Juarez Távora em direção aos quartéis da Força Pública, situados no bairro da Luz.

Meia hora depois, o general Abílio e seus oficiais entraram no quartel do 4º Batalhão da Força Pública e encontraram cerca de 30 praças do 4º Batalhão de Caçadores com as armas carregadas. Foi determinado que as mesmas fossem descarregadas e que eles regressassem ao quartel de Santana, o que foi feito.

Dentro do quartel, oficiais e soldados da Força Pública estavam desarmados e informaram que haviam sido pegos de surpresa pelo contingente armado do Exército, tomando o quartel. Foi dada a ordem de fechamento do portão e voz de prisão a qualquer oficial do Exército que por lá aparecesse.

Ainda no bairro da Luz, o comandante da 2ª R.M e os oficiais que o acompanhavam foram para o Corpo Escola da Força Pública, próximo dali. No portão, um sentinela do 4º Batalhão de Caçadores teve a sua arma descarregada e ordem para regressar ao quartel. Dentro do Corpo Escola, 40 praças do Exército foram também desarmados e a metralhadora apreendida e desmontada, culminando com o regresso deles para o quartel de Santana.

Dentro do pátio do Corpo Escola, estava com um revólver em punho o tenente Gayer, a quem foi dada ordem de prisão. Dizendo que era um revoltoso, recusou a entregar-se e, recuando, conseguiu fugir, correndo em direção ao 1º Batalhão da Força Pública. A uma pequena escolta do regimento de cavalaria da milícia paulista, que chegava, foi ordenada a perseguição ao tenente fugitivo.

Ao adentrar na sede do Batalhão, o general Abílio e a sua comitiva foram rendidos por uma escolta de infantaria da Força Pública empunhando fuzis e comandados por um individuo, de chapéu desabado, embuçado numa grande capa de inverno e de revolver em punho: era o capitão Joaquim Távora, desertor da guarnição de Corumbá e irmão de Juarez Távora, um dos heróis de 5 de julho de 1922.

Nessa ocasião, ocorreu um fato inusitado: o 1º tenente Aguinaldo Caiado de Castro entrou em luta corporal com o tenente Gayer e com o capitão Juarez Távora ao se recusar a aderir aos revoltosos, afirmando sua fidelidade ao general Abílio de Noronha. Aguinaldo Caiado de Castro viria a ser o comandante do 1º Regimento de Infantaria (regimento Sampaio) da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália na 2ª Grande Guerra Mundial, regressando ao Brasil como herói. No segundo governo de Getúlio Vargas, seria chefe da Casa Militar da presidência da República - ironicamente substituído por Juarez Távora, após o suicídio do presidente e a posse do vice Café Filho. Foi ainda senador da República, (PTB) pelo Distrito Federal de 1955-1963.

Prisões de oficiais

Com a chegada do chefe dos revoltosos, general reformado do Exército Isidoro Dias Lopes, deu voz de prisão ao comandante da 2ª Região Militar. Em um ato de coragem, retorquiu e pediu que o matassem, bem como os demais se assim fosse do agrado. Foi determinado pelo general Isidoro que o general Abílio ficasse preso em sua residência, no que este respondeu que, na primeira oportunidade, iria reagir. Foi, então designado como prisão o quartel do 1º Batalhão da Força Pública, recusado também.

No QG, o capitão Siqueira comunicou-se com o general Carlos Arlindo, que estava em viagem de inspeção ao interior do Estado, solicitando o seu retorno a São Paulo e, com o general Candido Pamplona, comandante militar no Vale do Paraíba, que embarcasse com o seu regimento para a Capital.

Em virtude da recusa do general Abílio, foi determinada então a sua prisão, bem como a dos demais oficiais, na sede do próprio Corpo Escola da Força Pública no bairro da Luz. Na manhã do dia 6, foi trazida presa a jovem aviadora Anésia Pinheiro Machado, que também se recusara a aderir ao movimento. Pouco depois, teve início uma forte fuzilaria entre os revoltosos e os legalistas que resistiam na sede do 4º Batalhão da Força Pública. Após terem sido informados que seriam bombardeados com artilharia pesada, o capitão Pedro de Moraes Pinto, que comandava as tropas legalistas no quartel, informou que não se renderia e que todos morreriam, inclusive todos os revoltosos que ali se encontravam presos. Essa resistência continuou, apesar dos ataques dos revoltosos, até a retirada do governo e das forças legais.

