72 anos da revolta constitucionalista de 1932


07/07/2004 20:09

 <a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/hist/REVOL1.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> General Euclides Figueiredo (dir.), designado pelo movimento consitucionalista a assumir o comendo do segundo Exército<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/hist/REVOLB.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a> Cartaz constitucionalista faz chamado à consciência paulista<a style='float:right' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/hist/REVOLC.jpg' target=_blank><img src='/_img/material-file-download-white.png' width='14px' alt='Clique para baixar a imagem'></a>

DA REDAÇÃO

Nove de Julho de 1932. Há 70 anos, iniciava-se em São Paulo o movimento armado contra o governo revolucionário instalado em 1930 por Getúlio Vargas e as forças políticas representadas pela Aliança Liberal e o Tenentismo. Os diversos interesses, projetos divergentes e contraditórios da revolução liberal de 30 desembocaram nos trágicos episódios de uma guerra civil que mobilizou forças políticas e militares para uma luta encarniçada.

Parte dos sete milhões de habitantes do Estado de São Paulo viveu e testemunhou, naquele ano, acontecimentos marcados por ódios, paixões e ideais. O conflito armado durou 85 dias (de 9 de julho a 2 de outubro). Do lado paulista, cerca de 200 mil voluntários inscritos. Aproximadamente 66 mil soldados, voluntários e tropas regulares do exército e da Força Pública, participaram dos combates. Geograficamente, o conflito envolveu principalmente os estados de São Paulo e Mato Grosso, com episódios isolados no Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Bahia, Pará e Amazonas. Todavia, foi um movimento sobretudo paulista, já que a leitura dos antagonismos fixou-se na equação São Paulo versus Ditadura.

O número de mortos do lado constitucionalista chegou a 830 soldados, quase o dobro dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira que perderam a vida nos campos da Itália na Segundo Guerra Mundial.

Uma das características sui generis que marca a memória desse episódio é o fato de não existir, ao que se sabe, registros em nossa história de outro movimento revolucionário cuja comemoração do evento e o culto aos heróis sejam tradicionalmente realizados pelos vencidos, e não pelos vencedores da guerra que, ao contrário, tentaram silenciá-la.

Revolução e revolução

Os números demonstrados acima vão a favor da produção de uma memória sobre o movimento paulista que, freqüentemente, não dispensa superlativos: o maior movimento armado já registrado em território brasileiro, ou mesmo a maior mobilização popular da história do país. Sobre este último aspecto, tanto as disputas dos atores pela memória dos acontecimentos quanto as interpretações criadas pela literatura em torno da revolução de 1932 deixam-nos uma instigante indagação. Os acontecimentos de 1932 refletiriam tão-somente as cisões da burguesia paulista em confronto com o governo federal? Ou ainda, qual foi verdadeiramente o papel da grande massa da população trabalhadora?

A questão é intrincada, mas ao mesmo tempo reveladora das contradições do processo aberto em 1930, que de uma lado abrira perspectivas para aspirações sociais representadas pelo tenentismo, pretensamente arvorado em porta-voz dos interesses das classes menos favorecidas, do "povo", contra a dominação das chamadas oligarquias, dos políticos "carcomidos", e a ordem estabelecida velha República. Acenavam, assim, os tenentes com promessas de mudanças radicais a serem garantidas por uma legislação social, ao mesmo tempo em que impunham repressão pesada aos movimentos de trabalhadores, insuflados pela crise econômica. De outro lado, setores da oligarquia paulista dissidentes e opositores do Partido Republicano Paulista, representados no Partido Democrático, prestaram mão forte à revolução de 30 e esperavam obter com isso o comando político do Estado mais importante da federação.

A luta pela conquista da hegemonia durante do governo provisório colocara os tenentes num campo de oposição ao dos tradicionais donos do poder em São Paulo. No primeiro round, os tenentes contabilizam vantagens. Getúlio nomeia o pernambucano João Alberto Lins de Barros interventor federal em São Paulo, e para a chefia da polícia paulista, o antigo membro da Coluna Prestes, Miguel Costa. Desejosos de alijar do poder aqueles que por decênios comandaram o Estado e chefiaram a República, os tenentes intentam mudanças em todos os altos cargos da administração, reformulação do secretariado, além de medidas de censura à imprensa e de vigilância a clubes, entidades e associações. Fundamentalmente, pretendem controlar a condução dos negócios econômicos e políticos do governo.

Protestos

A essas pretensões não tardaram protestos veementes por parte da burguesia e da oligarquia paulistas, cujas cisões estão prestes a se dissolver, em nome da unidade de classe, ameaçada pelo adversário comum. Em clima de tensão crescente, Getúlio reorienta sua tática para aplacar os ânimos paulistas e substitui o interventor, colocando um civil local à testa do governo do Estado. Entretanto, a posse de Plínio Barreto foi impedida por resistências de integrantes da Legião Revolucionária, liderada por Miguel Costa. Sucedem-se a partir daí interventores estaduais, sem que contudo a estabilidade política seja garantida: Laudo Camargo, Manuel Rabelo e, finalmente, já em 1932, Pedro de Toledo.

