Os heróis da Revolução Constitucionalista de 1932


07/07/2006 18:54


Desde a vitória da Revolução de 3 de outubro de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder pelas armas, São Paulo se encontrava em situação de inferioridade em relação à política brasileira, pois o governo federal nomeava interventores de sua inteira confiança para dirigir os destinos dos paulistas.

O descontentamento acabou ocasionando vários comícios contra o governo federal, realizados na capital paulista com enorme participação popular e discursos inflamados que defendiam o brio do povo bandeirante.

Em 22 de maio de 1932, as manifestações nas ruas de São Paulo contra o governo Vargas tomaram vulto. O ministro da Justiça, Oswaldo Aranha, foi enviado para a capital, para conciliar os interesses de Getúlio Vargas na escolha de um novo secretariado. A intromissão resultou em violentas manifestações, que conquistaram a adesão de integrantes do Exército e da Força Pública (hoje Polícia Militar). Os secretários nomeados eram de inteira confiança do interventor, o embaixador Pedro de Toledo.

A derrota da missão de Oswaldo Aranha provocou na noite do dia 23 de maio exultantes manifestações pela vitória alcançada. A população saiu às ruas do centro da cidade, onde ocorreram atritos com os partidários do ditador, que foram agredidos na via pública. Jornais governistas foram empastelados e incendiados, mas o fato mais grave foi o ataque à sede da Legião Revolucionária, localizada na rua Barão de Itapetinga com a praça da República, pois a reação dos legionários, em defesa do prédio e de suas vidas, resultou em vários feridos e na morte de quatro jovens, cujos nomes resultaram na formação da sigla "MMDC" " homenagem a Martins, Miragaia, Drausio e Camargo.

Por meio do MMDC, o movimento paulista conspirou contra Getúlio Vargas. Na noite da sexta-feira, 8 de julho, com os ânimos exaltadíssimos, populares manifestaram-se pela revolução, com a adesão das tropas federais da 2ª Região Militar e da Força Pública.

Na tarde do dia seguinte, o glorioso 9 de julho, assumiu interinamente o comando das tropas o coronel Euclydes Figueiredo, que recebeu ordens do general Isidoro Dias Lopes, líder da revolta de 1924. Em poucas horas, o controle pelos revolucionários paulistas era total. O MMDC ocupou a velha faculdade de Direito do Largo de São Francisco, saindo das arcadas o primeiro contingente de civis armados, que lutaram ao lado das tropas regulares do Exército e da milícia paulista.

Na tarde de 10 de julho, um domingo, em frente ao palácio dos Despachos, situado no Pátio de Colégio, o povo paulista e as tropas proclamaram o interventor Pedro de Toledo governador do Estado.

Através do Decreto Estadual 5.627-A, de 10 de agosto de 1932, foi oficializado o MMDC como entidade, sendo presidida pelo secretário da Justiça do Estado, o jurista Waldemar Ferreira.

Depois de quase de três meses de luta, sem os reforços e adesões que haviam sido prometidos por outros Estados da Federação, e sem condições materiais para continuar, completamente só e sitiado, São Paulo se rendeu em 2 de outubro de 1932.

A Constituinte seria eleita em 3 de maio de 1933, e a nova Carta Magna, promulgada em 16 de julho de 1934. A luta dos paulistas não foi em vão. Hoje, passados 74 anos dessa gloriosa epopéia, temos sempre que reverenciar os heróis de 1932 e a data magna do Estado, 9 de julho.

Os heróis: MMDCA

As primeiras vítimas de 1932, ao contrário do que muitos escrevem e dizem até os dias atuais, não eram estudantes. Em memória dos quatro heróis que tombaram em maio de 1932, suas iniciais formaram a sigla MMDC e, posteriormente à criação da entidade, faleceu a quinta vítima dos trágicos acontecimentos, em 12 de agosto de 1932: Alvarenga.

Os restos mortais dos grandes mártires da Revolução Constitucionalista de 1932 descansam hoje no Monumento Mausoléu no obelisco do Parque do Ibirapuera. Os cinco heróis de 1932 foram homenageados com nomes de ruas no bairro do Butantã, na capital, e pela Lei 11.658, de 13 de janeiro de 2004, de autoria do deputado José Caldini Crespo, foi acrescido ao MMDC a letra A, em justa homenagem a Orlando de Oliveira Alvarenga.

(*) Antônio Sérgio Ribeiro é advogado e pesquisador. Funcionário da Secretaria Geral Parlamentar da ALESP.



Dados biográficos dos cinco heróis de 32

Mario Martins de Almeida

Nasceu em São Manuel (SP), em 8 de fevereiro de 1901. Era filho do coronel Juliano Martins de Alemida e de Francisca Alves de Almeida. Foi estudante do Mackenzie College, na capital, tendo terminado seu curso sob a direção do professor Alberto Kullmann. Martins era fazendeiro na cidade de Sertãozinho, estando naquele 23 de maio de 1932 de passagem na capital, em visita aos pais. Seu corpo foi sepultado no Cemitério da Consolação.

Euclydes Bueno Miragaia

Miragaia nasceu em São José dos Campos (SP), em 21 de abril de 1911. Era filho de José Miragaia e Emilia Bueno Miragaia. Aluno da Escola de Comércio Carlos de Carvalho, foi transferido, no terceiro ano, para a Escola de Comércio Álvares Penteado. Quando faleceu, em 23 de maio de 1932, era auxiliar de cartório em São Paulo.

Drausio Marcondes de Souza

Nasceu na capital, em 22 de setembro de 1917. Era filho do farmacêutico Manuel Octaviano Marcondes de Souza e de Otilia Moreira da Costa Marcondes. No tiroteio de 23 de maio de 1932, foi gravemente ferido, vindo a falecer, com apenas 14 anos de idade, em 28 de maio, tendo sido seu corpo sepultado no jazigo da família no Cemitério da Consolação.

Antonio Américo de Camargo Andrade

Nasceu na capital em 3 de dezembro de 1901. Era filho de Nabor de Camargo Andrade e de Hermelinda Nogueira de Camargo. Foi casado com Inaiah Teixeira de Camargo, tendo deixado três filhos: Clesio, Yara e Hermelinda. Camargo era comerciário na capital quando morreu vitimado pelos tiros de 23 de maio de 1932.

Orlando de Oliveira Alvarenga

Alvarenga nasceu na cidade mineira de Muzambinho, em 18 de dezembro de 1899. Filho de Ozório Alvarenga e de Maria Oliveira Alvarenga, deixou viúva Annita do Val, com quem tinha um filho de nome Oscar. Ferido em 23 de maio de 1932, foi conduzido ao Hospital Santa Rita, onde faleceu no dia 12 de agosto, tendo sido sepultado no Cemitério São Paulo. Exercia, quando de sua morte, as funções de escrevente juramentado. Em sua memória, o governo do Estado de São Paulo oficializou, pelo Decreto 46.718, editado em 25 de abril de 2002, o Colar Cruz do Alvarenga e dos Heróis Anônimos.