Ainda ao alvorecer de 5 de julho, desde que foi informado da revolução, o presidente do Estado, Carlos de Campos, preparou-se para defender o seu governo. Ele havia assumido o cargo há pouco mais de dois meses, sucedendo a Washington Luís. No Palácio dos Campos Elíseos, a diminuta guarda, composta de dezesseis homens, recebeu, do major Marcílio, quinze cartuchos cada um deles e foram colocados em grupos nos pontos de acesso da residência presidencial do Estado. Por telefone, foram convocados todos os doze bombeiros do posto da alameda Barão de Piracicaba, que chegaram em dez minutos, munidos de carabinas embaladas.

O secretário da Justiça e Segurança Pública, Bento Bueno, informado da movimentação, foi pessoalmente aos Campos Elíseos comunicar ao presidente Carlos de Campos que o quartel da Luz fora tomado pelos revoltosos. Ficou resolvido em conversa reunir todos os elementos possíveis para a resistência. O local escolhido para a reunião foi a sede da Polícia Central. Todos os comandantes da Força Pública foram convocados por telefone pelo major Marcílio. Os oficiais e praças que foram à sede da polícia iam à paisana, para evitar a prisão pelos revoltosos.

Enquanto o secretário Bento Bueno organizava os legalistas, chegou a notícia de que elementos insurgentes haviam chegado ao portão principal do Palácio dos Campos Eliseos, com o intuito de atacar com auxílio de metralhadoras. O major Marcílio Franco, de revólver em punho, correu para a entrada com seus subordinados e, com fuzis apontados para aqueles que guarneciam uma metralhadora, apanhou-os de surpresa sem chance de reação. Na esquina da Alameda Nothmann, os 40 revolucionários armados receberam do major intimação para defender o governo constituído e aos seus soldados ordenou que a metralhadora fosse recolhida para dentro do Palácio. O tenente Benedicto Marcondes, que se achava junto à arma, retrucou, sugerindo que o major Marcílio deixasse a metralhadora; ele respondeu com um tiro, o tenente cambaleou e fugiu, e o próprio Marcílio puxou a metralhadora e deu voz de prisão para os quatro soldados que a guarneciam. Assim foi feito também na esquina da rua dos Guaianases, arrastando pelos canos duas metralhadoras. A quarta metralhadora, que se encontrava na esquina da Alameda Nothmam, foi levada pelos revoltosos, comandados pelo capitão Estillac Leal, que fugiram após um rápido tiroteio.

Na troca de balas, é ferido no pé Almiro de Campos, irmão do presidente do Estado, com um tiro de revólver, ao atravessar o pátio do Palácio para fechar um dos portões. Almiro, logo que soube da revolta, correu, juntamente com seus irmãos, o deputado estadual Américo, Mário e Sylvio, para ajudar na defesa do governo. Sangrando, foi removido para o Instituto Paulista para ser medicado. Pouco depois, dona Maria Lydia de Souza Campos, conhecida por dª Marocas, esposa do presidente, em companhia de suas filhas, deixava, de automóvel, o Palácio em direção à avenida paulista, lugar mais seguro.

Granadas e obuses contra o palácio

Com reduzido número de soldados para defender o Palácio, os amigos e correligionários de Carlos de Campos dirigiram-se para os Campos Elíseos, entre eles o senador estadual Freitas Valle, diversos deputados estaduais como Júlio Prestes, Roberto Moreira, Mário Amaral, César Costa, Ralpho Pacheco e Silva, Flaminio Ferreira, José de Almeida Prado, também vice-presidente da Assembléia Legislativa do Estado, e os secretários de Estado José Lobo, do Interior, Gabriel Ribeiro dos Santos, da Agricultura e Mario Tavares, da Fazenda. Por volta das 8h da manhã, entre os que foram levar solidariedade ao presidente, estavam o arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Duarte Leopoldo, Dino Bueno, presidente do Senado Estadual, e o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, ministro Campos Pereira.

