Comissão da Verdade ouve depoimento de mulheres torturadas durante ditadura
21/03/2013 21:31 | Da Redação: Sillene Coquetti Fotos: Dulce Akemi
A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva ouviu nesta quinta-feira, 21/3, depoimentos de duas sobreviventes da repressão militar. A mesa foi composta pelo presidente da Comissão Estadual da Verdade, deputado Adriano Diogo (PT), e as sobreviventes Tania Rodrigues Mendes e Crimeia de Almeida, irmã de Amélia de Almeida Teles, membro da comissão.
Tania Mendes informou que sua participação na militância teve influência familiar. Ela morava em Santo André e acompanhava os pais em encontros sindicais. Ingressou na faculdade e entrou para os movimentos estudantis, quando teve o primeiro contato com a Aliança Libertadora Nacional (ALN). Seu papel no movimento era levantar informações e criar frentes de massa. "Sem o envolvimento da sociedade não teria como acabar com a ditadura e não queríamos apenas isso, mas sim colocar em seu lugar uma sociedade mais justa", afirmou Tania.
A sobrevivente ainda afirmou que, na época, andar com dois exemplares de jornais já era considerado subversão, mas graças a sua aparência comum para os padrões da época, ela não levantava suspeitas. Conseguiu estudar, fazer estágio e trabalhar. Após seu envolvimento com Gabriel Prado Mendes, que se tornaria seu marido, suas ações do dia a dia passaram a ser monitoradas por agentes da repressão, o que os obrigou a mudar para o Mato Grosso. Na volta a São Paulo, em 1973, devido à precariedade do local onde viviam, o casal foi preso pela Operação Bandeirantes (Oban). "A tortura de casal é muito pior, pois dá ao torturador mais armas para a prática. Fui torturada e fiquei trancada dentro de um armário minúsculo ouvindo meu marido ser torturado", relatou.
Após ser solta, Tania continuou com projetos sociais e com a militância, para buscar o melhor para a sociedade. "Cria-se a mitologia que a geração (da Ditadura) foi apenas sofredora, mas foi uma geração exitosa. A pior coisa da tortura é a pessoa virar um objeto, um ser insignificante. Por isso não podemos deixar que eles (torturadores) saiam vitoriosos."
Tortura na gravidez
A segunda sobrevivente a relatar sua passagem pelos porões da ditadura foi Crimeia de Almeida, que atuou na guerrilha do Araguaia e foi presa, grávida, em São Paulo pela Oban. Crimeia teve uma educação baseada em preceitos liberais e contestadores. Aos 12 anos de idade, participou em sua escola da primeira manifestação, onde os alunos estavam com opinião dividida para abrigar uma escola experimental, Programa de Assistência Brasileiro-Americana ao Ensino Elementar (PABAEE), no Instituto de Educação de Belo Horizonte. Revoltada com a decisão, questionou o diretor e mobilizou alguns alunos. "Fui chamada de comunista, o que mais tarde assumi com muita honra", afirma. Com 17 anos, seu pai desapareceu e sua família passou a procurá-lo em instituições militares, o que a deixou em contato com presos políticos. Anos depois foi presa em Ibiúna. Depois de solta, já em contato com comunistas, foi para o Araguaia, onde ficou quatro anos. É considerada a primeira mulher jovem a integrar a luta em local hostil, sem estradas e energia elétrica.
Crimeia contou ainda que o machismo era muito forte, mesmo dentro do partido, mas que continuou firme. Com o início da Guerrilha do Araguaia, em 1972, a comunicação com o partido em São Paulo tornou-se quase impossível. Assim, Crimeia se tornou o eleo de comunicação entre os guerrilheiros e o partido, por meio de viagens. Em uma delas, grávida, foi presa e torturada em São Paulo. Um médico acompanhava a tortura e dizia: "ela aguenta a tortura nos pés e nas mãos, só não pode espancar a região da barriga".
Transferida para Brasília, descreve o lugar onde ficou presa: "fiquei isolada em uma cela sem banheiro, então eu usava uma lata. Minha comida era arroz, feijão cru e vértebras de boi. Na cela, quando a minha bolsa rompeu, muitas baratas, que lá existiam, voaram sobre mim".
O médico, que a examinou, afirmou que o bebê não iria nascer e a doparam para retardar o nascimento. Depois de alguns dias, seu filho nasceu: "impedida de vê-lo, eu só ouvi seu choro".
Depois de muitas reviravoltas, Crimeia conseguiu encontrá-lo, desnutrido e dopado. "Ele ficou nessa situação por 53 dias."
Após ser solta, graças à atuação de um advogado, Crimeia iniciou uma busca para encontrar seu filho e sobrinhos que estavam nas mãos de policiais. "Infelizmente, muitas ações daquela época, como as descritas, funcionam até hoje", concluiu Crimeia.
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