Especial Getúlio Vargas - Agosto de 1954: 60 anos de uma tragédia brasileira

Agonia e morte do presidente Getúlio Vargas
28/08/2014 14:00 | (*) Antônio Sérgio Ribeiro

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Brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos, ministro da Aeronáutica  <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-08-2014/fg164839.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

Ao completar 60 anos dos fatos que culminaram com o suicídio do presidente Getúlio Vargas, a Agência Assembleia publica, a partir de hoje, uma série de textos que relatam a sequência dos eventos que ocorreram naqueles negros dias de agosto e que enlutaram o Brasil. Tentaremos narrar cronologicamente, seguindo a mesma data, porém seis décadas depois, esses acontecimentos tão marcantes para a história do nosso país.

Segunda-feira - 23 de agosto de 1954

A situação continuava preocupante com o agravamento da crise política-militar. Ainda de madrugada, o brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos, ministro da Aeronáutica, depois de ter estado com seu colega da Guerra, foi ao Catete para um encontro com o presidente Getúlio Vargas, o terceiro no período de 24 horas. Ao chegar, ele perguntou:

"Então, como vai a sua aviação?"

Epaminondas respondeu:

"Segundo as informações dos meus subordinados, as bases estavam em perfeita ordem". E assegurou que "poderia contar com a solidariedade da FAB, a menos que algo imprevisto, totalmente incontrolável, viesse a ocorrer".

Pela manhã, o deputado federal Lopo Coelho (PSD-DF) declarou ao jornal "Tribuna da Imprensa" que "era preciso acompanhar bem a movimentação dos militares".

No Senado, o vice-presidente da República discursou. A sessão, que deveria ser secreta, acabou tornando-se pública por decisão dos senadores, que entenderam que a nação precisava tomar conhecimento do assunto. A curiosidade pelo teor de sua fala foi enorme e várias emissoras de rádio colocaram equipamentos no Palácio Monroe, para transmissão para o Rio de Janeiro e o Brasil. Café Filho tentou, posteriormente, justificar a sua atitude:

"Tendo colocado o mandato à disposição do chefe do executivo para facilitar-lhe uma saída honrosa e abrir caminho à conciliação nacional, impunha-se-me a revelação dos passos que dera para a consideração do Senado, de que eu era o presidente."

Por volta das 14h30., no mesmo momento em que Café Filho lia seu discurso da tribuna do Senado Federal, o senador Francisco de Sá Tinoco (PSD-RJ) chegou ao Catete trazendo para o presidente da República uma cópia do discurso. Nele, o vice-presidente revelava aos senadores seus dois encontros com Getúlio, a proposta que havia feito de renúncia conjunta e o fato de o chefe da Nação ter recusado terminantemente sua sugestão de renúncia.

Ao ler a cópia do discurso, o presidente foi tomado de espanto e disse ao ministro da Justiça, Tancredo Neves, que havia dois dias Café Filho solidarizara-se com ele. Tancredo respondeu com uma frase preocupante:

"Eu conheço o Café Filho, ele não tomaria uma atitude dessa se não tivesse muito apoio militar".

O ministro da Justiça ainda sugeriu ao presidente Getúlio Vargas que respondesse ao discurso do vice, e assim foi feito:

"Eu já mostrei mais de uma vez que não tenho apego ao cargo, mas não posso sair do governo enxovalhado com essa pecha de concedência com o roubo e o homicídio, tenho que ficar para defender o meu nome".

O discurso do vice foi considerado como uma traição pelos partidários do governo, que entenderam que a divulgação da proposta à opinião pública deixava o presidente Vargas em uma posição difícil, perante o país e as Forças Armadas, e sem uma opção de tomada futura de decisão.