Às 9h da manhã, todos foram surpreendidos por explosões de granadas e obuses disparados pelos revoltosos contra o Palácio, do Campo de Marte e da Ponte Pequena, com artilharia pesada trazida do quartel de Quitaúna. A pontaria, para sorte dos que estavam nos Campos Elíseos, não era das melhores, mas houve momentos de grande horror com muitos danos materiais e vítimas a lamentar, para azar dos moradores do bairro, como uma criança de sete anos com o corpo rasgado e as vísceras à mostra pelos estilhaços. Um dos obuses explodiu no Liceu Sagrado Coração de Jesus, ocasionando inúmeros estragos e ferindo gravemente um dos alunos. A direção do estabelecimento determinou a evacuação de todo o pessoal para a Hospedaria dos Imigrantes no bairro do Brás.

Era tão forte o bombardeio em torno do Palácio, que o presidente do Estado foi aconselhado pelo general Nérel, da missão francesa que prestava serviços à Força Pública paulista, a abrigar-se com seus amigos nos porões dos Campos Elíseos, mas Carlos de Campos se recusou, permanecendo nos corredores e salas do casarão.

Toda a cidade ficou paralisada, as ruas desertas, não circulavam bondes nem táxis. O único meio de locomoção era a pé. O comércio fechou as portas, outras casas comerciais nem abriram. Os rebelados haviam tomado as estações ferroviárias. Foi preso na Estação da Luz o presidente da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, deputado Antonio Lobo, que chegava de trem de sua cidade, Campinas.

O chefe de polícia, Roberto Moreira, e o poeta e escritor Cyro Costa foram buscar na sede da Polícia Central, com dois automóveis Ford, todo o armamento disponível, na sua maioria carabinas, além de munição para armar a maioria dos civis que estavam entrincheirados na sede do governo do Estado.

Nas ruas vizinhas à Sé, notadamente nas ruas Direita, Quintino Bocaiúva e José Bonifácio, um forte tiroteio se fazia ouvir Eram tropas do governo que lutavam pela posse do edifício do Telégrafo, que acabou nas mãos dos legalistas, depois de contabilizadas várias mortes e muitos feridos.

Estado de sítio

No Rio de Janeiro, o presidente da República Arthur da Silva Bernardes, em caráter de urgência, encaminhou ao Congresso Nacional, no próprio dia 5 de julho, mensagem solicitando Estado de Sítio em São Paulo, Rio de Janeiro e no Distrito Federal. O ato legal chegou às 13h e às 14h, já aprovado pelos parlamentares.

Às 20h, o presidente Carlos de Campos foi informado, por uma comunicação do Rio de Janeiro, que só às 18h é que as tropas do 6º Regimento de Infantaria de Caçapava haviam embarcado para São Paulo. A decepção foi grande para todos, pois o socorro não chegaria naquela noite. A preocupação era que os rebeldes, aproveitando-se da escuridão, pudessem atacar o Palácio. Para a defesa do prédio, com picaretas e alavancas, os paralelepípedos foram arrancados das ruas e transportados para o fundo dos Campos Elíseos, para formar trincheiras.

À meia noite, o que se temia aconteceu: o ataque dos rebeldes. Uma forte fuzilaria se fez ouvir. Dos jardins do Palácio, os legalistas defendiam sua posição. As trincheiras escavadas no lado do portão principal na Avenida Rio Branco eram as mais exigidas. Tiros de metralhadoras e de fuzis eram trocados entre os antagonistas. De madrugada, comandados pelo capitão Abílio de Rezende, um grupo de 130 soldados de seu Batalhão do Exército fortemente armado conseguiu chegar ao palácio depois de horas de caminhada pelos bairros da Freguesia do Ó e Casa Verde.

Com a chegada do novo contingente, um novo problema se fez sentir: a falta de mantimentos. Depois de algum esforço, conseguiram fazer chegar ao Palácio arroz e bacalhau. E, assim, o cardápio, enquanto perdurou a permanência de todos no palácio, era arroz com bacalhau e "para variar" bacalhau com arroz.

