Em nome do Pai - OPINIÃO

MILTON FLÁVIO*
26/09/2001 10:04


O Pai costuma ter vários nomes. E, em seu nome, a humanidade tem cometido, ao longo de séculos, toda a sorte de barbaridades: guerras, atentados terroristas, mutilações e escravidões que se eternizam pela mais absoluta ignorância em que o povo é propositalmente mantido. Mas em nome do Pai tudo é possível. Ainda que Ele nada tenha a ver com o fato de Seu nome ser usado em vão.

Agora mesmo, na Câmara Municipal de São Paulo, acaba de ser aprovado um projeto que resulta de acordo entre a prefeita Marta Suplicy e a chamada bancada dos evangélicos, liderada, se é que se pode dizer assim, pelo vereador Carlos Apolinário, estrela solitária do Partido Geral dos Trabalhadores, o conhecido PGT.

O projeto faz alterações na Lei do Psiu, tornando mais brandas as multas incidentes sobre templos religiosos que, com os gritos de pastores e fiéis, impedem o sono dos ímpios. Para dificultar ainda mais a punição dos templos barulhentos, a medição dos ruídos terá que ser feita dentro da casa do reclamante, e não mais na porta da igreja. Se o nível de ruído ultrapassar o permitido pela lei, os responsáveis pelo templo terão meses para tomar as providências cabíveis.

Nos próximos dias, a matéria será sancionada pela prefeita. Como já se disse, ela faz parte de um acordo que lhe permitiu, entre outras coisas, criar em junho centenas de cargos de confiança para abrigar correligionários do PT e das siglas aliadas. O vereador Carlos Apolinário teve papel decisivo naquele processo, ao votar favoravelmente às propostas de Marta Suplicy. O preço do acordo, público, foi a aprovação do projeto que favorece os templos religiosos.

É bom que se diga que o vereador fez o papel dele: agradar pastores e fiéis que lhe têm garantido, ao longo de anos, uma votação expressiva. Tenho minhas dúvidas de que o Pai se manifeste em locais barulhentos, onde a histeria coletiva invariavelmente marca presença. Mas não pretendo criticar religião alguma. Não sou contra nenhuma delas, desde que, claro, seus ritos não impeçam a paz alheia.

O problema é que a prefeita, mais uma vez, ignorou o interesse coletivo. Queria porque queria criar cargos de confiança. Pouco lhe importava o preço a ser pago - pela população, claro. Daí, o acordo. É lamentável que isso tenha ocorrido. São Paulo é uma das cidades mais poluídas do mundo, em todos os sentidos: atmosféricos, visuais, sonoros. Poluição não combina com qualidade de vida. Ao contrário. Está provado que a degradação ambiental tem tudo a ver com o aumento da violência urbana. Só falta agora a prefeita vir a público e alegar que fez o acordo em nome do Pai. Tudo é possível. Até porque, sabe-se, a desfaçatez não conhece limites.

Milton Flávio é deputado pelo PSDB, presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da Assembléia Legislativa e professor da Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu.