Dia Mundial dos Cães-Guia: SP foi pioneiro na garantia do direito a pessoas com deficiência visual

Desde 2001, cães-guia podem circular em qualquer lugar do estado de São Paulo; hoje, Brasil conta com 200 destes animais em atividade
29/04/2026 18:06 | Inclusão e autonomia | Louisa Harryman - Fotos: Acervo Pessoal e Reprodução/Instagram

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Juliana e seu cão-guia Quindim<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-04-2026/fg363761.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Darley e sua cão-guia Clark<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-04-2026/fg363807.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Quindim e Clark juntos<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-04-2026/fg363767.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Treinamento para se tornar guia<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-04-2026/fg363768.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Moises Vieira, treinador de cães-guia<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-04-2026/fg363763.jpeg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

Para quem depende deles, os cães-guia são mais do que companheiros: são pontes para a independência. Em São Paulo, o direito de pessoas com deficiência visual circularem acompanhadas destes animais é garantido desde 2001, com a Lei Estadual nº 10.784. Mais do que uma regra, a legislação reconhece o papel deles na promoção de autonomia e segurança no dia a dia, permitindo acesso a locais públicos, privados, transportes e estabelecimentos comerciais ou de saúde.

No Dia Mundial dos Cães-Guia, celebrado na última quarta-feira de abril, a parceria é lembrada como símbolo de mobilidade e inclusão. A data reforça a importância desses animais na garantia de qualidade de vida para pessoas com deficiência visual (baixa visão ou cegueira total).

Segundo a União Nacional de Usuários de Cães-Guia (UNUCG), o Brasil conta com pouco mais de 200 animais em atividade - número que contrasta com o de pessoas com deficiência visual no país, que ultrapassa os 6 milhões. São Paulo lidera o ranking entre os estados, com 99. O principal desafio é o custo do treinamento, cerca de R$ 100 mil por cachorro.

Institutos

Localizado em Salto de Pirapora, região de Sorocaba, o instituto Adimax já formou mais de 100 duplas - entre elas, Juliana e Quindim. Juliana Gomide foi diagnosticada com a doença de Stargardt aos 10 anos, depois de começar a apresentar dificuldades na escola. A enfermidade é caracterizada pela degeneração progressiva da mácula, que resulta na perda da visão central.

Em junho de 2024, após quase seis anos na fila de espera, ela recebeu a notícia que mudou sua vida. O Adimax havia acabado o treinamento de um labrador que combinava perfeitamente com ela.

No Brasil, não é possível comprar um cão-guia - todo o trabalho de treinamento é realizado por organizações sem fins lucrativos. Além do Adimax, há outras instituições que realizam o preparo e a entrega destes animais em São Paulo, como o Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (Iris), que, desde 2002, já entregou mais de 40 cachorros.

De filhote à guia

O processo de formação de um cão-guia pode sofrer pequenas variações a depender do instituto, mas, de forma geral, apresenta etapas semelhantes. Por volta dos três meses, os filhotes são encaminhados para famílias socializadoras, que se voluntariam para ensinar comandos básicos e levá-los para diversos ambientes, como transporte público e comércios.

"O que se espera é que a família tenha controle do cão para que ele não suba no sofá, não adquira hábitos ruins, aprenda a fazer as necessidades nos lugares certos e siga os comandos", explica o fundador do Iris, José dos Santos Filho. Também é esperado que os socializadores desestimulem comportamentos agressivos dos filhotes.

Aproximadamente um ano depois do início da socialização, os cachorros começam os trabalhos com os treinadores. Por cerca de três a seis meses, os animais aprendem os comandos específicos para se tornar um guia.

Treinador de cães-guias do Instituto Adimax, Moises Vieira comenta que os treinamentos incluem uma série de atividades, como a soltura dos animais, caminhadas em áreas residenciais e comerciais, em escadas rolantes e no metrô. Também fazem parte dos treinos ensinamentos de como desviar de obstáculos e lidar com distrações, como outros animais na rua.

"Nós mostramos como é, o que esperamos, e damos suporte o tempo todo até chegar no final. Para que quando o cão estiver no fim do treinamento, possamos andar vendados com ele sem influenciar diretamente no trabalho e para que ele possa desenvolver sem ansiedade extrema o trabalho de guia", completa o treinador.