Ainda na primeira noite foi montado um hospital de sangue para atender os feridos. Era a única sala que se mantinha com luzes acessas, mas com as janelas cerradas. Durante quatro dias e três noites, o esforço para a defesa foi muito grande, mas o socorro ansiosamente esperado não chegou.

Por mar, via porto de Santos, o governo federal mandou tropas de marinheiros com canhões e aviões. Por trem, a tropa chegou até o Ipiranga, sendo recebida à bala pelos rebeldes. Com o auxílio de baterias vindas no forte de Itaipu, situado em São Vicente (hoje pertencente ao município da Praia Grande), as tropas legalistas reagiram, colocando em fuga os revoltosos.

No lado leste da cidade, as tropas governamentais se concentravam no aguardo de mais reforços. Da Penha e da estação de Guaiauna os legalistas iniciaram um pesado bombardeio ao bairro da Luz, onde se concentravam as forças do general Isidoro Dias Lopes. Mas quem sofreu foi a população civil. Os reforços que chegavam de cidades do interior eram compostos de voluntários civis.

Depois de dois dias de combates, a Associação Comercial de São Paulo, presidida por José Carlos de Macedo Soares, manifestou preocupação pela sorte da população da capital paulista. Sem policiamento, transportes, sem alimentos, com falta de água e luz em vários bairros, a situação era caótica e preocupante. Não tardou o início dos saques, grande parte deles na região cerealista da capital.

Incêndios eram vistos em toda a cidade, o maior de todos em um depósito de inflamáveis localizado na várzea do Glicério, cujas labaredas eram assustadoras; o Corpo de Bombeiros nada podia fazer. No Rio de Janeiro, o presidente Arthur Bernardes decreta feriado de 7 a 15 de julho. A vida econômica da metrópole pára totalmente.

Bombardeios na capital paulista

No dia 8 de julho, o presidente é aconselhado pelos generais Estanislau Pamplona e Carlos Arlindo a deixar o Palácio para que as tropas governamentais que se concentravam na zona leste da capital pudessem dar combate aos revoltos. Às 13h, o Palácio dos Campos Elíseos é abandonado por Carlos de Campos e seus fiéis seguidores. Um contingente da Força Pública permaneceu no Palácio para defendê-lo de uma invasão. O presidente se dirige para o prédio da Secretaria da Justiça, localizado no Largo do Palácio (hoje Pátio do Colégio). Logo ao chegar, uma bala de um canhão 105, que estava postado no alto do Araçá, atinge em cheio o prédio, matando instantaneamente seis marinheiros que faziam a sua guarda.

Ficaria provado depois que havia, dentre aqueles que acompanhavam o presidente, adeptos da rebelião, resultando no vazamento da localização da autoridade máxima do Estado. O bombardeio aos palácios dos Campos Elíseos e dos Despachos, este localizado no Largo do Colégio, e às secretarias prosseguiu violento; à noite Carlos de Campos seguiu em direção a Guaiauna (hoje Aricanduva), estação da Central do Brasil, então um distante subúrbio de São Paulo, via Ipiranga e São Bernardo, para ir ao encontro das tropas lá concentradas sob o comando do general Eduardo Sócrates, comandante da 4ª R.M., sediada em Juiz de Fora, Minas Gerais, e destacado para comandar a Divisão de Operações das tropas legalistas.

Permanecendo em um vagão, pertencente à administração da Estrada de Ferro Central do Brasil, colocado à disposição do general Sócrates, configurado em salão, com oito poltronas e dormitórios com seis camas, pernoitavam o presidente e os generais. As refeições eram feitas na residência de um funcionário da Secretaria da Agricultura, de nome J. Carvalho, e que morava nas proximidades da estação.

Durante a permanência das autoridades civis e militares em Guaiauna, os revolucionários mandaram uma locomotiva, sem maquinista, carregada de munição para explodir na estação, mas precavido, o general Sócrates, colocou o seu vagão em um desvio, e a máquina passou direto, descarrilando e tombando depois, sem causar vítimas.

Carlos de Campos através do telégrafo se comunicava com o governo federal e com o presidente do Senado Federal; era a forma de mantê-los informados. Ao final de uma de suas mensagens escreveu:

"Estou certo de que São Paulo prefere ver destruída sua formosa capital, antes que destruída a legalidade no Brasil".

