Parque abriga maior parte da Mata Atlântica remanescente em Ilhabela e impulsiona turismo ecológico

Ilha possui a maior proporção de vegetação nativa dentro de um município no estado de São Paulo; Gestora do Parque Estadual ressalta que criação da Unidade de Conservação foi 'divisor de águas' na história da cidade
27/05/2026 17:41 | Dia Nacional da Mata Atlântica | Gabriel Eid - Fotos: Miguel Nema / Fundação Florestal e Edgar Oliveira / Trilhusp

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85% da mata original remanescente<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-05-2026/fg365334.png' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Regulação climática e segurança hídrica<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-05-2026/fg365335.png' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

Dados do guia Aqui Tem Mata da ONG SOS Mata Atlântica revelam que Ilhabela é o município que possui a maior proporção de vegetação remanescente do bioma no estado de São Paulo, correspondente à 85,32% da mata original. A cidade guarda uma grande quantidade de nascentes na região central da ilha e boa parte destas terras, especialmente as da região sul, estão dentro dos limites do Parque Estadual de Ilhabela.

No Brasil, as Unidades de Conservação (UCs) são divididas em diferentes categorias com suas respectivas normas e regras especiais. Elas podem ser definidas pelas esferas de poder federal, estadual ou municipal. As Unidades podem ser de Proteção Integral (mais restritas quanto às atividades humanas) ou de Uso Sustentável, que permite algumas atividades - econômicas inclusive -, mas de maneira regulada.

Segundo o engenheiro ambiental Pedro Nogueira, a presença de fontes de água é um dos motivos que impulsionou a pressão pela criação do Parque Estadual e pela manutenção da floresta em pé. Por ser uma unidade mais rígida de preservação, a Unidade consegue manter viva boa parte da floresta na ilha. "A prova que ela ainda é preservada são os borrachudos. Tanto é que eles continuam firmes e fortes lá e isso é um parâmetro de qualidade do meio ambiente", aponta Pedro, se referindo aos insetos muito abundantes nas regiões de mata da ilha.

As áreas de nascentes que estão fora do Parque Estadual estão mais vulneráveis ao desmatamento e, por isso, de acordo com o biólogo Patrick Pina, que trabalha na capacitação de profissionais da área ambiental em Ilhabela, é necessário a elaboração de políticas públicas adequadas. "Uma boa solução para isso é planejar áreas para crescimento. Do contrário, a gente cresce sob áreas de preservação ou captação de água", afirma Patrick.

A gerente de políticas públicas do Instituto Semeia, organização filantrópica que auxilia na gestão de UCs brasileiras, Mariana Haddad, defende que a questão do planejamento da habitação é um dos grandes desafios em cidades como Ilhabela e para a manutenção da Mata Atlântica como um todo. "De uns anos para cá você tem um boom de construções de condomínios e tudo mais. Acho que esse é o principal desafio de manter esse bioma em pé, dado o seu recorte geológico [entre a Serra do Mar] e esse mix de propriedades privadas e públicas", explica.

Mudanças de concepção

O Parque Estadual de Ilhabela foi fundado em 20 de janeiro de 1977, por meio do Decreto Estadual nº 9.414. O biólogo Patrick Pina explica que, diante do rápido avanço da derrubada das florestas e da expansão imobiliária, a criação de unidades de proteção em Ilhabela e em outras regiões da costa brasileira serviram como uma contenção necessária para mitigar os impactos ambientais.

A gestora do Parque Estadual de Ilhabela, Gabriela Carvalho, acrescenta que, se não fosse esta ação, a realidade no município seria muito diferente nos dias de hoje. "O Parque Estadual foi, e continua sendo, o divisor de águas para o arquipélago. Ele protege cerca de 85% do território de Ilhabela, abrangendo 27 mil hectares que incluem 12 ilhas, dois ilhotes e duas lajes. Se essa barreira legal e institucional não existisse, a especulação imobiliária e a fragmentação florestal teriam engolido a ilha", indica Gabriela.

A gestora explica que a concepção a respeito de unidades de conservação foi se transformando ao longo do tempo. No início, havia a ideia de apenas "colocar uma cerca" e isolar o espaço. A criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, em 2000, foi um marco que representou a mudança nesta concepção. "Deixou de ser apenas um "bloqueio" territorial para se tornar uma gestão estratégica que envolve pesquisa científica, participação social ativa - com o Conselho Consultivo - e um uso público muito mais ordenado."

A administração do Parque tem o poder de, com base em estudos e avaliações sobre a fauna, flora, as potenciais ameaças e a biodiversidade do local, definir as regiões onde são permitidas visitas de turistas, através de trilhas ordenadas, monitoradas e com regras específicas. Estas permissões impulsionam a economia local através do turismo sustentável.

Turismo ecológico

Entre as regras do Parque Estadual estão a separação de áreas que abrigam nascentes delicadas, ecossistemas raros ou rotas de fauna ameaçadas de extinção e os locais mapeados como zonas de uso público. Nas de uso público são estruturadas trilhas monitoradas, sinalização específica e regras de conduta. Além disso, são instaladas estruturas de apoio para concentrar o fluxo de pessoas e não degradar a mata ao redor.

A gerente do Instituto Semeia, Mariana Haddad, acrescenta que é importante, mesmo nos casos em que os ingressos para as trilhas são gratuitas, o controle da quantidade de visitantes na entrada no parque. "Esses dados são importantes para gestão, para operacionalização e até para políticas públicas de fortalecimento do próprio turismo nessas Unidades de Conservação", afirma.

Especialistas reforçam que manter a floresta de pé é necessária para garantir a regulação climática, segurança hídrica, estabilidade das encostas contra deslizamentos e a manutenção de serviços ecossistêmicos que a população local utiliza. "No fim das contas, a Mata Atlântica é o que segura esse equilíbrio. Fortalecer as unidades de conservação e ter um planejamento territorial sério e estratégico não é capricho ambiental, é uma necessidade urgente de sobrevivência coletiva", resume a gestora do Parque Estadual de Ilhabela, Gabriela Carvalho.

alesp