Ex-corregedor diz que alertou o secretário sobre megarrebelião

Em reunião da CPI do Sistema Prisional, Wagner Lino pede acareação entre secretário Furukawa e ex-corregedor
14/09/2001 17:51


DA ASSESSORIA

O desembargador aposentado Renato Laércio Talli, ex-corregedor da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo, disse nesta quinta-feira, 13/9, em depoimento à CPI do Sistema Prisional na Assembléia Legislativa, que alertou o secretário Nagashi Furukuwa, em agosto do ano passado, sobre a possibilidade de ocorrer uma megarrebelião no sistema penitenciário paulista, em fevereiro deste ano, que atingiu 29 unidades prisionais. Talli foi corregedor entre abril e setembro de 2000. Após divulgar um dossiê sobre a existência de facções criminosas nos presídios do Estado e avisar sobre o motim, ele foi afastado do cargo e depois demitido pelo governador Mário Covas.

O desembargador aposentado disse que recebeu uma carta do presidiário Edson de Souza e Silva, o Edinho, um dos fundadores da facção CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade), na qual o detento denuncia o plano de uma megarrebelião. Na carta, o preso diz que os presídios "estão se organizando para parar no mesmo dia" e que "os contatos deverão começar em setembro de 2000", com apoio de líderes das facções, suas mulheres e advogados e funcionários. O presidiário afirmou que a megarrebelião estava sendo organizada dentro da Casa de Detenção, através de celulares.

Talli definiu como "dramática" sua passagem pela corregedoria e disse que entrou "em rota de colisão" com o governo por não poder divulgar as mazelas do sistema. Segundo ele, os piores problemas dos presídios de São Paulo são a superlotação e a atuação das facções criminosas. Ele também afirmou que a solução para melhorar o sistema prisional seria investir na capacitação dos funcionários e mudar o modo de seleção de diretores das unidades prisionais.

Nos cinco meses que ocupou o cargo de corregedor, Talli visitou 31 presídios e constatou a presença das organizações criminosas em todos eles. Segundo ele, as facções criminosas exercem um poder paralelo no sistema.

Acareação. O deputado Wagner Lino (PT), membro da CPI, pediu uma acareação entre o secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa e o ex- corregedor, Renato Laércio Talli, para esclarecer se houve omissão da Secretaria com relação à carta do preso Edson de Souza e Silva que dizia que uma megarrebelião nos presídios estava para acontecer. Talli afirmou na CPI que entregou a carta ao secretário em agosto de 2000, mas nenhuma medida foi tomada.