A esta altura já firmara-se um pacto político entre as principais facções políticas de oposição ao governo federal, o Parido Democrático e o Partido Republicano Paulista, solidificando-se assim uma "Frente Única", responsável pela série de acontecimentos importantes que teriam lugar em São Paulo.

Movimento Constitucionalista

Unida, a burguesia paulista centra sua campanha contra o governo provisório na convocação de uma Constituinte. "O governo provisório está provisório por tempo demasiado", fazem côro políticos, juristas, intelectuais, profissionais liberais, oficiais da Força Pública. Sob as bandeiras do civismo, do constitucionalismo e da paulistanidade toma corpo o movimento pela convocação de eleições para a Assembléia Constituinte, campanha que assume grandes proporções por meio da multiplicação de comícios e de manifestações públicas.

Como diz o historiador Holien Gonçalves Bezerra em seu livro O Jogo do Poder, a repressão aos movimentos operários garante a paz social propícia à defesa de ideais ''mais elevados''. "Com a liderança operária encarcerada, não se registram greves nem movimentos contestatórios a partir de junho. Prega-se a colaboração mútua, sem distinção de classes, para o bem de São Paulo."

Convergências operam-se. Perrepistas, cientes de que sua participação no poder dependia da reconstitucionalização, fazendeiros e burgueses arruinados pela crise econômica, militares humilhados da Força Pública passam a confluir para uma única palavra de ordem: contra os males da República Provisória só um remédio, as armas.

Entretanto, a oportunidade da luta armada não era uma unanimidade entre políticos do PD e do PRP. A marcha dos acontecimentos deixaria a muitos surpresos e compelidos a assumir posição frente ao movimento constitucionalista. Em maio, depois da morte de quatro manifestantes - Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, o célebre MMDC - em conflito ocorrido em frente a sede da Legião Revolucionária, na praça da República, a tensão política chega ao ponto culminante.

Em julho, o general Bertoldo Klinger é deposto do comando do quartel-general em Mato Grosso. Getúlio envia novo comandante militar para São Paulo com o intuito de restabelecer a ordem e a autoridade, ao mesmo tempo em que descia de Mato Grosso à frente de 5 mil soldados o general Klinger disposto a formar fileiras com o exército constitucionalista. Os revoltosos se põem em prontidão e o general Euclides Figueiredo recebe ordens de assumir o comando do levante em São Paulo.

Após um comício, a Frente Única PRP/PD consegue, com o apoio do interventor Pedro de Toledo, depôr as autoridades de confiança de Getúlio em São Paulo.

Desencadeava-se a Revolução Constitucionalista, em 9 de julho, através da proclamação de uma "Junta Revolucionária", assinada por Francisco Morato (do Partido Democrático), general Isidoro Dias Lopes, General Bertoldo Klinger, Pádua Sales (do PRP) e Pedro de Toledo. Como medida militar, o general Euclides Figueiredo apossa-se do comando da 2ª Região, determinado a prisão de Miguel Costa e outros oficiais que não aderiram ao movimento. No dia seguinte, Pedro de Toledo é aclamado presidente de São Paulo.

Apesar de todos os chamados ao povo paulista e às campanhas feitas mobilizar recursos, como a chamada "Ouro para São Paulo", o Estado não tinha condições militares para enfrentar as forças do governo federal. Os apoios de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul ficaram nas palavras. Com armamento e munições precários, a Força Pública acabou por assinar um tratado de paz em separado com o governo federal.

Resistência

Durante três meses os paulistas tentaram resistir ao avanço das tropas federais, comandadas por Góis Monteiro. Os esforços e o entusiasmo dos voluntários, no entanto, regrediram progressivamente até a capitulação final.

Ao fim dos conflitos, restaram as ruínas de uma mobilização que havia servido às aspirações das oligarquias locais. Para a classe média, que deu apoio entusiasta à causa da revolução constitucionalista, restou a frustração e o orgulho ferido. Quanto aos trabalhadores urbanos, que não chegaram a protagonizar nos episódios revolucionários, a constatação de que aquela não era sua luta, e sim dos seus patrões do PRP, os mesmos que haviam esmagado, havia pouco tempo, uma greve de 200 mil trabalhadores na capital.

A derrota do movimento de 32 consolidou o poder de Getúlio Vargas, ainda que após alguns meses este acabasse por convocar a desejada assembléia constituinte. Figuram entre os eleitos representantes do PD e do PRP, vencidos na véspera, agora vencedores. Para a história, ficam os registros das disputas pela memória daqueles acontecimentos e seu significado.