CPI da CBF/Nike ouve jogadores na Assembléia
A Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados instituída para investigar irregularidades no futebol brasileiro ouviu na tarde desta terça-feira, 23/1, os jogadores Marlon da Silva Santos e Marcos Antônio Costa, o Preto. Eles atualmente estão contratados, respectivamente, pela Associação Desportiva São Caetano e pelo Santos Futebol Clube. Os jogadores foram ouvidos e interpelados pelos deputados federais Aldo Rebelo (PCdoB-SP), presidente da comissão; Nelo Rodolfo (PMDB-SP), vice-presidente; Silvio Torres (PSDB-SP), relator; e Eduardo Campos (PSB-PE), sub-relator.
Aldo Rebelo afirmou que o objetivo da reunião, realizada em São Paulo, é apurar os desvios ocorridos com a documentação de jogadores para efeito de transação entre clubes e tentar chegar aos culpados. "Sabemos que a responsabilidade dos jogares que têm seus documentos alterados, conhecidos como 'gatos', é muito pequena ou quase nenhuma, já que os que lucram com o processo são os empresários e dirigentes de clubes, além dos cartórios. O atleta é o maior prejudicado", lembrou Rebelo.
Marlon admitiu que sua data de nascimento foi adulterada, passando de 1977 para 1981, mas não soube dizer quem foi o responsável pela falsificação. "Saí do Maranhão, onde tinha participado do campeonato estadual pelo Moto Clube sem contrato, para fazer um teste no Juventus, em São Paulo. Quem me indicou para o clube paulista foi o Valmir, que era meu procurador e ficaria com R$ 15 mil se o time me contratasse". E acrescenta: "Fui direto do Juventus para Araras, no interior do Estado, para fazer teste no União São João. Fui aceito e não houve problemas com os documentos, quando perceberam que foram adulterados. Voltei para São Luis para regularizar minha situação e poder jogar normalmente aqui", contou. De acordo com seu depoimento, o jogador assinou contrato com a documentação irregular. " Regularizei depois, quando surgiu o caso do Sandro Hiroshi", disse ele.
Com os documentos em ordem, Marlon voltou ao União São João, onde fez um novo contrato, passando a receber R$ 800/mês. Pelo contrato original, o jogador recebia R$ 300, chegando no final do contrato a R$ 600. Vendido ao São Caetano, o jogador afirmou não saber o valor da transação, mas que deverá receber R$ 40 mil, ou 15%. Segundo ele, seu procurador é o União São João.
O jogador confirmou que quando jogava no Boa Vontade, do Maranhão, já era filiado à Federação Maranhense de Futebol e que não havia como ter saído do time com a documentação alterada sem que pessoas do Boa Vontade soubessem, já que ele havia apresentado uma documentação correta.
Os deputados federais presentes confirmaram alguns nomes de pessoas que estariam envolvidas nas transações envolvendo jogadores vindos do Maranhão, como o presidente do Boa Vontade, Emanuel; o diretor do mesmo time, Mundico; Valmir Pinheiro Bastos, ex-procurador e dono do passe de Marlon; um homem conhecido como Chita, que providenciaria as certidões falsas; Babau, que teria falsificado a certidão de nascimento de Marlon; e Cassis de Lima, que seria, segundo palavras do deputado Eduardo Campos, "a porta de saída de jogadores maranhenses para o exterior".'
Durante o depoimento de Marlon, o deputado Eduardo Campos ressaltou o interesse da CPI em manter seu compromisso com a verdade, "para que outros talentos não se percam nas mãos de pessoas que só querem sugar esses talentos".
Entre os jogadores saídos do Maranhão como "gatos", além de Marlon e Preto, foram citados Oliveira - jogador de sucesso no futebol europeu, atualmente no Bolonha, na Itália, e que já atuou na Bélgica e na seleção daquele país após ter se naturalizado - e Cleber, que teria tido inclusive, seu nome alterado. No caso de Marlon, além da data de nascimento, também o local de nascimento e filiação foram modificados. O jogador, que é paraense, passou a ser, pelos documentos falsos, nascido no Maranhão. Alteraram o nome de sua mãe e deixaram o nome do pai em branco.
Ao final do depoimento de Marlon, o relator da CPI pediu uma cópia da certidão adulterada ao representante do São Caetano, o advogado João Zanforlin. O advogado disse que o clube não a tem e que, talvez, nem o União São João. Ele sugeriu que a cópia do documento seja solicitada à CBF, entidade para a qual os documentos e cópias dos contratos são enviados obrigatoriamente.
O depoente seguinte, o jogador Marcos Antonio Costa, o Preto, do Santos Futebol Clube, disse ter sido visto jogando no Boa Vontade pelo dono do Primavera de Indaiatuba, Peçanha, em 1996. O próprio Peçanha teria dito que Preto poderia jogar em qualquer clube do Brasil, contanto que adulterasse a data de seu nascimento na certidão. De acordo com o jogador, ele não concordou com a proposta, mas entregou seus documentos assim mesmo, diante da possibilidade de vir para São Paulo. Segundo seu depoimento, viajou acompanhado de um representante de Peçanha, que o esperava na rodoviária do Tietê quando chegou. De lá, foi levado direto para treinar no Primavera, sem contrato e sem salário. Foi para o Juventus, depois de ter sido sondado pelo Palmeiras. No Juventus, seu salário inicial foi de R$ 50/mês, passando a R$ 150. Como titular, Preto passou a ganhar R$ 500. De acordo com o jogador, durante todo esse período quem cuidava dele era Peçanha. "Ele continuou tomando conta de mim, até 99. Joguei a Taça São Paulo pelo Juventus e aí fui para o Santos", disse Preto, que assinou contrato de um ano com salário de R$ 1.500. Do passe, ele afirmou não ter recebido nada. "Estou esperando meu dinheiro até hoje", disse.
A documentação falsa foi descoberta pelo Santos que enviou o advogado do clube, Roberto Alves dos Santos, com o jogador a São Luis para regularizar a situação.
Até o encerramento desta edição o depoimento de Marcos Antonio Costa não havia se encerrado. A CPI do Futebol/Nike será instalada na próxima quinta-feira, 25/1, no Maranhão.
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