Apesar da situação apreensiva, o presidente continuava a cumprir a sua agenda no Palácio do Catete, inclusive fazendo os acertos de sua viagem ao norte do Brasil, região que iria visitar quatro dias depois, especificamente o Pará e o Amapá, e disse a seu chefe da Casa Civil Lourival Fontes: "Esta viagem é boa porque vou repousar o espírito e sair um pouco desta fogueira!" E acrescentou: "Vamos pensar numa espécie de manifesto à Nação. Que seja forte, mas que seja também generoso".

Getúlio recebeu para despachos os ministros da Justiça, Tancredo Neves, da Educação e Cultura, Edgard Santos, e da Saúde, Mário Pinotti. Conferenciou com o chefe de polícia coronel Paulo Torres e, em audiência, com o escritor Augusto Frederico Schmidt e, finalmente, com as representantes da Comissão Feminina de Combate à Carestia, que entregaram ao chefe do governo um memorial sobre o custo de vida, subscrito por cerca de 7 mil assinaturas.

Getúlio, após ouvir atentamente a exposição de uma das senhoras presentes, determinou ao seu ajudante de ordens que encaminhasse, no mesmo dia, a delegação ao presidente da Comissão Federal de Abastecimento e Preços - COFAP (antecessora da SUNAB), coronel Hélio Braga, para estudar o problema com urgência e interesse, com assistência de representantes daquela associação feminina. Foi a última audiência da vida do presidente Getúlio Vargas.

No Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), o marechal Mascarenhas de Moraes convocou uma reunião extraordinária com seus comandados para examinar mais cuidadosamente os acontecimentos. A intenção do marechal era obter, dos chefes de estado maior de cada arma, informações precisas e atuais sobre o estado disciplinar das Forças Armadas. Após a explanação de todos, ficou delineado que a situação era grave: as forças do ar, mar e boa parte do Exército já admitiam a renúncia do presidente da República como solução para a crise, mas que os princípios constitucionais deveriam ser resguardados e que caberia ao chefe da nação a decisão a ser tomada com um ato voluntário e não sob pressão.

Na Câmara Federal, o novo discurso do deputado Afonso Arinos relembrou os acontecimentos do atentado na madrugada do dia 5, na rua Tonelero, e o que estava sendo apurado pelo IPM, enfatizou o reconhecimento e admiração do povo brasileiro pelas Forças Armadas, historiando o papel que vinha desempenhando na vida política brasileira e manifestando a confiança do povo na sua ação, e insistiu na renúncia. Arinos informou ainda à Câmara que havia recebido a informação de um ministro de Estado sobre o pedido de decretação do estado de sítio pelo governo, o que não era verdade.

Em todo o Brasil, continuavam reuniões e atos pela renúncia do presidente. Em São Paulo, os estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, utilizando nas lapelas a letra R de renúncia, promoveram no salão nobre da faculdade uma reunião com participação de mais de 2 mil pessoas, na qual inflamados discursos se fizeram ouvir. Falaram o deputado estadual da UDN, padre Benedito Calasans, o professor-catedrático Waldemar Ferreira e o jovem estudante José Gregori (ex-deputado estadual na ALESP, ministro da Justiça do governo FHC e embaixador do Brasil em Portugal), que em nome do Centro Acadêmico XI de Agosto proferiu emocionado discurso. Foi também realizada uma passeata pelas ruas do centro da capital paulista, que também contou com a adesão de populares, com o brado: "Um, dois, três, Getúlio no xadrez".

Na Marinha, o ministro Renato Guillobel recebeu um documento subscrito por 51 almirantes que traduzia "apenas a solidariedade da Marinha à Aeronáutica, à condenação a um governo afundado na corrupção e no crime, ao reconhecimento, enfim, de que só a renúncia do sr. Getúlio Vargas poderia restaurar a dignidade do país e devolver-lhe a paz e a tranquilidade".

O almirante Guillobel fícou emocionado com as palavras e acabou declarando que não ficaria contra a atitude de seus colegas de farda, e foi incumbido de levar ao presidente Vargas a decisão da Marinha.

