Depoimentos desvendam caso de Solange Lourenço Gomes
07/06/2013 15:43 | Da redação - Foto: Marcia Yamamoto
"Solange se entregou enlouquecida e foi usada da forma mais cruel que um ser humano pode ser usado". Assim, Rosalina Santa Cruz, ex-presa política, resumiu o drama de Solange Lourenço Gomes, militante do MR-8, que esteve presa entre 1971 e 1973 e cometeu suicídio, no Rio de Janeiro, em 1982. O depoimento aconteceu nesta sexta-feira, 7/6, em audiência da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, presidida pelo deputado Adriano Diogo (PT).
Paulista de Campinas, Solange Lourenço Gomes vivia no Rio de Janeiro, onde começou a estudar Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1966. Em 1968, vinculou-se à Dissidência da Guanabara, que posteriormente adotaria o nome MR-8, e passou para a clandestinidade por volta de setembro ou outubro de 1969. Morava com Daniel Aarão Reis Filho, dirigente daquela organização. Documentos policiais informam que Solange participou de várias ações armadas entre 1969 e 1970. No final de 1970, foi deslocada para a Bahia. Nos primeiros dias de março de 1971, depois de participar de uma panfletagem num jogo de reinauguração do estádio da Fonte Nova, em Salvador, quando ocorreu uma perigosa correria entre a multidão, Solange teria sofrido um grave surto psicótico e se apresentado a uma dependência policial, afirmando ser subversiva e fornecendo informações sobre o MR-8.
Relatório do caso
Durante a audiência, o advogado de presos políticos e ex-secretário da Justiça, Belisário dos Santos Junior, emocionou-se ao lembrar seu voto como relator do caso de Solange na Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos da Secretaria de Direitos Humanos. Em seu voto, Belisário afirma: "não se pode furtar às informações da literatura especializada sobre o assunto, que dão plena conta de que a tortura e as demais sistemáticas e massivas violações dos Direitos Humanos na época da ditadura militar, praticadas pela cooperação de organismos e servidores do Estado e da União, eram regra na prisão." Assim, considerou "perfeitamente coerente e razoável entender verificada a clara vinculação entre o evento morte por suicídio e a prisão anterior por motivos políticos, com os constrangimentos inerentes, entre eles as publicações do suposto arrependimento".
Belisário ressaltou o fato de que não existem graus de tortura. Embora Solange não tenha sofrido torturas físicas, ela foi profundamente usada pelo aparato da repressão em função de seu quadro psiquiátrico, que teria se agravado em decorrência das perseguições sofridas antes da prisão e das vicissitudes decorrentes dela.
Gilberto Lourenço Gomes, irmão de Solange, contou que ela sofreu grande trauma após a prisão de seu companheiro Daniel Aarão Reis Filho, e do suicídio de sua irmã mais velha, da mesma forma que ela própria, posteriormente, cometeria o seu. Apesar disso "a ideologia preconizava que ela fosse em frente; e assim ela prosseguiu, fazendo das tripas coração", analisou. Solange, segundo o irmão, se entregou durante um surto psicótico. Depois da prisão, desenvolveu um quadro delirante em que seus companheiros não seriam mais eles, mas sósias implantados pelo regime militar. Tal delírio estendeu-se para a família, especialmente para o pai.
Arrependimento por escrito
Depois de presa, afirmou Gilberto, Solange foi útil à repressão, fornecendo informações. Fizeram-na assinar documento de arrependimento capitalizado em matéria sensacionalista sob o título "Sexo é arma para atrair jovens à subversão", publicada na imprensa da época, numa tentativa de denegrir sua imagem como mulher e militante.
Em junho de 1972, Solange foi julgada inimputável, sendo sentenciada a pena no manicômio, mas seu advogado conseguiu que ela permanecesse na prisão, por considerá-la menos danosa que o manicômio. Depois de solta, com o apoio da família e de tratamento psiquiátrico e psicanalítico, apresentou significativa melhora, formou-se em medicina, casou-se e planejava ter filhos. Contudo, um surto decorrente de sua doença psiquiátrica, levou-a ao suicídio.
Companheiras de prisão de Solange " Zenaide Machado de Oliveira, Rosalina Santa Cruz, Jessie Jane Vieira de Souza e Ana Bursztya Miranda " testemunharam a convivência no cárcere com Solange. Relataram que Solange era muito alegre e inteligente e que se esforçava para manter vivos seus vínculos e interesses, apesar do estado delirante em que muitas vezes se encontrava. Depoimentos gravados da cineasta Lúcia Murat, Lúcia Veloso Maurício e Maria Luiza Garcia Rosa, também abordaram a personalidade alegre e inteligente de Solange. Seu companheiro de militância, Denilson Ferreira de Vasconcelos, também depôs, relatando aspectos da militância por ela empreendida.(DA)
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