O FÉRETRO DO MODELO NEOLIBERAL - OPINIÃO

Arnaldo Jardim*
02/08/2001 14:34

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O neoliberalismo morreu. Esta expressão não foi usada por nenhum dinossauro ou neobobo. Foi utilizada por um alto executivo do mercado financeiro numa conversa na qual discutíamos os modelos econômicos. Na oportunidade, ele me confidenciou que nem mesmo organismos internacionais do porte do FMI e do Banco Mundial acreditam neste receituário baseado na desregulamentação de todas as regras sobre o fluxo do capital financeiro e na queda indiscriminada de barreiras comerciais.

Propagandeado como panacéia para promover o desenvolvimento e gerar a decantada "igualdade produzida pelo mercado", o neoliberalismo está morto. Morreu de morte morrida, ao demonstrar a sua incapacidade de fazer a distribuição de renda que apregoava o incremento na produção econômica que anunciava.

Morreu também de morte matada, graças ao discernimento de muitos quanto aos exageros nos ingredientes da receita. Antes de se tornarem vítimas, transformaram a fórmula e corrigiram as insanidades.

O irônico de tudo isso é que a morte morrida se deu nos países mais frágeis, em processo de desenvolvimento.

Já a morte matada teve lugar nos próprios criadores do monstro: nos pólos mais desenvolvidos do planeta, como os Estados Unidos e a União Européia. Estes utilizaram a tática do façam o que eu falo mas não façam o que eu faço. Isso porque, cientes do veneno imposto ao mundo, trataram de preservar seu sistema produtivo, quer seja na área industrial, quer na agrícola. E mais: preservaram o seu patrimônio intelectual, protegendo suas patentes com leis muito rigorosas.

Em contrapartida, propunham quebrar patentes da biodiversidade da Amazônia e não titubearam em estabelecer regras claras para o controle do fluxo de capitais, sempre que alguma instabilidade começava a sobressaltar os grandes mercados internacionais.

Foi assim que muitas vezes o Federal Reserve Bank, por meio de Allan Greenspan, se antecipou aos movimentos financeiros internacionais. Foi assim que buscaram cuidar da moeda japonesa para evitar que isso perturbasse, de alguma forma, o equilíbrio entre o dólar e o euro.

No seu hábitat, os neoliberais trataram de matá-lo, para evitar os seus efeitos nefastos sobre a economia e a população.

Já nas nossas bandas ele está morrendo de morte morrida. Exauriu-se quando, por exemplo, após sugar o parque produtivo argentino, o liquidou, além de não mexer uma palha para que o processo de concessões e privatizações conseguisse realizar a anunciada modernização do sistema produtivo daquele país. Agora solicita medidas de emergência, outorgando ao Estado (olha ele aí de novo!) um papel indutor de desenvolvimento.

Ainda assim há os mais realistas que o rei. Isso ocorre aqui no Brasil com aqueles que buscam o equilíbrio fiscal, independente de qualquer vinculação com o desenvolvimento. São os mesmos que continuam com a política suicida de aumento da taxa de juros, como único instrumento de contenção da expansão monetária e da inflação. Pensam proteger o Brasil mas estão a aumentar a vulnerabilidade externa do país, aumentando a possibilidade de contágio e possibilitando que qualquer vírus de gripe que circule pelo sistema financeiro internacional possa se transformar numa perigosa pneumonia aqui.

Por isso é que temos preconizado que não basta simplesmente mudar um ou outro aspecto do sistema. É preciso, preservando o compromisso com a estabilidade econômica, promover uma alteração profunda do modelo econômico que aí está.

É isso que tem defendido Ciro Gomes e o PPS. Trata-se de uma necessidade inadiável para todos os setores da sociedade brasileira.

*Arnaldo Jardim, engenheiro civil, 46 anos, é deputado estadual e presidente estadual do PPS, além de relator geral do Fórum SP Séc. XXI

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