Primeiro encontro

Para divulgar a disponibilidade de novos cães, o Iris lança editais nas redes sociais para participação no processo seletivo. O interessado deve enviar, entre outras coisas, exames médicos que atestem cegueira ou baixa visão, e vídeos comprovando que sabe usar bengala. Já o Instituto Adimax disponibiliza um formulário permanente em seu site.

Quando o preparo com os treinadores acaba, o instrutor faz uma avaliação das características tanto do animal quanto do futuro beneficiário. A combinação da velocidade de locomoção, da rotina, do temperamento e do estilo de vida é o que os treinadores chamam de matching. "É trabalho do instrutor, sabendo das características de ambos, fazer com que esse casamento arranjado tenha sucesso", explica Vieira.

O próximo passo então é organizar o encontro entre a pessoa com deficiência visual e o cão e, assim, iniciar a fase de instrução. Pelas próximas semanas, a pessoa vai aprender, junto ao instrutor, como utilizar o cão-guia e a identificar todos os comandos e sinais.

"Além de conhecer muito sobre cachorros, o instrutor tem que entender muito sobre cegos também. Se ele não se coloca na posição da pessoa cega, ela nunca vai conseguir se comunicar com os códigos certos", complementa José Santos.

Quando a dupla está pronta para ir para casa, o instrutor continua a acompanhar por mais algumas semanas, buscando adaptar as rotas que o usuário faz no seu dia a dia. Vieira explica que o Instituto Adimax realiza cinco visitas de acompanhamento no primeiro ano, e, após isso, passam a ser anuais. Além dos encontros agendados, ele reforça que os profissionais estão sempre disponíveis para qualquer questão que apareça.

Vida em dupla

Darley Oliveira viajou até os Estados Unidos em 2018 para buscar a Clark, uma golden retriever que o guia até hoje. Após quase oito anos de parceria, ele descreve que, depois dela, "acredita muito mais no amor do que antes".

Ele recebeu a notícia de que havia um cão-guia com seu perfil em outro país 11 meses após se inscrever na fila, e teve duas semanas para comprar a passagem e conseguir os documentos necessários. Foi um mês de treinamentos com o instrutor e Clark nos Estados Unidos antes de voltarem juntos para o Brasil.

"Quando você vem pra sua casa, o negócio é muito louco. Porque é só você, o cachorro e o que você aprendeu", diz. O processo de mudança da Clark ao novo país não foi fácil, mas Darley destaca que a cão-guia se adaptou rápido ao novo ambiente.

A dupla mora em Osasco e, pelo menos duas vezes por semana, utiliza o transporte público e carro de aplicativo para chegar à Capital paulista. "A Clark ama muvuca. O negócio dela é estar no meio das pessoas, de cheiro novo. Andar de metrô pra ela é um prazer, porque são muitos desafios", conta.

Juliana e Quindim também possuem uma vida agitada. Ela conta que já fizeram um cruzeiro juntos e, em breve, irão visitar Orlando, nos Estados Unidos.

Os usuários destacam que é importante que os animais tenham tempo de lazer, com passeios no parque e brincadeiras com outros cachorros. Além disso, eles possuem rotinas restritas de cuidado com a higiene, como banhos, cuidados com os dentes e escovação dos pelos. "Ele entregou a vida dele para trabalhar para mim. Não é justo eu entregar o mínimo pra ele? Faço o que tiver que fazer pelo Quindim", destaca Juliana.

Além de serem usuários de cães-guia, Juliana e Darley possuem outra coisa em comum - escolheram compartilhar suas rotinas nas redes sociais. Para eles, essa é uma forma de levar para população informações sobre um assunto ainda pouco discutido.

Dificuldades

A falta de informações sobre o que são os cães-guias e principalmente sobre a legislação que permite que eles transitem livremente em todos os lugares ainda é uma das principais dificuldades dos usuários. Os carros por aplicativo, segundo Juliana, são o maior problema, já que muitos motoristas se recusam a levar o cão.

"Quando aceitam a corrida, são pessoas sensíveis, e a grande maioria é porque conhece ou tem alguém na família com algum tipo de deficiência", relata. Para Darley, que utiliza esse tipo de transporte com frequência, ainda há falta de informação, mas o cenário avançou desde a chegada de Clark.

alesp