Opinião: A prisão, a mídia e os direitos humanos


10/12/2013 10:12 | *Geraldo Cruz

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Em 10 de dezembro comemora-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. A data marca a promulgação da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, em 1948. O documento foi elaborado sob o impacto dos horrores praticados na 2ª Guerra Mundial, como tentativa de evitar que seres humanos fossem novamente tratados com crueldade.

O documento afirma o direito universal à vida, à liberdade e ao acesso a bens econômicos, sociais e culturais. São 30 artigos que, objetivamente, definem a relação que deve existir entre Estado e sociedade civil " direitos e deveres.

Embora o Brasil tenha aderido à Declaração dos Direitos Humanos e às demais normas internacionais que ratificam o documento, comprometendo-se a obedecer e colocar em prática cada um dos artigos, o termo direitos humanos ficou conhecido entre nós apenas na década de 70, durante a ditadura militar.

Naquele período, os filhos da classe média foram presos por seu envolvimento na resistência à ditadura militar e submetidos ao mesmo tratamento dispensado aos presos comuns. Seus familiares e amigos ficaram horrorizados com os maus tratos, torturas e privações impostas e se mobilizaram, invocando os direitos humanos.

As igrejas, presentes nas prisões desde sempre, pessoas e entidades da sociedade civil, lideradas pela igreja católica e organizadas na Comissão Justiça e Paz da arquidiocese de São Paulo, denunciaram as arbitrariedades interna e externamente.

Até mesmo a imprensa comercial, que apoiou o golpe militar sempre de olho nas vantagens econômicas e manutenção de status quo, colocou-se " na medida em que sua subserviência permitia " contra a tortura e as condições sub-humanas das prisões. É bem verdade, a preocupação era com seus iguais, os filhos da classe média, mas o movimento terminou por jogar luz na crueldade imposta pelo Estado às pessoas que estão sob sua tutela.

Os grupos coniventes com as arbitrariedades espalham, desde então, a ideia de que "a turma dos direitos humanos só defende bandido". Esta frase é repetida à exaustão pela mídia, agentes públicos violentos e pessoas comuns que, distantes da realidade das prisões, desinformadas sobre sua ineficácia e ineficiência no combate à violência e, envenenadas pela ideia de vingança, clamam por mais e mais violência do Estado contra os indivíduos.

Neste 10 de Dezembro teremos pouco a comemorar no Brasil. Aliás, vamos registrar um tremendo retrocesso na afirmação histórica dos Direitos Humanos em nosso país. A prisão dos envolvidos na Ação Penal nº 470 tem provocado reações agressivas.

Diferentemente do ocorrido na década de 70, quando setores da classe média, incluindo a imprensa comercial, denunciaram e colocaram-se contra os maus tratos dos presos, atualmente estes mesmos grupos clamam para que os presos "famosos" sejam submetidos às mesmas condições do total da população carcerária.

Cegos pela vingança e interesses político-partidários, imprensa e setores da classe média não informam corretamente que o atendimento médico, o respeito aos visitantes, o acesso à alimentação adequada e outras medidas exigidas por advogados e familiares dos presos "famosos" são direitos, previstos em normas nacionais e internacionais, como a Constituição Federal e a Lei de Execução Penal (Lei Federal 7.210/1984).

Continuamos defendendo as penas alternativas e que as prisões ofereçam políticas públicas e condições para que, quando conquistarem a liberdade, os egressos assumam seu lugar de cidadania na sociedade.

Neste Dia Internacional dos Direitos Humanos, reafirmaremos aquilo que temos praticado e defendido ao longo de toda a vida: todas as pessoas têm direito a todos os direitos, inclusive as presas, sejam "famosas" ou anônimas.

alesp