O manifesto idealizado pelo general Juarez Távora finalizava com uma frase preocupante e ameaçadora: "O melhor caminho para tranquilizar o povo e manter unidas as Forças Armadas é a renúncia do atual presidente da República".

Apesar de não ter sido divulgado pelos órgãos de imprensa, o documento começou a circular sigilosamente entre os integrantes das Forças Armadas e causou preocupação junto ao governo e aos oficiais legalistas. Ao tomar conhecimento do teor do texto, o ministro da Guerra reuniu os generais fiéis à sua orientação e, em seguida, conferenciou em separado com o general Mendes de Morais, dele recebendo a informação de que já assinara também, embora sob ressalvas, o manifesto encabeçado pelo general Canrobert Pereira da Costa e mais 28 outros companheiros.

Enquanto era realizada no centro da capital federal, na Cinelândia, uma manifestação coordenada pela oposição exigindo a renúncia do presidente Vargas, no Catete, com a guarda reforçada com soldados da Polícia do Exército, os então conhecidos "catarinas", que assistiam a um filme de "bang-bang" no pequeno cinema da sede do governo, foram surpreendidos pelo seu oficial, que se postou uniformizado, com quepe e tudo, contra o foco de luz do projetor diante da tela, exigindo que todos fossem para seus postos porque o palácio seria atacado.

Numa dessas noites, um avião da FAB fez repetidos voos rasantes sobre o palácio, provocando grande susto entre aqueles que lá se encontravam. Oficiais da Aeronáutica que serviam na sede do governo explicaram que era "um inofensivo avião de treinamento NA e que o piloto seria punido pelo Ministério..."

Como de costume, Lourival Fontes foi às 20 horas ao gabinete de trabalho do presidente Vargas, conversaram sobre vários assuntos, e Getúlio entregou um bilhete no qual se lia que o Ministério da Marinha reclamava da falta de componentes para a Armada, enquanto se gastava quase um milhão de dólares para importar esquadrias de alumínio para a cidade universitária... Lourival, de pronto, respondeu que os dois pedidos haviam sido negados. O presidente informou ao chefe da Casa Civil que as audiências com os parlamentares estavam mantidas para o dia seguinte e confirmou para o dia 27 a viagem ao Pará e ao Amapá.

O deputado federal Danton Coelho (PTB-DF), ex-ministro do Trabalho, havia realizado um balanço da situação militar e frisado que, caso não fosse debelada a crise até o dia 25, quarta feira - coincidentemente o dia do Soldado, em homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias -, o governo poderia se considerar deposto.

O vice-presidente João Café Filho, depois de ter estado à noite na residência do senador Ivo d'Aquino (PSD-SC) e seguir para seu apartamento em Copacabana, foi recebido ali, por um grande numero de amigos, políticos (na grande maioria da UDN, de oposição a Getúlio Vargas) e jornalistas.

Às 23h30, Mascarenhas de Moraes recebeu um telefonema de Zenóbio da Costa, que solicitou sua presença em seu gabinete. No Ministério da Guerra, o marechal ficou sabendo que a situação se havia agravado em virtude do manifesto dos generais; assim foi enviado ao Catete, o general Ângelo Mendes de Morais, para informar o assunto à Alzira, filha do presidente, que ao tomar conhecimento dos nomes que haviam subscrito o documento, constatou que eles não detinham o comando de tropa, e resolveu retornar à sua residência em Niterói, o que não fazia havia dois dias, por entender que não aconteceria mais nada naquela noite.

O ministro da Guerra, ansioso e preocupado, resolveu não esperar o regresso de Mendes de Morais e, em companhia do marechal Mascarenhas e do general Odylio Denys, comandante da Zona Militar Leste, dirigiu-se ao Palácio do Catete a fim de levar ao presidente da República o resultado da reunião dos seus generais: impossível resistir à pressão em favor da renúncia.

(*) Antônio Sérgio Ribeiro, advogado, pesquisador e funcionário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.