A terra e o cântico por Justiça

Opinião
08/05/2008 15:49


A terra que alimenta a todos, generosamente, de pão e poesia, está molhada com o sangue dos que tombaram na luta pela terra. A terra, que é a base da existência, entoa seu cântico por justiça. A terra que ama a paz, que pratica a não-violência, exige um basta às sombras da morte, que continuam tingindo a alma do Brasil, um país predestinado, rico em recursos naturais, mas onde a vida tem valido pouco, escoa entre os dedos de tão frágil, para aqueles que se entregam, se doam, justamente para uma vida mais digna, para todos, inclusive para os assassinos.



Os olhos do mundo estão, neste momento, voltados para o desenrolar do processo em torno daqueles que encomendaram e executaram a morte da irmã Dorothy Stang. O que acontecer ao final deste processo será uma sinalização ao mundo sobre como o Brasil pretende tratar os crimes que ainda continuam acontecendo no meio rural, e de modo particular, no coração da Amazônia, a região vocacionada para a vida em abundância, mas que tem sido, infelizmente, um exemplo de proliferação da morte.



Mal exemplo por causa do desmatamento, da exploração descontrolada, e também pelos homicídios cometidos precisamente contra quem luta pela vida, pela exploração sustentável da grande floresta, como é o caso da irmã Dorothy.



O episcopado do nosso país, reunido na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, já vem dando o alerta sobre o que está se passando na vastidão da Amazônia. A região, que tem uma das maiores reservas de água doce, e a maior floresta tropical do planeta, vem sendo destruída a um ritmo assustador " 17% da mata já foram devastados, e com isso o desmatamento na Amazônia é a principal fonte brasileira de gases que agravam o efeito-estufa e provocam as mudanças climáticas.



Grande parte desse desmatamento, como lembram os bispos brasileiros, deriva do avanço da pecuária. Somente entre 1990 e 2003, o rebanho bovino cresceu 140% na Amazônia. Em 2004 havia 71 milhões de cabeças de gado na região, em comparação com os 23 milhões de pessoas que moram na Amazônia.



Outro dado inquietante é o avanço da soja. Entre 1999 e 2001, segundo dados do IBGE, a área plantada com soja cresceu 57,31% na área conhecida como Arco do Desmatamento, em comparação com um decréscimo da área plantada de arroz e milho de, respectivamente, 11,44% e 1,94%.



Mais pecuária, mais soja, ameaças de redução da biodiversidade, de espécies da flora e da fauna e para as etnias. Na Amazônia estão radicados 163 povos indígenas, somando 270 mil pessoas, cerca de 80% da população indígena brasileira. São os povos da floresta que, segundo a CNBB, necessitam de maior rapidez nos esforços governamentais pela homologação das terras indígenas, assegurada pela Constituição Federal de 1988, mas ainda não totalmente garantida na prática.



Das 504 terras indígenas localizadas na Amazônia, menos da metade já teve concluído o procedimento demarcatório com registro no Departamento do Patrimônio da União e Cartórios de Registros de Imóveis dos respectivos municípios. Enquanto se arrastam os processos para a conclusão desse procedimento, continuam sendo geradas situações como a do conflito na reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima.



É para modificar esse status, que pessoas como a Irmã Dorothy estão doando, generosas como a terra, a sua vida. Doação pela vida de todos, mesmo a dos mensageiros da morte. Mas o Brasil precisa dar um basta a esse estado de coisas. Cada cidadão, cada homem e cada mulher em cargo público, deve fazer a sua parte, se empenhar pelo fim da escalada de horror e crueldade na Amazônia.



Um dos compromissos de meu mandato na Assembléia Legislativa de São Paulo é a luta pela vida. É estar ao lado de quem quer ver justiça na terra. É estar apoiando aqueles que querem uma reforma agrária justa e pacífica, único caminho possível para a paz no meio rural. É estar na denúncia cotidiana de qualquer manifestação de violência contra a vida, e de outro lado, a favor da vida humana, bem como da vida que se exibe nas pétalas da natureza.



Justiça para a Irmã Dorothy, justiça para todos mortos no campo, os mortos na floresta tão cheia de vida!



*Ana Perugini, deputada estadual, da bancada do Partido dos Trabalhadores, é coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos das Mulheres.