Por meio da recuperação, Cláudio Silberberg transforma em obras de arte materiais em desuso

Emanuel von Lauenstein Massarani
14/06/2004 14:00

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Segundo o crítico Hammacher, o escultor suíço Jean Tinguely representou realmente o fim do arcaísmo na escultura, pelo fato de ter introduzido o último arcaísmo possível, o da máquina desativada, onde o elemento de movimento perde algo de seu valor espacial. O acento é colocado sobre a aparência, mais do que a essência. Não podemos esquecer que chocar e escandalizar eram da própria natureza de Dada e do surrealismo. Hoje existe menos provocação, pois o público está bem treinado no jogo e os artistas não necessitam lançar esse tipo de desafios.

As obras de Cláudio Silberberg, a exemplo das esculturas de Tinguely, provocam uma atitude pouco habitual de contemplação da obra de arte, muitas vezes de caráter irônico. O aspecto ambíguo dessas criações se deve ao fato que a maioria de seus criadores, especialmente americanos e europeus, embora desprezassem os museus e as formas tradicionais da arte, se serviram e utilizaram tanto de uns quanto de outros. Ao observar essas obras, o espectador experimenta certo choque, espanto e alegre divertimento.

Acreditamos que esse neo-artista possa confirmar que suas criações não devem ser compreendidas como modelos dos albores da tecnologia, mas como verdadeiras e próprias obras de arte. Com efeito, através das obras de Cláudio Silberberg, assistimos a uma invenção livre conduzida sobre as formas de materiais em desuso.

Na ausência de sua funcionalidade anterior, a obra escultórica se configura como uma espécie de imitação da realidade tecnológica, mas traduzida numa visão formalizada. Exatamente nessa estrutura "desinteressada", hábil e nostálgica, mas sempre disfuncional, consiste a peculiaridade da fantasia desse escultor que segue o caminho da "Recuperation Art".

O seu sintetismo refere-se principalmente ao campo prospectivo, ao movimento, aos valores volumétricos, ao sentido plástico, aos valores táticos, o todo na busca de um ideal e amplo respiro que contemple seja a forma que o conteúdo da forma.

Na obra "Eppur si muove", doada ao Acervo Artístico do Parlamento Paulista, Silberberg demonstra a sua ânsia de conhecimento projetada em direção da recuperação de um passado considerado como imagem, que lhe fornece elementos que reelabora com um procedimento de síntese da matéria do substrato precioso.

O Artista

Cláudio Silberberg nasceu em São Paulo, em 1943. Após ter se retirado da vida de executivo, iniciou seu aprendizado no campo da escultura no ano de 2000, no Atelier Marcello Mello. Desde então, vem criando esculturas em ferro, através das diferentes possibilidades que oferece tanto este material quanto a sucata.

Entre as propostas para a elaboração de suas esculturas destacam-se: harmonia de formas e certa dose lúdica; diferentemente dos quadros, as esculturas permitem a apreciação "frente e verso" pelo espectador, a relação volume - espaço ganha em importância. Algumas peças são desmontáveis e, em conseqüência, permitem "metamorfoses" de angulações e perspectivas. Uma peça "desdobra-se" em outras, remetendo sempre à mesma matriz.

A interação do espectador através do toque, giro, troca de encaixes obtendo novas "leituras", é desejável e incentivada. Além de divertido e lúdico, o visitante torna-se um participante ativo da exibição. Sua primeira exposição foi no ano de 2003, no Espaço Cultural Ida Zami em Moema e possui obras em coleções particulares e no Acervo Artístico da Assembléia Legislativa.

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