Historiadores falam sobre o papel dos brancos na formação do povo brasileiro
Da redação
Abordar uma questão abrangente e fundamental como o papel dos brancos na formação do povo brasileiro é tarefa complicada e que requer reflexão. Os historiadores Arnaldo Daraya Contier e Zilda Iokoi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, desincumbiram-se dela ao participarem nesta quarta-feira, 24/4, no Auditório Teotônio Vilela da Assembléia Legislativa, de uma mesa redonda organizada pelo 3º Fórum Nacional da Identidade Brasileira, que comemora a Semana Orlando Villas Boas. Coordenando a mesa, o escritor Izaías Almada ladeou o deputado Ricardo Tripoli e registrou a ausência de um dos convidados, o jornalista e professor Jair Borin, falecido nesta semana. Borin foi homenageado pela mesa.
O historiador Arnaldo Contier ateve-se ao tema "Neodarwinismo social: cultura e cidadania". Reportando-se aos primórdios do República brasileira, evidenciou que o estado oriundo de 1889 favoreceu as elites brancas mais poderosas. A começar pelo sistema eleitoral, que reduziu o número de eleitores, a República nasceu com laivos conservadores e antidemocráticos. No Império, 10% da população tinha direito ao voto, o novo regime reduziu essa participação a apenas 1%. Excluídos estavam os pobres, analfabetos, mendigos, mulheres, menores e membros das irmandades religiosas. Citando o republicano Raul Pompéia, "agora, pão é pão, queijo é queijo, dinheiro é dinheiro".
Contier identificou em meio às teses liberais, positivistas e republicanas concepções do neodarwinismo social que sustentaram os ideais de regeneração da vida republicana. Ao apresentarem a cidade de Paris, paraíso europeu, como modelo de civilização e de progresso, nossas elites contrapunham-no ao ambiente de uma formação social marcada pela miscigenação e constituída por homens pobres e negros, reputados com o conceito da barbárie.
São pródigas as manifestações do projeto de civilização branca das elites brasileiras. De Aluízio Azevedo, autor de O Cortiço, passando por Sílvio Romero, Nina Rodrigues e pelos remodeladores urbanos do Rio de Janeiro, Barata Ribeiro e Pereira Passos, o historiador identifica manifestações de um projeto de civilização branca selada por pretensões do pensamento cientificista. Como extirpar o atraso, a incivilidade, as aglomerações bárbaras e sórdidas encravadas nos cortiços? Como lidar com as "classes perigosas"? Esta foi uma das questões a que nossa elite procurou responder. Inspirada na ideologia haussmaniana da administração da cidade cientificamente, a elite política da capital da República levou a cabo a remodelação da cidade do Rio de Janeiro, cujo principal objetivo foi a erradicação dos cortiços e sua substituição por uma arquitetura civilizada e moderna. Sem espaço dentro da cidade, a população pobre e de excluídos sobe os morros e assiste de fora a essa arquitetura do espetáculo e aos limites impostos à cidadania pelo projeto republicano. Contier vê na história republicana a persistência dessa concepção da arquitetura do espetáculo, da cidade administrada "cientificamente".
Sem enquadramento nos modelos civilizatórios das elites brancas, negros, mestiços e excluídos criam suas próprias repúblicas. Segundo Contier, são repúblicas culturais e étnicas, que forjam os universos do samba, do carnaval e do futebol. Esses universos diferenciados da cultura expressam o caráter antropofágico de nossa cultura, que digere as referências culturais brancas e européias, sacralizadas pela elite.
Brancos discriminados
Zilda Iokoi inseriu na discussão o papel dos brancos pobres na formação do povo brasileiro. Trazer a Europa para dentro do Brasil foi para as elites brancas um imperativo da atualização de nossa história. Porém, se de um lado, o projeto de embranquecimento do povo brasileiro predominou no século XIX e início do XX, a imigração de trabalhadores europeus gerou uma confusão na história do país. O ingresso de imigrantes italianos de extratos pobres e com experiências de protestos sociais adquiridas em seu país de origem fortalece as estruturas discricionárias do racismo e novos estigmas.
Evidencia-se que a problemática de classe é mais estrutural do que a cultural e étnica. As elites deslocam para os trabalhadores brancos as imagens negativas do trabalhador negro. Tratados na mesma ordem na mesma lógica, imigrantes foram vítimas da violência de contratos e da denegação dos direitos de cidadania.
Zilda referiu-se à formação do bairro do Bom Retiro, onde assentaram-se italianos e judeus da Europa do Leste. Segundo a historiadora, ao longo das décadas de 1920 e 1930, essas comunidades demonstraram-se ativas e plenamente integradas aos movimentos de esquerda paulistas. Com forte tradição libertária, a população reestrutura o bairro e cria uma dinâmica cultural e social que demonstrava grande articulação e movimentação política. A questão central, para a historiadora, é como o Estado exerce discriminação e atua numa cidade que está sempre em movimento. Atividades políticas e sociais podem não ser consideradas perigosas desde que mantidas em limites espaciais.
No Brasil foi vitorioso o projeto de modernização sem mudanças. A formação do estado moderno foi incompleto, visto que não perseguiu o caminho da cidadania, da agregação de demandas mais amplas da sociedade. O problema cravado pelas elites brancas do Brasil continua a persistir: as restrições impostas à redistribuição do poder. "Estamos num momento da vida republicana em que devemos discutir se vamos mexer na estrutura da distribuição de renda. Temos as perspectivas da heteroculturalidade, da universalização da educação e da ampliação dos direitos. O Direito brasileiro é burguês e nele os pobres não cabem. Não há como construir um estado moderno sem distribuição de renda e sem que a população decida sobre seus direitos."
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