São Paulo possui símbolos da Independência do Brasil


03/09/2004 18:20


Em São Paulo, duas obras representam de maneira especial a independência do Brasil: o Museu Paulista da Universidade de São Paulo - conhecido como Museu do Ipiranga - e, ocupando lugar de destaque dentro dele, o quadro "Independência ou Morte", de Pedro Américo.

O bairro do Ipiranga, atravessado pela estrada que então conduzia a Santos, era um local quase despovoado, quando foi cenário da proclamação da Independência. Às margens do riacho que leva o mesmo nome do bairro, a chácara do coronel João de Castro do Canto e Mello, futuro visconde de Castro e pai de Domitila de Castro, futura viscondessa e marquesa de Santos, servia de pasto para tropas. De passagem por ali, o príncipe regente D. Pedro proclamou, em 7 de setembro de 1822, a Independência do Brasil.

Festividade nacional

Em janeiro de 1823, por iniciativa de Antônio da Silva Prado, futuro Barão de Iguape, entre outros, foi proposta ao governo provisório da província de São Paulo a construção, no Ipiranga, de um monumento que marcasse o local em que teria se originado a nação brasileira. A instituição da comemoração da data de 7 de setembro como festividade nacional, por sua vez, foi aprovada pela Assembléia Geral Legislativa em sua primeira legislatura, em 1826.

Em 2 de setembro de 1825, a Câmara Municipal da Imperial Cidade de São Paulo, em obediência a uma determinação de D. Pedro I, já havia estabelecido que no lugar onde foi proclamada a independência se ergueria um monumento. Mas foi apenas em 1855 que a Assembléia Provincial decretou a Lei nº 26, de 18 de abril, determinando a construção de um monumento na colina do Ipiranga. Para isso, a província, cederia gratuitamente os terrenos necessários e desapropriaria os de particulares; uma comissão deveria se encarregar da obtenção de recursos para a obra, mas ela jamais se reuniu, não dando prosseguimento à iniciativa.

Em 1873, foi nomeada pela Câmara Municipal da Imperial Cidade de São Paulo uma comissão de 28 membros, para cuidar dos assuntos relativos ao monumento. Nela ganhou força a transformação do monumento, de obra escultural em construção arquitetônica, que abrigasse estabelecimentos de educação e instrução.

O presidente da comissão, o advogado e professor da Faculdade de Direito conselheiro Joaquim Ignacio Ramalho, futuro barão de Ramalho, enviou ofício à Assembléia Legislativa Provincial, informando sobre a proposta da comissão e solicitando que a Assembléia definisse o caráter do monumento. A iniciativa recebeu parecer favorável da Comissão de Constituição e Justiça da Assembléia Provincial.

Assim, a Assembléia Provincial aprovou o projeto de lei apresentado pela Comissão de Constituição e Justiça, que, transformado na Lei nº 10, de 13 de fevereiro de 1881, determinou que o benefício das loterias para a construção do Monumento do Ipiranga fosse empregado na "disseminação da instrução primária e construção dos edifícios necessários". A Comissão do Monumento do Ipiranga ficou encarregada das providências relativas às loterias e à utilização dos recursos, dependendo de aprovação do governo.

Loteria

Com a promulgação da Lei 63, de 23 de março de 1885, definiu-se que o dinheiro resultante das loterias seria aplicado pelo presidente da província, de acordo com a Comissão do Monumento do Ipiranga, na implantação de um estabelecimento de ensino científico, que "compreenderá todas as disciplinas ordinariamente designadas sob o título de Ciências Físicas e Matemáticas e Ciências Naturais e será distribuído em duas categorias: uma eminentemente teórica e outra essencialmente prática com aplicação às indústrias, às artes e à agricultura".

Dois dias depois da promulgação da lei teve início a construção do edifício, a partir de projeto do arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi, aprovado em 1881. O edifício, em estilo eclético, então em moda na Europa, buscava recuperar os estilos arquitetônicos históricos. Bezzi utilizou, de forma simplificada, o modelo de um palácio renascentista. O projeto inicial tinha a forma de um gigantesco E, mas as duas alas laterais foram abandonadas por razões de economia. A edificação ficou com 123 metros de comprimento e 16 metros de profundidade, com dois andares, além de um terceiro pavimento nas torres e do subsolo, desaterrado muitos anos depois.

A construção do prédio foi dada como concluída em 1890, apesar do grande número de tarefas ainda incompletas. Ele foi inaugurado em 15 de novembro daquele ano, como parte das celebrações do primeiro aniversário da proclamação da República. O edifício permaneceria vazio algum tempo. Em 1892, foi declarado bem estadual.

No ano seguinte, foram aprovadas as leis que o destinaram a sediar um museu do Estado e que instituíram o nome que mantém até hoje: Museu Paulista. A data de 3 de fevereiro de 1894 marca o início das atividades do Museu Paulista, mas sua inauguração solene só se deu em 7 de setembro do ano seguinte. Ainda durante anos, faltaram portas e janelas no museu. Além disso, somente em 1909 foi entregue o jardim à frente do edifício, concebido pelo paisagista belga Arsenio Puttemans, inspirado nos jardins barrocos franceses. No primeiro centenário da Proclamação da Independência se concluiu o que, na configuração atual, é o Parque da Independência: em 7 de setembro de 1922 foi inaugurado o Monumento da Independência, obra do escultor italiano Ettore Ximenes.

Retrato da história

Quando ocorreu a inauguração solene do Museu Paulista, diferentes órgãos de imprensa foram unânimes em registrar não só a beleza e o arrojo arquitetônico do edifício, como também a presença do painel "Independência ou Morte", pintado por Pedro Américo. Elaborado em Florença entre 1886 e 1888, o painel mede 7,60 por 4,15 metros e constitui, sem dúvida, a representação iconográfica mais divulgada do episódio de 7 de setembro de 1822, pois ele se encontra estampado em selos, moedas, medalhas comemorativas, cartões postais e vários outros suportes, por ter sido apropriado, de forma sistemática, para ilustrar manuais escolares e obras de cunho historiográfico.

Mas a enorme visibilidade alcançada por ele e a reiteração da prática de reproduzi-lo datam do Centenário da Independência, quando começou a ser implementada a decoração interna do prédio, o que veio a consolidar a idéia de que a cena elaborada por Pedro Américo era um registro preciso do instante em que a Independência foi proclamada.

O artista

Pedro Américo de Figueiredo e Mello era, na década de 1880, um dos mais renomados artistas brasileiros. Nasceu na província da Paraíba em 1843, estudou no Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II e na Academia de Belas Artes. Completou sua formação na Europa, aperfeiçoou-se em Paris e em Florença, e lá se radicou. Não teve dedicação exclusivamente à arte: formado em filosofia, chegou a doutorar-se na área pela Universidade de Bruxelas.

Ao contrário do que se supõe, o artista não foi convidado para realizar o trabalho que iria consagrá-lo, mas ofereceu-se para fazê-lo. Sob a proteção do Visconde do Bom Retiro, que era aliado do Conselheiro Ramalho, presidente da Comissão de Obras do Monumento do Ipiranga, o pintor veio da Europa para o Brasil em 1885, ano em que se iniciavam as obras do monumento.

A concepção da obra

De fácil leitura, a narrativa de Pedro Américo, expressa no folheto O Brado do Ypiranga ou A Proclamação da Independência do Brasil, instiga a reflexão em termos de interpreta