Apesar da opinião do presidente do Estado, um grupo de paulistas preocupava-se com a gravidade da situação e a sorte da população menos favorecida, pois aqueles que tinham condições fugiam da capital, na sua maioria, para o litoral. Encabeçada por dom Duarte Leopoldo, arcebispo metropolitano, Firmiano Pinto, prefeito da capital, José Carlos de Macedo Soares, presidente da Associação Comercial de São Paulo, o jornalista e senador estadual Júlio Mesquita, diretor de "O Estado de S. Paulo", e Vergueiro Steidel, presidente da Liga Nacionalista, reuniram-se para tomar conhecimento do telegrama, datado de 12 de julho, e enviado pelo ministro da Guerra, marechal Setembrino de Carvalho, ao prefeito de São Paulo, que dizia:

"Devidamente autorizado pelo Exmo. Sr. Presidente da República a responder ao telegrama no qual V. Exa. e demais ilustres signatários pedem não seja, pelas razões que expõem, bombardeada a cidade de São Paulo, deve declarar com verdadeiro pesar que não é possível assumir nenhum compromisso nesse sentido. Não podemos fazer a guerra tolhidos do dever de não nos servirmos da artilharia contra o inimigo, que se aproveitaria dessa circunstância para prolongar sua resistência, causando-nos prejuízos incomparavelmente mais graves do que os danos do bombardeio."

Ainda afirmaria que "os danos materiais dum bombardeio podem ser facilmente reparados..." e finalizando escreveu: "nossas tropas não causarão danos materiais inúteis à bela e florescente cidade de São Paulo, senão que usarão de artilharia na medida estrita das necessidades militares".

Anos depois, com o fim da República Velha, ninguém, nem o signatário do telegrama, o então ministro da Guerra, marechal Setembrino, nem o próprio presidente da República da época, Arthur Bernardes, assumiriam a responsabilidade pelo criminoso ataque com bombas de canhão à capital paulista.

Os revolucionários também não estavam sensibilizados com a sorte da população civil, tendo colocado peças de artilharia pesada na rua dos Apeninos com o intuito de bombardear o bairro do Ipiranga e imediações, por supor que houvesse tropas legalistas naquela região e que, com certeza, revidariam aos tiros, acertando os bairros da Aclimação, Paraíso e Vila Mariana. O desespero dos moradores foi total, incluindo o cônsul de Portugal que, lamentando o fato, comunicava que abandonava sua residência, retirando-se para outro local em busca de proteção para si e sua família.

Aqueles que aguardavam ansiosamente as tropas federais, que deveriam dar combate aos revoltosos, não entendiam a demora da mobilização e do ataque, mas o problema era mais grave: essas tropas não eram confiáveis, grande parte dos contingentes acabou aderindo aos revolucionários. Dois terços da força de Caçapava e um terço da de Lorena eram claro exemplo da delicada situação.

Os revolucionários contavam com perto de 4.000 soldados na capital, e o comandante das tropas legalistas, general Sócrates, de acordo com os demais generais e o seu Estado Maior, resolveu dar combate aos insurretos somente quando pudesse contar com uma tropa bem superior em número (mais de 14 mil homens) e, por isso, aguardava a chegada de reforços, que sabia não iriam bandear para o outro lado. Entre os dias 9 e 12 de julho, isso ocorreu.

Bandeiras brancas

Na madrugada de 15 para 16 de julho, cerca de 10.000 homens atacaram as posições dos revoltosos, que, fortemente entrincheirados, resistiram. As baixas nas tropas do governo foram grandes, ocasionando um início de pânico, que foi dominado pelos oficiais, sem que os rebeldes soubessem do grave problema havido.

Na tentativa de pôr fim à revolução, em 16 de julho, o presidente da Associação Comercial, José Carlos de Macedo Soares, escreveu uma carta para o general Abílio de Noronha, na qual apelava para que ele interviesse junto ao governo federal para chegar a termo a situação. O presidente da Associação Comercial, no dia seguinte, recebeu uma resposta, solicitando que o comandante da 2ª R.M. fosse o intermediário junto ao chefe da revolução, general Isidoro Dias Lopes. Este leu a carta do general Abílio e respondeu por escrito, colocando todas as suas condições, entre elas a entrega imediata do poder a um governo provisório, que poderia ser dirigido pelo ex-presidente Wenceslau Braz, o fim da reeleição de parlamentares em todos os níveis, Igreja separada do Estado, fim dos impostos interestaduais e, ainda, falava do voto secreto e reformas tributárias e aduaneiras.

Com essa resposta, o general Abílio de Noronha declarou a impossibilidade de colaborar com o fim do conflito, pois não podia se dirigir ao presidente da República naqueles termos. Com a negativa do general, o bispo de São Paulo, dom Duarte Leopoldo, e o prefeito da capital, Firmiano Pinto, resolveram ir ao encontro do presidente do Estado, o que ocorreu no dia 23, após receberem salvo conduto do general Isidoro. A resposta de Carlos de Campos foi "que ele, mais do que ninguém, lamentava a sorte do povo paulista (...) mas que não tinha competência para tomar qualquer decisão, e quem a teria seria unicamente o presidente da República, Arthur Bernardes". Ao término da Revolução os integrantes da comissão, entre eles José Carlos de Macedo Soares, Júlio Mesquita, o prefeito Firmiano Pinto e o próprio general Abílio de Noronha, foram levianamente acusados de colaboração com os revoltosos, sendo que os dois primeiros chegaram a ser presos.

Ainda no dia 21, um boletim (o primeiro) foi confeccionado pelo deputado Pires do Rio, que retornava da capital federal onde havia estado a pedido de Carlos de Campos, informando ao presidente da República da situação na capital paulista. Endereçado "Ao Povo de São Paulo" e assinado "Legalistas", foram impressos mais de 40 mil folhetos, em três modelos, numa gráfica de Mogi das Cruzes, para serem jogados na capital por aviadores. Nele o governo informava à população o que ocorria e o que o governo fazia para restabelecer a ordem pública.

Finalmente, entre os dias 21 e 27 de julho, uma esquadrilha de aviões governistas fizeram vários vôos sobre São Paulo, jogando mais de 100 granadas pequenas. No dia 27, foram arremessados no bairro da Luz três grandes bombas de 75 quilos, verdadeiros torpedos aéreos, colocando os rebeldes em pânico. Cerca de 15.000 homens das tropas governistas se encontravam nos bairros da Penha, Ipiranga, Aclimação, Jardim Japão, Vila Maria e Vila Guilherme, prontos para invadir a capital.

Nas primeiras horas da madrugada, quando a população ainda dormia, os sinos das igrejas e os apitos das fábricas começaram a soar por toda a capital. Os fortes tiros de canhão haviam cessado. Aos poucos a população começou a ir para as ruas. Soldados da Força Pública, transportados por caminhões, davam vivas à legalidade e ao governo. De vários prédios, dentre eles os das secretarias do Largo do Palácio (hoje Pátio do Colégio), flutuavam bandeiras brancas. Na noite de 27 para 28 de julho, os rebeldes em trens começaram a fugir da capital dos paulistas, deixando para trás 503 mortos e 4.864 feridos, na sua grande maioria, civis.

O presidente do Estado Carlos de Campos, em companhia do general Eduardo Sócrates e do secretário da Justiça e Segurança Pública, em automóvel, dirigiram-se ao Palácio de Despachos, situado no marco zero da capital. Enorme multidão os aguardava, e foram recebidos por calorosa aclamação e salvas de palmas. No Palácio, discursaram, agradecendo a manifestação popular. Era a vitória da legalidade.

Um contingente foi destacado para ir em perseguição aos rebeldes que fugiram em direção a Mato Grosso. A fuga dos revoltosos gerou a famosa "Coluna Miguel Costa/Luis Carlos Prestes". Mas isso é outra história.

(*) Antônio Sérgio Ribeiro, é advogado, pesquisador e funcionário da Secretaria Geral Parlamentar da Assembléia Legislativa

O autor agradece a sempre valiosa colaboração de Sandra Sciulli Vital, da Divisão de Biblioteca e Documentação da ALESP